Quarta halachá do Perek Yud-Tet de Massechet Shabbat, Rabi Eliezer DeMilah (Rabi Eliezer, da circuncisão). A Mishná trata de quem tinha dois bebês para circuncidar, um no Shabat e outro na véspera ou depois dele, e por esquecimento circuncidou no Shabat o bebê errado: no caso da véspera, é culpado; no caso de depois do Shabat, Rabi Eliezer o torna culpado de uma chatat e Rabi Yehoshua o isenta. A guemará liga esta Mishná à do pessach abatido no Shabat em nome de outro sacrifício: as leituras de Rabi Meir e de Rabi Shimon sobre a coisa em cuja feitura há mitzvá; as três condições de Rabi Meir; o sentido de “coisa que não tem limite”; a explicação de Rabi Yanai, que o do Shabat já fora circuncidado na véspera; os bebês em dúvida; a objeção “o que antecipou é isento, o que atrasou é culpado?” e a resposta de Rav Huna, de que a Mishná está trocada, com a baraita de Rabi Shimon; e a opinião de Rabi Yossi, que isenta quem erra em nome de uma mitzvá. A segunda parte traz os tzitzin depois que o mohel se afastou, e a ligação com o lulav levado no primeiro dia de Sucot que cai no Shabat. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 137a.
Mishná: Quem tinha dois bebês, um deles para circuncidar na véspera do Shabat e um para circuncidar no Shabat, e esqueceu e circuncidou o da véspera do Shabat no Shabat, é culpado. Se tinha um para circuncidar depois do Shabat e um para circuncidar no Shabat, e esqueceu e circuncidou o de depois do Shabat no Shabat, Rabi Eliezer o torna culpado de uma chatat (oferta de expiação), e Rabi Yehoshua o declara isento.
“Quem tinha dois bebês” etc. Disse Rabi Yochanan: esta Mishná é de Rabi Meir, que disse: a coisa cuja feitura é mitzvá (mandamento), nela ele é isento; e naquela em cuja feitura não há mitzvá, que ele seja culpado está em divergência. Rabi Shimon diz: a coisa em cuja feitura há mitzvá, nela ele é culpado; e naquela em cuja feitura não há mitzvá, que ele seja isento está em divergência. Rabi Yossi disse em nome de Rabi Yochanan: são as palavras de Rabi Meir, e isso desde que seja um cordeiro sem defeito e de um ano, e shelamim (ofertas de paz), e apto a ser mudado para o nome do pessach (sacrifício pascal). Aprende-se disto três coisas. Aprende-se disto: que se trata de coisa que não tem limite fixo, e coisa que não costuma trocar-se, e coisa em cuja feitura há mitzvá.
O que tens por “coisa que não tem limite”? Rabi Yirmeyá pensava dizer: que a Torá não deu limite para quantos sacrifícios de pessach afastam o Shabat em cada ano. Rabi Yossi pensava dizer: que não podes chegar a conhecer o seu número. Rabi Yossi, quando chegava a estes casos, dizia: deu porventura a Torá limite para quantos sacrifícios de pessach afastam o Shabat em todo o ano? Rav Chisda disse: as palavras de Rabi Shimon, explica-as no caso em que havia ali uma chavurá (grupo inscrito num pessach) que ainda não tinha abatido.
Disse Rabi Zeira: a palavra de Rabi Yanai diz: e isso desde que tenha esquecido e circuncidado o do Shabat na véspera do Shabat. Se o circuncidou pela manhã, Rabi Zeura disse: Rabi Yanai pensava que ele é isento; Rabi Ba disse: é culpado. E a que coisa se refere o que Rabi Yanai disse? Vem informar-te onde está o modo de os bebês se trocarem. Segundo a opinião de Rabi Zeura, é conforme Rabi Yanai; segundo a opinião de Rav, é conforme Rabi Meir. Disse Rabi Mana diante de Rabi Yossi: o que disse Rav Chisda é conforme Rabi Shimon, e o que disse Rabi Yanai é conforme Rabi Meir. E acaso se faz objeção de uma opinião à outra entre Rabi Meir e Rabi Shimon? E acaso encontramos divergência entre Rabi Meir e Rabi Shimon quanto ao resto que fica por fazer?
Estes bebês em dúvida, como os tratas? Como coisa que tem limite ou como coisa que não tem limite? Se os tratares como coisa que tem limite, e isso desde que haja ali outro bebê para circuncidar. Disse Rabi Yossi: as palavras dos rabanan (os sábios) os trataram como coisa que não tem limite, e isso desde que haja ali outro bebê para circuncidar. Vem e vê: na Mishná, o que antecipou o seu tempo é isento, e o que atrasou o seu tempo é culpado?
Rav Huna disse: a matnita (a Mishná) está trocada, pois se ensinou: Disse Rabi Shimon: não divergiram Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre quem estava para circuncidar depois do Shabat e o circuncidou no Shabat, que é culpado; e sobre quem tinha um bebê para circuncidar na véspera do Shabat e o circuncidou no Shabat, é que divergiram: Rabi Eliezer o torna culpado de uma chatat, e Rabi Yehoshua o declara isento. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: foi por causa da dificuldade com que Rabi Yanai a questionava: “e isso desde que tenha esquecido e circuncidado o do Shabat na véspera do Shabat”. Rav Ada bar Ahava disse: estas são as palavras de Rabi Meir e de Rabi Shimon; mas segundo as palavras de Rabi Yossi, mesmo numa coisa em cuja feitura não há mitzvá, já que erra nela em nome de uma mitzvá, é isento.
Se se afastou, não volta a cortar senão pelos tzitzin (os fiapos de pele que restam da orla) que impedem a milá (circuncisão). Disse Rabi Yochanan: segundo as palavras de Rabi Yossi, mesmo que se tenha afastado, volta mesmo pelos tzitzin que não impedem a milá. Qual é este Rabi Yossi? Aquele que ensinamos ali: “Rabi Yossi diz: o primeiro Yom Tov (dia festivo) da festa de Sucot que cai no Shabat, se esqueceu e levou o lulav (o ramo de palmeira da festa) para o domínio público, é isento, porque o levou com permissão.” Também com a faca da milá e também com a milá é assim? Pelo que disse Rabi Yochanan, segundo as palavras de Rabi Yossi, mesmo que se tenha afastado, volta mesmo pelos tzitzin que não impedem a milá, isto diz: mesmo com a faca da milá é assim; mesmo com a milá é assim.
Esta é a quarta halachá do Perek Yud-Tet de Massechet Shabbat, Rabi Eliezer DeMilah, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 19:4 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, mas com os dois casos em ordem inversa: no Yerushalmi, quem circuncida no Shabat o bebê da véspera do Shabat é culpado, e a divergência entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua é sobre o bebê de depois do Shabat; na avulsa, quem circuncida no Shabat o bebê de depois do Shabat é culpado, e a divergência é sobre o bebê da véspera. O Bavli, no começo da Mishná em Shabbat 137a, tem a mesma ordem da avulsa. As outras diferenças são de grafia e de vocalização: a avulsa diz שְׁתֵּי תִינוֹקוֹת, onde o Yerushalmi diz שְׁנֵי תִינוֹקוֹת; tem וְשָׁכַח, com vav, nos dois casos, onde o Yerushalmi diz שָׁכַח; e escreve בְּשַׁבָּת, חַיָּב, מְחַיֵּב e וְרַבִּי, onde o Yerushalmi escreve בַּשַּׁבָּת, חַיָיב, מְחַיֵיב e וְרִבִּי. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os outros dois são a guemará; cada um deles forma uma seção, 01 e 02, e nada foi deixado de fora. A seção 01, que é um segmento longo, foi dividida em cinco pares de hebraico e português, sem mudar o texto. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; o ב׳ de ב׳ תִינוֹקוֹת, no começo da seção 01, é a abreviação de “dois” e foi mantido. Tiramos também três marcadores embutidos que não fazem parte do texto, todos na seção 01: o da folha 88b da edição de Vilna, antes de דְּאָמַר; o da folha 89a, antes de דִּבְרֵי רִבִּי שִׁמְעוֹן תִּיפְתָּר; e o da folha 89b, antes de מָה אַתְּ עֲבִיד לוֹ. Não há colchetes nem parênteses no hebraico desta halachá. O hebraico escreve o mesmo sábio como זְעִירָא, זְעוּרָה e זְעוּרָא; traduzimos “Rabi Zeira” e “Rabi Zeura” conforme a grafia, como nas halachot anteriores. רִבִּי יוֹסֵי e רִבִּי יוֹסֵה são ambos “Rabi Yossi”, como neste site; o Rabi Yossi de Rav Ada bar Ahava e da seção 02 é o tanaíta, o da Mishná de Sucá.
Referências conferidas. Toda a seção 01 aparece também no Yerushalmi de Pesachim 6:5, quinto segmento na numeração do Sefaria, e a seção 02 é o sexto segmento ali; a seção 02 aparece ainda no Yerushalmi de Yevamot 8:1, décimo oitavo segmento, precedida da baraita completa: כָּל שָׁעָה שֶׁהוּא עוֹסֵק בְּמִילָה חוֹזֵר, “todo o tempo em que está ocupado com a milá, volta”, tanto pelos tzitzin que impedem como pelos que não impedem. A Mishná de Pesachim por trás da discussão é a Mishná Pesachim 6:5, na numeração do Sefaria: o pessach abatido no Shabat fora do seu nome obriga a uma chatat; os outros sacrifícios abatidos em nome do pessach, se não são aptos, obrigam, e, se são aptos, Rabi Eliezer obriga a uma chatat e Rabi Yehoshua isenta; Rabi Yehoshua distingue as porções das ofertas públicas, “que têm limite”, do pessach, “que não tem limite”; e Rabi Meir diz que também quem abate em nome das ofertas públicas é isento. As condições de Rabi Meir, cordeiro sem defeito e de um ano, lembram Shemot 12:5, שֶׂה תָמִים זָכָר בֶּן־שָׁנָה, “cordeiro sem defeito, macho, de um ano”. Em Shabbat 137a, o Bavli traz a Mishná e a discussão das duas versões: Rav Huna ensina “culpado” e Rav Yehuda ensina “isento”; para Rav Huna, a baraita de Rabi Shimon ben Elazar, de que não divergiram sobre o bebê de depois do Shabat, que é culpado, mas sobre o bebê da véspera; para Rav Yehuda, a baraita de Rabi Meir, de que não divergiram sobre o bebê da véspera, que é isento, mas sobre o de depois do Shabat; e Rabi Chiya ensina, em nome de Rabi Meir, que no bebê da véspera é culpado e que divergiram sobre o de depois do Shabat, que é a ordem da nossa Mishná. Ali mesmo o Bavli pergunta como Rabi Yehoshua pode isentar quem não faz mitzvá e tornar culpado quem a faz, e a casa de Rabi Yanai responde que a primeira parte trata de quem antes circuncidou o do Shabat na véspera do Shabat, como a palavra de Rabi Yanai aqui. A baraita de Rabi Shimon trazida por Rav Huna está na Tosefta Shabbat 15:10 (ed. Lieberman), quase com as mesmas palavras, seguida da discussão entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua. A Tosefta Shabbat 15:4 (ed. Lieberman) diz que, todo o tempo em que está ocupado com a milá, volta também pelos tzitzin que não impedem, e que, se se afastou, não volta senão pelos que impedem; a mesma baraita está no Bavli Shabbat 133b. Os tzitzin que impedem a milá são definidos na Mishná Shabbat 19:6: a carne que cobre a maior parte da coroa. A Mishná de Rabi Yossi sobre o lulav é a Mishná Sucá 3:14, na numeração do Sefaria, com as mesmas palavras, salvo diferenças de grafia.
Observações de leitura. Na Mishná, o bebê “da véspera do Shabat” é o que devia ter sido circuncidado na sexta-feira e ficou para depois; ao circuncidá-lo no Shabat se faz uma mitzvá, mas fora do seu tempo. O de “depois do Shabat” ainda não chegou ao seu tempo, e circuncidá-lo no Shabat não é mitzvá. A guemará lê a Mishná com a do pessach: Rabi Meir isenta quando há mitzvá e põe a divergência onde não há; Rabi Shimon torna culpado quando há mitzvá e põe a divergência onde não há, que é a ordem da Mishná do Yerushalmi; na baraita de Rabi Shimon trazida por Rav Huna, e na Tosefta, a ordem é a inversa. Os comentaristas clássicos propõem corrigir a frase de Rabi Shimon, e também “coisa que não costuma trocar-se”; traduzimos o hebraico como está. Há aqui pelo menos duas lacunas, que o paralelo de Pesachim 6:5 completa: depois de “quando chegava a estes”, Pesachim continua תִּינּוֹקוֹת סְפֵיקוֹת הֲוָה אֲמַר. יָפֶה לִימְּדָנוּ רִבִּי יִרְמְיָה, “bebês em dúvida, dizia: bem nos ensinou Rabi Yirmeyá”, e a frase final é “mas que a Torá não deu limite”; e, depois de “se os tratares como coisa que tem limite”, Pesachim continua אֲפִילוּ אֵין שָׁם תִּינּוֹק אֶחָד לָמוּל. וְאִין תַּעַבְדִּינוּן כְּדָבָר שֶׁאֵין לוֹ קִיצְבָּה, “mesmo que não haja ali um bebê para circuncidar; e se os tratares como coisa que não tem limite”. Não acrescentamos essas palavras ao português; por isso a pergunta de Rabi Yossi aparece como pergunta, “deu porventura a Torá limite?”, e o “dizia” é a nossa leitura. Também וְעַל. מִי שֶׁהָיָה לוֹ לָמוּל, na baraita de Rabi Shimon, é mais curto que וְעַל מַה נֶחְלְקוּ. עַל מִי de Pesachim e da Tosefta; “é que divergiram” completa a frase. A palavra de Rabi Yanai é que a Mishná fala de quem, por esquecimento, já tinha circuncidado o bebê do Shabat na véspera: então no Shabat não resta nenhum bebê a circuncidar, e o Shabat não foi afastado para ele. “Se o circuncidou pela manhã” não diz quem; parece tratar do bebê do Shabat circuncidado no Shabat de manhã, antes do outro, e Rabi Zeura e Rabi Ba divergem sobre o que Rabi Yanai diria então. “Segundo a opinião de Rav, conforme Rabi Meir” é de leitura incerta, e o paralelo de Pesachim tem as mesmas palavras. As frases de Rabi Mana com “acaso” são lidas como perguntas: Rabi Meir e Rabi Shimon partem de leituras diferentes da Mishná, e não há por que objetar um ao outro. “Antecipou o seu tempo” é o bebê de depois do Shabat, e “atrasou o seu tempo” é o da véspera; a pergunta é a mesma do Bavli. Na seção 02, “afastou-se” traduz פִּירֵשׁ, o mohel que terminou e se afastou da milá; para Rabi Yossi, quem age com permissão no Shabat não é culpado pelo que fizer por erro dentro dessa permissão. No fim da seção, o hebraico diz duas vezes בְּמִילָה, “com a milá”, onde o paralelo de Pesachim e o de Yevamot dizem בְּמַצָּה, “com a matzá”; traduzimos o hebraico como está. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer acrescenta entre colchetes, a partir de Pesachim, as duas lacunas; não as acrescentamos ao português. Na seção 01, ele traduz וּמַה דָמַר רִבִּי יַנַּאי כְּרִבִּי מֵאִיר por “what Rebbi Zeˋira said follows Rebbi Meïr”; o hebraico diz “Rabi Yanai”, e seguimos o hebraico. Ele traduz רִבִּי בָּא por “Rebbi Abba”; seguimos o hebraico, “Rabi Ba”. Na seção 02, ele corrige “milá” para “matzá”, conforme Pesachim e Yevamot; mantivemos “milá” no português e registramos a variante acima. Ele escreve “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Meïr”, “Rebbi Simeon”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Jeremiah”, “Rav Ḥisda”, “Rebbi Zeˋira”, “Rebbi Yannai”, “Rebbi Mana”, “Rav Huna”, “Rebbi Eliezer”, “Rebbi Joshua”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun” e “Rebbi Ada bar Ahavah”; mantivemos “Rabi Yochanan”, “Rabi Meir”, “Rabi Shimon”, “Rabi Yossi”, “Rabi Yirmeyá”, “Rav Chisda”, “Rabi Zeira” e “Rabi Zeura”, “Rabi Yanai”, “Rabi Mana”, “Rav Huna”, “Rabi Eliezer”, “Rabi Yehoshua”, “Rabi Yossi beRabi Bun” e “Rav Ada bar Ahava”, como nas halachot anteriores do Yerushalmi deste site e conforme o hebraico. Das suas remissões, foram conferidas e estão corretas as do Yerushalmi Pesachim 6:5 e Yevamot 8:1, do Bavli Shabbat 137a e 133b, da Mishná Pesachim 6:5 (que ele chama 6:9) e da Mishná Sucá 3:14, e de Shemot 12:5.