Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Chet · Halachá 3 (última do perek)
שַׁבָּת

O parto no Shabat, o umbigo e a placenta

Perek Yud-Chet, Mefanin, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat — encerramento do capítulo

Terceira e última halachá do Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin (desocupam-se). A Mishná ensina que não se parteja o animal em yom tov, mas se ajuda; que se parteja a mulher no Shabat, se chama para ela a parteira de um lugar a outro e se profana por ela o Shabat; que se amarra o umbigo, e, segundo Rabi Yossi, também se corta; e que todas as necessidades da milá se fazem no Shabat. A guemará pergunta qual é a ajuda ao animal e traz o torrão de sal de Raban Shimon ben Gamliel; lembra a Mishná de Rosh HaShaná sobre a parteira que vem de fora; traz a fogueira que, segundo Shmuel, se faz para a parturiente mesmo no solstício de verão; conta da serva de Bar Kapara, a quem se disse que cortasse o umbigo, como Rabi Yossi; e lê na Mishná “todas as necessidades da parturiente”, com a baraita da placenta guardada na terra como penhor. Com ela se encerra o Perek Yud-Chet, Mefanin; o tratado continua no Perek Yud-Tet, Rabi Eliezer DeMilah. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 128b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

אֵין מְיַילְּדִין אֶת הַבְּהֵמָה בְּיוֹם טוֹב אֲבָל מְסַעֲדִין. וּמְיַילְּדִין אֶת הָאִשָּׁה בַּשַּׁבָּת וְקוֹרִין לָהּ חֲכָמָה מִמָּקוֹם לְמָקוֹם וּמְחַלְּלִין עָלֶיהָ אֶת הַשַּׁבָּת. וְקוֹשְׁרִים אֶת הַטִּיבּוּר. רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר אַף חוֹתְכִין. וְכָל צָרְכֵי מִילָה עוֹשִׂין בַּשַּׁבָּת:

Mishná: Não se parteja o animal em yom tov (dia de festa), mas se ajuda o animal. E parteja-se a mulher no Shabat, e chama-se para ela uma chachamá (parteira) de um lugar a outro, e profana-se por ela o Shabat. E amarra-se o umbigo do recém-nascido. Rabi Yossi diz: também se corta o umbigo. E todas as necessidades da milá (circuncisão) se fazem no Shabat.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01O que é a ajuda ao animal, e o torrão de sal
Yerushalmi · Shabbat 18:3
אֵין מְיַילְּדִין אֶת הַבְּהֵמָה וכו׳. אֵי זֶהוּ הַסִּיּוּעַ. מֵבִיא יַיִן וְנוֹפֵחַ לְתוֹךְ חוֹטָמוֹ. וְנוֹתֵן יָדוֹ לְמַטָּה וּמְקַבְּלוֹ. וְשׁוֹמֵט דַּדֶּיהָ וְנוֹתֵן לְתוֹךְ פִּיו. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר. אַף מְרַחֲמִין עַל הַבְּהֵמָה בְיוֹם טוֹב. כֵּיצַד עוֹשֶׂה. נוֹתֵן גּוּשׁ שֶׁלְמֶלַח עַל רַחְמָהּ וְהִיא רוֹצָה לְהַנִּיק בְּנָהּ.

Quanto à Mishná “Não se parteja o animal” etc.: qual é a ajuda? Quem ajuda traz vinho e sopra o vinho dentro do nariz da cria; e põe a sua mão embaixo e a recebe; e puxa as tetas dela e as põe dentro da boca da cria. Raban Shimon ben Gamliel diz: também se faz o animal ter compaixão da cria em yom tov. Como ele faz? Põe um torrão de sal sobre o útero dela, e ela então quer amamentar o seu filho.

02A parteira chamada de um lugar a outro
Yerushalmi · Shabbat 18:3
וְקוֹרִין לָהּ חֲכָמָה מִמָּקוֹם לְמָקוֹם. כַּיי דְתַנִּינָן תַּמָּן. וְלֹא זוֹ בִלְבַד אֶלָּא אֲפִילוּ חֲכָמָה הַבָּאָה לְיַלֵּד.

Quanto à Mishná “E chama-se para ela uma chachamá de um lugar a outro”: é como o que ensinamos lá, em Rosh HaShaná: “E não só esta, mas até a chachamá que vem para fazer o parto” é como os homens da cidade.

03A fogueira para a parturiente, mesmo no solstício de verão
Yerushalmi · Shabbat 18:3
וּמְחַלְּלִין עָלֶיהָ אֶת הַשַּׁבָּת. שְׁמוּאֵל אָמַר. עוֹשִׂין לָהּ מְדוּרָה אֲפִילוּ בִתָקוּפַת תַּמּוּז.

Quanto à Mishná “E profana-se por ela o Shabat”: Shmuel disse: faz-se para ela, a parturiente, uma fogueira, mesmo na tekufat Tamuz (o solstício de verão).

04A serva de Bar Kapara e o corte do umbigo
Yerushalmi · Shabbat 18:3
וְקוֹשְׁרִים אֶת הַטִּיבּוּר. כְּהָדָא אַמְתֵּיהּ דְּבַר קַפָּרָא נַפְקָא מְיַילְּדָה בַשַּׁבָּת. אֲתַת וּשְׁאָלַת לְרִבִּי. אֲמַר לָהּ. אֲזַלוֹן וּשְׁאָלוּן לַחַיְיתָא. אָמְרָה לֵיהּ. לֵיכָּא חַיָיא. אֲמַר לָהּ. זִילִי עִיבִידִי כְמִנְהָגָךְ. אָמְרָה לֵיהּ. לֵיכָּא מִנְהָג. אֲמַר לָהּ. אֵיזִילִי חַתִּיךְ. כְּרִבִּי יוֹסֵי.

Quanto à Mishná “E amarra-se o umbigo”: é como aquilo: a serva de Bar Kapara saiu para partejar uma mulher no Shabat. Ela veio e perguntou a Rabi o que fazer. Ele lhe disse: ide e perguntai à parteira. Ela lhe disse: não há parteira. Ele lhe disse: vai, faze conforme o teu costume. Ela lhe disse: não há costume. Ele lhe disse: vai, corta o umbigo. Isto é como Rabi Yossi.

05As necessidades da parturiente e a placenta
Yerushalmi · Shabbat 18:3
כֵּינִי מַתְנִיתָא. וְכָל צוֹרְכֵי חַיָיה נַעֲשִׂין בַּשַּׁבָּת. תַּנֵּי. הַשִּׁילִיָא הַזֹּאת בַּשַּׁבָּת עֲשִׁירִין טוֹמְנִין אוֹתָן בַּשֶּׁמֶן. וְהָעֲנִיִים טוֹמְנִין אוֹתָן בְּתֶבֶן וָחוֹל. אֵילּוּ וָאֵילּוּ טוֹמְנִין אוֹתָן בָּאָרֶץ כְּדֵי לִיתֵּן עֵרָבוֹן לָאָרֶץ.

Assim se lê a Mishná: “E todas as necessidades da chayá (parturiente) se fazem no Shabat.” Ensinou-se numa baraita: quanto a esta shiliá (placenta), no Shabat, os ricos escondem-nas em azeite, e os pobres escondem-nas em palha e areia; uns e outros escondem-nas na terra, para dar um penhor à terra.

Nota

Esta é a terceira e última halachá do Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 18:3 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, a última do capítulo, de “não se parteja o animal” até “se fazem no Shabat”. As diferenças são de grafia e de vocalização: o Yerushalmi escreve מְיַילְּדִין e וּמְיַילְּדִין, onde a avulsa escreve מְיַלְּדִין e וּמְיַלְּדִין; וְקוֹשְׁרִים e הַטִּיבּוּר, onde a avulsa escreve וְקוֹשְׁרִין e הַטַּבּוּר; בַּשַּׁבָּת, nas duas vezes, onde a avulsa escreve בְּשַׁבָּת; בְּיוֹם e רִבִּי, onde a avulsa vocaliza בְיוֹם e רַבִּי; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi tem pontos. No Bavli, esta Mishná está em Shabbat 128b, e a sua guemará vai de 128b a 129b; a Mishná seguinte, que abre o capítulo Rabi Eliezer DeMilah, está em 130a. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os cinco seguintes são a guemará; cada seção corresponde a um segmento, da seção 01, que é o segundo segmento, até a seção 05, que é o sexto, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. No sexto segmento havia um marcador embutido da folha 86a da edição de Vilna, entre עֲשִׁירִין e טוֹמְנִין, que retiramos; não há colchetes nem parênteses no hebraico. Mantivemos como estão no Sefaria a grafia שֶׁלְמֶלַח, numa só palavra, e a vocalização בִתָקוּפַת.

Referências conferidas. A baraita sobre a ajuda ao animal está na Tosefta Shabbat 15:2 (ed. Lieberman), com outra redação: ali se pergunta como se ajuda o animal em yom tov, e a resposta é que se sopra no seu nariz, se põe a teta na sua boca e se segura a cria para que não caia, sem o vinho; e Raban Shimon ben Gamliel diz que se faz ter compaixão só o animal puro em yom tov, sem a explicação do sal. No Bavli, Shabbat 128b, Rav Yehudá diz que a ajuda é segurar a cria para que não caia no chão, e Rav Nachman, que é apertar a carne para que a cria saia; uma baraita apoia Rav Yehudá, com o soprar no nariz e a teta na boca; Raban Shimon ben Gamliel diz ali que se faz ter compaixão o animal puro em yom tov, e Abaye explica que se traz um torrão de sal e se põe dentro do útero, para que ela se lembre da sua dor e tenha compaixão da cria, e que se borrifa sobre a cria a água da placenta. A Mishná citada na seção 02 é a Mishná Rosh HaShaná 2:5: Raban Gamliel, o Velho, estabeleceu que as testemunhas da lua nova vindas no Shabat pudessem andar dois mil côvados para cada lado, e não só elas, mas também a parteira que vem fazer o parto e quem vem salvar do incêndio, da tropa, do rio e do desabamento, que são como os homens da cidade. A avulsa diz וְלֹא אֵלּוּ בִלְבַד, אֶלָּא אַף הַחֲכָמָה, “e não só estes, mas também a parteira”, e o Yerushalmi Rosh HaShaná 2:3, na numeração do Sefaria, diz וְלֹא אֵילּוּ בִלְבַד אֶלָּא אַף חֲכָמָה; a citação aqui diz וְלֹא זוֹ בִלְבַד אֶלָּא אֲפִילוּ חֲכָמָה. No Bavli, Shabbat 128b, a guemará pergunta o que acrescenta “e profana-se por ela o Shabat”, e responde com uma baraita: se ela precisa de uma vela, a sua companheira lhe acende a vela, e se precisa de azeite, traz-lhe o azeite. Em Shabbat 129a, Rav Yehudá diz em nome de Shmuel que se faz uma fogueira para a parturiente no Shabat nos dias de chuva, e a guemará conclui que não há diferença entre a parturiente e o doente, nem entre os dias de chuva e os de calor, pelo que disse Rav Chiya bar Avin em nome de Shmuel: quem sangrou e se resfriou, faz-se para ele uma fogueira mesmo na tekufat Tamuz. Em Shabbat 129b, uma baraita ensina que se amarra o umbigo e que Rabi Yossi diz que também se corta, e que se esconde a placenta para que o recém-nascido se aqueça; Raban Shimon ben Gamliel diz ali que as filhas dos reis a escondem em bacias de azeite, as dos ricos em esponjas de lã e as dos pobres em fiapos; e Rav Nachman diz, em nome de Rabá bar Avuha, em nome de Rav, que a halachá é como Rabi Yossi, e que os sábios concordam com ele no umbigo de gêmeos. A história da serva de Bar Kapara não está no Bavli. Na Tosefta Shabbat 15:3 (ed. Lieberman), se ensina que se amarra o umbigo, e Rabi Yossa diz: נוהגין היינו אף חותכין, “costumávamos também cortar”; e que se esconde a placenta para que o recém-nascido não se resfrie, como em bacias de azeite, em roupa ou num cesto de palha. Nem a Tosefta nem o Bavli falam do penhor à terra. No Yerushalmi, a Mishná 19:2, na numeração do Sefaria, começa עוֹשִׂין כָּל צוֹרְכֵי מִילָה, “fazem-se todas as necessidades da milá”.

Observações de leitura. O verbo מְרַחֲמִין quer dizer fazer o animal ter compaixão, isto é, fazer a mãe que rejeita a cria aceitá-la; o hebraico diz que se põe o sal עַל רַחְמָהּ, “sobre o seu útero”, e assim traduzimos. A citação da Mishná de Rosh HaShaná diz זוֹ, “esta”, no singular, e traduzimos assim; na Mishná, “estes” são as testemunhas. Entendemos que a guemará cita essa Mishná para mostrar que a parteira que vem de fora do limite do Shabat tem ali dois mil côvados para cada lado, como os homens da cidade; por isso completamos a frase em itálico com “é como os homens da cidade”. A história da seção 04 é difícil. O hebraico diz נַפְקָא מְיַילְּדָה, “saiu para partejar”, e assim traduzimos, como se a serva fosse fazer o parto de outra mulher; diz לְרִבִּי, e traduzimos “a Rabi”, embora a palavra possa também querer dizer “ao seu senhor”; אֲזַלוֹן וּשְׁאָלוּן está no plural, e traduzimos “ide e perguntai”; e לַחַיְיתָא e חַיָיא são palavras aramaicas para a parteira, e não a חַיָיה hebraica, a parturiente, da seção 05. A frase “isto é como Rabi Yossi” mostra que o corte do umbigo, que a Mishná atribui a Rabi Yossi, foi a instrução dada na prática. Na seção 05, כֵּינִי מַתְנִיתָא propõe que a Mishná diga “todas as necessidades da parturiente”, e não “da milá”; assim a Mishná fecharia o tema do parto, e a milá ficaria para o capítulo seguinte. O hebraico diz הַשִּׁילִיָא הַזֹּאת, no singular, e depois אוֹתָן, no plural, e mantivemos as duas formas. O penhor à terra seria, segundo Guggenheimer, a garantia de que a terra terá lugar para o recém-nascido no fim da sua vida; o texto não o explica, e a nossa leitura é incerta. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz מְרַחֲמִין por “makes the animal love” e רַחְמָהּ por “belly”; preferimos “ter compaixão” e “útero”. Na história da seção 04, ele traduz que a serva de Bar Kapara “expected to give birth” e que perguntou “her master”; seguimos o hebraico, que diz que ela saiu para partejar e que perguntou a Rabi. Na seção 05, ele traduz os ricos como “the rich women”; o hebraico diz עֲשִׁירִין, no masculino. As suas remissões à Tosefta Shabbat 15:2 e 15:3, à Mishná Rosh HaShaná 2:5, ao Bavli, Shabbat 129a e 129b, foram conferidas e estão corretas; numa nota, ele diz que nas fontes babilônicas a razão de esconder a placenta é que a criança não se resfrie, mas a Tosefta não é babilônica, e o Bavli diz “para que o recém-nascido se aqueça”. Ele escreve “Rabban Simeon ben Gamliel”, “Samuel”, “Bar Qappara”, “Rebbi” e “Rebbi Yose”; mantivemos “Raban Shimon ben Gamliel”, “Shmuel”, “Bar Kapara”, “Rabi” e “Rabi Yossi”, como nas halachot anteriores deste tratado.

A Mishná seguinte, Shabbat 19:1, abre o Perek Yud-Tet, Rabi Eliezer DeMilah: “רִבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר אִם לֹא הֵבִיא כְלִי מֵעֶרֶב שַׁבָּת…”, “Rabi Eliezer diz: se não trouxe o utensílio na véspera do Shabat, traz-o no Shabat descoberto”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 130a, no início do capítulo Rabi Eliezer DeMilah.

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin (מְפַנִּין).