Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Um (Notel Adam et Beno)
הָתָם כֵּיוָן דְּמַסְרַח

As vísceras do ganso; a mesa depois da refeição — ossos, migalhas e a esponja; os caroços de tâmara; o encerramento do Perek Vinte e Um

Shabbat 143a · continua diretamente de 142b, sem pausa · dentro do Perek Vinte e Um (Notel Adam et Beno, Shabbat 141b:19-143a:15) · o daf encerra o capítulo com o hadran

Shabbat 143a abre resolvendo, sem qualquer pausa, a objeção deixada em suspenso ao final de 142b: o relato de Rava mandando seu servo assar um ganso e jogar as vísceras ao gato, que pareceria contradizer a posição de Rabi Yehuda sobre muktzeh. A guemará responde: como as vísceras apodrecem rapidamente e deixam de servir ao homem, a intenção de Rava já estava voltada para o gato desde a véspera, antes de o Shabat ou Yom Tov começar — diferente do pombo cru, que permanecia apto ao consumo humano. Confirma-se então, por meio de outro ensinamento de Rava — sobre não entrar na lenheira para tomar um tição, e sobre ser proibido acender um tição que se quebrou no próprio Yom Tov, por se tornar "nolad" — que Rava de fato sustenta a posição mais restritiva de Rabi Yehuda. Encerrada essa questão, uma nova mishná trata de como limpar a mesa depois da refeição: Bet Shamai permite remover ossos e cascas diretamente com as mãos, sem reconhecer neles qualquer proibição de muktzeh; Bet Hilel, mais cauteloso, exige levantar e sacudir a travessa inteira, evitando o contato direto. Migalhas menores que um kezayit, e vagens de ervilha e de lentilha, podem ser removidas por todos, pois ainda servem de alimento ao animal. Quanto à esponja usada para limpar a mesa: só se pode usá-la se tiver um apoio de couro para segurá-la sem espremê-la; os Sábios discordam dessa distinção inteira, permitindo-a sempre, pois, não sendo utensílio de madeira, tecido, saco ou metal, não recebe impureza. A guemará então busca, cláusula por cláusula, a filiação tannaítica dessa mishná: Rav Nachman afirma que Bet Shamai segue Rabi Yehuda e Bet Hilel segue Rabi Shimon quanto a muktzeh; a cláusula das migalhas apoia um ensinamento independente de Rabi Yochanan, que proíbe destruí-las com a mão, por ainda servirem de alimento; a cláusula das vagens é identificada com Rabi Shimon, que não sustenta muktzeh algum, já que, antes do Shabat, elas ainda estavam unidas ao próprio grão; a cláusula da esponja parece, à primeira vista, exigir a posição mais restritiva de Rabi Yehuda quanto a atos não intencionais, mas a guemará responde que mesmo Rabi Shimon concorda quando o resultado proibido é absolutamente inevitável — o princípio de "pesik reishei". Por fim, a guemará volta a um caso concreto de comida com resíduo: os caroços de tâmaras arameias, de qualidade inferior, são permitidos de mover, pois servem de alimento ao animal junto com a própria polpa; os de tâmaras persas, de boa qualidade, permanecem proibidos. Seguem-se os diferentes métodos pessoais de vários sábios para descartar esses caroços sem tocá-los diretamente: Shmuel usava um pão como base; Rabá, uma jarra de água; Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, tratava o monte de caroços acumulado como um vaso de excremento — método questionado por Rav Ashi diante de Ameimar, por ser um recurso premeditado, não uma repugnância surgida por acaso; Rav Sheshet os jogava na dobra de sua manga; e, como Rav Papa, também se contava de Rabi Zecharia ben Avkulas, que virava o rosto e os jogava atrás do leito em que estava reclinado. O daf — e com ele todo o Perek Vinte e Um, Notel Adam et Beno — termina com a fórmula tradicional do hadran. Conforme confirmado pela estrutura de capítulos do Sefaria, o Perek Vinte e Dois (Chavit, חבית) começa apenas em Shabbat 143b:1, folha ainda não publicada neste site: este daf, portanto, encerra o capítulo, mas não chega a abrir o seguinte.

Resolvendo a objeção: as vísceras do ganso já estavam destinadas ao gato desde a véspera · הָתָם כֵּיוָן דְּמַסְרַח

1428Resposta: como as vísceras apodrecem, a intenção de Rava já estava voltada para o gato desde a véspera
Anônimo da guemará
הָתָם כֵּיוָן דְּמַסְרַח, דַּעְתֵּיהּ עִילָּוֵיהּ מֵאֶתְמוֹל.

(continuando de 142b:) Responde-se:, no caso do ganso, já que as vísceras apodrecem rapidamente e logo deixam de servir ao homem, a intenção de Rava já estava voltada para elas desde ontem , antes de o Shabat ou o Yom Tov começar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hatam keivan demasrach" e "me'etmol da'ateih ilaveih"
התם כיון דמסרח - מעייא אי מצנע ליה עד אורתא: מאתמול דעתיה עליה - לשונרא ובין השמשות נמי מוכן לבהמה הוה:

"Lá, já que apodrece" — as vísceras, se a pessoa as guardasse até a noite seguinte,teriam se estragado.

"Desde ontem sua intenção já estava voltada para elas" — para o gato; e já no crepúsculo (bein hashemashot), elas estavam preparadas (muchan) para um animal.

Nota

A guemará resolve a objeção mostrando que o caso das vísceras do ganso não é comparável ao do pombo cru. As vísceras se estragam rapidamente e, por isso, jamais poderiam ter sido guardadas para consumo humano posterior; assim, desde antes mesmo do início do Shabat ou do Yom Tov, a intenção de Rava já estava voltada para dá-las ao gato — elas já estavam "preparadas" (muchan) para uso animal desde o crepúsculo, e não se tornaram desqualificadas (nolad) durante o dia sagrado. O pombo cru, ao contrário, permanecia apto ao consumo humano durante todo o tempo, e por isso exigia o artifício da faca.

1429Confirma-se: Rava segue Rabi Yehuda — seu próprio ensinamento sobre o tição quebrado no Yom Tov
Anônimo da guemará; Rava (baraita/ensinamento)
הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא דְּרָבָא כְּרַבִּי יְהוּדָה סְבִירָא לֵיהּ, דְּדָרֵשׁ רָבָא: אִשָּׁה לֹא תִּכָּנֵס לְבֵית הָעֵצִים לִיטּוֹל מֵהֶן אוּד. וְאוּד שֶׁנִּשְׁבַּר — אָסוּר לְהַסִּיקוֹ בְּיוֹם טוֹב, לְפִי שֶׁמַּסִּיקִין בְּכֵלִים וְאֵין מַסִּיקִין בְּשִׁבְרֵי כֵלִים. שְׁמַע מִינַּהּ.

A guemará conclui: assim também é razoável que Rava sustente a opinião de Rabi Yehuda, pois Rava ensinava: uma mulher não deve entrar na lenheira para tomar dali um tição aceso. E um tição que se quebrou é proibido de acender no Yom Tov, porque se acende com utensílios completos, mas não se acende com pedaços quebrados de utensílios. Conclui-se disso que Rava segue Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ud", "ud shenishbar", "beshivrei kelim" e "shema mina"
אוד - פורגו"ן דסתם עצים להסקה ניתנו ולא לטלטול כלי: ואוד שנשבר - ביו"ט: בשברי כלים - שנשברו היום דהוו להו נולד: ש"מ - דכרבי יהודה סבירא ליה דאית ליה מוקצה:

"Tição" — uma brasa acesa, pois a lenha comum é destinada a acender, e não a ser movida como utensílio.

"E um tição que se quebrou" — no Yom Tov.

"Com pedaços quebrados de utensílios" — que se quebraram hoje , no próprio Yom Tov, pois se tornam nolad (algo recém-surgido, proibido como muktzeh).

"Conclui-se disso" — que Rava sustenta a opinião de Rabi Yehuda, segundo o qual há muktzeh mesmo quando o objeto ainda seria fisicamente útil.

Nota

A guemará traz uma confirmação independente, de outro ensinamento de Rava: um tição que se quebrou dentro do próprio Yom Tov é proibido de usar para acender, mesmo sendo ainda perfeitamente combustível, pois o princípio é que se acende apenas com utensílios completos, nunca com pedaços quebrados — que se tornam, no mesmo dia, algo "recém-surgido" (nolad), categoria de muktzeh. Essa posição rigorosa, que desconsidera a utilidade física remanescente do objeto em favor de sua categoria formal, é precisamente a de Rabi Yehuda; e, como o próprio Rava a ensina, conclui-se que ele de fato a sustenta — encerrando, de modo satisfatório, a pergunta levantada ao final de 142b.

Nova mishná: limpar a mesa depois da refeição — ossos, cascas, migalhas e a esponja · מַעֲבִירִין מֵעַל הַשֻּׁלְחָן

1430Bet Shamai: remove-se ossos e cascas com as mãos; Bet Hilel: levanta-se e sacode-se a travessa inteira
Mishná
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: מַעֲבִירִין מֵעַל הַשֻּׁלְחָן עֲצָמוֹת וּקְלִיפִּין. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: מְסַלֵּק אֶת הַטַּבְלָא כּוּלָּהּ וּמְנַעֲרָהּ.

Bet Shamai diz: removem-se da mesa ossos e cascas , diretamente com as mãos. E Bet Hilel diz: retira-se a travessa inteira, e sacode-se , sem tocar diretamente nos ossos e cascas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "matnitin ma'avirin", "atzamot", "uklipin" e "mesalek et hatavla"
מתני' מעבירין - בידים מעל השלחן: עצמות - קשין שאינן ראויין לכלב: וקליפין - של אגוזים דלית להו לב"ש מוקצה: וב"ה אומרים מסלק את הטבלא - שיש תורת כלי עליה אבל לא יטלטל הקליפין בידים כרבי יהודה:

"Mishná: removem-se" — com as mãos, de sobre a mesa.

"Ossos" — duros, que não são próprios nem para o cão.

"E cascas" — de nozes, pois Bet Shamai não sustenta a existência de muktzeh nesse caso.

"E Bet Hilel diz: retira-se a travessa" — pois ela tem sobre si o estatuto de utensílio completo, mas não se movem as cascas diretamente com as mãos, conforme a posição de Rabi Yehuda.

Nota

Abre-se uma nova mishná, ainda dentro do Perek Vinte e Um: como limpar a mesa depois de comer, quando restam sobre ela ossos duros — que não servem sequer ao cão — e cascas de nozes, ambos potencialmente muktzeh. Bet Shamai, surpreendentemente o mais indulgente aqui, permite removê-los diretamente com as mãos, sem reconhecer neles proibição alguma; Bet Hilel exige o método indireto já familiar destas folhas: levantar e sacudir a travessa inteira, evitando o contato direto com os ossos e cascas.

1431Migalhas menores que um kezayit, e vagens de ervilha e lentilha, por servirem de alimento animal
Mishná
מַעֲבִירִין מִלִּפְנֵי הַשֻּׁלְחָן פֵּירוּרִין פָּחוֹת מִכְּזַיִת, וְשֵׂעָר שֶׁל אֲפוּנִין וּשְׂעַר עֲדָשִׁים, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכַל בְּהֵמָה.

Removem-se de diante da mesa migalhas menores que o volume de um kezayit (azeitona), e vagens de ervilha e vagens de lentilha, porque isso é alimento de animal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "stama hi", "perurin pachot mikezayit" e "sear shel afunin"
מעבירין מעל השלחן - סתמא היא: פירורין פחות מכזית - וכ"ש כזית כדמפרש טעמא שהם מאכל בהמה: ושער של אפונין - שרביטין של קטנית שהקטנית גדל בהם:

"Removem-se de sobre a mesa" — esta cláusula é anônima , aceita por todos, sem disputa.

"Migalhas menores que um kezayit" — e com mais razão as do tamanho de um kezayit ou maior, conforme se explica a razão: são alimento de animal.

"E vagens de ervilha" — as cascas dos legumes, dentro das quais o grão cresce.

Nota

Esta cláusula, ao contrário da anterior, é ensinada sem atribuição a nenhuma das duas escolas — vale, portanto, para todos. Migalhas pequenas demais para valer sequer um kezayit, e as vagens vazias de ervilha e lentilha, continuam servindo de alimento ao animal, e por isso nunca chegam a se tornar muktzeh; podem ser removidas livremente.

1432A esponja: só se tiver apoio de couro; os Sábios discordam — sempre permitida, por não receber impureza
Mishná
סְפוֹג, אִם יֵשׁ לוֹ עוֹר בֵּית אֲחִיזָה — מְקַנְּחִין בּוֹ, וְאִם לָאו — אֵין מְקַנְּחִין בּוֹ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ נִיטָּל בְּשַׁבָּת, וְאֵינוֹ מְקַבֵּל טוּמְאָה.

Esponja: se tem um apoio de couro para segurá-la — limpa-se a mesa com ela; e, se não — não se limpa com ela. E os Sábios dizem: de um modo ou de outro, é permitido tomá-la no Shabat, e ela não recebe impureza.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "or beit achizah", "mekanchin bo", "ein mekanchin bo" e "eino mekabel tumah"
עור בית אחיזה - [בית אחיזה] של עור שיאחזנו בו: מקנחין בו - טבלא: אין מקנחין בו - שכשאוחזו נסחט בין אצבעותיו: ניטל בשבת - כשהוא נגוב: ואינו מקבל טומאה - דאינו לא כלי עץ ולא בגד ולא שק ולא מתכת:

"Apoio de couro" — um apoio de couro para segurá-la.

"Limpa-se com ela" — a travessa.

"Não se limpa com ela" — pois, ao segurá-la sem esse apoio, ela se espreme entre os dedos , e a água sai — o que é proibido, como espremer no Shabat.

"É permitido tomá-la no Shabat" — quando está seca.

"E não recebe impureza" — pois não é utensílio de madeira, nem tecido, nem saco, nem metal.

Nota

A terceira cláusula trata da esponja usada para limpar a mesa: só é permitida se tiver um pedaço de couro fixado como apoio, permitindo segurá-la sem apertar diretamente sua superfície — pois segurá-la sem esse apoio a espreme entre os dedos, liberando a água nela absorvida, o que se assemelha ao ato proibido de espremer (lavar) no Shabat. Os Sábios rejeitam inteiramente essa distinção, permitindo a esponja em qualquer caso: como ela não é feita de madeira, tecido, saco ou metal — os materiais sujeitos à impureza ritual — não conta, para eles, como um "utensílio" no sentido que geraria essa preocupação.

A guemará busca a filiação de cada cláusula: Rav Nachman, Rabi Yochanan, Rabi Shimon · אָנוּ אֵין לָנוּ אֶלָּא

1433Rav Nachman: Bet Shamai segue Rabi Yehuda, Bet Hilel segue Rabi Shimon quanto a muktzeh
Rav Nachman
גְּמָ׳ אָמַר רַב נַחְמָן: אָנוּ אֵין לָנוּ אֶלָּא: בֵּית שַׁמַּאי כְּרַבִּי יְהוּדָה, וּבֵית הִלֵּל כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Guemará. Disse Rav Nachman: nós não temos senão isto: Bet Shamai segue a posição de Rabi Yehuda, e Bet Hilel segue a posição de Rabi Shimon , quanto à existência de muktzeh.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "anu ein lanu ela"
גמ' אנו אין לנו - אין אנו סומכין על משנתינו כמות שהיא שנויה אלא מוחלפת שיטתה וב"ש כרבי יהודה כו':

"Guemará: nós não temos" — não nos apoiamos em nossa mishná exatamente como está ensinada à primeira vista, mas entendemos que sua atribuição deve ser lida de outro modo, e Bet Shamai segue Rabi Yehuda, e assim por diante.

Nota

Rav Nachman fixa a filiação tannaítica geral da mishná: Bet Shamai corresponde à posição mais restritiva de Rabi Yehuda sobre muktzeh, e Bet Hilel, à posição mais lenient de Rabi Shimon. Como observa Rashi, essa correspondência não decorre de modo óbvio da simples leitura da primeira cláusula — daí a ressalva de Rav Nachman, "nós não temos senão isto": é a conclusão firme a que se chega, ainda que a atribuição não salte imediatamente aos olhos. As cláusulas seguintes da mishná são então examinadas, uma a uma, à luz dessa correspondência.

1434A cláusula das migalhas apoia Rabi Yochanan: é proibido destruí-las com a mão
Anônimo da guemará; Rabi Yochanan
מַעֲבִירִין מִלִּפְנֵי הַשֻּׁלְחָן פֵּירוּרִין. מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: פֵּירוּרִין שֶׁאֵין בָּהֶן כְּזַיִת — אָסוּר לְאַבְּדָן בַּיָּד.

A Mishná ensinou: "removem-se de diante da mesa migalhas etc." Isto apoia a opinião de Rabi Yochanan, pois disse Rabi Yochanan: migalhas que não têm o volume de um kezayit — é proibido destruí-las com a mão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "asur le'abdan bayad"
אסור לאבדן ביד - מדקתני מעבירין בידים ולא זריק להו:

"É proibido destruí-las com a mão" — pois a mishná ensina "removem-se com as mãos" , deslocando-as com cuidado, para que ainda sirvam ao animal, e não "jogam-se fora" diretamente, o que as destruiria.

Nota

A cláusula sobre as migalhas, aceita por todos, serve de apoio a um ensinamento independente de Rabi Yochanan: mesmo migalhas pequenas demais para valer um kezayit não podem ser simplesmente destruídas com a mão — pois ainda servem de alimento ao animal, e destruir alimento é proibido. O verbo empregado pela mishná, "removem-se", em vez de "jogam-se fora", já sugere esse cuidado.

1435A cláusula das vagens é de Rabi Shimon: antes do Shabat ainda estavam unidas ao grão, não destinadas ao animal
Anônimo da guemará
שֵׂעָר שֶׁל אֲפוּנִין. מַנִּי? — רַבִּי שִׁמְעוֹן הִיא, דְּלֵית לֵיהּ מוּקְצֶה.

A Mishná ensinou: "vagens de ervilha etc." Quem sustenta essa cláusula? É a opinião de Rabi Shimon, que não sustenta a existência de muktzeh.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "delet leih muktzeh"
דלית ליה מוקצה - דאי ר' יהודה מאתמול לאו לבהמה קיימי שהרי האוכל היה עמהן והיום לוקח מהם:

"Que não sustenta muktzeh" — pois, se seguisse Rabi Yehuda, essas vagens não estariam, desde ontem, destinadas ao animal, já que o alimento (o grão) ainda estava unido a elas , e só hoje a pessoa as retira dele , separando-as.

Nota

A cláusula das vagens de ervilha e lentilha só se sustenta segundo Rabi Shimon, que dispensa completamente o conceito de muktzeh. Segundo a posição mais restritiva de Rabi Yehuda — que exige que um objeto já estivesse designado a seu uso atual desde antes do início do Shabat — essas vagens seriam proibidas: antes do Shabat, o grão ainda estava dentro delas, de modo que elas eram parte do alimento humano, não algo já destinado ao animal; só hoje, ao serem descascadas, tornam-se resíduo. Como a mishná as permite, forçosamente segue Rabi Shimon.

1436Objeção: mas a esponja sem apoio parece exigir Rabi Yehuda, que proíbe ato não intencional
Anônimo da guemará
אֵימָא סֵיפָא: סְפוֹג, אִם יֵשׁ לוֹ בֵּית אֲחִיזָה — מְקַנְּחִין בּוֹ, וְאִם לָאו אֵין מְקַנְּחִין בּוֹ. אֲתָאן לְרַבִּי יְהוּדָה, דְּאָמַר: דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — אָסוּר!

A guemará objeta: mas diga-se a última cláusula: "esponja, se tem apoio para segurá-la — limpa-se com ela; e, se não — não se limpa com ela." Chegamos , então, a Rabi Yehuda, que diz: um ato não intencional (davar she'eino mitkavein) é proibido!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'ein mitkavein"
שאין מתכוין - שאין מתכוין לסחוט:

"Não intencional" — que a pessoa não tem intenção de espremer a esponja, embora o resultado ocorra de qualquer modo.

Nota

A guemará levanta uma dificuldade: se a mishná inteira segue Rabi Shimon, por que a cláusula da esponja exigiria um apoio de couro, evitando o risco de espremê-la sem querer? Essa cautela parece pressupor a posição mais restritiva de Rabi Yehuda, segundo o qual até um ato sem intenção proibida, mas com resultado possivelmente proibido, é vedado — contradizendo a atribuição a Rabi Shimon estabelecida nas cláusulas anteriores.

1437Resposta: mesmo Rabi Shimon concorda quando o resultado é inevitável — pesik reishei
Abaie e Rava
בְּהָא אֲפִילּוּ רַבִּי שִׁמְעוֹן מוֹדֶה, דְּאַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יָמוּת״.

Responde-se: nisto, mesmo Rabi Shimon concorda, pois Abaie e Rava, ambos, disseram: Rabi Shimon concorda no caso de "cortar a cabeça, e o animal não morrer" — isto é, quando o resultado proibido é absolutamente certo e inevitável, mesmo Rabi Shimon o proíbe, apesar de faltar a intenção direta.

Nota

A resposta resolve a dificuldade: mesmo Rabi Shimon, que em geral permite atos cujo resultado proibido não é certo, admite que, quando esse resultado é absolutamente inevitável — como cortar a cabeça de um animal e ele necessariamente morrer —, o ato é proibido, ainda que a pessoa não tenha "intenção" dele em sentido estrito. Espremer água de uma esponja segurada diretamente, sem apoio, é exatamente esse tipo de resultado certo e inevitável; por isso, mesmo Rabi Shimon exige o apoio de couro, e a cláusula da esponja permanece perfeitamente compatível com a atribuição geral da mishná a sua posição.

Os caroços de tâmara: arameias e persas; os métodos de cada sábio para descartá-los · הָנֵי גַּרְעִינִין דְּתַמְרֵי

1438Caroços de tâmaras arameias — permitidos, por servirem de alimento animal junto com a polpa; persas — proibidos
Anônimo da guemará
הָנֵי גַּרְעִינִין דְּתַמְרֵי אֲרַמָּיָיתָא שְׁרוּ לְטַלְטוֹלִינְהוּ, הוֹאִיל וְחַזְיָין אַגַּב אִמָּן. וּדְפָרְסְיָיתָא — אָסוּר.

Estes caroços de tâmaras arameias , de qualidade inferior, são permitidos de mover, já que servem de alimento ao animal junto com sua "mãe" , a polpa que os envolve. Mas os caroços de tâmaras persas , de boa qualidade, — é proibido movê-los.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "gar'inin", "aramayata" e "parsayata"
גרעינין - של תמרים והם לבהמה: ארמייתא - תמרים רעים הם ומאכילין התמרים עצמן לבהמה הלכך אגב אימייהו לבהמה נמי קיימי: פרסייתא - תמרים טובים הם ואין מאכילין אותן לבהמה:

"Caroços" — de tâmaras, e também eles servem ao animal.

"Arameias" — são tâmaras ruins, e alimenta-se com as próprias tâmaras o animal; por isso, junto com sua "mãe" , a polpa, também os caroços estão destinados ao animal.

"Persas" — são tâmaras boas, e não se alimenta com elas o animal.

Nota

A guemará volta a um caso concreto de alimento com resíduo. Caroços de tâmaras de qualidade inferior ("arameias") são permitidos de mover, pois costuma-se alimentar o animal com a própria fruta inteira, incluindo o caroço; assim, desde antes do Shabat, o caroço já compartilhava, "junto com sua mãe", a designação de alimento animal. Caroços de tâmaras de boa qualidade ("persas"), que nunca são dadas inteiras ao animal, permanecem proibidos — verdadeiro muktzeh, sem qualquer designação prévia.

1439Shmuel movia os caroços com um pão, seguindo seu próprio princípio: usa-se o pão para qualquer necessidade
Shmuel
שְׁמוּאֵל מְטַלְטֵל לְהוּ אַגַּב רִיפְתָּא. (שרנ״ם שפ״ז סִימָן.) שְׁמוּאֵל לְטַעְמֵיהּ, דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: עוֹשֶׂה אָדָם כׇּל צָרְכּוֹ בְּפַת.

Shmuel costumava mover os caroços proibidos por meio de um pão , colocado sobre eles como base. (Sinal mnemônico para os métodos seguintes: shrnm shp"z.) Shmuel segue seu próprio raciocínio, pois disse Shmuel: a pessoa pode fazer com o pão tudo que precisa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kol tzarko"
כל צרכו - משתמש בו ואין כאן משום בזיון וממחהו בתבשיל:

"Tudo que precisa" — usa-se o pão como instrumento, e não há aqui desrespeito por seu uso, pois depois a pessoa o amassa dentro de um guisado , aproveitando-o normalmente.

Nota

Shmuel movia os caroços proibidos colocando sobre eles um pão como base, servindo-se do mesmo artifício já visto quanto a bolsas e alforjes de moedas em 142b. Esse hábito seguia seu próprio princípio mais amplo: o pão pode ser usado como instrumento para qualquer necessidade, sem que isso conte como desrespeito ao alimento, pois, ao final, ainda pode ser aproveitado normalmente — por exemplo, amassado dentro de um guisado.

1440Rabá com a jarra de água; Rav Huna trata os caroços como vaso de excremento — Rav Ashi questiona a Ameimar
Rabá; Rav Huna filho de Rav Yehoshua; Rav Ashi
רַבָּה מְטַלְטֵל לְהוּ אַגַּב לָקָנָא דְמַיָּא. רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ עָבֵיד לְהוּ כִּגְרָף שֶׁל רֶיעִי. אֲמַר לֵיהּ רַב אָשֵׁי לְאַמֵּימָר: וְכִי עוֹשִׂין גְּרָף שֶׁל רֶיעִי לְכַתְּחִילָּה?

Rabá costumava movê-los por meio de uma jarra de água , colocada junto a eles. Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, tratava-os como um vaso de excremento , que se pode remover mesmo com o excremento dentro, por causa da repugnância. Disse Rav Ashi a Ameimar: acaso se faz um vaso de excremento de propósito, desde o início?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lakana demaya" e "geraf shel re'i"
לקנא דמיא - ספל של מים: גרף של ריעי - צוברן לפניו כשאוכל התמרים עד שנמאסות בעיניו ונוטלן אותן מפניו כגרף של ריעי ונותנן לבהמה:

"Uma jarra de água" — uma bacia de água.

"Vaso de excremento" — Rav Huna os juntava diante de si, os caroços, enquanto comia as tâmaras, até que se tornassem repugnantes a seus olhos; e então os removia de diante de si como um vaso de excremento, e os dava ao animal.

Nota

Rabá usava uma bacia de água como base, ao lado dos caroços. Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, adotava uma abordagem mais original: deixava os caroços se acumularem diante de si, enquanto comia, até se tornarem visualmente repugnantes — e, nesse ponto, valia-se da leniência conhecida como "vaso de excremento" (geraf shel re'i), que permite remover algo sujo por respeito à dignidade e à limpeza, mesmo que tecnicamente muktzeh. Rav Ashi questiona essa comparação diante de Ameimar: a leniência do vaso de excremento foi pensada para uma repugnância que surge de fato, não como método deliberado, planejado de antemão para descartar caroços.

1441Rav Sheshet na manga, Rav Papa atrás do leito — como também se contava de Rabi Zecharia ben Avkulas
Rav Sheshet; Rav Papa; Rabi Zecharia ben Avkulas
רַב שֵׁשֶׁת זָרֵיק לְהוּ בְּלִישָּׁנֵיהּ. רַב פָּפָּא זָרֵיק לְהוּ אֲחוֹרֵי הַמִּטָּה. אָמְרוּ עָלָיו עַל רַבִּי זְכַרְיָה בֶּן אַבְקוּלָס שֶׁהָיָה מַחֲזִיר פָּנָיו אֲחוֹרֵי הַמִּטָּה וְזוֹרְקָן.

Rav Sheshet costumava jogá-los na dobra de sua manga. Rav Papa costumava jogá-los atrás do leito em que estava reclinado. Disseram de Rabi Zecharia ben Avkulas que ele virava o rosto para trás do leito, e os jogava ali.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "zarik lehu belishaneih" e "achorei hamitah"
זריק להו בלישני' - אל עבר השלחן: אחורי המטה - שהוא מיסב עליה:

"Jogava-os na dobra de sua manga" — para o outro lado da mesa , dentro da dobra de sua roupa.

"Atrás do leito" — o leito sobre o qual estava reclinado à mesa, como era costume nas refeições.

Nota

Encerra-se a sugiá com uma última série de práticas pessoais, cada sábio evitando tocar diretamente nos caroços proibidos à sua própria maneira: Rav Sheshet os jogava na dobra da manga de sua roupa; Rav Papa, atrás do leito em que se reclinava à mesa, como era costume nas refeições formais; e o mesmo se contava de Rabi Zecharia ben Avkulas, que ainda virava o rosto para não olhar diretamente ao jogá-los. Com esse pequeno catálogo de costumes práticos, encerra-se a discussão da mishná — e, com ela, todo o Perek Vinte e Um.

Fim do Perek Vinte e Um · Notel Adam et Benoהַדְרָן עֲלָךְ נוֹטֵל אָדָם אֶת בְּנוֹ
Nota sobre a transição

Com o pequeno catálogo de práticas para descartar caroços de tâmara sem tocá-los, encerra-se todo o Perek Vinte e Um, Notel Adam et Beno ("toma um homem o seu filho" — nome tirado de sua mishná de abertura, em 141b:19), que se estendera de Shabat 141b:19 a 143a:15. Ao longo de quase três folhas, o perek percorreu o filho com a pedra na mão, o cesto e a teruma impura movida com a pura, a longa discussão sobre elevar o medumá no Shabat e sua filiação a Rabi Eliezer, depois a Rabi Shimon, e por fim a Rabi Shimon ben Elazar, a pedra na boca do barril e as moedas na almofada, a distinção entre esquecer e colocar de propósito, a bolsa, o tijolo e o alforje de moedas, a colher de Abaie e a faca de Rava, e finalmente as vísceras do ganso e a mesa depois da refeição. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula "Hadran Alach Notel Adam et Beno" ("Retornaremos a você, Notel Adam et Beno"), dita ao concluir o estudo de um capítulo. Conforme confirmado pela estrutura de capítulos do Sefaria (alt_structs → Chapters), o Perek Vinte e Dois, Chavit (חבית — "o barril", nome tirado de sua própria mishná de abertura), começa apenas em Shabbat 143b:1, uma folha inteiramente distinta e ainda não publicada neste site. Diferentemente das transições anteriores desta massechet — em que o capítulo seguinte já abria na mesma folha, logo após o hadran —, aqui o hadran cai exatamente no último segmento (143a:15) do próprio daf, sem que sobre qualquer conteúdo do Perek Vinte e Dois para ser incluído nesta página. Este daf, portanto, encerra o Perek Vinte e Um por completo, mas não chega a abrir o capítulo seguinte — o que só ocorrerá quando Shabat 143b for publicado.

O daf termina aqui, com o hadran de encerramento do Perek Vinte e Um (Notel Adam et Beno). O Perek Vinte e Dois (Chavit, חבית) começa em Shabbat 143b, ainda não publicado.