Quarta halachá do Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin (penduram-se). A Mishná ensina que se raspa a comida de diante do petam (boi de engorda) e se afasta o que sobra para os lados, segundo Rabi Yossi, e que os Sábios proíbem; e que se toma a comida de diante de um animal e se põe diante de outro no Shabat. A guemará explica a razão da primeira parte, pergunta se se pode passar a comida de um animal para outro, quando a própria Mishná já o diz, e responde que a Mishná fala de animais da mesma espécie, e a dúvida é sobre espécies diferentes; e traz a baraita do jumento e da vaca, e do animal cuja boca é ruim e do animal cuja boca é boa. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 140b.
Mishná: Raspa-se a comida de diante do petam (boi de engorda), e afasta-se o que sobra para os lados por causa do reí (o que pasta): palavras de Rabi Yossi. E os Sábios proíbem. Toma-se a comida de diante deste animal e põe-se diante daquele animal no Shabat.
“Raspa-se de diante do boi de engorda” etc.: é porque o boi de engorda deixa sobras, e o que pasta as come. Perguntou-se esta questão: que é a lei quanto a tomar de diante deste animal e pôr diante daquele animal? E não é isto uma Mishná: “Toma-se de diante deste animal e põe-se diante daquele animal no Shabat”? A Mishná fala de espécie com a sua espécie; o que ele pergunta é sobre espécie com o que não é da sua espécie. Ensinou-se: uma pessoa toma a comida de diante do jumento e põe diante de uma vaca; toma de diante de um animal cuja boca é ruim e põe diante de um animal cuja boca é boa.
Esta é a quarta halachá do Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 20:4 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria. As diferenças: a avulsa vocaliza לִצְדָדִין, onde o Yerushalmi vocaliza לַצְּדָדִין; diz הָרְעִי, onde o Yerushalmi escreve הָרֵיעִי; diz דִּבְרֵי רַבִּי דוֹסָא, “palavras de Rabi Dosa”, onde o Yerushalmi diz דִּבְרֵי רִבִּי יוֹסֵה, “palavras de Rabi Yossi”; e diz בְּשַׁבָּת, onde o Yerushalmi diz בַּשַּׁבָּת. Só a diferença do nome muda o que se diz; as outras não mudam o sentido. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é a guemará, que forma uma única seção, 01; nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; não há marcador numérico depois deles, e não inventamos nenhum. Na seção 01, o Sefaria traz embutido, antes das duas últimas palavras, שֶׁפִּיהָ יָפֶה, o marcador da coluna 17d da edição de Veneza, que tiramos; não há marcador de folha da edição de Vilna. O וכו׳ depois da citação da Mishná, “etc.”, é, segundo Guggenheimer, acréscimo do corretor do manuscrito; mantivemo-lo, como está no hebraico do Sefaria. רִבִּי יוֹסֵה é “Rabi Yossi”, como nas halachot anteriores deste tratado, e חֲכָמִים é “os Sábios”.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 140b, e ali se lê הַפַּטָּם, לִצְדָדִין, הָרְעִי e דִּבְרֵי רַבִּי דּוֹסָא, como a Mishná avulsa. A guemará do Bavli pergunta se os Sábios discordam da primeira parte, da segunda ou de ambas, e responde com uma baraita: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה לֹא יְסַלְּקֶנּוּ לִצְדָדִין, “e os Sábios dizem: tanto num caso como no outro, não o afaste para os lados”; Rav Chisda diz que a discussão é sobre a manjedoura que é um utensílio, e que na manjedoura feita no chão todos proíbem. Depois, o Bavli traz duas baraitot que parecem contradizer-se: uma diz que se toma de diante do animal cuja boca é boa e se põe diante do animal cuja boca é ruim, e a outra, como a nossa baraita, que se toma de diante do animal cuja boca é ruim e se põe diante do animal cuja boca é boa. Abaye responde que ambas falam do mesmo caso: מִקַּמֵּי חַמְרָא לְקַמֵּי תוֹרָא שָׁקְלִינַן, מִקַּמֵּי תוֹרָא לְקַמֵּי חַמְרָא לָא שָׁקְלִינַן, “de diante do jumento para diante do boi tomamos; de diante do boi para diante do jumento não tomamos”. A primeira chama de boca boa o jumento, que não tem baba, e de boca ruim a vaca, que tem baba; e a segunda, já em Shabbat 141a, chama de boca ruim o jumento, דְּלָא דָּיֵיק וְאָכֵיל, “que não come com cuidado”, e de boca boa a vaca, דְּדָיְיקָא וְאָכְלָה, “que come com cuidado”. Na Tosefta Shabbat 16:4 (ed. Lieberman): גורפין מלפני הפטם, ומסלקין לצדדין מפני הרעי דברי ר׳ דוסה, וחכמים או׳ בין כך ובין כך אין מסלקין לצדדין, “raspa-se de diante do boi de engorda e afasta-se para os lados por causa do reí: palavras de Rabi Dosa; e os Sábios dizem: num caso ou no outro, não se afasta para os lados”.
Observações de leitura. O nome na Mishná do Yerushalmi é רִבִּי יוֹסֵה, “Rabi Yossi”; a Mishná avulsa, o Bavli e a Tosefta dizem Rabi Dosa. Seguimos o hebraico do Sefaria, e é possível que seja erro de copista, pois os dois nomes se parecem; a leitura é incerta. A palavra הָרֵיעִי é, no Bavli, entendida como “o esterco”: afasta-se o que sobra para que não se estrague com o esterco. Mas a guemará do Yerushalmi explica מִפְּנֵי שֶׁהַפְּטָם מוֹתִיר הָרֹעֵי אוֹכֶל, “porque o boi de engorda deixa sobras, e o que pasta as come”, e assim parece entender a palavra da Mishná como o animal que pasta; por isso traduzimos “o que pasta”, e a leitura é incerta. Entendemos que, por isso, as sobras do boi de engorda continuam sendo comida de animal e se podem mover no Shabat. Na pergunta, “espécie com a sua espécie” entendemos como passar a comida de um animal para outro da mesma espécie, que a Mishná permite, e “espécie com o que não é da sua espécie”, para um animal de outra espécie, que é a dúvida. A baraita responde que se pode passar do jumento para a vaca; e, na segunda frase, que se pode passar do animal cuja boca é ruim para o animal cuja boca é boa. Segundo a segunda explicação de Abaye no Bavli, a boca ruim é a do jumento, que come sem cuidado, e a boca boa é a da vaca, que come com cuidado, e assim as duas frases da baraita dizem a mesma coisa. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer escreve “Rebbi Dosa”, onde o hebraico do Sefaria diz רִבִּי יוֹסֵה; seguimos o hebraico, “Rabi Yossi”. Ele traduz גּוֹרְפִין por “cleans up” e הָרֵיעִי por “for one grazing”; mantivemos “raspa-se” e “o que pasta”. Na nota ao fim da baraita, ele diz que, nesta forma, a segunda frase contradiz o Bavli 140b e a primeira frase, e propõe trocar “ruim” e “boa”. Conferimos: o Bavli traz em 140b justamente as duas formas, e Abaye explica a forma do nosso texto, em 141a, de modo que concorda com a primeira frase; não há por que trocar, e seguimos o hebraico do Sefaria. A sua explicação da baba da vaca, que torna a comida repugnante ao jumento, corresponde à primeira explicação de Abaye em 140b; mas ele diz que o jumento come com ordem, enquanto a segunda explicação de Abaye, em 141a, diz que o jumento não come com cuidado.
A Mishná seguinte, Shabbat 20:5, na numeração do Sefaria, começa הַקַּשׁ שֶׁעַל גַּבֵּי הַמִּיטָּה, “a palha que está sobre a cama”; no Bavli, ela está em Shabbat 141a.