Quarta halachá do Perek Bet de Massechet Shabbat, Bameh Madlikin. A Mishná proíbe furar uma shefoferet de ovo cheia de óleo e pô-la sobre a lâmpada para gotejar, e pôr uma tigela de óleo ao lado da lâmpada com a ponta do pavio dentro dela; Rabi Yehudá permite as duas coisas, e o que o oleiro uniu desde o início é permitido a todos. A guemará pergunta se a razão é que cada gota não começou a arder antes do Shabat ou o receio de que a pessoa esqueça e tire óleo da casca; permite também a casca presa com cal ou gesso; e explica que Rabi Yudá segue a sua opinião de que o líquido que umedece é conexão, como na baraita do pavio que passa por dois copos. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 29b.
Mishná: Não fure uma pessoa uma shefoferet (casca) de ovo, e não a encha de óleo, e não a ponha sobre a boca da lâmpada para que o óleo fique gotejando nela, mesmo que ela seja de barro e não uma casca de verdade; e Rabi Yehudá permite. Mas se o yotzer (oleiro) a uniu à lâmpada desde o início, é permitido, pois a casca e a lâmpada formam uma só peça. Não encha uma pessoa uma keará (tigela) de óleo, e não a ponha ao lado da lâmpada, e não ponha a ponta do pavio dentro dela para que o pavio fique sugando o óleo da tigela; e Rabi Yehudá permite.
Na Mishná: “Não fure uma pessoa uma shefoferet de ovo.” Por quê? Será porque não se começou a acender com cada gota e gota, já que cada gota só chega à lâmpada depois que o Shabat entrou? Ou será por receio de que a pessoa esqueça que é Shabat e verta o óleo da casca para usá-lo? Que diferença resulta entre elas, entre as duas razões? Aquele zekuká diklon (um recipiente de natureza incerta, de que não se tira o óleo). Se disseres que a razão é porque não se começou com cada gota, eis que também nele não se começou com cada gota e gota, e é proibido. Se disseres que a razão é o receio de que esqueça e verta, eis que com ele não esquece e não verte, e é permitido.
Na Mishná: “Se o yotzer a uniu desde o início, é permitido, porque é um só utensílio.” Pergunta-se: ali é diferente, porque toda ela é uma só peça, saída das mãos do oleiro; mas que dizer se a uniu com cal ou com gipsos (gesso)? Responde-se: está certo, também assim é permitido. A permissão de Rabi Yudá na Mishná segue a sua própria opinião, pois Rabi Yudá disse: mashké tofeach (líquido que umedece) é conexão, e o óleo que goteja une a casca à lâmpada. Ensinou-se numa baraita: um só pavio que passa por dois copos, ou por duas tigelas, ou por dois tamchuyin (travessas), para puxar o óleo de um para o outro, é proibido; Rabi Yudá permite. Rabi Chananiá disse em nome de Rabi Pinchas: Rabi Yudá segue a sua própria opinião, pois Rabi Yudá disse: mashké tofeach é conexão.
Esta é a quarta halachá do Perek Bet de Massechet Shabbat, Bameh Madlikin, que corresponde à Mishná Shabbat 2:4 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com a palavra de Rav: aquece-se o forno com utensílios, e não com fragmentos de utensílios. A Mishná desta halachá passa da matéria do pavio e do óleo para os recursos que prolongam a chama: uma casca de ovo furada, cheia de óleo, posta sobre a lâmpada para gotejar nela, e uma tigela de óleo ao lado da lâmpada, de onde o pavio puxa o óleo. Os Sábios proíbem as duas coisas, e Rabi Yehudá permite; mas, se o oleiro uniu a casca à lâmpada desde o início, todos permitem. No Bavli, esta Mishná está em Shabbat 29b.
Na seção 01, a guemará propõe duas razões para a proibição. A primeira é que cada gota que cai da casca na lâmpada é um acender que não começou antes do Shabat; a mesma expressão, “não se começou com cada gota e gota”, aparece no Yerushalmi Shabbat 1:5. A segunda é o receio de que a pessoa esqueça que é Shabat e tire óleo da casca, que não está presa à lâmpada. O caso em que as duas razões se separam é o “zekuká diklon”, palavra cuja identidade é incerta; Guggenheimer anota que nem os dicionários nem os comentários a identificam com segurança. Pelo próprio texto, trata-se de um recipiente em que o óleo também cai gota a gota, mas de onde ninguém costuma tirar óleo: segundo a primeira razão seria proibido, e segundo a segunda, permitido. A guemará não decide entre as duas razões. O verbo “ye’arê” significa verter, esvaziar; Guggenheimer traduz “stir”, mexer, e nós seguimos o sentido do hebraico. Na última frase, o hebraico repete “não se começou com cada gota e gota”; a tradução inglesa traz ali “did not stop”, que não corresponde ao texto, e traduzimos o hebraico.
Na seção 02, a guemará cita a Mishná com as palavras “porque é um só utensílio”, que estão na Mishná do Bavli e da Mishná avulsa, mas não no texto da Mishná que abre esta halachá no Yerushalmi. Seguimos Penei Moshe na leitura de pergunta e resposta: o que o oleiro fez é claramente uma só peça; e se a casca foi presa com cal ou com gesso? Responde-se “ya’ut”, está certo, isto é, também é permitido. Assim ensina a Tosefta Shabbat 2:6, na edição de Lieberman (2:5 na edição de Vilna): “se a uniu com cal e com gesso, na véspera do Shabat, é permitido”; e logo antes, na Tosefta Shabbat 2:5, Rabi Yehudá conta que em Lod, no sótão da casa de Nitzá, furavam uma casca de ovo, enchiam-na de óleo e punham-na sobre a lâmpada, e os anciãos que estavam ali não disseram nada. O Bavli, Shabbat 29b, traz a mesma baraita com “cal e argila” e a explica: “oleiro” quer dizer como o trabalho de um oleiro. Em seguida a guemará explica a permissão de Rabi Yudá na Mishná: para ele, “mashké tofeach”, o líquido que umedece, é conexão, e o óleo que goteja liga a casca à lâmpada como um só utensílio. Na Mishná Tahorot 8:9 ensina-se, sem nome de autor, que o líquido que umedece não é conexão, nem para a impureza nem para a purificação. A baraita do pavio que passa por dois copos, duas tigelas ou duas travessas é o caso da tigela da Mishná, e Rabi Chananiá em nome de Rabi Pinchas dá a mesma razão para a permissão de Rabi Yudá. Não encontramos essa baraita na Tosefta nem no Bavli.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi escreve “Rabi Yehudá” e a guemará, “Rabi Yudá”; é o mesmo sábio, e conservamos as duas grafias. A Mishná do Yerushalmi escreve “afilu hi” sem a conjunção “e”, que o Bavli traz; “keará” sem a partícula “et”, que a Mishná avulsa traz; e “betochó” no masculino, onde a Mishná avulsa tem “betochá”. A guemará da seção 01 começa com a abreviação “matni’”, que indica a citação da Mishná, e escreve “shel beitzá” numa só palavra. A palavra “diklon” está sem vogais no hebraico desta edição, e assim a conservamos. Na seção 02, “gipsos” é a palavra grega para gesso, e “kli” está escrito com yod.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “shefoferet shel beitzá” por “eggshell”, e anota que se trata de um recipiente em forma de ovo; traduz “ye’arê” por “stir”, que corrigimos para verter. Ele não traduz a palavra “ya’ut” à parte; nós a lemos, com Penei Moshe, como resposta à pergunta sobre a cal e o gesso. Ele remete “mashké tofeach” ao Bavli, Avodá Zará 72b; conferimos essa página e ela trata do “nitzok”, o jorro de líquido, sem a frase de Rabi Yudá, e por isso não a indicamos.
A Mishná seguinte, Shabbat 2:5, começa: “Quem apaga a lâmpada.”