O daf abre concluindo a explicação de Rav Hamnuna: todos concordam que um pano guardado numa caixa permanece impuro (pois guardá-lo ali mostra que o dono o considera importante); a disputa entre Rabi Eliezer, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva refere-se apenas a quando o pano foi pendurado num varal ou deixado atrás da porta — posições intermediárias entre a caixa e o monturo de lixo. A Guemará então demonstra, a partir da própria linguagem da Mishná ("pavio do pano" em vez de "pavio de pano"), que Rabi Akiva na verdade se retratou de sua posição intermediária e passou a concordar com Rabi Yehoshua, considerando o pano puro mesmo quando preparado de antemão. Encerrada essa sugia, uma nova Mishná é introduzida: não se pode furar uma casca de ovo, enchê-la de óleo e colocá-la sobre a boca da vela para que pingue e prolongue a chama — mesmo sendo de barro —, mas Rabi Yehuda permite; se o oleiro já a uniu à vela desde o início, é permitido, por ser um único utensílio; da mesma forma, não se pode encher uma vasilha de óleo e colocá-la ao lado da vela com a ponta do pavio dentro dela para que suba o óleo por sucção, mas Rabi Yehuda permite. A Guemará demonstra que as quatro cláusulas dessa Mishná eram todas necessárias, e traz uma baraita sobre como se une a casca ao candeeiro com cal ou barro seco; a seguir, cita a baraita de Rabi Yehuda sobre a casa de Nitza em Lod, onde os sábios fizeram exatamente isso sem repreensão de Rabi Tarfon e dos anciãos — e a resposta de que aquele local era exceção, por seus moradores serem cuidadosos. Segue-se uma sequência de episódios sobre arrastar móveis no chão em Shabat: Avin de Tzipori arrastando um banco num sobrado de mármore diante de Rabi Yitzchak ben Elazar, que decreta proibição mesmo ali por medo de que se generalize; o chefe da sinagoga de Botzra arrastando um banco diante de Rabi Yirmia o Grande, que o repreende citando Rabi Shimon apenas para móveis grandes — gerando uma disputa com Ulá, que sustenta o oposto (que a permissão de Rabi Shimon é justamente para móveis pequenos); uma objeção de Rav Yossef a partir da baraita que menciona cama, cadeira e banco juntos, reconciliada de modos opostos por Ulá e por Rabi Yirmia; e, por fim, uma objeção decisiva de Rabá a partir da Mishná dos vendedores de roupa (que evitam mostrar intenção proibida ao carregar peças de kilayim), que refuta definitivamente a posição de Rabi Yirmia o Grande. O daf fecha com uma nova Mishná: quem apaga a vela por medo de gentios, de ladrões, de um espírito mau, ou por causa do doente que precisa dormir, está isento; mas quem apaga por economizar a vela, o óleo ou o pavio é responsável — exceto, segundo Rabi Yosei, o caso do pavio, pois ali se está criando carvão.
(Continuando a análise de 29a sobre o retalho menor que três por três:) se (o dono) o colocou numa caixa — segundo as palavras de todos, (esse retalho) é impuro (mantendo estatuto de vestimenta). Não discordaram (Rabi Eliezer, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva) senão quando (o dono) o pendurou num varal (magod), ou o deixou atrás da porta. Rabi Eliezer sustenta: já que não o jogou no monturo de lixo, sua intenção (de uso futuro) ainda está sobre ele (e por isso permanece suscetível à impureza). (A Guemará pergunta:) E por que (Rabi Eliezer) o chama de "não preparado" (na Mishná de Kelim, se na verdade o considera ainda impuro)? Porque, em relação à caixa, (esse pano) não é (considerado) preparado. E Rabi Yehoshua sustenta: já que não o colocou numa caixa, com certeza já o anulou (de seu estatuto de vestimenta). E por que (Rabi Yehoshua) o chama de "preparado"? Porque, em relação ao monturo de lixo, (esse pano) é (considerado) preparado. E Rabi Akiva — no caso de tê-lo pendurado num varal, sustenta como Rabi Eliezer; no caso de tê-lo deixado atrás da porta, sustenta como Rabi Yehoshua.
A Guemará explica com precisão os limites da disputa citada ao final de 29a. Existem, na realidade, quatro situações possíveis para o retalho pequeno: guardado numa caixa (o mais "importante"), pendurado num varal, deixado atrás da porta, e jogado no monturo de lixo (o mais "descartado"). Todos concordam que a caixa mantém o estatuto de vestimenta (impuro) e que o monturo de lixo o anula por completo (puro, como já visto em 29a). A disputa entre os três sábios refere-se apenas às duas situações intermediárias — o varal e atrás da porta. Rabi Eliezer usa como critério decisivo apenas o extremo inferior: qualquer coisa que não tenha sido explicitamente jogada fora ainda está "na mente" do dono, portanto ainda impura, tanto no varal quanto atrás da porta. Rabi Yehoshua usa como critério decisivo apenas o extremo superior: qualquer coisa que não tenha sido guardada numa caixa já foi implicitamente anulada, portanto pura, tanto no varal quanto atrás da porta. Rabi Akiva ocupa a posição intermediária mais refinada: distingue entre as duas situações, tratando o varal (mais próximo da caixa, um lugar de guardar) como impuro segundo o raciocínio de Rabi Eliezer, e atrás da porta (mais próximo do descarte, um lugar de esquecer) como puro segundo o raciocínio de Rabi Yehoshua.
E Rabi Akiva retratou-se (de sua posição intermediária) em favor de Rabi Yehoshua. (A Guemará pergunta:) De onde (se sabe isso)? Disse Rava: da (própria linguagem usada na) Mishná (deste tratado, sobre o pavio, que) ensina "o pavio do pano" (petilat habeged, no construto). (A Guemará pergunta:) Por que haveria de ensinar especificamente "o pavio do pano"? Que ensinasse (de forma mais simples) "um pavio feito de pano" (petilá shel beged)! (A resposta:) Qual é (o sentido de) "o pavio do pano" — que (mesmo assim) ainda é considerado pano (mantendo, em princípio, seu estatuto pleno de vestimenta suscetível à impureza — e, ainda assim, Rabi Akiva permite usá-lo como pavio sem chamuscar, mostrando que já concorda com Rabi Yehoshua quanto à anulação).
A Guemará traz uma prova sutil de que, no final, Rabi Akiva abandonou sua posição intermediária (do beat anterior) e passou a concordar inteiramente com Rabi Yehoshua — de que qualquer retalho não guardado numa caixa já está anulado de seu estatuto de vestimenta, tornando-se puro. A prova vem da própria redação da Mishná que abre esta sugia (citada em 28b): ela fala de "petilat habeged", o pavio do pano — usando a forma gramatical de construto (סמיכות), que sugere um vínculo estreito e contínuo entre o pavio e o pano, como se aquele pedaço ainda fosse, em essência, "o pano". Se a Mishná quisesse apenas indicar que o pavio é feito de material de pano (sem manter vínculo algum com o estatuto anterior de vestimenta), teria usado a expressão mais simples "petilá shel beged" (um pavio de pano). O uso da expressão mais forte e vinculada mostra que, mesmo reconhecendo que aquele pedaço "ainda é pano" em algum sentido residual, a Mishná — refletindo a posição final de Rabi Akiva — permite usá-lo livremente como pavio, sem exigir que seja chamuscado. Isso só é compreensível se Rabi Akiva, como Rabi Yehoshua, já considera esse tipo de retalho totalmente anulado de sua impureza como vestimenta, apesar de ainda reconhecê-lo, em linguagem descritiva, como originário de um pano.
"Colocou-o numa caixa" — revelou sua intenção de que (ainda) o considera importante.
"No varal" — (há) uma tradição recebida de que (esse lugar) é inferior à caixa e superior a atrás da porta, e atrás da porta é superior a jogá-lo no monturo de lixo; e "preparado", segundo Rabi Eliezer, é a caixa, e "não preparado" é o varal e atrás da porta.
"E por que o chama de 'não preparado'" — já que, para Rabi Eliezer, (esse pano) é considerado apto a receber impureza, (mas) em relação à caixa não é (considerado) preparado.
"E Rabi Yehoshua sustenta, etc." — e "preparado", segundo Rabi Yehoshua, é o varal e atrás da porta, e "não preparado" é tê-lo jogado no monturo de lixo.
"E por que o chama" — ao varal, de "preparado", já que, para Rabi Yehoshua, (o pano já está) anulado; (a resposta é que) em relação ao monturo de lixo, do qual trata Rabi Yehoshua, (o varal) é (considerado) preparado. E Rabi Akiva chama de "preparado" tê-lo pendurado no varal, e atrás da porta, de "não preparado".
"E Rabi Akiva retratou-se em favor de Rabi Yehoshua" — e declara puro mesmo (no caso do que é considerado) preparado.
"Do fato de ensinar" — na Mishná, "o pavio do pano", que indica que ainda é, em certa medida, pano, e (o dono) o considera valioso a seus próprios olhos; e, mesmo assim, diz Rabi Akiva na Mishná que é puro — donde se conclui que ele se retratou.
"De pano" — indica que (alguém) o dobrou a partir de (um pedaço de) pano; "o pano" indica que dobrou o próprio pano inteiro; e, quanto ao acender, (a halachá permanece) conforme estabelecemos acima, que a razão de Rabi Eliezer é que ele exige um pavio chamuscado para que acenda bem.
Não deve uma pessoa furar um tubo (feito de casca) de ovo, enchê-lo de óleo e colocá-lo sobre a boca da vela, para que (o óleo) vá gotejando (e prolongando a chama) — e mesmo que (esse tubo) seja de barro (em vez de casca de ovo, a proibição é a mesma). E Rabi Yehuda permite. Mas, se o oleiro já (o) uniu (à vela) desde o início (antes da queima do Shabat), é permitido, porque (nesse caso, os dois se tornam) um único utensílio. Não deve uma pessoa encher uma vasilha de óleo e colocá-la ao lado da vela, colocando a ponta do pavio dentro dela, para que (o pavio) vá sugando (mais óleo da vasilha para a vela). E Rabi Yehuda permite.
Uma nova Mishná se inicia, tratando de um princípio distinto: a preocupação com atos indiretos de acender ou apagar em Shabat. O primeiro caso descreve um recipiente pequeno e improvisado — um tubo feito de uma casca de ovo furada — cheio de óleo e posicionado sobre a chama da vela, para que o óleo vá pingando lentamente e prolongando o tempo de queima. Os sábios proíbem essa prática mesmo quando o tubo é de barro (um material menos apropriado e mais "nojento" para conter alimento, o que se poderia pensar tornaria a prática mais aceitável), por medo de que a pessoa venha a retirar diretamente óleo daquele recipiente amarrado à vela — um ato equivalente a apagar parcialmente a chama. Rabi Yehuda discorda e permite. Uma exceção é dada: se o próprio oleiro, ao fabricar a vela e o recipiente, já os uniu desde o início (antes de Shabat), formando assim um único utensílio integrado, a prática é permitida por todos, pois não há mais dois objetos distintos, mas um só. O segundo caso é semelhante, mas com uma vasilha maior de óleo colocada ao lado (não sobre) da vela, com a ponta ainda não acesa do pavio mergulhada dentro dela, para que o óleo suba por capilaridade até a chama. A mesma proibição (dos sábios) e permissão (de Rabi Yehuda) se aplicam.
E (todas as cláusulas) eram necessárias. Pois, se nos tivesse ensinado (apenas) o tubo de casca de ovo — nesse (caso) é que dizem os sábios (a proibição, precisamente) porque, já que não é nojento (a casca de ovo), (a pessoa) vem a retirar óleo dela; mas o (tubo) de barro, que é nojento (demais para se tocar com a mão suja de comida) — poder-se-ia dizer que (os sábios) concordam ali com Rabi Yehuda (permitindo). E se nos tivesse ensinado (apenas o tubo) de barro — nesse (caso) é que fala Rabi Yehuda (permitindo, precisamente porque é nojento); mas naquele (caso, da casca de ovo) — poder-se-ia dizer que ele concorda com os sábios (proibindo). E se nos tivesse ensinado esses dois (casos apenas), (poder-se-ia pensar que) nesses (casos) é que fala Rabi Yehuda (permitindo), porque não há separação (entre a vela e o recipiente, estando o tubo diretamente sobre a boca da vela); mas a vasilha, que está separada (ao lado da vela) — poder-se-ia dizer que ele concorda com os sábios (proibindo). E se nos tivesse ensinado (apenas) aquele (caso da vasilha), (poder-se-ia pensar que) nesse (caso) é que falam os sábios (proibindo, precisamente por causa da separação); mas nesses dois (casos anteriores, do tubo) — poder-se-ia dizer que (os sábios) concordam com Rabi Yehuda (permitindo). (Por isso todas as quatro cláusulas) eram necessárias.
Seguindo seu método já visto em 29a, a Guemará demonstra que nenhuma das quatro cláusulas da nova Mishná — casca de ovo, tubo de barro, vasilha de óleo, e (implicitamente) o caso do oleiro que uniu tudo desde o início — poderia ter sido dispensada. Cada par de casos oferece uma possível distinção que impediria a generalização de um para o outro: a diferença entre um material limpo (casca de ovo, que tenta o uso indevido) e um material nojento (barro, que afasta o uso indevido); e a diferença entre estar diretamente conectado à vela (sem separação, facilitando o esquecimento de que se trata de dois recipientes) e estar apenas ao lado dela (com separação clara, o que poderia por si só evitar a preocupação dos sábios). Assim, a Mishná precisou declarar explicitamente a halachá em cada uma das combinações, para que nenhuma regra fosse deixada à dedução incerta.
(A Mishná ensinou:) "e se o oleiro já a uniu desde o início, é permitido", etc. Foi ensinado (numa baraita): se (o próprio dono da casa) a uniu (à vela, antes de Shabat,) com cal ou com barro seco (chartzit), é permitido. (A Guemará pergunta:) Mas não ensinamos (na Mishná, especificamente,) "o oleiro" (sugerindo que só a união feita por um profissional, no momento da fabricação, é válida)? (A resposta:) O que significa "oleiro" (na Mishná)? Algo semelhante (em firmeza) à (união feita por um) oleiro (mesmo que realizada por um leigo, contanto que seja igualmente firme e permanente).
A Guemará esclarece que a exceção da Mishná — "se o oleiro já a uniu desde o início" — não exige literalmente que a união tenha sido feita por um profissional ceramista no momento da fabricação do utensílio. Uma baraita ensina que mesmo um simples dono de casa pode alcançar esse mesmo estatuto de "utensílio único", desde que una o tubo à vela com um material firme e permanente, como cal ou barro seco, antes do início do Shabat. A palavra "oleiro" na Mishná não se refere à identidade da pessoa, mas à qualidade e permanência da união: ela deve ser comparável, em solidez, à união profissional feita por um oleiro na fabricação original do utensílio.
"Para que vá gotejando" — e a vela se mantenha, de modo que o óleo vá pingando continuamente para dentro dela; e a razão é por decreto, com receio de que (a pessoa) venha a retirar óleo dali, e, já que o designou para a vela, é responsável por apagar; e mesmo aquele tubo de barro, que é nojento para ele, decretamos (a mesma proibição).
"Mas se a uniu" — não há de que se preocupar, porque, por causa da proibição do Shabat, (a pessoa) se afasta dela.
"E coloque a ponta do pavio" — a (ponta) segunda, que sai pelo outro orifício da vela, para sugar, e o óleo é puxado através do pavio até a ponta acesa.
"E Rabi Yehuda permite" — porque não decreta.
"Que não há separação" — nada (interpõe-se, já que o tubo) está colocado dentro da cavidade da vela, acima da cobertura.
"Que está separada" — pois está colocada ao lado da vela, e há aqui uma separação, e não se pode dizer que é o próprio corpo (dela); (por isso poder-se-ia) dizer que (Rabi Yehuda) concorda que decretamos.
"Foi ensinado: se a uniu" — o próprio dono da casa, ainda de dia (antes de Shabat), com cal ou com barro seco, é permitido.
"Semelhante ao oleiro" — que a uniu bem (e firmemente).
Foi ensinado (numa baraita): disse Rabi Yehuda: certa vez, passamos o Shabat no sobrado da casa de (a família) Nitza, em Lod. E trouxeram-nos um tubo de casca de ovo, e o enchemos de óleo, e o furamos, e o colocamos sobre a boca da vela (deixando-o gotejar). E estavam ali Rabi Tarfon e (outros) anciãos, e não nos disseram nada (repreendendo-nos por isso). (Os sábios) disseram-lhe: dali (desse silêncio) haveria prova (de que é permitido)?! Diferente é a casa de Nitza, pois (seus moradores) são cuidadosos (zerizin, e por isso ali não havia receio de que viessem a retirar óleo indevidamente).
Rabi Yehuda tenta apoiar sua posição permissiva (na Mishná) com um episódio pessoal: certa vez, hospedado na casa de Nitza em Lod, ele e seus companheiros usaram exatamente o método proibido pelos sábios — um tubo de casca de ovo furado, cheio de óleo, colocado sobre a vela — na presença de Rabi Tarfon e outros anciãos, que nada disseram para impedi-los. Rabi Yehuda toma esse silêncio como prova tácita de que a prática é permitida. Os sábios, porém, rejeitam essa prova: a casa de Nitza era um lugar excepcional, cujos moradores eram conhecidos por sua meticulosidade e cuidado religioso (zerizin) — não havia, ali, o receio comum de que alguém viesse a retirar o óleo indevidamente da vela em Shabat, mas isso não significa que a prática seja permitida de modo geral, para pessoas comuns, em qualquer lugar.
(Ver nota do beat anterior — Rashi não traz comentário adicional específico para este trecho da baraita de Nitza além do já citado sobre a união do tubo.)
Avin de Tzipori arrastou um banco num sobrado de mármore (sheisha), na presença de Rabi Yitzchak ben Elazar. Disse-lhe (este): se eu ficasse calado para ti, como ficaram calados os companheiros para Rabi Yehuda (no episódio da casa de Nitza), sairia disso dano (pois se tornaria costume geral, sem essa exceção). (Trata-se de um) decreto (que proíbe arrastar num) sobrado de mármore por causa do (comum) sobrado (de terra batida, onde arrastar formaria um sulco proibido).
A Guemará passa a um novo tema relacionado, ainda dentro do espírito da precaução contra atos que pareçam permitidos mas escondem risco: arrastar móveis pesados sobre o chão em Shabat, por receio de que se forme um sulco (chariz) no solo — um ato que se assemelharia a lavrar, proibido por decreto rabínico mesmo quando não intencional. Avin de Tzipori arrastou um banco no piso de um sobrado com chão de mármore — onde, evidentemente, nenhum sulco poderia realmente se formar. Ainda assim, Rabi Yitzchak ben Elazar o repreendeu, citando explicitamente o episódio de Rabi Yehuda na casa de Nitza (beat anterior) como precedente do perigo de ficar calado: se ele não interviesse agora, o costume se espalharia sem a distinção crucial entre um sobrado de mármore (seguro) e um sobrado comum de terra batida (onde o sulco é uma preocupação real). Por isso, decreta-se a proibição mesmo no caso seguro do mármore, como salvaguarda contra a confusão com o caso comum.
"De mármore" — piso de mármore, no qual não se forma sulco.
"Diante de Rabi Yitzchak" — na presença dele.
"Como ficaram calados os companheiros" — Rabi Tarfon e os anciãos, que, por não lhe terem dito nada, (Rabi Yehuda) presumiu e testemunhou que era permitido.
"Sairia disso dano" — e (as pessoas) passariam a costumar permitir a coisa; e Rabi Yitzchak sustenta como Rabi Yehuda, que uma coisa não intencional (mas que poderia resultar em ato proibido) é proibida; e, embora no mármore não se forme sulco, decreta por causa do sobrado comum.
O chefe da sinagoga (reish knishtá) de Botzra arrastou um banco na presença de Rabi Yirmia o Grande. Disse-lhe (este): segundo quem (ages assim), segundo Rabi Shimon (que permite arrastar móveis sem intenção de fazer sulco)? (Mas) diga-se que Rabi Shimon falou (apenas) a respeito de (móveis) grandes, que não é possível (mover de outro modo) — (mas) a respeito de (móveis) pequenos, por acaso (também) falou (permitindo)?! (A Guemará observa:) E (isso) discorda (da opinião) de Ulá. Pois disse Ulá: a disputa (entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon sobre arrastar) é (apenas quanto a móveis) pequenos; mas (quanto a móveis) grandes, segundo as palavras de todos, é permitido.
Um segundo episódio semelhante é narrado: o chefe da sinagoga de Botzra arrastou um banco no chão diante de Rabi Yirmia o Grande, que o repreendeu, perguntando em nome de que opinião ele se sentia autorizado a agir assim — presumivelmente a de Rabi Shimon, que permite arrastar cama, cadeira e banco sem se preocupar com a formação inadvertida de um sulco (com base no princípio de que uma ação não intencional que poderia resultar numa proibição não é, em si, proibida). Mas Rabi Yirmia distingue: a permissão de Rabi Shimon se aplicaria apenas a móveis grandes e pesados, que não têm outro modo prático de serem transportados senão arrastando-os; para móveis pequenos e leves, como um banco comum, que poderiam facilmente ser levantados e carregados sem arrastar, não haveria essa permissão, e arrastá-los seria proibido mesmo segundo Rabi Shimon. A Guemará nota que essa posição de Rabi Yirmia contradiz diretamente a de Ulá, que ensinou o oposto: que a disputa entre Rabi Yehuda (que proíbe) e Rabi Shimon (que permite) refere-se especificamente a móveis pequenos — precisamente porque, para móveis grandes, todos concordariam que é permitido arrastar, já que não há alternativa prática.
Objetou Rav Yossef (a partir de uma baraita): Rabi Shimon diz: pode uma pessoa arrastar uma cama, uma cadeira e um banco, contanto que não tenha a intenção de fazer um sulco. (A Guemará observa:) (Essa baraita) ensina (sobre móveis) grandes (como a cama), e ensina (sobre móveis) pequenos (como a cadeira e o banco, listados juntos, sem distinção) — é difícil (essa baraita) para ambos (Ulá e Rabi Yirmia, cada um por sua própria razão)!
Rav Yossef traz uma baraita que parece contradizer tanto Ulá quanto Rabi Yirmia o Grande, cada um por um motivo diferente. A baraita cita Rabi Shimon permitindo arrastar, na mesma frase e sem qualquer distinção de tamanho, três tipos de móveis: uma cama (grande), uma cadeira e um banco (pequenos) — desde que não haja intenção de formar um sulco. Isso é difícil para Rabi Yirmia, que sustentava que Rabi Shimon permite apenas móveis grandes (a cama), não pequenos (a cadeira e o banco) — pois a baraita claramente inclui os pequenos na mesma permissão. E é igualmente difícil para Ulá, que sustentava que a disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon se restringe aos móveis pequenos, e que, para os grandes, todos concordam que é permitido (sem necessidade de mencionar especificamente a opinião de Rabi Shimon) — pois, se assim fosse, não haveria razão para a baraita citar a cama (grande) como parte da opinião especificamente atribuída a Rabi Shimon.
Ulá reconcilia (a objeção) segundo sua própria razão, e Rabi Yirmia o Grande reconcilia (a mesma objeção) segundo sua própria razão. Ulá reconcilia segundo sua razão: (a) cama (mencionada na baraita deve ser entendida como) semelhante à cadeira (isto é, uma cama pequena, do mesmo porte de uma cadeira comum — pois só de móveis pequenos trata ali a disputa). E Rabi Yirmia o Grande reconcilia segundo sua razão: (a) cadeira (mencionada na baraita deve ser entendida como) semelhante à cama (isto é, uma cadeira grande e pesada, do mesmo porte de uma cama comum — pois só de móveis grandes trata ali a permissão de Rabi Shimon).
Cada um dos dois sábios resolve a dificuldade reinterpretando um dos termos da baraita para adequá-la à sua própria posição, em vez de abandoná-la. Ulá, que sustenta que a disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon se limita a móveis pequenos, explica que a "cama" mencionada na baraita não se refere a uma cama grande e pesada no sentido comum, mas a um leito pequeno e leve, comparável em tamanho a uma cadeira — encaixando-se, assim, dentro do escopo da disputa sobre móveis pequenos. Rabi Yirmia o Grande, que sustenta que Rabi Shimon permite arrastar apenas móveis grandes, explica de modo oposto: a "cadeira" mencionada na baraita não se refere a uma cadeira leve e pequena no sentido comum, mas a uma cadeira grande e pesada, comparável em porte a uma cama — encaixando-se, assim, dentro do escopo da permissão para móveis grandes.
"Chefe da sinagoga" — aquele que dispensa as assembleias, que faz entrar e sair, e assenta discípulos e crianças.
"De Botzra" — nome de um lugar, (como está escrito:) "porque há um sacrifício para o Eterno em Botzra" (Isaías 34:6).
"Como Rabi Shimon" — que disse: pode uma pessoa arrastar.
"Que não é possível" — senão arrastando, pois não se pode levá-los à mão.
"A disputa é em móveis pequenos" — e, embora seja possível carregá-los, Rabi Shimon permite (arrastar), já que (a pessoa) não tem intenção de (fazer) sulco; e Rabi Yehuda sustenta que, já que é possível (carregar de outro modo), é proibido.
"Ensina (sobre móveis) grandes" — a cama.
"E ensina (sobre móveis) pequenos" — a cadeira; e Rabi Yehuda discorda dele, pois ensinamos em Massechet Beitzá: Rabi Yehuda diz que nenhum utensílio pode ser arrastado. Pois, se não fosse por causa da disputa deles, por que precisaria (a baraita) ensinar (sobre móveis) grandes? Agora que (móveis) pequenos Rabi Shimon permite, (móveis) grandes não seria necessário dizer! Mas (a baraita) ensinou (sobre móveis) pequenos por causa de Rabi Shimon, e ensinou (sobre móveis) grandes por causa de Rabi Yehuda.
"Semelhante à cadeira" — (móveis) pequenos, e é nesse (caso) que Rabi Yehuda proíbe; mas nos (móveis) grandes, permite.
"Cadeira semelhante à cama" — (móveis) grandes, e é nesse (caso) que Rabi Shimon permite; mas nos (móveis) pequenos, proíbe.
Objetou Rabá (a partir de outra Mishná): os vendedores de roupa (que contêm mistura proibida de lã e linho, kilayim) vendem (carregando-as sobre os ombros) como é seu costume, contanto que não tenham a intenção, no sol, de (se beneficiar) do sol, e na chuva, de (se beneficiar) da chuva; e os (mais) cuidadosos (pendurando as roupas) num bastão atrás de si (evitam totalmente vesti-las sobre o corpo). (A Guemará argumenta:) e eis que aqui (nesse caso), onde é possível agir como os cuidadosos (usando o bastão, em vez de vestir as roupas — o que seria comparável aos móveis pequenos, que também poderiam ser carregados à mão em vez de arrastados) — que (mesmo assim, quando) não há intenção (de se beneficiar do proibido), Rabi Shimon permite (vesti-las) mesmo de antemão (lechatchilá, sem exigir o método alternativo dos cuidadosos). (Isso é uma) refutação de Rabi Yirmia o Grande. (De fato, é uma) refutação (conclusiva).
Rabá encerra a disputa com uma refutação decisiva contra Rabi Yirmia o Grande, trazendo uma Mishná de outro contexto (sobre vendedores de roupas com mistura proibida de lã e linho, kilayim, que a lei permite vender mas não vestir para benefício próprio). Essa Mishná ensina que os vendedores podem carregar essas roupas sobre os ombros como é seu costume comercial normal, desde que não tenham a intenção específica de se aproveitar delas como proteção contra o sol ou a chuva — mesmo sabendo que, na prática, elas os protegem de qualquer forma. Existe até uma alternativa mais cautelosa, adotada pelos mais escrupulosos: pendurar as roupas num bastão atrás de si, evitando por completo qualquer contato direto com o corpo, eliminando toda dúvida. Rabá argumenta que esse caso é exatamente paralelo ao dos móveis pequenos: assim como a cadeira ou o banco poderiam, em princípio, ser carregados à mão em vez de arrastados (eliminando qualquer risco de sulco), da mesma forma as roupas de kilayim poderiam ser carregadas no bastão em vez de vestidas (eliminando qualquer risco de benefício proibido). E, ainda assim, a Mishná permite explicitamente, mesmo de antemão, o método mais simples e direto (vestir as roupas normalmente), contanto que não haja intenção proibida — provando que a mera existência de uma alternativa mais cautelosa não obriga a adotá-la, quando não há intenção de transgredir. Isso refuta definitivamente Rabi Yirmia, que exigia justamente essa distinção entre "possível de outro modo" e "impossível de outro modo" para permitir arrastar apenas os móveis grandes.
"Vendem como é seu costume" — (podem) vestir a roupa de kilayim no mercado, para mostrá-la e vendê-la, pois a Torá só proibiu o vestir que serve para se aquecer, como fazem todos os que vestem; e "colocar sobre si" (também é proibido quando) semelhante ao vestir, isto é, quando (a pessoa) se beneficia dela.
"Contanto que não tenha a intenção, etc." — e é Rabi Shimon quem segue (o critério) da intenção.
"E os cuidadosos" — os íntegros, que se afastam de toda maledicência.
"E eis que aqui, onde é possível" — a qualquer pessoa agir sem (incorrer) em proibição, e, ainda assim, é permitido.
Quem apaga a vela (em Shabat) por estar com medo de gentios, ou de ladrões, ou por medo de um espírito mau (rúach raá — um estado de aflição ou melancolia), ou por causa do doente, para que (este possa) dormir — está isento. (Mas quem apaga) como quem poupa a vela (o próprio candeeiro), como quem poupa o óleo, como quem poupa o pavio — é responsável. Rabi Yosei isenta em todos esses (últimos casos), exceto no (caso) do pavio — porque, (ao apagá-lo,) ele o transforma em carvão.
Uma última Mishná encerra o daf, abrindo um novo tema central deste capítulo: as circunstâncias em que apagar uma vela em Shabat gera ou não responsabilidade por transgressão. A primeira lista de casos — medo de gentios (que poderiam atacar ao ver luz numa casa escondida), medo de ladrões (pela mesma razão), medo de um "espírito mau" (um estado de perturbação emocional aliviado pela escuridão) e a necessidade de deixar um doente dormir — resulta em isenção, pois, nesses casos, o ato de apagar não visa a nenhum benefício construtivo direto ligado ao próprio combustível, mas apenas evitar um dano ou proteger uma vida ou o sono, sendo, portanto, um ato "não necessário para seu próprio propósito" (melachá she-eyna tzericha legufáh) segundo a opinião predominante da Mishná. A segunda lista de casos — apagar para poupar o candeeiro (de queimar ou rachar), o óleo (para reutilizá-lo depois) ou o pavio (para reutilizá-lo depois) — resulta em responsabilidade plena, pois, nesses casos, o próprio ato de apagar tem um propósito construtivo direto e desejado (economizar um recurso material), enquadrando-se como uma melachá completa e intencional. Rabi Yosei discorda parcialmente: para ele, mesmo poupar o candeeiro ou o óleo não gera responsabilidade (por razões que a Guemará explicará adiante), mas poupar o pavio continua sendo proibido, porque o próprio ato de apagá-lo transforma a ponta do pavio em carvão — um resultado construtivo em si mesmo (preparando-o para acender com mais facilidade da próxima vez), o que constitui uma verdadeira melachá.
"Por causa de gentios" — como os persas, que tinham um dia de festa em que não permitiam luz senão na casa de sua idolatria.
"E por causa dos ladrões" — para que não vejam que há ali alguém, e venham contra ele.
"E por causa de um espírito mau" — que vem sobre ele, e, quando não vê, sente-se aliviado.
"Isento" — e na Guemará (a Mishná) se explica por completo.
"Como quem poupa a vela" — que (a pessoa) viu que (o candeeiro) estava se estragando, e teve pena dele, e apagou o pavio.
"A vela" (o candeeiro) — (em língua estrangeira, o termo usado por Rashi para designar o recipiente do candeeiro).
"É responsável" — (a Guemará) a explica.
"Isenta em todos" — (a Guemará) explica (isso adiante, no) daf 31b.
"Porque ele transforma (o pavio) em carvão" — nesse apagar, e é uma melachá necessária para seu próprio propósito, como se diz na Guemará.