Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte (Tolin)
אֵין שׁוֹרִין אֶת הַחִילְתִּית בְּפוֹשְׁרִין

Conclusão do ovo no coador; a mostarda da véspera; anomlin e alunit; nova Mishná sobre o chiltit e a palha

Shabbat 140a · continua diretamente de 139b · integralmente dentro do Perek Vinte (Tolin), sem transição de capítulo

Shabbat 140a abre completando o ensinamento de Yaakov Karcha, interrompido ao final de 139b: coloca-se um ovo no coador de mostarda porque isso se faz apenas para dar cor, e não como verdadeira separação de refugo — tanto a gema quanto a clara são consideradas alimento. Segue-se uma disputa sobre amassar mostarda já preparada na véspera do Shabat: Rav permite fazê-lo num recipiente, mas não com a mão; Shmuel inverte essa regra; e Rabi Elazar e Rabi Yochanan discordam sobre se ambos os modos são proibidos ou permitidos — com Rabi Yochanan primeiro adotando a posição mais restritiva de Rabi Elazar, e Abaye e Rava, por fim, decidindo a favor dessa posição revisada. Uma série de episódios ilustra a disputa na prática — a mãe de Abaye, a esposa de Zeiri e Ravina —, até que Mar Zutra encerra o debate com uma regra própria: pode-se amassar tanto com a mão quanto num recipiente, acrescentar mel e apenas misturar, sem bater com força — regra estendida ao agrião com óleo, vinagre e hortelã, e ao alho esmagado com favas e grãos partidos. Segue-se a definição de anomlin (vinho, mel e pimenta) e alunit (vinho velho, água clara e bálsamo, para refrescar após o banho), e o episódio de Rav Yosef, que sentiu profundamente o efeito de um único copo de vinho na casa de banhos de Mar Ukva. O daf apresenta então uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Vinte: não se molha o chiltit (assa-fétida) em água morna, mas pode-se colocá-lo no vinagre; não se lavam por imersão nem se esfregam os karshinin, mas podem-se colocar na peneira ou no cesto; e não se peneira a palha para que a palha miúda caia, mas pode-se levá-la na peneira até a manjedoura. A Guemará sobre essa Mishná examina a responsabilidade por molhar o chiltit, a distinção entre água quente e fria segundo Rabi Yannai e a baraita de Rabi Yosei, o uso medicinal do chiltit para dores no coração — com o episódio de Rav Acha bar Yosef e o conselho de Mar Ukva —, e a pergunta sobre esfregar uma túnica de linho no Shabat, distinguida do lenço. O daf termina no meio do ensinamento de Rav Chisda sobre a túnica de linho, prosseguindo em Shabat 140b. Confirma-se, via a estrutura de capítulos do Sefaria (Shabbat 137b:11-141b:18 para o Perek Vinte), que todo este daf permanece dentro do mesmo perek, Tolin, sem qualquer transição de capítulo.

Conclusão do ovo no coador; a mostarda preparada na véspera do Shabat · לְפִי שֶׁאֵין עוֹשִׂין אוֹתָהּ אֶלָּא לְגָוֶון

1312Yaakov Karcha completa: o ovo no coador é apenas para dar cor
Yaakov Karcha
לְפִי שֶׁאֵין עוֹשִׂין אוֹתָהּ אֶלָּא לְגָוֶון.

(completando o ensinamento interrompido ao final de 139b, sobre colocar um ovo no coador de mostarda) — porque não se faz isso senão para dar cor.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lefi she'ein osin ela legavon"
לפי שאין עושין אלא לגוון - למראה שהחלמון יפה לגוון ולא החלבון הלכך אידי ואידי אוכל הוא ואין כאן ברירת פסולת מאוכל:

"Porque não se faz isso senão para dar cor" — para a aparência, pois a gema é boa para dar cor, e não a clara; portanto, tanto uma quanto a outra são alimento, e não há aqui separação de refugo do alimento.

Nota

Completa-se aqui o ensinamento deixado cortado ao final de 139b. Yaakov Karcha explica por que filtrar um ovo através do coador de mostarda não constitui a separação proibida de refugo (borer): a intenção não é separar a gema (útil) da clara (inútil), mas apenas usar a gema para colorir a mostarda — e, como ambas as partes do ovo são igualmente alimento, não há ali verdadeira seleção entre comida e refugo.

1313Rav: amassar a mostarda num recipiente, mas não com a mão
Rav
אִיתְּמַר. חַרְדָּל שֶׁלָּשׁוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת, לְמָחָר, אָמַר רַב: מְמַחוֹ בִּכְלִי אֲבָל לֹא בַּיָּד.

Foi dito: mostarda que se amassou na véspera do Shabat, no dia seguinte — disse Rav: mistura-se num recipiente, mas não com a mão.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "memacho", "memacho bichli" e "ve'eino memacho bayad"
ממחו - דישטיפדי"ר בלע"ז במים או ביין: ממחו בכלי - משמע זהו שינוי שלו: ואינו ממחו ביד - דממחו ליה שפיר טפי:

"Amassa-a (memacho)" — em francês antigo, "destemprer" (dissolver), com água ou vinho.

"Amassa-a num recipiente" — isso implica que essa é a mudança própria dele (quanto ao modo usual).

"E não a amassa com a mão" — pois, amassando-a assim (com a mão), fica melhor misturada (sendo por isso o modo comum em dia de semana).

Nota

Encerrado o tema do coador, a guemará abre um novo excurso sobre alterar o modo habitual de preparo de alimentos no Shabat. Segundo Rav, misturar mostarda já pronta desde a véspera é permitido apenas com uma mudança visível quanto ao dia comum: usa-se um recipiente em vez da mão, já que amassar com a mão produz uma mistura melhor e por isso é o método usual.

1314Shmuel inverte a regra: com a mão, sim; num recipiente, não
Shmuel
אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל: (בַּיָּד?!) אַטּוּ כׇּל יוֹמָא בְּיָד מְמַחוּ לֵיהּ?! מַאֲכַל חֲמוֹרִים הוּא! אֶלָּא אָמַר שְׁמוּאֵל: מְמַחוֹ בַּיָּד וְאֵינוֹ מְמַחוֹ בִּכְלִי.

Disse-lhe Shmuel: (com a mão?!) Acaso, todos os dias, a amassam com a mão?! É comida de jumentos (feita sem cuidado)! Mas disse Shmuel: amassa-a com a mão, e não a amassa num recipiente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ela amar Shmuel, memacho bayad"
אלא אמר שמואל ממחו ביד - שאין זה דרכו בחול:

"Mas disse Shmuel: amassa-a com a mão" — pois esse não é seu modo usual em dia comum (sendo, portanto, a mudança exigida).

Nota

Shmuel objeta e inverte a lógica de Rav: em dia comum, ninguém amassa mostarda apenas com a mão, pois o resultado seria grosseiro, "comida de jumentos"; o modo habitual e cuidadoso é usar um recipiente. Portanto, é o uso da mão — e não do recipiente — que constitui a mudança exigida para permitir o preparo no Shabat.

1315Rabi Elazar proíbe ambos os modos; Rabi Yochanan permite ambos; Abaye e Rava rejeitam Rabi Yochanan
Rabi Elazar; Rabi Yochanan; Abaye e Rava
אִתְּמַר. רַבִּי אֶלְעָזָר אָמַר: אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה — אָסוּר. וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה — מוּתָּר. אַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹחָנָן.

Foi dito: Rabi Elazar disse: tanto isto quanto aquilo (amassar com a mão ou num recipiente) — é proibido. E Rabi Yochanan disse: tanto isto quanto aquilo — é permitido. Abaye e Rava, ambos disseram: a halachá não é como Rabi Yochanan.

Nota

A disputa entre Rav e Shmuel sobre qual modo requer mudança é substituída por uma disputa mais radical entre Rabi Elazar e Rabi Yochanan: para Rabi Elazar, nenhum dos dois modos é permitido, pois amassar mostarda no Shabat é sempre problemático; para Rabi Yochanan, ambos são permitidos, sem exigência de mudança alguma. Abaye e Rava, nesta primeira formulação, rejeitam a posição lenient de Rabi Yochanan.

1316Rabi Yochanan retrocede para a posição de Rabi Elazar; Abaye e Rava then decidem a favor dela
Abaye e Rava
קָם רַבִּי יוֹחָנָן בְּשִׁיטְתֵיהּ דְּרַבִּי אֶלְעָזָר, קָם רַבִּי אֶלְעָזָר בְּשִׁיטְתֵיהּ דִּשְׁמוּאֵל. אַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹחָנָן.

Rabi Yochanan adotou a posição de Rabi Elazar; Rabi Elazar adotou a posição de Shmuel. Abaye e Rava, ambos disseram: a halachá é como Rabi Yochanan.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kam Rabi Yochanan beshitteih deRabi Elazar" e "halachah keRabi Yochanan"
קם ר' יוחנן בשיטתיה דר"א - חזר בו ואסר: אביי ורבא דאמרי תרוייהו הלכה כר' יוחנן - דאסר:

"Rabi Yochanan adotou a posição de Rabi Elazar" — isto é, voltou atrás de sua opinião original e proibiu.

"Abaye e Rava, ambos disseram: a halachá é como Rabi Yochanan" — referindo-se à sua posição revisada, que proíbe.

Nota

A cadeia se completa: Rabi Yochanan abandona sua posição lenient original e adota a de Rabi Elazar (proibindo ambos os modos), enquanto Rabi Elazar, por sua vez, recua para a posição original de Shmuel (permitindo apenas com a mão). Abaye e Rava, então, revisam sua própria decisão: a halachá segue Rabi Yochanan — mas já em sua nova posição, mais restritiva, e não a original citada no beat anterior.

1317Episódios: a mãe de Abaye, a esposa de Zeiri e Ravina
Rava bar Shava
אִימֵּיהּ דְּאַבָּיֵי עֲבַדָא לֵיהּ, וְלָא אֲכַל. דְּבֵיתְהוּ דִּזְעִירָא עֲבַדָא לֵיהּ לְרַב חִיָּיא בַּר אָשֵׁי, וְלָא אֲכַל. אֲמַרָה לֵיהּ: לְרַבָּךְ עֲבַדִי לֵיהּ וַאֲכַל, וְאַתְּ לָא אָכְלַתְּ? אָמַר רָבָא בַּר שְׁבָא: הֲוָה קָאֵימְנָא קַמֵּיהּ דְּרָבִינָא וּבְחַשִׁי לֵיהּ בְּשׁוּפְתָּא דְתוּמָא וַאֲכַל.

A mãe de Abaye a (mostarda) preparou para ele, e ele não comeu. A esposa de Zeiri a preparou para Rav Chiya bar Ashi, e ele não comeu. Ela lhe disse: "para o teu mestre eu a preparei, e ele comeu, e tu não comeste?". Disse Rava bar Shava: eu estava de pé perante Ravina, e ele a mexeu com um pedaço de alho, e comeu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lerabach" e "beshufta detuma"
לרבך - לזעירי: בשופתא דתומא - אמצעי של שום:

"Para o teu mestre" — para Zeiri.

"Com um pedaço de alho" — isto é, o miolo (talo central) do alho.

Nota

Uma série de episódios ilustra a incerteza prática gerada pela disputa: a mãe de Abaye preparou a mostarda de um modo que ele considerou incorreto e recusou comer; o mesmo ocorreu com Rav Chiya bar Ashi, cuja anfitriã observou que seu próprio mestre, Zeiri, havia comido a mesma preparação sem objeção. Rava bar Shava acrescenta que Ravina misturava a mostarda com um pedaço de alho — talvez como estratagema adicional para evitar a proibição.

1318Mar Zutra encerra o debate: com a mão ou num recipiente, acrescentar mel, sem bater
Mar Zutra
אָמַר מָר זוּטְרָא: לֵית הִלְכְתָא כְּכׇל הָנֵי שְׁמַעְתָּתָא, אֶלָּא כִּי הָא דְּאִתְּמַר: חַרְדָּל שֶׁלָּשׁוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת, לְמָחָר מְמַחוֹ בֵּין בַּיָּד בֵּין בִּכְלִי וְנוֹתֵן לְתוֹכוֹ דְּבַשׁ. וְלֹא יִטְרוֹף, אֶלָּא מְעָרֵב.

Disse Mar Zutra: a halachá não é como todos esses ditos, mas sim como o que foi outra vez dito: mostarda amassada na véspera do Shabat — no dia seguinte, mistura-se tanto com a mão quanto num recipiente, e coloca-se nela mel. E não deve bater vigorosamente, mas sim misturar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "velo yitrof"
ולא יטרוף - כדרך שטורפין ביצים בקערה בכף דרך טריפה שמכה בכח:

"E não deve bater vigorosamente" — como se batem ovos numa tigela com uma colher, à maneira de bater com força.

Nota

Mar Zutra rejeita toda a cadeia de opiniões anteriores e propõe uma regra própria e mais simples: o modo de mistura (mão ou recipiente) não importa, mas dois elementos são decisivos — pode-se acrescentar mel à mostarda já pronta, e o ato de misturar deve ser suave, uma simples mescla, e não um bater vigoroso, que se assemelharia ao preparo original, proibido.

1319Regra análoga para o agrião com óleo e vinagre, e o alho esmagado com favas
Anônimo da guemará; Abaye
שַׁחֲלַיִים שֶׁשְּׁחָקָן מֵעֶרֶב שַׁבָּת, לְמָחָר נוֹתֵן לְתוֹכָן שֶׁמֶן וָחוֹמֶץ, וּמַמְשִׁיךְ לְתוֹכָן אַמִּיתָא. וְלֹא יִטְרוֹף אֶלָּא מְעָרֵב. שׁוּם שֶׁרִיסְּקוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת, לְמָחָר נוֹתֵן לְתוֹכוֹ פּוֹל וּגְרִיסִין, וְלֹא יִשְׁחוֹק אֶלָּא מְעָרֵב, וּמַמְשִׁיךְ אֶת אַמִּיתָא לְתוֹכָן. מַאי אַמִּיתָא? נִינְיָיא. אָמַר אַבָּיֵי: שְׁמַע מִינַּהּ הַאי נִינְיָיא מְעַלְּיָא לְתַחְלֵי.

Agrião (shachalayim) que se triturou na véspera do Shabat — no dia seguinte, coloca-se nele óleo e vinagre, e acrescenta-se nele amita. E não deve bater vigorosamente, mas sim misturar. Alho que se esmagou na véspera do Shabat — no dia seguinte, coloca-se nele favas e grãos partidos, e não deve moer, mas sim misturar, e acrescenta-se amita neles. O que é amita? Hortelã (ninya). Disse Abaye: aprende-se disso que essa hortelã é boa para o agrião.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shachalayim", "mamshich", "amita" e "ma'alya letachlei"
שחליים - כרישין והיו שוחקין אותם במים: ממשיך - נותן: אמיתא - מינט"א בלע"ז: מעליא לתחלי - לערב עם שחליים:

"Agrião (shachalayim)" — uma hortaliça, e costumavam triturá-la em água.

"Acrescenta (mamshich)" — significa "coloca".

"Amita" — em francês antigo, "menthe" (hortelã).

"É boa para o agrião" — para se misturar com o agrião.

Nota

A guemará estende a regra de Mar Zutra a outras preparações semelhantes: o agrião já triturado desde a véspera pode receber óleo, vinagre e hortelã, misturados suavemente; e o alho já esmagado pode receber favas e grãos partidos, também apenas misturados. A pergunta sobre a identidade da "amita" (hortelã) leva Abaye a concluir, a partir dessas duas baraitot paralelas, que a hortelã combina bem tanto com o alho quanto com o agrião.

Anomlin e alunit; o episódio de Rav Yosef com Mar Ukva · אֵנוֹמֵלִין יַיִן וּדְבַשׁ וּפִלְפְּלִין

1320Definição de anomlin e alunit: fazem-se anomlin, não se faz alunit
Baraita
וְעוֹשִׂין אֵנוֹמֵלִין בְּשַׁבָּת. תָּנוּ רַבָּנַן: עוֹשִׂין אֵנוֹמֵלִין בְּשַׁבָּת, וְאֵין עוֹשִׂין אֲלוּנְטִית. וְאֵיזוֹ הִיא אֵנוֹמֵלִין וְאֵיזוֹ הִיא אֲלוּנְטִית? אֵנוֹמֵלִין יַיִן וּדְבַשׁ וּפִלְפְּלִין. אֲלוּנְטִית יַיִן יָשָׁן וּמַיִם צְלוּלִין וַאֲפַרְסְמוֹן, דְּעָבְדִי לְבֵי מַסּוּתָא לְמֵיקַר.

A Mishná ensinou: e fazem-se anomlin no Shabat. Ensinaram os sábios: fazem-se anomlin no Shabat, mas não se faz alunit. E o que é anomlin, e o que é alunit? Anomlin é vinho, mel e pimenta. Alunit é vinho velho, água clara e bálsamo, que se preparam para a casa de banhos, para refrescar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'ein osin alunit"
ואין עושין אלונטית - שאינה למשקה צמא אלא לצנן לאחר המרחץ ודוגמת רפואה:

"E não se faz alunit" — pois não é para saciar a sede, mas para refrescar depois do banho, à maneira de um remédio.

Nota

A guemará esclarece a cláusula final da Mishná anterior sobre fazer anomlin no Shabat, trazendo uma baraita que define os dois termos e distingue sua permissibilidade: anomlin, uma bebida de vinho, mel e pimenta, é permitido por ser uma bebida comum; alunit, de vinho velho, água clara e bálsamo, usada para refrescar após o banho como um remédio, é proibida, pois seu preparo se assemelha a um ato medicinal, vedado por decreto rabínico no Shabat.

1321Rav Yosef: o efeito de um único copo de vinho na casa de banhos de Mar Ukva
Rav Yosef
אָמַר רַב יוֹסֵף: זִימְנָא חֲדָא עַלִּית בָּתַר מָר עוּקְבָא לְבֵי בָאנֵי. כִּי נְפַקִי, אֲתַאי אַשְׁקְיַין חַמְרָא חַד כָּסָא, וְחַשִּׁי מִבִּינְתָא דְרֵאשִׁי וְעַד טוּפְרָא דְכַרְעִי. וְאִי אַשְׁקְיַין כָּסָא אַחֲרִינָא — הֲוַאי מִסְתְּפֵינָא דִּלְמָא מְנַכּוּ לִי מִזָּכְוָתָא דְּעָלְמָא דְּאָתֵי. וְהָא מָר עוּקְבָא דְּשָׁתֵי כׇּל יוֹמָא? שָׁאנֵי מָר עוּקְבָא דְּדָשׁ בֵּיהּ.

Disse Rav Yosef: certa vez, entrei atrás de Mar Ukva na casa de banhos. Quando saímos, veio alguém e me deu de beber um copo de vinho, e senti seu efeito desde a raiz dos meus cabelos até a unha dos meus pés. E, se me dessem outro copo, eu temeria que descontassem de meus méritos do mundo vindouro. Mas Mar Ukva não bebia todos os dias? Diferente é Mar Ukva, que estava habituado a isso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "vechashi mibinta dereishi", "menachu li mizachvatai" e "dedash beih"
וחשי מבינתא דרישא - הרגשתי בצינתו משערת ראשי עד צפרני רגלי: מנכו לי מזכיותי - אם הייתי ניצול ממנו שלא אמות: שתי כל יומא - ולא היה מזיקו: דדש ביה - רגיל בו:

"E senti desde a raiz da minha cabeça" — senti seu frescor desde os cabelos da minha cabeça até as unhas dos meus pés.

"Descontariam de meus méritos" — se eu fosse salvo dele, de modo a não morrer.

"Bebia todos os dias" — e isso não lhe fazia mal.

"Que estava habituado a isso" — acostumado com isso.

Nota

Encerrado o tema do anomlin, a guemará traz um episódio pessoal de Rav Yosef, quase à margem do assunto: o vinho servido após o banho de Mar Ukva teve sobre ele um efeito intensamente prazeroso, a ponto de temer que um segundo copo esgotasse méritos reservados para o mundo vindouro — diferentemente de Mar Ukva, cujo hábito diário tornava a mesma bebida um prazer moderado e sem risco espiritual.

Nova Mishná: o chiltit, os karshinin e a palha · אֵין שׁוֹרִין אֶת הַחִילְתִּית בְּפוֹשְׁרִין

Mishná
מַתְנִי׳ אֵין שׁוֹרִין אֶת הַחִילְתִּית בְּפוֹשְׁרִין, אֲבָל נוֹתֵן לְתוֹךְ הַחוֹמֶץ. וְאֵין שׁוֹלִין אֶת הַכַּרְשִׁינִין וְלֹא שָׁפִין אוֹתָן, אֲבָל נוֹתֵן לְתוֹךְ הַכְּבָרָה אוֹ לְתוֹךְ הַכַּלְכָּלָה. אֵין כּוֹבְרִין אֶת הַתֶּבֶן בִּכְבָרָה, וְלֹא יִתְּנֶנּוּ עַל גַּבֵּי מָקוֹם גָּבוֹהַּ בִּשְׁבִיל שֶׁיֵּרֵד הַמּוֹץ. אֲבָל נוֹטֵל הוּא בַּכְּבָרָה וְנוֹתֵן לְתוֹךְ הָאֵיבוּס.

Não se molha o chiltit (assa-fétida) em água morna, mas coloca-se dentro do vinagre. E não se lava por imersão os karshinin (vagens de ervilhaca), nem se esfregam, mas coloca-se dentro da peneira ou dentro do cesto. Não se peneira a palha na peneira, nem se coloca sobre um lugar elevado para que a palha miúda caia. Mas pode-se pegá-la com a peneira e colocá-la dentro da manjedoura.

Nota — nova Mishná

Encerrado o excurso sobre a mostarda, o agrião, o alho, o anomlin e o alunit, uma nova Mishná se inicia, dentro do mesmo Perek Vinte (Tolin) — não o começo de um novo capítulo, que só ocorrerá em 141b:19. A Mishná trata de três procedimentos vinculados à separação proibida (borer) e à preparação de alimentos: o chiltit, que não se pode molhar em água morna (o que aceleraria sua dissolução, à maneira de um preparo de dia comum), mas pode-se colocar em vinagre para temperar comida; os karshinin, que não se podem lavar por imersão nem esfregar para remover seu refugo, mas podem-se colocar numa peneira ou cesto, onde o refugo cai por si só; e a palha, que não se pode peneirar propositalmente, mas pode-se transportar com a peneira até a manjedoura do animal, mesmo que a palha miúda caia incidentalmente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "chiltit", "avel notein", "betoch hachometz", "ve'ein sholin et hakarshinin", "velo shafin otan", "avel notein letoch hakevarah", "teven", "motz" e "avel notel bichvarah"
מתני' חילתית - חלטי"ש בלשון ישמעאל ובלע"ז לזרי"א ושורין אותו בפושרין ושותין אותן המים לרפואה: אבל נותן - החלתית: בתוך החומץ - ומטבל בו מאכלו ולקמיה מפרש אמאי אין שורין: ואין שולין את הכרשינין - מציף עליהם מים בכלי לברור פסולתן כדתנן במסכת ביצה (דף יד:) אף מדיח ושולה: ולא שפין אותן - ביד להסיר פסולת דהוה ליה בורר: אבל נותן לתוך הכברה - ואע"פ דפעמים שהפסולת נופל דרך נקבי הכברה ונמצא נתברר מאליו: תבן - הוא שעושין מן הקש מחתכין אותו במוריגין ועושה כל זנב השבולת תבן: מוץ - הוא מזקן השבולת העליון ואינו ראוי למאכל וכוברין אותו בכברין שיפול המוץ: אבל נוטל בכברה - ליתן בתוך האבוס ואע"פ שהמוץ נופל מאליו כר"ש דאמר דבר שאין מתכוין מותר:

"Mishná: chiltit" — em árabe, "chalatish"; em francês antigo, "laser" (assa-fétida); e costumavam molhá-lo em água morna e beber essa água como remédio.

"Mas coloca-se" — o chiltit.

"Dentro do vinagre" — e mergulha nele sua comida; e mais adiante se explica por que não se pode molhá-lo em água morna.

"E não se lava por imersão os karshinin" — isto é, despejar água sobre eles num recipiente, para separar seu refugo, como ensinamos no tratado Beitzá (14b): "também se enxágua e se lava por imersão".

"Nem se esfregam" — com a mão, para remover o refugo, o que constituiria uma separação proibida.

"Mas coloca-se dentro da peneira" — e, embora às vezes o refugo caia pelos buracos da peneira, e assim se separe por si só, isso não é considerado uma separação proibida, pois não é essa a intenção.

"Palha (teven)" — é o que se faz da haste, cortando-a com trilhadeiras, e toda a cauda da espiga se torna palha.

"Palha miúda (motz)" — é a barba superior da espiga, que não é apta para alimento, e peneiram-na em peneiras para que a palha miúda caia.

"Mas pode-se pegá-la com a peneira" — para colocá-la dentro da manjedoura, ainda que a palha miúda caia por si só, seguindo Rabi Shimon, que diz que uma coisa não intencional é permitida.

A Guemará sobre a nova Mishná: molhar o chiltit e a fricção da túnica de linho · שָׁרָה — חַיָּיב חַטָּאת

1322Se, apesar da proibição, molhou-o: obrigado a uma oferenda pelo pecado
Rav Adda Narshaah perante Rav Yosef
גְּמָ׳ אִיבַּעְיָא לְהוּ: שָׁרָה, מַאי? תַּרְגְּמָא רַב אַדָּא נַרְשָׁאָה קַמֵּיהּ דְּרַב יוֹסֵף: שָׁרָה — חַיָּיב חַטָּאת.

Guemará: indagaram: se, apesar da proibição da Mishná, alguém molhou o chiltit em água morna, qual é a lei quanto à sua responsabilidade? Rav Adda Narshaah interpretou perante Rav Yosef: se molhou — é obrigado a uma oferenda pelo pecado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "sharah"
שרה - חילתית בפושרין מאי:

"Molhou" — a indagação é: molhou o chiltit em água morna, qual é a lei quanto à sua responsabilidade?

Nota

A Guemará abre sua discussão sobre a nova Mishná com uma indagação prática: a proibição de molhar o chiltit em água morna é apenas uma restrição preventiva, ou constitui, ela mesma, uma transgressão da Torá, punível com oferenda pelo pecado? Rav Adda Narshaah responde na forma mais severa: quem molha o chiltit é de fato obrigado a essa oferenda.

1323Desafio de Abaye: carne crua molhada na água; resposta: proibição apenas rabínica
Abaye
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: אֶלָּא מֵעַתָּה שְׁרָה אוּמְצָא בְּמַיָּא הָכִי נָמֵי דְּמִיחַיַּיב? אֶלָּא אָמַר אַבָּיֵי: מִדְּרַבָּנַן — שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה כְּדֶרֶךְ שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בַּחוֹל.

Disse-lhe Abaye: mas então, se alguém molhou carne crua na água, também seria obrigado assim? Mas, na verdade, disse Abaye: a proibição é apenas de origem rabínica, para que não se faça como se faz em dia comum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "umtza" e "shelo ya'aseh"
אומצא - בשר חי: שלא יעשה כו' - לא שבקוה רבנן למעבד עובדי דחול:

"Carne crua (umtza)" — carne não cozida.

"Para que não se faça, etc." — os sábios não permitiram que se fizesse um ato de dia comum.

Nota

Abaye rejeita a resposta severa, apontando por analogia que molhar carne crua na água certamente não gera responsabilidade bíblica, pois isso não constitui um trabalho proibido pela Torá. Ele reformula, então, o verdadeiro fundamento da proibição: trata-se de um decreto puramente rabínico, destinado a impedir que se realize, no Shabat, um ato que tem a aparência de uma atividade de dia comum, e não de uma transgressão da Torá.

1324Rabi Yochanan pergunta a Rabi Yannai sobre água fria; objeção da própria Mishná
Rabi Yochanan; Rabi Yannai
בְּעָא מִינֵּיהּ רַבִּי יוֹחָנָן מֵרַבִּי יַנַּאי: מַהוּ לִשְׁרוֹת אֶת הַחִלְתִּית בְּצוֹנֵן? אֲמַר לֵיהּ: אָסוּר. וְהָא אֲנַן תְּנַן: אֵין שׁוֹרִין אֶת הַחִלְתִּית בְּפוֹשְׁרִין — הָא בְּצוֹנֵן מוּתָּר!

Indagou Rabi Yochanan a Rabi Yannai: qual é a lei quanto a molhar o chiltit em água fria? Disse-lhe: é proibido. Mas nós ensinamos na Mishná: não se molha o chiltit em água morna — o que implica que em água fria é permitido!

Nota

Rabi Yochanan traz um novo caso — água fria, em vez de morna — e Rabi Yannai o proíbe também. Rabi Yochanan objeta com a própria linguagem da Mishná: ao proibir especificamente água morna, ela parece implicar, por exclusão, que água fria é permitida.

1325Resposta de Rabi Yannai: a Mishná é a opinião isolada de Rabi Yosei
Rabi Yannai; Baraita
אֲמַר לֵיהּ: אִם כֵּן מַה בֵּין לִי וְלָךְ. מַתְנִיתִין יְחִידָאָה הִיא, דְּתַנְיָא: אֵין שׁוֹרִין אֶת הַחִלְתִּית לֹא בְּחַמִּין וְלֹא בְּצוֹנֵן. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: בְּחַמִּין — אָסוּר, בְּצוֹנֵן — מוּתָּר.

Disse-lhe: se assim fosse — que necessidade haveria de me perguntar? Eu apenas repetiria a Mishná; qual seria então a diferença entre mim e ti? A nossa Mishná é uma opinião isolada, pois foi ensinado: não se molha o chiltit nem em água quente nem em água fria. Rabi Yosei diz: em água quente — é proibido; em água fria — é permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "im ken" e "matnitin yechida'ah hi"
אם כן - דלא ידענא לפרושי מתני' טפי מינך מה בין לי ולך: מתניתין יחידאה היא - ור' יוסי אמרה אבל לרבנן אף בצונן אסור:

"Se assim" — isto é, se eu não soubesse explicar a Mishná melhor do que tu, que diferença haveria entre mim e ti?

"A nossa Mishná é uma opinião isolada" — isto é, foi Rabi Yosei quem a disse; mas, para os sábios, mesmo em água fria, é proibido.

Nota

Rabi Yannai resolve a objeção mostrando que a própria Mishná, que menciona apenas água morna, reflete a opinião isolada de Rabi Yosei numa baraita paralela — que de fato distingue água quente (proibida) de água fria (permitida) —, enquanto os sábios anônimos, cuja opinião Rabi Yannai segue, proíbem ambas. A Mishná do tratado, embora formulada de modo mais restrito, deve ser lida à luz dessa baraita mais completa.

1326O uso do chiltit para dores no coração; Rav Acha bar Yosef e o conselho de Mar Ukva
Mar Ukva a Rav Acha bar Yosef
לְמַאי עָבְדִי לֵיהּ? לְיוּקְרָא דְלִיבָּא. רַב אַחָא בַּר יוֹסֵף חָשׁ בְּיוּקְרָא דְלִיבָּא. אֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּמָר עוּקְבָא. אֲמַר לֵיהּ: זִיל שְׁתִי תְּלָתָא תִּיקְלֵי חִילְתִּיתָא בִּתְלָתָא יוֹמֵי. אֲזַל אִישְׁתִּי חַמְשָׁא בְּשַׁבְּתָא וּמַעֲלֵי שַׁבְּתָא.

Para que costuma-se usá-lo (o chiltit)? Para a pesadez do coração (mal-estar cardíaco). Rav Acha bar Yosef sentiu pesadez de coração. Foi perante Mar Ukva. Disse-lhe: vai e bebe três pesos de chiltit em três dias. Foi e bebeu na quinta-feira e na véspera do Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "leyukra deliba" e "telata tiklei chiltita"
ליוקרא דליבא - שלבו כבד עליו: תלתא תקלי חילתתא - משקל ג' זהובים:

"Para a pesadez do coração" — quando seu coração está pesado sobre ele (sente opressão cardíaca).

"Três pesos de chiltit" — o peso de três moedas de ouro.

Nota

A guemará explica o uso terapêutico do chiltit — para dores ou opressão no peito — e ilustra com um episódio: Rav Acha bar Yosef, sofrendo desse mal, recebeu de Mar Ukva a prescrição de beber uma dose diária ao longo de três dias, e começou o tratamento na quinta-feira, de modo que a terceira dose caía no próprio Shabat.

1327Pela manhã de Shabat, ele consultou a casa de estudo: pode-se beber um cav ou dois sem se preocupar
Ensinamento da escola de Rav Adda
לְצַפְרָא אֲזַל שְׁאַל בֵּי מִדְרְשָׁא. אֲמַרוּ לֵיהּ: תָּנָא דְּבֵי רַב אַדָּא, וְאָמְרִי לַהּ תָּנָא דְּבֵי מָר בַּר רַב אַדָּא: שׁוֹתֶה אָדָם קַב אוֹ קַבַּיִים וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ.

Pela manhã (de Shabat), foi perguntar na casa de estudo. Disseram-lhe: ensinou a escola de Rav Adda, e alguns dizem, a escola de Mar bar Rav Adda: um homem pode beber um cav ou dois cavim de chiltit dissolvido em água, sem se preocupar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'al bei midrasha"
שאיל בי מדרשא - מה יעשה בשבת:

"Foi perguntar na casa de estudo" — o que ele queria saber era o que fazer no Shabat (pois faltava ainda a terceira dose).

Nota

Como a terceira e última dose recairia no próprio Shabat, Rav Acha bar Yosef consultou a casa de estudo, que lhe respondeu com um ensinamento aparentemente favorável: beber chiltit dissolvido em água — mesmo em quantidade generosa — não é motivo de preocupação, sugerindo que se trata de uma bebida comum, sem restrição especial no Shabat.

1328Sua verdadeira dúvida era sobre molhar, não sobre beber; Rav Chiya bar Avin relata seu próprio caso
Rav Acha bar Yosef; Rav Chiya bar Avin
אֲמַר לְהוּ: לִשְׁתּוֹת — לָא קָמִיבַּעְיָא לִי, כִּי קָא מִיבַּעְיָא לִי — לִשְׁרוֹת, מַאי? אֲמַר לְהוּ רַב חִיָּיא בַּר אָבִין: בְּדִידִי הֲוָה עוֹבָדָא, וַאֲתַאי שְׁאֵילְתֵּיהּ לְרַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה וְלָא הֲוָה בִּידֵיהּ. אֲתַאי שְׁאֵילְתֵּיהּ לְרַב הוּנָא, וַאֲמַר: הָכִי קָאָמַר רַב, שׁוֹרֶה בְּצוֹנֵן וּמַנִּיחַ בַּחַמָּה.

Disse-lhes: quanto a beber, não tenho dúvida; o que me é dúvida é: quanto a molhá-lo (prepará-lo no Shabat mesmo), qual é a lei? Disse-lhes Rav Chiya bar Avin: eu mesmo tive esse caso, e fui perguntar a Rav Adda bar Ahavá, e ele não tinha resposta em mãos. Fui perguntar a Rav Huna, e ele disse: assim disse Rav — molha-se em água fria, e deixa-se ao sol.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lishtot lo kamiba'ya li" e "lishrot"
לשתות לא קמיבעיא לי - דבלאו רפואה משקה הוא ותנן כל המשקין שותה (לעיל שבת דף קט:): לשרות - דתנן מתניתין אין שורין:

"Quanto a beber, não tenho dúvida" — pois, mesmo sem ser remédio, é uma bebida, e ensinamos: "todas as bebidas, pode-se beber" (acima, Shabat 109b).

"Quanto a molhá-lo" — pois ensinamos na Mishná: não se molha.

Nota

Rav Acha bar Yosef esclarece que a casa de estudo respondeu a uma pergunta que ele não havia feito: beber chiltit já preparado nunca foi problemático, pois toda bebida é permitida no Shabat. Sua verdadeira dúvida era se poderia preparar (molhar) a terceira dose no próprio Shabat — questão que a Mishná parecia proibir. Rav Chiya bar Avin relata um precedente próprio, no qual, após uma busca sem sucesso, Rav Huna lhe transmitiu em nome de Rav uma solução prática: molhar o chiltit em água fria e deixá-lo ao sol, que aquece a água gradualmente sem o ato direto de água quente.

1329Isso vale mesmo segundo quem proíbe, pois já havia bebido nos dois dias anteriores
Anônimo da guemará
כְּמַאן דְּשָׁרֵי? אֲפִילּוּ לְמַאן דְּאָסַר — הָנֵי מִילֵּי הֵיכָא דְּלָא אִישְׁתִּי כְּלָל, אֲבָל הָכָא — כֵּיוָן דְּאִישְׁתִּי חַמְשָׁא וּמַעֲלֵי שַׁבְּתָא, אִי לָא שָׁתֵי בְּשַׁבָּת — מִיסְתַּכַּן.

Isso é segundo quem permite molhar em água fria? Não necessariamente — mesmo segundo quem proíbe, isso vale apenas onde a pessoa não bebeu nada ainda; mas aqui, já que ele bebeu na quinta-feira e na véspera do Shabat, se não beber no Shabat, corre perigo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kman deSharei"
כמאן דשרי - בעיא הוא הך דרב לימא כרבי יוסי דשרי בצונן אבל לרבנן אסור:

"Isso é segundo quem permite?" — é uma indagação: será que esse dito de Rav segue Rabi Yosei, que permite molhar em água fria, mas, segundo os sábios, seria proibido?

Nota

A guemará questiona se a solução de Rav Huna (molhar em água fria) reflete apenas a opinião de Rabi Yosei, já rejeitada acima como isolada, e responde que não é necessário chegar a essa conclusão: mesmo segundo os sábios que proíbem categoricamente, a proibição pressupõe uma pessoa que ainda não iniciou o tratamento; mas quem já bebeu duas doses e corre risco real de saúde sem a terceira pode continuar o tratamento mesmo no Shabat.

1330Rav Acha bar Yosef pergunta a Rav Safra: esfregar a túnica de linho no Shabat
Rav Acha bar Yosef; Rav Safra
מִיסְתְּמִיךְ וְאָזֵיל רַב אַחָא בַּר יוֹסֵף אַכַּתְפֵּיהּ דְּרַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק בַּר אֲחָתֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: כִּי מָטֵינַן לְבֵי רַב סָפְרָא עַיְּילִינַּן. כִּי מְטוֹ עַיְּילֵיהּ. בְּעָא מִינֵּיהּ: מַהוּ לְכַסְכּוֹסֵי כִּיתָּנִיתָא בְּשַׁבְּתָא? לְרַכּוֹכֵי כִּיתָּנִיתָא קָא מִיכַּוֵּין — וְשַׁפִּיר דָּמֵי, אוֹ דִילְמָא לְאוֹלוֹדֵי חִיוָּרָא קָמִיכַּוֵּין — וַאֲסִיר? אֲמַר לֵיהּ: לְרַכּוֹכֵי קָא מִיכַּוֵּין וְשַׁפִּיר דָּמֵי.

Rav Acha bar Yosef ia apoiado nos ombros de Rav Nachman bar Yitzchak, filho de sua irmã. Disse-lhe: quando chegarmos à casa de Rav Safra, entremos. Quando chegaram, ele o levou para dentro. Indagou-lhe: qual é a lei quanto a esfregar uma túnica de linho no Shabat? Se a intenção é amaciar a túnica de linho — está bem; ou, quem sabe, a intenção é embranquecê-la — e é proibido? Disse-lhe: a intenção é amaciar, e está bem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ayyelina" e "lechascusei kitanita"
עיילינא - הכניסני ואיש זקן היה: לכסכוסי כיתניתא - חלוק כתונת של פשתן שנתכבסה והרי היא קשה ומשפשפה בין שתי ידיו והיא מתרככה ואף הליבון שלה מצהיל על ידי השפשוף:

"Entremos" — isto é, "leva-me para dentro"; e Rav Acha bar Yosef era um homem idoso.

"Esfregar a túnica de linho" — uma túnica de linho que foi lavada e ficou rígida, e ele a esfrega entre as duas mãos, e ela se amacia; e também seu branco se intensifica por meio do esfregar.

Nota

Encerrado o tema do chiltit, a guemará passa a um novo assunto por meio do mesmo protagonista: Rav Acha bar Yosef, já idoso e apoiado no ombro do sobrinho, faz uma visita especial a Rav Safra para perguntar sobre esfregar uma túnica de linho rígida entre as mãos — ato que amacia o tecido, mas também intensifica seu branco, levantando a dúvida entre uma finalidade permitida (amaciar) e uma proibida (embranquecer, à maneira de lavar roupa). Rav Safra decide pela intenção permitida.

1331Rav Nachman pergunta o que fora perguntado
Rav Nachman bar Yitzchak; Rav Acha bar Yosef
כִּי נְפַק אֲתָא, אֲמַר לֵיהּ: מַאי בְּעָא מָר מִינֵּיהּ? אֲמַר לֵיהּ בְּעַי מִינֵּיהּ: מַהוּ לְכַסְכּוֹסֵי כִּיתָּנִיתָא בְּשַׁבְּתָא, וַאֲמַר לִי: שַׁפִּיר דָּמֵי.

Quando saiu (Rav Acha da casa de Rav Safra), veio Rav Nachman bar Yitzchak e lhe disse: o que o mestre lhe perguntou? Disse-lhe: perguntei-lhe qual é a lei quanto a esfregar a túnica de linho no Shabat, e ele me disse: está bem.

Nota

Rav Nachman, que havia esperado do lado de fora, indaga sobre o conteúdo da consulta, e Rav Acha bar Yosef relata a pergunta e a resposta favorável de Rav Safra.

1332Por que não perguntou também sobre o lenço? Já havia perguntado a Rav Huna
Rav Nachman bar Yitzchak; Rav Acha bar Yosef
וְתִבְּעֵי לֵיהּ לְמָר סוּדָרָא? סוּדָרָא לָא קָא מִיבַּעְיָא לִי, דִּבְעַי מֵרַב הוּנָא וּפְשַׁט לִי.

Perguntou Rav Nachman: e não deveria o mestre lhe ter perguntado também sobre o lenço (sudar)? Respondeu Rav Acha: quanto ao lenço, não tenho dúvida, pois já perguntei a Rav Huna, e ele me resolveu a questão.

Nota

Rav Nachman observa que a mesma dúvida se aplicaria a esfregar um lenço, e Rav Acha bar Yosef responde que essa questão específica já havia sido resolvida anteriormente por Rav Huna, dispensando nova consulta.

1333Por que não decidiu a túnica a partir do lenço? A diferença está na aparência de embranquecimento
Rav Nachman bar Yitzchak; Rav Acha bar Yosef
וְתִיפְּשִׁיט לֵיהּ לְמָר מִסּוּדָרָא? אֲמַר לֵיהּ: הָתָם — מִיחְזֵי כִּי אוֹלוֹדֵי חִיוָּרָא, הָכָא — לָא מִיחְזֵי כְּאוֹלוֹדֵי חִיוָּרָא.

Perguntou ainda: e não poderia o mestre ter resolvido a questão da túnica a partir da lei já sabida do lenço? Disse-lhe: lá (no lenço), parece que se pretende embranquecê-lo; aqui (na túnica), não parece que se pretende embranquecê-la.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "olodei chivara" e "hatam michzei ke'olodei chivara"
אולודי חיורא - הליבון מצהיל: התם מיחזי כאולודי חיורא - שמקפיד על ליבונו וצוהרו של סודר יותר מכיתניתא:

"Embranquecê-lo (olodei chivara)" — isto é, o branco se intensifica.

"Lá parece que se pretende embranquecê-lo" — pois se é mais cuidadoso quanto ao branco e ao brilho de um lenço do que de uma túnica.

Nota

Rav Nachman pressiona a questão: já que ambos os casos (lenço e túnica) envolvem o mesmo ato físico de esfregar linho, por que não aplicar diretamente ao lenço a permissão já obtida para a túnica, ou vice-versa? Rav Acha bar Yosef responde que a aparência muda conforme o objeto: como as pessoas se preocupam mais com o brilho e a alvura de um lenço do que de uma túnica comum, esfregar o lenço parece uma tentativa deliberada de embranquecê-lo — proibida —, enquanto o mesmo ato na túnica não desperta essa suspeita.

1334Rav Chisda sobre a túnica de linho — interrompido
Rav Chisda
אָמַר רַב חִסְדָּא: הַאי כִּיתָּנִיתָא [...]

Disse Rav Chisda: esta túnica de linho [o ensinamento é interrompido aqui, ao final do daf, e prossegue em Shabat 140b].

Nota

O daf termina exatamente neste ponto, no meio de um novo ensinamento de Rav Chisda sobre a túnica de linho — retomando e possivelmente ampliando o tema recém-discutido entre Rav Acha bar Yosef, Rav Nachman e Rav Safra. O conteúdo desse ensinamento e sua continuação ficam cortados aqui, prosseguindo diretamente em Shabat 140b.

O daf termina aqui, no meio do ensinamento de Rav Chisda sobre a túnica de linho. O restante do Perek Vinte (Tolin) prossegue em Shabbat 140b.