Terceira e última halachá do Perek Kaf-Alef de Massechet Shabbat, Notel Adam et Beno (uma pessoa toma o seu filho). A Mishná ensina que, segundo Beit Hillel (a escola de Hilel), se tiram de sobre a mesa os ossos e as cascas, e que, segundo Beit Shammai (a escola de Shamai), se retira a tábua inteira e se sacode; que se tiram da mesa as migalhas menores que uma azeitona e as cascas das ervilhas e das lentilhas, porque são comida de animal; e que a esponja com cabo de couro serve para limpar, e, segundo os Sábios, sempre se move no Shabat e não recebe impureza. Também para esta Mishná o Yerushalmi não traz guemará, e a página apresenta só a Mishná. Com ela se encerra o Perek Kaf-Alef, Notel Adam et Beno; o tratado continua no Perek Kaf-Bet, Chavit.
Mishná: Beit Hillel (a escola de Hilel) dizem: tiram-se de sobre a mesa ossos e cascas. E Beit Shammai (a escola de Shamai) dizem: retira-se a tavlá (a tábua) inteira e sacode-se. Tiram-se de sobre a mesa migalhas de menos que o volume de uma azeitona, e o sear (a casca; ao pé da letra, pelo) das ervilhas e das lentilhas, porque é comida de animal. Uma esponja: se tem um cabo de couro, limpa-se a mesa com ela; e, se não, não se limpa com ela. E os Sábios dizem: num caso ou no outro, ela é movida no Shabat e não recebe tumá (impureza).
Como em todo o Perek Kaf-Alef, o Yerushalmi não traz guemará para esta Mishná, e a página apresenta só a Mishná. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 143a.
Esta é a terceira e última halachá do Perek Kaf-Alef de Massechet Shabbat, Notel Adam et Beno, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 21:3 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, a última do capítulo. A diferença principal é a ordem das escolas: no Yerushalmi, Beit Hillel dizem que se tiram de sobre a mesa os ossos e as cascas, e Beit Shammai, que se retira a tábua inteira e se sacode; na avulsa, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, מַגְבִּיהִין מִן הַשֻּׁלְחָן עֲצָמוֹת וּקְלִפִּין, “Beit Shammai dizem: levantam-se da mesa ossos e cascas”, e וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, נוֹטֵל אֶת הַטַּבְלָה כֻלָּהּ וּמְנַעֲרָהּ, “e Beit Hillel dizem: toma-se a tábua inteira e sacode-se”. Esta diferença muda o que se diz: no Yerushalmi, quem permite é Beit Hillel; na avulsa, é Beit Shammai. As outras diferenças: o Yerushalmi diz מַעֲבִירִין מֵעַל, “tiram-se de sobre”, onde a avulsa diz מַגְבִּיהִין מִן, “levantam-se de”; diz מְסַלֵּק, “retira”, onde a avulsa diz נוֹטֵל, “toma”; diz וְנוֹעֲרָהּ, onde a avulsa diz וּמְנַעֲרָהּ, ambos “e sacode-a”; diz, das migalhas, מֵעַל הַשּׁוּלְחָן, “de sobre a mesa”, onde a avulsa diz מִלִּפְנֵי הַשֻּׁלְחָן, “de diante da mesa”; diz שֵׂיעָר, sem vav, e וְשֶׁל עֲדָשִׁים, onde a avulsa diz וְשֵׂעָר e וְשֵׂעָר שֶׁל עֲדָשִׁים; diz אֲפוּנִים e בַּשַּׁבָּת, onde a avulsa diz אֲפוּנִין e בְּשַׁבָּת; e escreve אוֹמְרִין, הַשּׁוּלְחָן, וּקְלִיפִּין, הַטַּבֶּלָּה כוּלָּהּ, פֵּירוּרִין, נִיטָּל e טוּמְאָה, onde a avulsa escreve אוֹמְרִים, הַשֻּׁלְחָן, וּקְלִפִּין, הַטַּבְלָה כֻלָּהּ, פֵּרוּרִין, נִטָּל e טֻמְאָה. Fora a ordem das escolas, nenhuma dessas diferenças muda o sentido. O Yerushalmi põe um ponto depois de מִכַּזַּיִת e nenhum depois de מַאֲכַל בְּהֵמָה; seguimos o sentido, com a avulsa e o Bavli, e ligamos “porque é comida de animal” às migalhas e às cascas. No hebraico do Sefaria, esta halachá tem um único segmento, a Mishná, e nenhum texto de guemará. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná”, que tiramos; não há marcador embutido de folha da edição de Vilna nem de coluna da edição de Veneza, nem colchetes ou parênteses no hebraico desta halachá. בֵּית הִלֵּל e בֵּית שַׁמַּאי são “Beit Hillel” e “Beit Shammai”, e חֲכָמִים são “os Sábios”.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 143a, e ali se lê בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: מַעֲבִירִין מֵעַל הַשֻּׁלְחָן עֲצָמוֹת וּקְלִיפִּין. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: מְסַלֵּק אֶת הַטַּבְלָא כּוּלָּהּ וּמְנַעֲרָהּ, com as palavras do Yerushalmi, mas com as escolas na ordem da avulsa. A guemará começa com a palavra de Rav Nachman: אָנוּ אֵין לָנוּ אֶלָּא: בֵּית שַׁמַּאי כְּרַבִּי יְהוּדָה, וּבֵית הִלֵּל כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, “nós não temos senão: Beit Shammai como Rabi Yehudá, e Beit Hillel como Rabi Shimon”; isto é, Beit Hillel permitem, como Rabi Shimon, que não reconhece o muktzé (o que foi posto de lado e não se move no Shabat), e Beit Shammai proíbem, como Rabi Yehudá. É a ordem que o Yerushalmi já traz na própria Mishná. Ali mesmo, a guemará diz que a cláusula das migalhas apoia Rabi Yochanan, que proíbe destruir com a mão migalhas de menos que uma azeitona; que a cláusula das cascas das ervilhas é de Rabi Shimon; e, sobre a esponja, que mesmo Rabi Shimon concorda quando o resultado proibido é inevitável, como dizem Abaye e Rava: מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יְמוּת״, “concorda Rabi Shimon com ‘corta-lhe a cabeça, e não morrerá?’”. Em 143a encerra-se também, no Bavli, o capítulo Notel Adam et Beno.
Observações de leitura. A Bartenura cita a palavra de Rav Nachman e explica que Beit Hillel só permitem os ossos e as cascas que servem de comida de animal, embora não sirvam de comida de gente; o Rambam, no seu comentário à Mishná, diz o mesmo. A tavlá, segundo o Rambam, é uma tábua grande sobre a qual se põe a mesa, para que as migalhas caiam sobre ela; segundo a Bartenura, é a tábua que tem estatuto de utensílio, que se move, mas os ossos e as cascas não se movem com as mãos. As migalhas de menos que uma azeitona se tiram, segundo a Bartenura, porque servem de comida de animal. O sear das ervilhas e das lentilhas é, segundo a Bartenura, as vagens em que crescem os legumes, e, segundo o Rambam, as cascas. A esponja sem cabo, segundo a Bartenura, espreme-se entre os dedos de quem a segura, e por isso não se limpa com ela; os Sábios dizem que, com cabo ou sem cabo, ela se move no Shabat, quando está seca, e não recebe impureza, porque não é utensílio de madeira, nem roupa, nem saco, nem metal. O Rambam diz que a lei é como os Sábios. “Limpa-se a mesa” completa o hebraico, que diz só מְקַנְּחִין בּוֹ, “limpa-se com ela”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz הַטַּבֶּלָּה por “table”, do latim tabula, שֵׂיעָר por “hair”, que ele explica como a casca, e סְפוֹג por “sponge”, do grego; mantivemos “tavlá”, “sear” e “esponja”. Na sua nota sobre Beit Hillel e Beit Shammai, ele diz que a Mishná do Bavli troca as palavras das duas escolas, e que isso é corrigido logo na guemará do Bavli; conferimos, e é a palavra de Rav Nachman em Shabbat 143a. Ele escreve “House of Hillel” e “House of Shammai”; mantivemos “Beit Hillel” e “Beit Shammai”.
A Mishná seguinte, Shabbat 22:1, na numeração do Sefaria, abre o Perek Kaf-Bet, Chavit: “חָבִית שֶׁנִּשְׁבְּרָה מַצִּילִין מִמֶּנָּה מְזוֹן שָׁלשׁ סְעֻדּוֹת…”, “uma ânfora que se quebrou: salva-se dela alimento para três refeições”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 143b, logo depois do fim do capítulo Notel Adam et Beno, no início do capítulo Chavit. Também para ela o Yerushalmi não traz guemará.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Kaf-Alef de Massechet Shabbat, Notel Adam et Beno (נוֹטֵל אָדָם אֶת בְּנוֹ).