Terceira halachá do Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin (penduram-se). A Mishná ensina que não se põe de molho a chiltit (assa-fétida) em água morna, mas se põe no vinagre; que não se põem de molho os karshinin (ervilhacas), nem se esfregam, mas se põem numa tigela ou num cesto; e que não se peneira a palha no crivo, nem se põe num lugar alto para que caia a palha miúda, mas se leva no crivo até a manjedoura. A guemará traz a leitura de Rabi Mana, que põe a chiltit no vinagre diante de si; a palavra de Rav Huna, de que em água fria é permitido, e a de Rabi Yochanan em nome de Rabi Yanai, de que mesmo em água fria é proibido; a água de chiltit, que se bebe no Shabat, e a palavra de Shmuel, de que a chiltit é alimento dos sãos; o peso de um zuz e Rabi Ba; e as razões da Mishná: escolher, debulhar e peneirar. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 140a.
Mishná: Não se põe de molho a chiltit (assa-fétida) em posherin (água morna), mas põe-na dentro do vinagre. Não se põem de molho os karshinin (ervilhacas), nem se esfregam; mas a pessoa os põe dentro da keará (tigela) ou dentro da kalkalá (cesto). Não se peneira a palha na kevará (crivo), nem a ponha num lugar alto para que desça o motz (a palha miúda); mas toma-se a palha no crivo e põe-se dentro da manjedoura.
Disse Rabi Mana: assim é a leitura da Mishná: “mas põe-na diante de si dentro do vinagre”. Rav Huna disse: não ensinaram isso senão sobre água morna; portanto, em tzonin (água fria), pô-la de molho é permitido. Rabi Yochanan disse em nome de Rabi Yanai: mesmo em água fria isso é proibido. Disse-lhe Rabi Yochanan: e não é verdade que não ensinaram senão sobre água morna? Então, em vão nos esforçamos?
Rav Huna disse: quanto à água de chiltit, em que ela ficou de molho, é permitido bebê-la no Shabat. Shmuel disse: a própria chiltit é alimento de pessoas sãs. Rav Huna disse: quem come dela o peso de um zuz (moeda de prata) corre perigo de vida, e a sua pele se solta. Rabi Ba comeu dela o peso de um zuz e partiu para o rio.
“Não se põem de molho os karshinin”: é proibido por causa de borer (o que escolhe). “E não se esfregam”: é proibido por causa de dash (o que debulha). “Não se peneira a palha no crivo, nem a ponha num lugar alto para que desça a palha miúda”: é proibido por causa de merakked (o que peneira).
Esta é a terceira halachá do Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 20:3 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria. As diferenças: a avulsa diz בְּפוֹשְׁרִין, sem artigo, onde o Yerushalmi diz בַּפּוֹשְׁרִין; diz אֲבָל נוֹתֵן, sem o pronome, onde o Yerushalmi diz אֲבָל נוֹתְנָהּ, “põe-na”; liga com vav, וְאֵין שׁוֹרִין אֶת הַכַּרְשִׁינִין; diz לְתוֹךְ הַכְּבָרָה, “dentro do crivo”, onde o Yerushalmi diz נוֹתֵן הוּא לְתוֹךְ הַקְעָרָה, “a pessoa os põe dentro da tigela”; vocaliza הַכַּלְכַּלָּה, onde o Yerushalmi vocaliza הַכַּלְכָּלָה; diz בִּכְבָרָה e בִכְבָרָה, onde o Yerushalmi diz בַּכְּבָרָה e בַכְּבָרָה; diz עַל גַּבֵּי מָקוֹם גָּבוֹהַּ, onde o Yerushalmi diz בְמָקוֹם גָּבוֹהַּ; escreve הַמֹּץ, onde o Yerushalmi escreve הַמּוֹץ; e diz נוֹטֵל הוּא, onde o Yerushalmi diz só נוֹטֵל. Só a diferença entre a tigela e o crivo muda o que se diz; as outras não mudam o sentido. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os outros três são a guemará; cada um deles forma uma seção, 01, 02 e 03, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; não há marcador numérico depois deles, e não inventamos nenhum. Na seção 01, o Sefaria traz embutido, antes de עַל חִנָּם יָגַעְנוּ, o marcador da folha 91b da edição de Vilna, que tiramos; não há marcador de coluna da edição de Veneza. Na seção 02, o Sefaria traz (הוּא) [הִיא], isto é, o texto do manuscrito, no masculino, entre parênteses, e a correção, no feminino, entre colchetes; mantivemo-los no hebraico, e o português, “a própria chiltit é”, segue a correção, que concorda com חִלְתִּית, feminino. Na seção 03, as citações da Mishná dizem וְאֵין שָׁפִין, onde a Mishná diz וְלֹא שָׁפִין, e יִתְּנֶנָּהּ, no feminino, onde a Mishná diz יִתְּנֶנּוּ; nenhuma das duas muda o sentido. רִבִּי מָנָא é “Rabi Mana”, רַב הוּנָא é “Rav Huna”, רִבִּי יוֹחָנָן é “Rabi Yochanan”, רִבִּי יַנַּאי é “Rabi Yanai”, שְׁמוּאֵל é “Shmuel” e רִבִּי בָּא é “Rabi Ba”, como nas halachot anteriores deste tratado.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 140a, e ali se lê וְאֵין שׁוֹלִין אֶת הַכַּרְשִׁינִין, onde o Yerushalmi diz שׁוֹרִין, e לְתוֹךְ הַכְּבָרָה, como a Mishná avulsa. Em 140a, Rabi Yochanan pergunta a Rabi Yanai se se pode pôr a chiltit de molho em água fria; ele responde que é proibido; Rabi Yochanan objeta com a Mishná, que fala só de água morna, e Rabi Yanai responde אִם כֵּן מַה בֵּין לִי וְלָךְ, “se é assim, que diferença há entre mim e ti?”, e que a Mishná é opinião isolada, segundo a baraita: não se põe a chiltit de molho nem em água quente nem em água fria, e Rabi Yossi diz que em água quente é proibido e em água fria é permitido. É a mesma discussão da nossa seção 01, onde Rav Huna permite a água fria. Também em 140a, Rav Chiya bar Avin conta que perguntou a Rav Huna, e este disse em nome de Rav: שׁוֹרֶה בְּצוֹנֵן וּמַנִּיחַ בַּחַמָּה, “põe de molho em água fria e deixa ao sol”; e ensinou-se na escola de Rav Adda: שׁוֹתֶה אָדָם קַב אוֹ קַבַּיִים וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ, “uma pessoa bebe um kav ou dois kav e não se preocupa”, que corresponde à água de chiltit que Rav Huna permite beber na nossa seção 02. Em 140b, sobre os karshinin, o Bavli diz que a Mishná não é como Rabi Eliezer ben Yaakov, que ensina: אֵין מַשְׁגִּיחִין בַּכְּבָרָה כׇּל עִיקָּר, “não se dá atenção ao crivo de modo algum”. Na Tosefta Shabbat 16:3 (ed. Lieberman): אין שורין את החלתית בשבת. ר׳ יוסה או׳ בצונן מותר, בחמין אסור, “não se põe a chiltit de molho no Shabat; Rabi Yossi diz: em água fria é permitido, em água quente é proibido”.
Observações de leitura. Na seção 01, a leitura de Rabi Mana acrescenta לְפָנָיו, “diante de si”; entendemos que se põe a chiltit no vinagre só para uso imediato, e não para deixá-la de molho. Rav Huna entende, da palavra “água morna”, que a água fria é permitida; Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yanai, proíbe mesmo a água fria. “Disse-lhe Rabi Yochanan” não diz a quem; no Bavli, é a Rabi Yanai que ele objeta, e assim parece ser aqui. A frase final, אֶלָּא עַל חִנָּם יָגַעְנוּ, lemos como pergunta: se a água fria também é proibida, a palavra “água morna” na Mishná teria sido em vão; a leitura é incerta. Na seção 02, a palavra de Shmuel parece explicar por que se pode beber a água de chiltit no Shabat: a chiltit não é só remédio, mas alimento de sãos. O “peso de um zuz” é a quantidade de chiltit; a pele que “se solta” traduz עוֹרוֹ נֶחֱלַץ ao pé da letra. וּפְרַשׁ לִנְהָרָא, “e partiu para o rio”, é incerto: pode ser que Rabi Ba foi ao rio para se refrescar do efeito da chiltit, e não fica claro se entrou na água. Na seção 03, as razões dadas para as proibições da Mishná são três das trinta e nove melachot: pôr os karshinin de molho para separá-los da palha é escolher; esfregá-los para tirar-lhes a palha é debulhar; e peneirar a palha, ou deixá-la cair do alto para que se separe a palha miúda, é peneirar. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz הַקְעָרָה por “pot”, הַכַּלְכָּלָה por “bag” e שָׁפִין por “smooth”; mantivemos “tigela”, “cesto” e “esfregar”. Na seção 01, ele traz “(But) {He said to him]”, com uma leitura de outro manuscrito, “disse-lhe”, em lugar de אֶלָּא; o hebraico do Sefaria diz אֶלָּא, e seguimo-lo, “então”. Na seção 02, ele escreve “Rebbi Abba”, onde o hebraico diz רִבִּי בָּא, e traduz וּפְרַשׁ לִנְהָרָא por “jumped in the river”; seguimos o hebraico, “Rabi Ba” e “partiu para o rio”. Na seção 03, ele acrescenta “It was stated:”, de outro manuscrito; não está no hebraico do Sefaria, e não o acrescentamos. Ele escreve “Rebbi Mana”, “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Yannai” e “Samuel”; mantivemos “Rabi Mana”, “Rabi Yochanan”, “Rabi Yanai” e “Shmuel”, como nas halachot anteriores deste tratado. A sua remissão ao Bavli Shabbat 140a, para a água fria, foi conferida e está correta, e também a sua observação de que a Mishná, ao falar só de água morna, segue Rabi Yossi, como explica a baraita citada ali.
A Mishná seguinte, Shabbat 20:4, na numeração do Sefaria, começa גּוֹרְפִין מִלִּפְנֵי הַפְּטָם, “raspa-se de diante do boi de engorda”; no Bavli, ela está em Shabbat 140b.