Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte (Tolin)
גּוֹרְפִין מִלִּפְנֵי הַפַּטָּם

A túnica de linho no varal; as máximas de Rav Chisda a estudiosos e a suas filhas; nova Mishná sobre o cocho do animal engordado

Shabbat 140b · continua diretamente de 140a · integralmente dentro do Perek Vinte (Tolin), sem transição de capítulo

Shabbat 140b abre completando o ensinamento de Rav Chisda, interrompido ao final de 140a: retirar a túnica de linho do caniço em que está estendida para secar é permitido, mas retirar o caniço junto com ela é proibido, pois o caniço, sozinho, não tem status de utensílio — a menos que seja, como acrescenta Rava, o instrumento de um tecelão. Segue-se uma longa cadeia de máximas práticas de Rav Chisda a estudiosos pobres da casa de estudo: sobre mover um maço de verduras ou um gancho de pendurar carne; a rejeição de uma comparação de Rav Katina; conselhos sobre comprar verduras e caniços compridos, evitar a verdura por abrir o apetite, não fatiar o pão mesquinhamente, a discussão de bal tashchit a propósito do pão de trigo e do vinho — rejeitada em favor do cuidado com o corpo —, lavar-se com água de valas, comprar carne do pescoço, a túnica de linho de Dinhar Abba, não sentar em esteira nova, e não confiar a roupa ao hospedeiro. Segue-se uma série de conselhos de Rav Chisda a suas próprias filhas sobre modéstia diante dos maridos, culminando na parábola da pérola e do torrão de terra. A Guemará retorna então à Mishná anterior sobre os karshinin, citando a opinião mais restritiva de Rabi Eliezer ben Yaakov. Apresenta-se uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Vinte: varre-se o cocho de diante do animal que se engorda, e afasta-se a palha para os lados — palavras de Rabi Dosa, que os sábios proíbem; mas toma-se comida de diante de um animal e coloca-se diante de outro. A Guemará sobre essa Mishná examina o alcance da disputa, a distinção entre cocho de terra e cocho que é utensílio, e a aparente contradição entre duas baraitot sobre animais de boca boa e de boca ruim, resolvida por Abaye. O daf termina no meio da explicação de Abaye sobre a vaca, prosseguindo em Shabat 141a. Confirma-se, via a estrutura de capítulos do Sefaria (Shabbat 137b:11-141b:18 para o Perek Vinte), que todo este daf permanece dentro do mesmo perek, Tolin, sem qualquer transição de capítulo.

A túnica de linho no varal; as máximas de Rav Chisda a estudiosos · מִשְׁלְפָא לְדִידַהּ מִקַּנְיָא

1335Rav Chisda completa: retirar a túnica do caniço, sim; o caniço, não — exceto o utensílio do tecelão
Rav Chisda; Rava
מִשְׁלְפָא לְדִידַהּ מִקַּנְיָא — שְׁרֵי, קַנְיָא מִינַּהּ — אֲסִיר. אָמַר רָבָא: וְאִם כְּלִי קִיוָּאֵי הוּא — מוּתָּר.

(completando o ensinamento interrompido ao final de 140a, sobre a túnica de linho) — retirá-la do caniço em que está pendurada para secar é permitido; o caniço dela (retirar o caniço junto) é proibido. Disse Rava: e, se é um utensílio de tecelão, é permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mishlefa lediddah mikanya" e "ve'im kli kiva'ei hu"
משלפא לדידה מקניא - כששוטחין אותה לנגבה תוחבים קנה מבית יד לבית יד וכשנוטלה בשבת ישלפנה מן הקנה ולא הקנה ממנה דלא חזי לטלטולי דלהסקה קאי: ואם כלי קיואי היא - קנה של אורגים דתורת כלי עליו שרי:

"Retirá-la do caniço" — quando se estende a túnica para secá-la, enfia-se um caniço de manga a manga; e, quando se toma a túnica no Shabat, tira-se do caniço, mas não o caniço junto dela, pois este não é próprio para ser movido, sendo destinado à lenha.

"E, se é um utensílio de tecelão" — isto é, o caniço dos tecelões, que tem sobre si o status de utensílio, e por isso é permitido.

Nota

Completa-se aqui o ensinamento deixado cortado ao final de 140a. Rav Chisda esclarece as leis de muktzeh aplicadas ao varal doméstico: a túnica de linho, estendida sobre um caniço enfiado pelas mangas, pode ser retirada normalmente no Shabat, mas o caniço em si — objeto sem função além de servir de lenha — não pode ser movido junto. Rava acrescenta uma exceção: se o caniço pertence a um tear, tendo status de utensílio de trabalho, seu manuseio é permitido.

1336O maço de verduras: permitido mover se serve de alimento animal
Rav Chisda
אָמַר רַב חִסְדָּא: הַאי כִּישְׁתָּא דְיַרְקָא, אִי חַזְיָא לְמַאֲכַל בְּהֵמָה — שְׁרֵי לְטַלְטוֹלַהּ, וְאִי לָא — אֲסִיר.

Disse Rav Chisda: este maço de verduras — se é próprio para alimento de animal, é permitido movê-lo; e, se não, é proibido.

Nota

Rav Chisda aplica o mesmo princípio de muktzeh a um maço de verduras: se ainda serve de alimento — mesmo que apenas para animais —, tem status de utensílio comestível e pode ser movido no Shabat; se já se deteriorou a ponto de não servir para nada, é muktzeh e não pode ser tocado.

1337O gancho de pendurar carne, sim; de peixe, não
Rav Chiya bar Ashi em nome de Rav
אָמַר רַב חִיָּיא בַּר אָשֵׁי אָמַר רַב: הַאי תַּלְיָא, דְבִשְׂרָא — שְׁרֵי לְטַלְטוֹלֵהּ, דְּכַוְורֵי — אֲסִיר.

Disse Rav Chiya bar Ashi, disse Rav: este gancho de pendurar — se é de carne, é permitido movê-lo; se é de peixes, é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "talya devisra", "sharei" e "dechavrei"
תליא דבשרא - בשר מליח התלוי לייבשו ומלא החבל קרי תליא: שרי - דנאכל חי באומצא: דכוורי - אין נאכלין חיין:

"Gancho de carne" — carne salgada pendurada para secar; e chama-se "talya" a corda cheia dela.

"É permitido" — pois essa carne pode ser comida crua, como carne fresca.

"De peixes" — é proibido, pois os peixes não são comidos crus.

Nota

O mesmo princípio se estende ao gancho onde se pendura a carne para secar: se é carne, que pode ser comida crua e portanto conserva status de alimento mesmo antes de seca, o gancho e seu conteúdo podem ser movidos; se é peixe, impróprio para consumo cru, o gancho é muktzeh.

1338Rav Katina: ficar em pé no meio da cama — comparação rejeitada
Rav Katina
אָמַר רַב קַטִּינָא: הָעוֹמֵד בָּאֶמְצַע הַמִּטָּה, כְּאִילּוּ עוֹמֵד בִּכְרֵיסָהּ שֶׁל אִשָּׁה. וְלָאו מִילְּתָא הִיא.

Disse Rav Katina: quem fica em pé no meio da cama (sobre uma tábua) é como se estivesse em pé sobre o ventre de uma mulher. Mas isso não é correto (não é regra aceita).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "be'emtza mitah" e "ke'ilu omed cho"
באמצע מטה - שאיש ואשתו רגילין בה לישן: כאילו עומד כו' - דמהרהר:

"No meio da cama" — em que marido e mulher costumam dormir.

"É como se estivesse em pé, etc." — pois isso desperta pensamentos (impuros).

Nota

Rav Katina compara o ato de ficar em pé sobre uma tábua colocada no meio de uma cama conjugal — algo que evoca pensamentos indevidos — a ficar sobre o ventre da esposa. A guemará rejeita a comparação como não normativa, sem se estender sobre o motivo.

1339Comprar verduras e caniços compridos: o comprimento vem de graça
Rav Chisda
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּזָבֵין יַרְקָא — לִיזְבֵּין אֲרִיכָא, כִּישָּׁא כִּי כִישָּׁא, וְאוּרְכָּא מִמֵּילָא. וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּזָבֵין קַנְיָא — לִיזְבֵּין אֲרִיכָא, טוּנָא כִּי טוּנָא, וְאוּרְכָּא מִמֵּילָא.

E disse Rav Chisda: o estudioso da casa de estudo que compra verdura — que compre a comprida; maço por maço (o preço é o mesmo), e o comprimento vem de graça. E disse Rav Chisda: o estudioso que compra caniços — que compre os compridos; feixe por feixe (o preço é o mesmo), e o comprimento vem de graça.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lizbin arricha", "kisha ki kisha", "urcha mimeila" e "kanya"
לזבין אריכא - אגודה ארוכה של כרוב ארוך ושל כרישין ארוכים: כישא כי כישא - שכל אגודות הגנין שוות בעובין שלכולן מדה אחת לחבל שהוא אגוד בו: ואורכא ממילא - כלומר ארכו של זה שהוא ארוך מחבירו הוא משתכר בו: קניא - חבילי קנים לעצים:

"Que compre a comprida" — um maço comprido de repolho comprido, ou de alho-poró comprido.

"Maço por maço" — pois todos os maços de hortaliça têm a mesma espessura, todos com a mesma medida quanto à corda com que são atados.

"E o comprimento vem de graça" — isto é, o comprimento deste, que é maior que o do outro, ele ganha sem pagar mais por isso.

"Caniços" — feixes de caniços para lenha.

Nota

Encerrado o excurso sobre muktzeh, a guemará abre uma longa série de conselhos práticos de Rav Chisda para estudiosos de recursos limitados. O primeiro par de conselhos trata de economia doméstica: como o preço de um maço de verdura ou de um feixe de caniços é fixado pela espessura do maço, e não pelo comprimento, vale a pena escolher sempre os exemplares mais compridos, pois o comprimento extra não custa nada a mais.

1340Não comer verdura por abrir o apetite; o próprio hábito de Rav Chisda, pobre e rico
Rav Chisda
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב [דְּלָא נְפִישָׁא לֵיהּ רִיפְתָּא] — לָא לֵיכוֹל יַרְקָא, מִשּׁוּם דְּגָרֵיר. וְאָמַר רַב חִסְדָּא: אֲנָא לָא בַּעֲנִיּוּתִי אֲכַלִי יַרְקָא, וְלָא בְּעַתִּירוּתִי אֲכַלִי יַרְקָא. בַּעֲנִיּוּתִי — מִשּׁוּם דְּגָרֵיר. בְּעַתִּירוּתִי — דְּאָמֵינָא: הֵיכָא דְּעָיֵיל יַרְקָא, לֵיעוּל בִּשְׂרָא וְכַוְורֵי.

E disse Rav Chisda: o estudioso que não tem muito pão não deve comer verdura, pois ela abre o apetite. E disse Rav Chisda: eu, nem na minha pobreza comia verdura, nem na minha riqueza comia verdura. Na minha pobreza — pois abre o apetite. Na minha riqueza — pois eu dizia: onde entra verdura, que entre carne e peixe em vez dela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "la leichol yarka" e "mishum degarir"
לא ליכול ירקא - ירק חי כרישין צירפו"ל ושחליים: משום דגריר ליבא - ומאכילו לחם הרבה ואין לו:

"Não deve comer verdura" — verdura crua, como alho-poró, salsa e agrião.

"Pois abre o apetite" — e faz comer muito pão, e ele não tem.

Nota

Rav Chisda desaconselha a verdura ao estudioso pobre, pois ela estimula o apetite sem saciar, levando ao consumo excessivo do pão escasso. Ele então relata seu próprio hábito, consistente em ambas as fases de sua vida, mas por razões opostas: quando pobre, evitava a verdura pelo mesmo motivo prático; quando rico, evitava-a por preferir substituí-la diretamente por carne e peixe, mais nutritivos.

1341Não fatiar o pão aos poucos, nem partir mesquinhamente para hóspedes
Rav Chisda
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּלָא נְפִישָׁא לֵיהּ רִיפְתָּא — לָא לִיבְצַע בַּצּוֹעֵי. (וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּלָא נְפִישָׁא לֵיהּ רִיפְתָּא — לָא לִיבְצַע. מַאי טַעְמָא? — דְּלָא עָבֵיד בְּעַיִן יָפָה.) וְאָמַר רַב חִסְדָּא: אֲנָא מֵעִיקָּרָא לָא הֲוַאי בָּצַעְנָא עַד דִּשְׁדַאי יָדִי בְּכוּלֵּי מָנָא, וְאַשְׁכַּחִי [בֵּיהּ כׇּל צֻרְכִּי].

E disse Rav Chisda: o estudioso que não tem muito pão não deve parti-lo em pedaços pequenos (comendo aos poucos). (E disse Rav Chisda: o estudioso que não tem muito pão não deve partir o pão para hóspedes. Qual é a razão? Pois não o faz de bom grado.) E disse Rav Chisda: eu, no princípio, não partia o pão até colocar minha mão em toda a tigela e verificar que havia nela tudo o que me era necessário.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "la livtza batzu'ei", "me'ikara" e "ad dishdai yadi bechulei mana"
לא ליבצע בצועי - מורשיליונ"ט בלע"ז לא יאכל עכשיו מעט פת שימצא לו ולאחר שעה מעט מפני שאין לו דרך שביעה אלא יצרף ויאכל יחד: מעיקרא - קודם שנתעשרתי: עד דשדאי ידי בכולא מנא - כשהייתי ממשמש בסל ומוצא בו פת הרבה הייתי מברך המוציא:

"Não deve parti-lo em pedaços pequenos" — em francês antigo, "morseliont"; não deve comer agora um pouco do pão que encontrar, e depois de um tempo mais um pouco, pois assim não chega à saciedade; mas deve juntar tudo e comer de uma vez.

"No princípio" — antes de eu ter enriquecido.

"Até colocar minha mão em toda a tigela" — quando eu apalpava o cesto e encontrava nele bastante pão, eu abençoava "Hamotzi".

Nota

Prosseguindo os conselhos práticos, Rav Chisda recomenda comer o pouco pão disponível de uma vez, e não aos poucos ao longo do tempo, o que impede a saciedade real; e desaconselha partir o pão com mesquinhez diante de hóspedes, pois a escassez impede a generosidade genuína. Ele relata que, em sua própria pobreza, evitava recitar a bênção sobre o pão até ter certeza — apalpando toda a tigela — de que havia o suficiente.

1342Bal tashchit: pão de trigo em vez de cevada, vinho em vez de cerveja — rejeitado
Rav Chisda; Rav Papa
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: הַאי מַאן דְּאֶפְשָׁר לֵיהּ לְמֵיכַל נַהֲמָא דִשְׂעָרֵי וְאָכַל דְּחִיטֵּי קָעָבַר מִשּׁוּם ״בַּל תַּשְׁחִית״. וְאָמַר רַב פָּפָּא: הַאי מַאן דְּאֶפְשָׁר לְמִישְׁתֵּי שִׁיכְרָא וְשָׁתֵי חַמְרָא — עוֹבֵר מִשּׁוּם ״בַּל תַּשְׁחִית״. וְלָאו מִילְּתָא הִיא — ״בַּל תַּשְׁחִית״ דְּגוּפָא עֲדִיף.

E disse Rav Chisda: quem pode comer pão de cevada e come pão de trigo transgride o preceito de "não destruirás" (bal tashchit). E disse Rav Papa: quem pode beber cerveja e bebe vinho transgride "não destruirás". Mas isso não é correto — o "não destruirás" do cuidado com o corpo tem prioridade.

Nota

Rav Chisda e Rav Papa aplicam o princípio de bal tashchit — a proibição de desperdiçar recursos — à escolha entre alimentos mais baratos e mais caros, sugerindo que gastar mais do que o necessário constitui uma forma de destruição de bens. A guemará rejeita essa aplicação: o cuidado com a saúde e o vigor do próprio corpo tem prioridade sobre a economia de recursos, de modo que comer e beber o que é melhor para o corpo não é transgressão, ainda que custe mais.

1343Lavar-se com água de valas na falta de azeite; comprar carne do pescoço
Rav Chisda
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּלֵית לֵיהּ מִשְׁחָא — נִימְשֵׁי בְּמַיָּא דַחֲרִיצִי. וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּזָבֵין אוּמְצָא — לִיזְבֵּין אוּנְקָא, דְּאִית בֵּיהּ תְּלָתָא מִינֵי בִישְׂרָא.

E disse Rav Chisda: o estudioso que não tem azeite — que se lave (unte as mãos) com água de valas. E disse Rav Chisda: o estudioso que compra carne crua — que compre do pescoço, pois nele há três tipos de carne.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "delet leih mishcha", "bemaya dacharitzi", "unka" e "telata minei bisra"
דלית ליה משחא - שהיו סכין ידיהן שמן קודם מים אחרונים להעביר את הזוהמא: במיא דחריצי - הנקוים יחד וגדל עליהם ירקרוקית עבה ונוחה כשמן: אונקא - צואר: תלתא מיני בשרא - יטעום בו ג' מיני מטעמים שמן וכחוש וגיד הצואר:

"Que não tem azeite" — pois costumavam untar as mãos com azeite antes da água final (depois da refeição), para remover a sujeira.

"Com água de valas" — que se acumula, e sobre ela cresce uma camada verde espessa e macia como azeite.

"Do pescoço" — o pescoço do animal.

"Três tipos de carne" — poderá saborear três tipos de iguarias: gorda, magra, e o tendão do pescoço.

Nota

Mais dois conselhos práticos: na falta de azeite para untar as mãos depois da refeição — costume da época —, a água acumulada em valas, com sua camada verde e oleosa, pode servir de substituto; e, ao comprar carne, a peça do pescoço oferece a melhor relação de variedade, reunindo em si carne gorda, magra e o tendão.

1344A túnica de linho de Dinhar Abba, garantida por doze meses; a etimologia de "kitonita"
Rav Chisda
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב דְּזָבֵין כִּיתּוֹנִיתָא — לִיזְבַּן מִדִּנְהַר אַבָּא, וְנִיחַוְּורַהּ כֹּל תְּלָתִין יוֹמִין, דִּמְפַטְּיָא לֵיהּ תְּרֵיסַר יַרְחֵי שַׁתָּא, וַאֲנָא עָרְבָא. מַאי ״כִּיתּוֹנִיתָא״? — כִּיתָּא נָאָה.

E disse Rav Chisda: o estudioso que compra uma túnica de linho (kitonita) — que a compre de quem trabalha em Dinhar Abba, e a lave a cada trinta dias, pois isso a fará durar os doze meses do ano, e eu sou fiador disso. O que é "kitonita"? Vem de "classe agradável" (kitta na'ah — pois veste bem, dá boa aparência).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "midinhar abba", "dimfatya leih tereisar yarchei shata va'ana arva" e "kita na'ah"
מדנהר אבא - מאותו מקום שפשתנו יפה: דמפטיא ליה תריסר ירחי שתא ואנא ערבא - אני ערב בדבר שתתקיים לו שנה שלימה ותפטיהו שלא יצטרך לקנות חלוק: כיתא נאה - כת נאה ראויה להושיב בעליה בכת נאה:

"De Dinhar Abba" — daquele lugar cujo linho é de boa qualidade.

"Pois isso a fará durar os doze meses do ano, e eu sou fiador" — eu garanto que durará o ano inteiro, e o dispensará de precisar comprar outra túnica.

"Classe agradável" — uma classe boa, própria para colocar quem a veste entre pessoas de boa aparência.

Nota

Rav Chisda recomenda a origem específica do melhor linho e o cuidado da lavagem regular a cada trinta dias, garantindo pessoalmente que a peça durará o ano inteiro. A guemará aproveita para explicar a etimologia da palavra "kitonita" (túnica), ligando-a a "kitta na'ah" — uma vestimenta que confere boa aparência a quem a usa.

1345Não sentar em esteira nova; não confiar a roupa ao hospedeiro
Rav Chisda
וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב לָא לִיתִּיב אַצִּיפְּתָא חַדְתָּא, דִּמְכַלְּיָא מָאנֵיהּ. וְאָמַר רַב חִסְדָּא: בַּר בֵּי רַב לָא לִישַׁדַּר מָאנֵיהּ לְאוּשְׁפִּיזֵיהּ לְחַוּוֹרֵיהּ לֵיהּ, דְּלָאו אוֹרַח אַרְעָא, דִּילְמָא חָזֵי בֵּיהּ מִידֵּי וְאָתֵי לְמִגַּנְּיָא.

E disse Rav Chisda: o estudioso não deve sentar-se numa esteira nova, pois ela desgasta suas roupas. E disse Rav Chisda: o estudioso não deve enviar sua roupa ao seu hospedeiro para que a lave, pois isso não é um costume respeitoso — talvez ele veja nela algo, e venha a ser desprezado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "atzifta chadta", "le'ushpizeih lechavvoreih leih" e "dilma chazei beih midei"
אציפתא חדתא - מחצלת חדשה של גמי לח ולחלוחית הגמי מבלה הבגדים: לאושפיזא - לפונדקית שלו לא ישלח חלוקו ללבן: דילמא חזיא בהו - קרי ומגניא עליה:

"Esteira nova" — uma esteira nova de junco úmido, e a umidade do junco desgasta as roupas.

"Ao seu hospedeiro" — à sua hospedeira, não deve enviar sua túnica para que a lave.

"Talvez ele veja nela algo" — um sinal de emissão seminal, e seja desprezado por isso.

Nota

Dois últimos conselhos de decoro prático: evitar esteiras de junco recém-feitas, cuja umidade estraga as roupas; e não confiar a roupa pessoal a uma hospedeira para lavar, para não expor sinais íntimos que possam gerar constrangimento.

Os conselhos de Rav Chisda a suas filhas · תִּיהְוְיָין צְנִיעָן בְּאַפֵּי גַּבְרַיְיכוּ

1346Modéstia diante dos maridos: não comer pão diante deles
Rav Chisda a suas filhas
אֲמַר לְהוּ רַב חִסְדָּא לִבְנָתֵיהּ: תִּיהְוְיָין צְנִיעָן בְּאַפֵּי גַּבְרַיְיכוּ, לָא תֵּיכְלוּן נַהֲמָא בְּאַפֵּי גַבְרַיְיכוּ.

Disse-lhes Rav Chisda a suas filhas: sede modestas diante de vossos maridos; não comais pão diante de vossos maridos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "la teichlun nahama be'apei gavraichu"
לא תיכלון נהמא באפי גברייכו - פעמים תאכל הרבה ותתגנה עליו:

"Não comais pão diante de vossos maridos" — pois às vezes comeríeis demais, e seríeis desprezadas por ele.

Nota

Depois de citar os conselhos de Rav Chisda a estudiosos, a guemará traz seus conselhos a suas próprias filhas. O primeiro recomenda evitar comer diante dos maridos, para não correr o risco de comer demais e perder o respeito conjugal com isso.

1347Não comer verdura, tâmaras nem beber cerveja à noite; não se aliviar onde os maridos se aliviam
Rav Chisda a suas filhas
לָא תֵּיכְלוּן יַרְקָא בְּלֵילְיָא, לָא תֵּיכְלוּן תַּמְרֵי בְּלֵילְיָא, וְלָא תִּשְׁתּוֹן שִׁיכְרָא בְּלֵילְיָא, וְלָא תִּיפְּנוֹן הֵיכָא דְּמִפְּנוּ גַּבְרַיְיכוּ.

Não comais verdura à noite; não comais tâmaras à noite; e não bebais cerveja à noite; e não vos aliveis no lugar onde vossos maridos se aliviam.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "yarka belelya", "shichra vetamrei" e "heicha demifnu gavraichu"
לא תיכלון ירקא בלילה - מפני ריח הפה: שיכרא ותמרי - משלשלין ומביאין לידי הפחה: היכא דמפני גברייכו - בגילוי בפניהם בשדות ואפילו שלא בפניהם שמכיר מקומו ומקומכם ונמאסת' לו בזוכרו:

"Não comais verdura à noite" — por causa do mau hálito.

"Cerveja e tâmaras" — são laxativas, e causam flatulência.

"No lugar onde vossos maridos se aliviam" — abertamente na frente deles, nos campos, e mesmo não na frente deles, pois ele conhece o lugar dele e o vosso, e ficaríeis desprezadas a ele ao lembrar-se disso.

Nota

Continuam os conselhos práticos: evitar verdura à noite pelo mau hálito; evitar tâmaras e cerveja, que provocam efeitos indesejados; e nunca usar o mesmo local que os maridos para necessidades fisiológicas, mesmo sem sua presença, para preservar o respeito mútuo.

1348Ao atender à porta, usar o feminino "quem é"
Rav Chisda a suas filhas
וְכִי קָא קָארֵי אִינִישׁ אַבָּבָא — לָא תֵּימְרוּן ״מַנּוּ״, אֶלָּא ״מַנִּי״.

E, quando alguém chamar à porta, não digais "quem é" no masculino (mannu), mas sim "quem é" no feminino (manni).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "la teimrun mannu" e "ela manni"
לא תימרון מנו - מי הוא לשון זכר לא תרגילו לשונכם לדבר עם זכרים: אלא מני - מי היא:

"Não digais mannu" — "quem é ele", no masculino; não acostumeis vossa língua a se dirigir a homens com essa familiaridade.

"Mas sim manni" — "quem é ela", no feminino.

Nota

Um último conselho de discrição verbal: ao perguntar quem bate à porta, usar sempre a forma gramatical feminina, evitando qualquer familiaridade linguística que pudesse sugerir intimidade com homens fora do lar.

1349A parábola da pérola e do torrão de terra
Rav Chisda
נָקֵיט מַרְגָּנִיתָא בַּחֲדָא יְדֵיהּ וְכוּרָא בַּחֲדָא יְדֵיהּ. מַרְגָּנִיתָא — אַחְוִי לְהוּ, וְכוּרָא — לָא אַחְוִי לְהוּ עַד דְּמִיצְטַעֲרָן, וַהֲדַר אַחְוִי לְהוּ.

Rav Chisda segurava uma pérola numa mão e um torrão de terra na outra. A pérola — mostrava-lhes de imediato; e o torrão de terra — não lhes mostrava até que ficassem aflitas (de curiosidade), e só então lhes mostrava.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "nakit margenita bachada yedeih vechura bachada yedeih", "margenita achvi lehu" e "chura"
נקיט מרגניתא בחדא ידיה וכורא בחדא ידיה - כשבעליך ממשמש ביך להתאוות ליך לתשמיש ואוחז הדדים בידו אחת והאחרת עד אותו מקום: מרגניתא אחוין ליה - הדדין המציאי לו שתתרבה תאותו ומקום תשמיש אל תמציאי לו מהר כדי שיתרבה תאותו וחיבתו ויצטער הדר אחוי ליה: כורא - לשון כור צורפין (לעיל שבת דף עח.) לשון אחר בור לשון בור שוחה:

"Segurava uma pérola numa mão e um torrão de terra na outra" — isto é, quando teu marido te toca, para desejar-te para a relação conjugal, e segura os seios com uma mão e a outra até aquele lugar (as partes íntimas) — a pérola (os seios), oferece-lhe de imediato, para que aumente o seu desejo; o lugar da relação, não lhe ofereças depressa, para que aumente o seu desejo e o seu apego, e ele se aflija, e só então lhe mostra.

"Torrão de terra (chura)" — na acepção de forno de fundição (acima, Shabat 78a); outra explicação: na acepção de "poço", como em "cova" (bor shucha).

Nota

Rav Chisda ilustra a seus filhas, com uma demonstração física, o valor pedagógico da reserva: a pérola, valiosa, ele mostrava sem demora; o torrão de terra, sem valor, retinha até que a curiosidade delas se tornasse aflição, e só então revelava — mostrando que até o comum ganha atrativo quando não se entrega de imediato. Rashi lê essa parábola como referência velada à conduta na intimidade conjugal: assim como a mãe ensina a valorizar o que não se entrega depressa, a esposa deve, no âmbito íntimo, oferecer afeto com naturalidade, mas reservar o que aumenta o desejo e o apego do marido, sem pressa.

Retorno à Mishná do chiltit; nova Mishná sobre o cocho do animal engordado · גּוֹרְפִין מִלִּפְנֵי הַפַּטָּם

1350A Mishná não segue Rabi Eliezer ben Yaakov, que proíbe olhar para a peneira
Anônimo da guemará; Rabi Eliezer ben Yaakov
אֵין שׁוֹלִין אֶת הַכַּרְשִׁינִין. מַתְנִיתִין דְּלָא כִי הַאי תַּנָּא, דְּתַנְיָא, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב אוֹמֵר: אֵין מַשְׁגִּיחִין בַּכְּבָרָה כׇּל עִיקָּר.

Ensinamos na Mishná (140a): "não se lava por imersão os karshinin". A guemará observa: a Mishná não está de acordo com este tanna, pois foi ensinado: Rabi Eliezer ben Yaakov diz: não se olha para a peneira em absoluto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "matnitin"
מתניתין - דקתני אבל נותנין לתוך הכברה:

"A Mishná" — que ensina: "mas coloca-se dentro da peneira".

Nota

A guemará volta brevemente à Mishná do daf anterior sobre os karshinin, que permitia colocá-los numa peneira ou cesto mesmo sabendo que o refugo cairia por si só. Uma baraita traz a opinião mais restritiva de Rabi Eliezer ben Yaakov, que proíbe até mesmo olhar para a peneira nessas condições, por temor de que isso leve à separação intencional — mostrando que a Mishná do tratado segue a posição mais permissiva dos sábios anônimos, e não a dele.

Mishná
מַתְנִי׳ גּוֹרְפִין מִלִּפְנֵי הַפַּטָּם וּמְסַלְּקִין לִצְדָדִין מִפְּנֵי הָרְעִי, דִּבְרֵי רַבִּי דּוֹסָא, וַחֲכָמִים אוֹסְרִין. נוֹטְלִין מִלִּפְנֵי בְּהֵמָה זוֹ וְנוֹתְנִין לִפְנֵי בְּהֵמָה זוֹ בְּשַׁבָּת.

Varre-se o cocho de diante do animal que se engorda, e afasta-se a palha para os lados por causa do esterco — palavras de Rabi Dosa; e os sábios proíbem. Toma-se comida de diante deste animal e coloca-se diante daquele animal, no Shabat.

Nota — nova Mishná

Encerrado o excurso sobre os karshinin e as máximas de Rav Chisda, uma nova Mishná se inicia, dentro do mesmo Perek Vinte (Tolin) — não o começo de um novo capítulo, que só ocorrerá em 141b:19. Rabi Dosa permite varrer o cocho e afastar a palha excedente para os lados, para que o animal engordado não a pise junto ao esterco; os sábios proíbem esses dois atos. A Mishná acrescenta, por unanimidade, que se pode transferir comida de diante de um animal para diante de outro no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "gorfin milifnei hapatam", "umesalkin", "vachachamim osrin" e "notlin milifnei behemah zo"
מתני' גורפין מלפני הפטם - שור שמפטמין אותו גורפין אבוס שלפניו בשבת לתת לתוכו התבן והשעורין ולא יתערב בהן עפרורית ויקוץ במאכלו: ומסלקין - תבן שלפניו לצדדין כשהוא רב כדי שלא ידרסנו ברעי: וחכמים אוסרים - מפ' בגמ' אהיא: ונוטלין מלפני בהמה זו - שעורין ותבן ונותנין לפני זו ולא אמרינן טלטול דלא חזי הוא אלא ודאי חזי הוא דאין בהמה קצה במאכל הניטל מלפני חבירתה:

"Mishná: varre-se de diante do animal que se engorda" — um boi que se engorda; varre-se, no Shabat, o cocho que está diante dele, para colocar nele a palha e a cevada, e para que não se misture nelas pó, e o animal venha a se enojar de sua comida.

"E afasta-se" — a palha que está diante dele, para os lados, quando é abundante, para que ele não a pise junto ao esterco.

"E os sábios proíbem" — a Guemará explica sobre qual das duas cláusulas.

"E toma-se de diante deste animal" — cevada e palha, e coloca-se diante daquele; e não dizemos que se trata de mover algo impróprio, mas sim que certamente é próprio, pois um animal não se enoja da comida tomada de diante de outro.

1351Indagação: os sábios discordam da primeira cláusula, da última, ou de ambas?
Anônimo da guemará
גְּמָ׳ אִיבַּעְיָא לְהוּ: רַבָּנַן אַרֵישָׁא פְּלִיגִי, אוֹ אַסֵּיפָא פְּלִיגִי, אוֹ אַתַּרְוַיְיהוּ פְּלִיגִי?

Guemará: indagaram: os sábios discordam de Rabi Dosa quanto à primeira cláusula (varrer o cocho), ou discordam quanto à última (afastar a palha), ou discordam de ambas?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "arisha pligi" e "o asseifa pligi"
גמ' ארישא פליגי - אגורפין ואסרי לגרוף משום דפעמים שהאבוס של קרקע וקא מכוין לאשוויי גומות שלא יפלו השעורים לתוכו: או אסיפא פליגי - ומשום דלא חזי שיש בו שנמאס במדרס רגליו:

"Discordam quanto à primeira cláusula" — isto é, quanto a varrer, proibindo-o, pois às vezes o cocho é de terra, e há quem tenha a intenção de nivelar buracos, para que a cevada não caia neles.

"Ou discordam quanto à última" — pois a palha empurrada para os lados não é própria, já que se torna repugnante ao ser pisada.

Nota

A guemará abre sua análise da disputa com uma indagação estrutural: a proibição dos sábios se aplica apenas ao ato de varrer o cocho (por risco de nivelar buracos), apenas ao ato de afastar a palha (por torná-la imprópria ao ser pisada), ou a ambos os atos da Mishná?

1352Resposta: uma baraita mostra que discordam de ambas as cláusulas
Baraita
תָּא שְׁמַע, דְּתַנְיָא: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה — לֹא יְסַלְּקֶנּוּ לִצְדָדִין.

Venha e ouça, pois foi ensinado: e os sábios dizem: tanto isto quanto aquilo (varrer o cocho e afastar a palha) — não se deve afastar para os lados.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ta shema" e "echad zeh ve'echad zeh"
תא שמע - דאתרוייהו פליגי: אחד זה ואחד זה - אחד גריפת האבוס ואחד תבן שלפניו לא יסלקנו לצדדין:

"Venha e ouça" — a resolução: que discordam de ambas as cláusulas.

"Tanto isto quanto aquilo" — tanto varrer o cocho quanto afastar a palha diante dele — não se deve afastá-la para os lados.

Nota

Uma baraita resolve a indagação: os sábios discordam de Rabi Dosa em ambas as cláusulas da Mishná, proibindo tanto varrer o cocho quanto afastar a palha para os lados.

1353Rav Chisda distingue cocho de terra e cocho que é utensílio — depois corrigido
Rav Chisda
אָמַר רַב חִסְדָּא: מַחֲלוֹקֶת בְּאֵיבוּס שֶׁל קַרְקַע, אֲבָל בְּאֵיבוּס שֶׁל כְּלִי — דִּבְרֵי הַכֹּל מוּתָּר. וְאֵיבוּס שֶׁל קַרְקַע מִי אִיכָּא לְמַאן דְּשָׁרֵי?! הָא קָא מַשְׁוֵי גּוּמּוֹת! אֶלָּא, אִי אִיתְּמַר הָכִי אִיתְּמַר: אָמַר רַב חִסְדָּא מַחֲלוֹקֶת בְּאֵיבוּס שֶׁל כְּלִי, אֲבָל בְּאֵיבוּס שֶׁל קַרְקַע — דִּבְרֵי הַכֹּל אָסוּר.

Disse Rav Chisda: a disputa é quanto a um cocho de terra; mas, quanto a um cocho que é utensílio — segundo todos, é permitido. A guemará objeta: mas, quanto a um cocho de terra, há alguém que permita?! Isso é nivelar buracos! Mas, se foi dito, foi dito assim: disse Rav Chisda: a disputa é quanto a um cocho que é utensílio; mas, quanto a um cocho de terra — segundo todos, é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shel karka" e "machloket be'eivus shel kli"
של קרקע - כעין שעושין גדר קטן לפני בהמה ונותנין מאכל לפנים ממנו דאיכא למיחש לאשוויי גומות: מחלוקת באבוס של כלי - וגזרו רבנן גזרה אטו של קרקע:

"De terra" — como um pequeno muro que se faz diante do animal, colocando a comida dentro dele, onde há que se temer o nivelamento de buracos.

"A disputa é quanto ao cocho que é utensílio" — pois os sábios decretaram um decreto por causa do cocho de terra.

Nota

Rav Chisda propõe uma distinção entre dois tipos de cocho: quanto ao formado na própria terra, a disputa se aplicaria; quanto ao que é um utensílio móvel, todos concordariam em permitir. A guemará rejeita essa formulação como incoerente — pois num cocho de terra ninguém poderia permitir, dado o risco claro de nivelar buracos, uma violação de arar ou construir — e corrige a tradição: a disputa recai apenas sobre o cocho que é utensílio, enquanto o de terra é proibido por consenso, como decreto preventivo.

1354Contradição entre duas baraitot sobre animais de boca boa e de boca ruim
Baraitot
וְנוֹטְלִין מִלִּפְנֵי בְּהֵמָה. תְּנָא חֲדָא: נוֹטְלִין מִלִּפְנֵי בְּהֵמָה שֶׁפִּיהָ יָפֶה וְנוֹתְנִין לִפְנֵי בְּהֵמָה שֶׁפִּיהָ רַע. וְתַנְיָא אִידַּךְ: נוֹטְלִין מִלִּפְנֵי בְּהֵמָה שֶׁפִּיהָ רַע וְנוֹתְנִין לִפְנֵי בְּהֵמָה שֶׁפִּיהָ יָפֶה!

Ensinamos na Mishná: "e toma-se de diante de um animal e coloca-se diante de outro". Sobre isso, uma baraita ensinou: toma-se de diante de um animal de boca boa e coloca-se diante de um animal de boca ruim. E outra baraita ensinou: toma-se de diante de um animal de boca ruim e coloca-se diante de um animal de boca boa! Há aqui uma contradição.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shepiha yafeh"
שפיה יפה - לקמיה מפרש:

"De boca boa" — mais adiante se explica o que isso significa.

Nota

A guemará retorna à última cláusula da Mishná, sobre transferir comida entre animais, e nota uma contradição aparente entre duas baraitot: uma permite tomar de um animal "de boca boa" para dar a um "de boca ruim"; a outra ensina exatamente o oposto.

1355Abaye resolve: do jumento para o boi, sim; do boi para o jumento, não — interrompido
Abaye
אָמַר אַבָּיֵי: אִידֵּי וְאִידֵּי מִקַּמֵּי חַמְרָא לְקַמֵּי תוֹרָא — שָׁקְלִינַן, מִקַּמֵּי תוֹרָא לְקַמֵּי חַמְרָא — לָא שָׁקְלִינַן. וְהָא דְּקָתָנֵי ״נוֹטֵל מִלִּפְנֵי בְּהֵמָה שֶׁפִּיהָ יָפֶה״ — בַּחֲמוֹר, דְּלֵית לֵיהּ רִירֵי. ״וְנוֹתְנִין לִפְנֵי בְּהֵמָה שֶׁפִּיהָ רַע״ — בְּפָרָה, [...]

Disse Abaye: ambas as baraitot concordam que, de diante de um jumento para diante de um boi — toma-se; de diante de um boi para diante de um jumento — não se toma. E o que se ensina "toma-se de diante de um animal de boca boa" — refere-se ao jumento, que não tem saliva. "E coloca-se diante de um animal de boca ruim" — refere-se à vaca, [o ensinamento é interrompido aqui, ao final do daf, e prossegue em Shabat 141a].

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "idi ve'idi", "mikamei chamra lekamei tora shaklinan" e "mikamei tora lekamei chamra lo shaklinan"
אידי ואידי - שתיהן המשניות סבירא להו: מקמי חמרא לקמי תורא שקלינן - שאינו מטיל רירין ואין מה שלפניו נמאס וראוי לתתו לפני שור: מקמי תורא לקמי חמרא לא שקלינן - דאית לה רירי ואימאיס והא דקרי לה הכא פיה יפה והכא פיה רע כדמפרש ואזיל פיה יפה דלית ליה רירי פיה רע דלא דייק ואכיל שאוכל קוצים וברקנים:

"Ambas" — as duas baraitot concordam quanto a isso.

"De diante de um jumento para diante de um boi — toma-se" — pois ele (o jumento) não solta saliva, e o que está diante dele não fica repugnante, sendo próprio para se dar a um boi.

"De diante de um boi para diante de um jumento — não se toma" — pois ele (o boi) tem saliva, e a comida fica repugnante; e o que se chama aqui "boca boa" e ali "boca ruim", como se explica adiante: "boca boa" é o animal que não tem saliva; "boca ruim" é o que não é cuidadoso ao comer, comendo espinhos e cardos sem discriminar.

Nota

Abaye resolve a contradição entre as duas baraitot mostrando que, na verdade, ambas concordam sobre a regra prática — do jumento para o boi, sim; do boi para o jumento, não —, e a aparente discrepância se deve a que cada uma usa os termos "boca boa" e "boca ruim" para descrever o mesmo animal por um critério diferente: o jumento, sem saliva, não suja a comida (por isso "boca boa"); o boi, com saliva, suja a comida deixada para trás. O ensinamento de Abaye sobre a vaca — segundo Rashi, o outro exemplo de "boca ruim", por comer sem discriminar espinhos e cardos — é interrompido exatamente aqui, ao final do daf.

O daf termina aqui, no meio da explicação de Abaye sobre a vaca. O restante do Perek Vinte (Tolin) prossegue em Shabbat 141a.