Segunda halachá do Perek Bet de Massechet Shabbat, Bameh Madlikin. A Mishná ensina que não se acende com shemen sreifá no Yom Tov; Rabi Yishmael proíbe o itran por causa da honra do Shabat; os Sábios permitem todos os óleos, do óleo de gergelim ao neft; e Rabi Tarfon só permite o azeite de oliva. A guemará deduz que no Yom Tov se acende com todos os pavios e óleos da Mishná anterior; explica a diferença entre o itran e as vísceras de peixe; traz a baraita sobre o óleo de paku'ot; cita o protesto de Rabi Yochanan ben Nuri em nome dos homens da Babilônia, da Média, de Alexandria e da Capadócia; e termina com Rabi Shimon ben Elazar, que proíbe o tzori porque é resina. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 24b.
Mishná: Não se acende a lâmpada com shemen sreifá (óleo destinado à queima, a terumá de azeite que se tornou impura) no Yom Tov (dia festivo). Rabi Yishmael diz: não se acende a lâmpada do Shabat com itran (resina de mau cheiro), por causa da honra do Shabat. E os Sábios permitem acender com todos os óleos: com óleo de gergelim, com óleo de nozes, com óleo de rabanetes, com óleo de peixes, com óleo de paku'ot (coloquíntidas), com itran e com neft (nafta). Rabi Tarfon diz: não se acende a lâmpada senão com azeite de oliva somente.
Na Mishná: “Não se acende com shemen sreifá no Yom Tov” etc. Daqui se aprende que, com todos aqueles pavios e óleos anteriores, que a Mishná anterior proibiu para o Shabat, acende-se no Yom Tov, pois somente o shemen sreifá foi excluído.
Na Mishná: “Rabi Yishmael diz: não se acende com itran por causa da honra do Shabat.” Pergunta-se: que diferença há entre o itran e as vísceras de peixe, com as quais se acende? As vísceras de peixe, todo o tempo em que estão ardendo, o seu cheiro não é ruim; quando se apagam, o seu cheiro é ruim. O itran, quer se apague, quer arda, o seu cheiro é ruim, e por isso não se acende com ele. E a Mishná fala assim para que não digas: já que o seu cheiro é ruim, que ele exija o afastamento de quatro amot (côvados), como se faz diante de um mau cheiro; por isso é preciso dizer somente: não se acende com ele.
Na Mishná: “E os Sábios permitem acender com todos os óleos.” Ensinou-se numa baraita: também com óleo de paku'ot (coloquíntidas) se acende.
Na Mishná: “Rabi Tarfon diz: não se acende senão com azeite de oliva somente.” Rabi Yochanan ben Nuri pôs-se de pé e disse: se é assim, como diz Rabi Tarfon, que farão os homens da Babilônia, que não têm senão óleo de gergelim, para acender a lâmpada do Shabat? Que farão no Shabat os homens da Média, que não têm senão óleo de nozes somente? Que farão os homens de Alexandria, que não têm senão óleo de rabanetes, e não azeite de oliva? Que farão os homens da Capadócia, que não têm nem isto nem aquilo, nem azeite de oliva nem os outros óleos, senão neft (nafta)? Antes, não tens como regra senão aquilo que os primeiros Sábios permitiram, somente, isto é, todos os óleos que eles enumeraram.
Ensinou-se numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: não se acende com tzori (bálsamo), porque ele é sraf (resina que escorre da árvore), e não óleo extraído de um fruto.
Esta é a segunda halachá do Perek Bet de Massechet Shabbat, Bameh Madlikin, que corresponde à Mishná Shabbat 2:2 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com Rav Chisda sobre o neft: quem disse que se acende fala do neft preto, e quem disse que não se acende fala do branco, que é perigoso. A Mishná desta halachá continua a lista dos óleos: depois dos pavios e dos óleos com que não se acende no Shabat, ensina que com o shemen sreifá não se acende nem mesmo no Yom Tov, traz a opinião de Rabi Yishmael sobre o itran e enumera os óleos que os Sábios permitem, entre eles o neft; Rabi Tarfon só permite o azeite de oliva.
A seção 01 deduz da Mishná que, no Yom Tov, se acende com todos os pavios e óleos proibidos para o Shabat na Mishná anterior, exceto o shemen sreifá. É o que ensina a Tosefta Shabbat 2:1: “todos aqueles de que disseram que não se acende com eles no Shabat, acende-se com eles no Yom Tov, exceto o shemen sreifá”, e a Tosefta explica: porque não se queimam terumot, nem kodashim, nem chametz no Yom Tov. A razão da proibição já foi discutida na halachá anterior, nas seções 10 e 11, sobre a queima de kodashim no Yom Tov. No Bavli, em Shabbat 24b, a guemará sobre esta Mishná dá a mesma razão: não se queimam kodashim no Yom Tov.
A seção 02 explica por que o itran é proibido, se as vísceras de peixe são permitidas, como Rav ensinou na halachá anterior, na seção 20: as vísceras só cheiram mal quando se apagam, e o itran cheira mal sempre. A frase final é concisa. O afastamento de quatro amot é o que a Mishná Berachot 3:5 exige diante da água fétida e dos excrementos para ler o Shemá. Seguimos Guggenheimer, que entende que o mau cheiro do itran não é desse tipo: se a Mishná não dissesse expressamente “não se acende”, alguém poderia pensar que o itran exige o afastamento de quatro amot; por isso a Mishná diz apenas que não se acende com ele. No Bavli, em Shabbat 25b, Rava dá outra razão para Rabi Yishmael: como o cheiro é ruim, decretou-se que não se acenda com ele, para que a pessoa não deixe a lâmpada e saia, pois acender a lâmpada no Shabat é obrigação.
Na seção 03, a palavra “teni”, ensinou-se, aparece entre parênteses no hebraico desta edição, porque, segundo Guggenheimer, o corretor do manuscrito a riscou, e ela não está na primeira edição impressa. Guggenheimer, seguindo J. N. Epstein, considera que ela é original e que o óleo de paku'ot entrou na Mishná mais tarde, vindo de uma baraita; por isso traduzimos “Ensinou-se”. No Bavli, em Shabbat 26a, uma baraita atribui a permissão do óleo de paku'ot e do neft a Rabi Shimon Shezuri.
A seção 04 corresponde à Tosefta Shabbat 2:3 e ao Bavli, Shabbat 26a. As palavras “ela neft”, senão neft, aparecem entre parênteses no hebraico desta edição, porque, segundo Guggenheimer, o corretor as riscou; o Bavli, em Shabbat 26a, traz “ela neft” na mesma frase, mas a Tosefta, na edição de Lieberman, não as traz. A frase final é diferente nas três fontes: aqui, “senão aquilo que os primeiros permitiram, somente”; na Tosefta, “senão aquilo que disseram”; no Bavli, “senão aquilo que os Sábios disseram que não se acende”. Babilônia, Média, Alexandria e Capadócia traduzem “Bavel”, “Madai”, “Alexandria” e “Kapodokia”.
A seção 05 corresponde à Tosefta Shabbat 2:3, onde Rabi Shimon ben Elazar diz que não se acende com tzori, e ao Bavli, Shabbat 25b–26a, onde ele acrescenta que o tzori não é senão resina das árvores de ketaf, e Rabá explica que, por causa do seu perfume, se decretou que não se acenda com ele, para que ninguém se sirva dele no Shabat. A Mishná seguinte, Shabbat 2:3, começa: “Tudo o que sai da árvore, não se acende com ele, exceto o linho.”
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi apresenta grafias e leituras próprias, conservadas no hebraico: “shemen shumshemin, shemen egozim” e os demais óleos sem a preposição “be”, que a Mishná avulsa traz diante de cada um; “shumshemin” escrito com vav; e “rabi” escrito “ribi”. Na seção 01, “sreifá” é escrito com yod, e a abreviação “kul’”, que traduzimos “etc.”, indica que a citação da Mishná continua. Na seção 02, “itran” é escrito com yod; na seção 03, “hashemanin” termina com nun; na seção 04, “egozim” aparece escrito com tsere; na seção 05, “tzori” é escrito com vav e sem a preposição “be”. Segundo Guggenheimer, itran é, para Rashi, o resíduo do piche, e, para o Rambam, uma resina; os dois Talmudim dizem que tem mau cheiro. Paku'ot são coloquíntidas, cujo óleo se extrai das sementes. Tzori é o bálsamo, e sraf é a resina que escorre do tronco.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer verte “itran” como “iṭran”, “paku'ot” como “colocynth” e “tzori” como “balsamum”. Na seção 03, ele mantém “state”, ensinou-se, entre parênteses, como no hebraico; na seção 04, mantém “but naphtha” entre parênteses; nós traduzimos as duas palavras sem marcas e explicamos aqui. Na seção 02, ele traduz a frase final como uma afirmação, “since it smells badly one should need to distance himself four cubits”; o hebraico diz “para que não digas”, e assim traduzimos.