Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Chet · Halachá 2
שַׁבָּת

Os feixes de palha e o cesto dos pintinhos

Perek Yud-Chet, Mefanin, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin (desocupam-se). A Mishná ensina que os feixes de palha, de lenha e de ramos tenros se movem no Shabat se foram preparados para alimento de animal, e, se não, não; que se vira o cesto diante dos pintinhos para que subam e desçam; que a galinha que fugiu se empurra até que entre; e que se guiam a passo bezerros, potros e o filho pela mãe, desde que, segundo Rabi Yehudá, ele levante um pé e pouse o outro. A guemará traz a objeção de Rabi Lazar com os feixes de palha, e as duas Mishnayot que divergem de quem diz que tudo o que é destinado ao proibido é proibido: a pedra sobre a boca do barril, que se explica no caso de quem a esqueceu ali, e o cesto dos pintinhos, que Rabi Bun bar Chiya quer explicar como um cesto repugnante, até que Rabi Zeira lhe responde com o seá e o tarkav de Rabi Hoshayá. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 128a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

חֲבִילֵי קַשׁ וַחֲבִילֵי עֵצִים וַחֲבִילֵי זְרָדִין אִם הִתְקִינָן לְמַאֲכַל בְּהֵמָה מְטַלְטְלִין אוֹתָן. וְאִם לָאו אֵין מְטַלְטְלִין אוֹתָן. כּוֹפִין אֶת הַסַּל לִפְנֵי הָאֶפְרוֹחִין כְּדֵי שֶׁיַּעֲלוּ וְשֶׁיֵּרְדוּ. תַּרְנְגוֹלֶת שֶׁבָּרְחָה דּוֹחִין אוֹתָהּ עַד שֶׁתִּיכָּנֵס. וּמְדַדִּין עֲגָלִים וּסְיָיחִים בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְהָאִשָּׁה מְדַדָּה אֶת בְּנָהּ. אָמַר רִבִּי יְהוּדָה אֵימָתַי בִּזְמַן שֶׁהוּא נוֹטֵל רַגְלוֹ אַחַת וּמַנִּיחַ אֶחָת. אֲבָל אִם הָיָה גוֹרֵר אָסוּר:

Mishná: Feixes de palha, feixes de lenha e feixes de zeradin (ramos tenros): se os preparou para alimento de animal, movem-se; e, se não, não se movem. Vira-se de boca para baixo o cesto diante dos pintinhos, para que subam nele e para que desçam. Uma galinha que fugiu, empurra-se até que entre em casa. E guiam-se a passo bezerros e potros no domínio público, e a mulher guia a passo o seu filho. Disse Rabi Yehudá: quando é permitido? Quando ele levanta um pé seu e pousa o outro; mas, se arrastava os pés, é proibido.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Os feixes de palha, a pedra sobre o barril e o cesto dos pintinhos
Yerushalmi · Shabbat 18:2
הָתִיב רִבִּי לָעְזָר. וְהָתַנִּינָן. חֲבִילֵי קַשׁ. וְקַשׁ לֹא כִמְפוּזָּר הוּא.

Objetou Rabi Lazar: e não ensinamos na Mishná: “Feixes de palha”? E a palha não é como palha espalhada?

מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל מָאן דָּמַר. כָּל הַמְיוּחַד לְאִסּוּר אָסוּר. דְּתַנִּינָן. הָאֶבֶן שֶׁעַל פִּי הֶחָבִית מַטָּהּ עַל צִדָּהּ וְנוֹפֶלֶת. רִבִּי בָּא בְשֵׁם רַב חִיָיה בַּר אַשִּׁי. פָּתַר לָהּ בְּשׁוֹכֵחַ.

A matnita (Mishná) diverge de quem disse: tudo o que é meyuchad leissur (destinado, por sua natureza, a um uso proibido no Shabat) é proibido de mover; pois ensinamos: “A pedra que está sobre a boca do barril: inclina-o sobre o seu lado, e ela cai.” Rabi Ba disse em nome de Rav Chiya bar Ashi: explicou-a no caso de quem esquece a pedra ali.

מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל מָאן דָּמַר. כָּל הַמְיוּחַד לְאִיסּוּר אָסוּר. דְּתַנִּינָן. כּוֹפִין סַל לִפְנֵי הָאֶפְרוֹחִין שֶׁיַּעֲלוּ וְשֶׁיֵּרְדוּ. וְתַנֵּי עֲלָהּ. עָלוּ מֵאֵילֵיהֶן אָסוּר לְטַלְטְלָהּ. אָמַר רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיה קוֹמֵי רִבִּי זְעִירָא. תִּיפְתָּר בְּמָאוּס. אָמַר לֵיהּ. וְהָתַנֵּי רִבִּי הוֹשַׁעְיָה. אֲפִילוּ סְאָה אֲפִילוּ תַּרְקַב. אִית לָךְ מֵימַר. סְאָה וְתַרְקַב מְאוּסִין הֵן.

A Mishná diverge de quem disse: tudo o que é destinado ao proibido é proibido; pois ensinamos: “Vira-se um cesto diante dos pintinhos, para que subam e para que desçam.” E ensinou-se sobre ela numa baraita: se subiram nele por si mesmos, é proibido movê-lo. Disse Rabi Bun bar Chiya diante de Rabi Zeira: explica-a no caso de um cesto repugnante. Disse-lhe: e não ensinou Rabi Hoshayá: “mesmo um seá (medida de cereais), mesmo um tarkav (medida de três kav)”? Tens como dizer que o seá e o tarkav são repugnantes?

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 18:2 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “feixes de palha” até “é proibido”. As diferenças de palavras são poucas: o Yerushalmi diz וְשֶׁיֵּרְדוּ, onde a avulsa diz וְיֵרְדוּ; diz וּמְדַדִּין e וְהָאִשָּׁה, com vav, onde a avulsa diz מְדַדִּין e אִשָּׁה; e diz נוֹטֵל רַגְלוֹ אַחַת, “levanta um pé seu”, onde a avulsa diz só נוֹטֵל אַחַת. As demais diferenças são de grafia e de vocalização: זְרָדִין, הָאֶפְרוֹחִין e עֲגָלִים, onde a avulsa escreve זְרָדִים, הָאֶפְרוֹחִים e עֲגָלִין; תַּרְנְגוֹלֶת, שֶׁתִּיכָּנֵס e וּסְיָיחִים, onde a avulsa escreve תַּרְנְגֹלֶת, שֶׁתִּכָּנֵס e וּסְיָחִין; e וּמַנִּיחַ אֶחָת, onde a avulsa escreve וּמֵנִיחַ אַחַת; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi não tem pontuação. No Bavli, a cláusula dos feixes fecha a Mishná que começa em Shabbat 126b, e a sua guemará está em 128a; o cesto dos pintinhos, a galinha e os bezerros formam uma Mishná à parte, em 128b, que não diz “no domínio público”. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é toda a guemará; a seção 01 contém esse segundo segmento inteiro, dividido em três pares de hebraico e português, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Tiramos também o marcador embutido da folha 85b da edição de Vilna, que está na Mishná antes de “e a mulher guia a passo”, e que não faz parte do texto. Não há colchetes nem parênteses no hebraico.

Referências conferidas. A frase de Rabi Lazar não tem paralelo na Mishná Shabbat 18:1, que fala de cestos de תֶּבֶן, palha de grão, e não de palha espalhada; ela parece responder ao fim da guemará da halachá 18:1, onde Rabi Zeira diz que algo só vem conforme Rabi Chanina, que escolhia na véspera seixos lisos para movê-los no Shabat, e Rabi Yossi responde que ali há diferença, porque a pedra é como uma cadeira; Guggenheimer entende assim, e põe a frase de Rabi Lazar no fim daquela halachá. A primeira Mishná citada é a Mishná Shabbat 21:2: a pedra que está sobre a boca do barril, inclina-se o barril sobre o seu lado, e ela cai; a avulsa diz וְהִיא נוֹפֶלֶת, onde a citação diz וְנוֹפֶלֶת. A segunda é a nossa Mishná, citada como כּוֹפִין סַל, onde a Mishná diz כּוֹפִין אֶת הַסַּל, e sem כְּדֵי. A baraita sobre os pintinhos que subiram por si mesmos está na Tosefta Shabbat 15:1 (ed. Lieberman), que diz עָלָה, אָסוּר לְטַלְטְלוֹ, “subiu, é proibido movê-lo”, sem “por si mesmos”. A Tosefta Shabbat 14:10 (ed. Lieberman) repete a cláusula dos feixes e acrescenta que, segundo Raban Shimon ben Gamliel, os que se levantam com uma só mão se movem, e os outros não; o Bavli traz essa baraita em Shabbat 128a, onde diz “uma mão” e “duas mãos”, e acrescenta ali os feixes de hissopo, segurelha e tomilho trazidos como lenha ou como alimento de animal. Toda a guemará, a partir de “a Mishná diverge”, está também no Yerushalmi Shabbat 3:7, na numeração do Sefaria, onde ela pertence à discussão sobre a vela e onde não há a frase de Rabi Lazar; ali se lê רִבִּי חִיָיא בַּר אַשִּׁי e פָּתַר לָהּ רַב בְּשׁוּכֵחַ, “Rav a explicou no caso de quem esqueceu”, com a continuação da Mishná, “se estava entre os barris”; e se lê לְטַלְטְלָן, “movê-los”, onde aqui se lê לְטַלְטְלָהּ.

Observações de leitura. Entendemos a frase de Rabi Lazar como uma objeção à ideia de que o que está pronto para uso não precisa ser preparado: a palha dos feixes também serve para se sentar ou deitar, como a palha espalhada, e mesmo assim a Mishná só permite movê-la se foi preparada para alimento de animal; o texto não diz qual é a resposta, e a nossa leitura é incerta. A posição de que tudo o que é destinado ao proibido é proibido é atribuída, no Yerushalmi Shabbat 3:7, a Rabi Meir, numa das duas versões que Rabi Yirmeyá e Rabi Ba transmitem em nome de Rabi Yochanan. As duas Mishnayot a contradizem: o barril serve de base à pedra, e ainda assim se pode incliná-lo; e o cesto em que os pintinhos subiram por si mesmos fica proibido, sem que ninguém o tenha destinado a isso. A explicação “no caso de quem esquece” quer dizer que a pedra não foi posta ali de propósito; o texto não diz quem a explicou, e não pusemos sujeito, embora no paralelo do capítulo 3 seja Rav. O cesto repugnante seria o que, sujo pelos pintinhos, já não serve a outro uso; Rabi Hoshayá ensinou que a regra vale mesmo para o seá e o tarkav, que são cestos de medir, e estes não se tornam repugnantes. O tarkav, três kav, é meio seá. Na baraita, o hebraico diz לְטַלְטְלָהּ, com sufixo feminino, embora סַל seja masculino; traduzimos “movê-lo”, referido ao cesto. No mesmo segmento, o hebraico escreve לְאִסּוּר e depois לְאִיסּוּר, e o nome de Rabi Bun bar Chiya e o de Rav Chiya bar Ashi com חִיָיה, terminado em he; tudo foi mantido como está. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. A tradução de Guggenheimer no Sefaria não traz aqui a frase de Rabi Lazar, que ele põe no início da halachá 18:1 com o nome “Rebbi Eleazar”, observando numa nota que a atribuição é impossível, porque ele seria uma geração anterior a Rabi Zeira; seguimos o hebraico, que a põe aqui e diz רִבִּי לָעְזָר, “Rabi Lazar”. Na frase de Rav Chiya bar Ashi, ele observa que no capítulo 3 quem explicou é Rav. Ele traduz os zeradin como “shoots”, o tarkav como “three-qab” e o cesto repugnante como “disgusting”. Ele escreve “Rebbi Abba”, “Rebbi Abun bar Ḥiyya”, “Rebbi Zeˋira”, “Rebbi Hoshaia” e “Rebbi Jehudah”; mantivemos “Rabi Ba”, “Rabi Bun bar Chiya”, “Rabi Zeira”, “Rabi Hoshayá” e “Rabi Yehudá”, como nas halachot anteriores do Yerushalmi deste site.