Quinta e última halachá do Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin (penduram-se). A Mishná ensina que a palha que está sobre a cama não se mexe com a mão, mas com o corpo, e que se mexe com a mão se é comida de animal ou se há sobre ela uma almofada ou um lençol; que a prensa dos donos de casa se solta, mas não se prensa com ela, e que na dos lavadeiros não se toca; e que, segundo Rabi Yehudá, se ela estava solta desde a véspera do Shabat, soltam-se as roupas e tiram-se dela. A guemará explica que a Mishná fala de quem não dormiu sobre a palha desde a véspera; traz a pergunta dos primeiros, na palavra de Rabi Yaakov bar Idi, sobre mexê-la pelas juntas dos braços, os ditos de Rabi Yanai e o ensino de Rabi Chiya, de que esta lei é para o pobre; e confronta a Mishná com a baraita dos lacres no chão, de que se conclui que a prensa foi feita como o chão, como diz Rabi Yossi que a própria Mishná ensina. Com ela se encerra o Perek Kaf, Tolin; o tratado continua no Perek Kaf-Alef, Notel Adam et Beno. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 141a.
Mishná: A kash (palha) que está sobre a cama, não a mexa a pessoa com a mão, mas mexe-a com o seu corpo. Se era destinada a comida de animal, ou se havia sobre ela uma kar (almofada) ou um sadin (lençol), mexe-a com a mão. A machbesh (prensa) dos donos de casa, solta-se, mas não se prensa com ela; e a dos kovsin (lavadeiros), não se toque nela. Rabi Yehudá diz: se estava solta desde a véspera do Shabat, a pessoa solta as suas roupas e tira-as dela.
“A palha que está sobre a cama.” A Mishná fala do caso em que a pessoa não dormiu sobre ela desde ontem; mas, se dormiu sobre ela desde ontem, ela é como o seu corpo. Disse Rabi Yaakov bar Idi: os primeiros sábios perguntavam: que é a lei quanto a mexê-la, à palha, por meio das juntas dos seus braços? Disse Rabi Yanai: rapar o calvo, despojar o despojado; derrama frio sobre aquele por quem o frio já passou; caiu a sua casa sobre aquele que já jazia nela. Ensinou Rabi Chiya: esta lei é para o pobre.
Mas não se ensina: “Concordam os Sábios com Rabi Meir, quanto aos chotamot (lacres) que estão no chão, que em Yom Tov (dia festivo) se afrouxam, e se arrancam, e se desatam, e se cortam. No Shabat, afrouxam-se, mas não se arrancam, nem se desatam, nem se cortam. Nos utensílios, no Shabat tudo é permitido, e não há necessidade de dizê-lo em Yom Tov”? Isto diz: a prensa, fizeram-na os Sábios como o chão. Disse Rabi Yossi: a Mishná o disse assim: “e a dos lavadeiros, não se toque nela”.
Esta é a quinta e última halachá do Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 20:5 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, a última do capítulo. As diferenças: o Yerushalmi escreve הַמִּיטָּה e מוּתָּר, onde a avulsa escreve הַמִּטָּה e מֻתָּר; diz לֹא יְנַעְנְעֶנּוּ, onde a avulsa diz לֹא יְנַעְנְעוֹ; diz אֲבָל מְנַעֲנְעוֹ, “mas mexe-a”, onde a avulsa diz אֶלָּא מְנַעְנְעוֹ, “senão que a mexe”; diz אִם הָיָה, onde a avulsa diz וְאִם הָיָה, com vav; e, no fim, diz מַתִּיר אֶת כֵּלָּיוֹ וְשׁוֹמְטָן, “solta as suas roupas e tira-as”, onde a avulsa diz מַתִּיר אֶת כֻּלּוֹ וְשׁוֹמְטוֹ, “solta-a toda e tira-o”. Só esta última diferença muda o que se diz: no Yerushalmi, o que se solta são as roupas; na avulsa, é a prensa inteira. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os outros dois são a guemará; cada um deles forma uma seção, 01 e 02, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; não há marcador numérico depois deles, e não inventamos nenhum. Tiramos também um marcador embutido que não faz parte do texto: o da folha 92a da edição de Vilna, na seção 02, entre אָמַר רִבִּי יוֹסֵי e מַתְנִיתָא אָמְרָה כֵן. Não há colchetes nem parênteses no hebraico desta halachá. Mantivemos como estão no Sefaria as grafias דעדי e דרויה, sem vocalização, e שֶׁבְּקַרְקַע. רִבִּי יְהוּדָה é “Rabi Yehudá”; רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי é “Rabi Yaakov bar Idi”; רִבִּי יַנַּאי é “Rabi Yanai”; רִבִּי חִיָיה é “Rabi Chiya”; רִבִּי מֵאִיר é “Rabi Meir”; e רִבִּי יוֹסֵי é “Rabi Yossi”, como nas halachot anteriores deste tratado.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 141a, e ali se lê, como na avulsa, אֶלָּא מְנַעַנְעוֹ e מַתִּיר אֶת כּוּלּוֹ וְשׁוֹמְטוֹ. A guemará do Bavli traz a palavra de Rav Nachman sobre o rabanete: do alto para baixo é permitido, de baixo para o alto é proibido; e Rav Adda bar Abba diz, em nome da casa de Rav, que a nossa Mishná, citada com אֲבָל מְנַעַנְעוֹ, como no Yerushalmi, ensina o contrário de Rav Nachman, e conclui: טִלְטוּל מִן הַצַּד לָא שְׁמֵיהּ טִלְטוּל, “mover de lado não se chama mover”. Em Shabbat 141b, perto do fim do capítulo, uma baraita traz Rabi Yehudá em nome de Rabi Eliezer sobre o sapato posto na forma: אִם הָיָה רָפוּי מוּתָּר, “se estava frouxo, é permitido” tirá-lo; e com ela se encerra ali o capítulo Tolin. A Tosefta Shabbat 16:5 (ed. Lieberman) diz: הקש שישן עליו מערב שבת מנענעו בידו בשבת, לא ישן עליו מערב שבת לא ינענענו בשבת בידו, “a palha sobre a qual dormiu desde a véspera do Shabat, mexe-a com a mão no Shabat; se não dormiu sobre ela desde a véspera do Shabat, não a mexa com a mão no Shabat”; e acrescenta que, da prensa dos donos de casa que se soltou para tirar dela as roupas, toma-se a vara e as tábuas e devolvem-se à arca, porque são utensílios. A baraita da seção 02 está na Tosefta Beitzah 3:12 (ed. Lieberman), com outra redação: ali, os lacres no chão se afrouxam, se desatam e se arrancam, mas não se cortam; e, no Shabat, se afrouxam e se desatam, mas não se arrancam nem se cortam. Com a redação do nosso texto, a mesma baraita está no Yerushalmi Beitzah 4:3, décimo segundo segmento na numeração do Sefaria, que diz וְאֵין צוֹרֶךְ לוֹמַר בְּיוֹם טוֹב, “e não há necessidade de dizer em Yom Tov”, e já apareceu neste tratado na halachá 15:2, seção 02. No Bavli, ela está em Beitzah 31b: Shmuel diz que, nos lacres no chão, se desata, mas não se arranca nem se corta, e, nos dos utensílios, se desata, se arranca e se corta, tanto no Shabat como em Yom Tov; e a guemará traz a baraita: מוֹדִים חֲכָמִים לְרַבִּי מֵאִיר בְּחוֹתָמוֹת שֶׁבַּקַּרְקַע, “concordam os Sábios com Rabi Meir quanto aos lacres no chão”. Em Shabbat 146a, o Bavli não fala dos lacres no chão, mas traz duas baraitot sobre as cestas de figos secos e de tâmaras: uma diz מַתִּיר וּמַפְקִיעַ וְחוֹתֵךְ, “desata, arranca e corta”, e a outra, מַתִּיר אֲבָל לֹא מַפְקִיעַ וְלֹא חוֹתֵךְ, “desata, mas não arranca nem corta”, a primeira segundo os rabinos e a segunda segundo Rabi Nechemyá. Ali está a Mishná Shabbat 22:3, que ensina que uma pessoa quebra o barril para comer dele figos secos, contanto que não tenha a intenção de fazer um utensílio, e traz a discussão de Rabi Yehudá e dos Sábios sobre furar a tampa do barril.
Observações de leitura. Segundo o Korban HaEdá, a palha da Mishná, sem outra destinação, está posta para acender o fogo, e por isso é muktzé (o que foi posto de lado e não se move no Shabat); mexê-la com o corpo, com os ombros, é mover de lado, como no Bavli; e a almofada ou o lençol sobre ela mostram que foi destinada a deitar-se. Na seção 01, “como o seu corpo” traduz כְּגוּפוֹ, que pode ser o corpo da cama, da qual a palha passa a fazer parte, ou o corpo do homem: o Penei Moshe entende que se pode mexê-la com a mão como com o corpo, e o Korban HaEdá, que ela é como a roupa da pessoa. “Por meio das juntas dos seus braços” traduz דֶּרֶךְ אֲצִילֵי יָדָיו; entendemos os cotovelos, um modo diferente do habitual, como diz o Korban HaEdá. Os ditos de Rabi Yanai são de leitura incerta. O Penei Moshe os entende como provérbios populares: diz-se “rapa” a quem já é meio calvo, “despoja” a quem já foi despojado, derrama-se água fria sobre quem já passou frio, e a casa cai sobre quem já está caído; assim os primeiros, vendo que se permitiu mexer a palha com o corpo, quiseram acrescentar as juntas dos braços. O Korban HaEdá os entende como uma maldição de Rabi Yanai contra quem se permite mexê-la pelas juntas dos braços, e lê צְנִינִים como espinhos. Traduzimos as palavras como estão, sem decidir entre as duas leituras; “o frio já” e “já” vão em itálico porque completam a frase segundo o Penei Moshe. A frase de Rabi Chiya, הָדֵין דִּין לְעָנִי, “esta lei é para o pobre”, o Korban HaEdá entende como “ao pobre se amaldiçoa, mas ao rico se multa”; o Penei Moshe lê לְעָנִי como לְעַיּוּנֵי, “esta lei precisa ser examinada”. A machbesh é, segundo o Korban HaEdá, feita de duas tábuas compridas e pesadas, a de baixo presa a colunas furadas, e a de cima, que sobe e desce e se trava com cavilhas; soltá-la é tirar a cavilha para tomar as roupas, que é necessidade do Shabat, e prensar é necessidade dos dias de semana. Sobre a prensa dos lavadeiros, o Penei Moshe diz que eles cuidam dela para que não se estrague, e por isso é muktzé por causa da perda de dinheiro; o Korban HaEdá diz que é feita para preparar as roupas e se aperta com força, e soltá-la parece demolir. Na seção 02, segundo o Korban HaEdá, os lacres no chão são as portas das covas e das grutas fechadas com nós de corda, e, nos utensílios, como uma arca fechada com corda, não há demolição; a pergunta é por que a Mishná proíbe tocar na prensa, que é um utensílio, e a resposta, que a fizeram como o chão. Rabi Yossi mostra que a própria Mishná o indica, pois a regra dos lacres no chão permite ao menos afrouxá-los no Shabat, e a Mishná não permite sequer tocar na prensa dos lavadeiros. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz מַכְבֵּשׁ por “clothes press” e מַתִּירִין e מוּתָּר por “open”; mantivemos “prensa”, “solta-se” e “solta”. No fim da Mishná, ele traduz וְשׁוֹמְטָן por “lets it drop”, referindo-se à prensa; o hebraico tem o plural, e seguimos “tira-as”, as roupas. Na seção 01, ele traduz אֲצִילֵי יָדָיו por “fingertips”; mantivemos “juntas dos braços”. Nos ditos de Rabi Yanai, ele diz que traduz o texto de outro manuscrito, porque a palavra do manuscrito de Leiden lhe é incompreensível; seguimos o hebraico do Sefaria. Na sua nota sobre “como o seu corpo”, ele remete à Tosefta 15:5 (ed. Lieberman); conferimos, e o paralelo está na Tosefta Shabbat 16:5 (ed. Lieberman), pois a 15:5 trata do bebê de oito meses. Na seção 02, ele acrescenta entre colchetes “to mention”, de outro manuscrito; pusemos “de dizê-lo” em itálico, e a palavra לוֹמַר está, de fato, no Yerushalmi Beitzah 4:3. Ele escreve “Rebbi Jehudah”, “Rebbi Jacob bar Idi”, “Rebbi Yannai”, “Rebbi Ḥiyya”, “Rebbi Meїr” e “Rebbi Yose”; mantivemos “Rabi Yehudá”, “Rabi Yaakov bar Idi”, “Rabi Yanai”, “Rabi Chiya”, “Rabi Meir” e “Rabi Yossi”, como nas halachot anteriores deste tratado e conforme o hebraico.
A Mishná seguinte, Shabbat 21:1, abre o Perek Kaf-Alef, Notel Adam et Beno: “נוֹטֵל אָדָם אֶת בְּנוֹ וְהָאֶבֶן בְּיָדוֹ…”, “uma pessoa toma o seu filho, e a pedra está na mão dele”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 141b, logo depois do fim do capítulo Tolin, no início do capítulo Notel Adam et Beno.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Kaf de Massechet Shabbat, Tolin (תּוֹלִין).