Shabbat 128b prossegue, sem qualquer interrupção, o exame da mishná sobre o que se remove por causa dos hóspedes, encerrando sua lista com a carne inchada — alimento de animal selvagem — e a água descoberta, apta para o gato, cujo veneno de serpente não o prejudica, pois ele também come serpentes; Rabban Shimon ben Gamliel acrescenta que, por causa do perigo, é proibido deixá-las de qualquer modo, temendo-se que alguém venha a beber delas. Segue uma nova mishná: vira-se a cesta diante dos pintos, para que subam e desçam sobre ela; e a galinha que fugiu de casa se empurra até que entre. Guiam-se a passo bezerros e potros, segurando-os e ajudando-os a mover as patas; e a mulher guia seu filho a passo, segurando-o pelos braços por trás — segundo a condição de Rabi Yehudá, de que ele levante um pé e pouse o outro, e não seja arrastado, pois então ela o carregaria. A guemará discute o animal que caiu num canal de água: Rav Yehudá, em nome de Rav, ensina que se trazem almofadas e mantas para colocar sob ele; uma baraita objeta que se provê apenas sustento no lugar, sem mover objetos, e a guemará resolve distinguindo entre ser possível ou não prover esse sustento; à objeção de que colocar as almofadas anula um utensílio de sua função própria, responde-se que essa é apenas proibição rabínica, ao passo que o sofrimento dos seres vivos é proibição da Torá, que prevalece sobre a rabínica. Quanto à galinha: por que não se guia a passo, como as demais aves? Porque, segundo Abaie, ela se ergue por si mesma, fazendo com que quem a segura acabe por carregá-la; duas baraitot são citadas — uma distinguindo pátio de domínio público, outra distinguindo arrancar do chão de apenas empurrar —, e Abaie resolve a aparente contradição atribuindo a cláusula mais restritiva à galinha. Abaie ensina ainda que quem abate uma galinha deve pressionar suas patas contra o chão, ou levantá-las bem alto, para que ela não arranhe sulcos no chão ao se debater. Segue uma nova mishná: não se faz parto de um animal em Yom Tov, mas se ajuda; e faz-se parto de uma mulher em Shabat, chamando-se para ela uma parteira de um lugar a outro, profanando-se por causa dela o Shabat, e amarrando-se o cordão umbilical — Rabi Yossei acrescenta que também se corta, e todas as necessidades da circuncisão se fazem em Shabat. A guemará explica como se ajuda no parto animal, segundo Rav Yehudá — segurando o filhote para que não caia — e Rav Nachman — pressionando a carne para que ele saia —, com uma baraita que apoia Rav Yehudá e acrescenta soprar no focinho do filhote e dar-lhe a mamar. Rabban Shimon ben Gamliel relata o costume, explicado por Abaie, de comover o animal puro — mas não o impuro, que não costuma repelir sua cria — com um bloco de sal no útero e água de placenta aspergida sobre a cria, para que a mãe se lembre de sua dor e tenha compaixão. Voltando à mulher: a cláusula "profana-se por causa dela o Shabat" vem incluir o caso de trazer-lhe fogo mesmo sendo ela cega, cuja mente se acalma sabendo que a companheira cuidará dela; e o caso de trazer-lhe óleo na mão, no cabelo, ou, por fim, num utensílio — questionado por causa da proibição de espremedura, e resolvido por Rabá e Rav Yossef, que negam haver espremedura no cabelo, e por Rav Ashi, que explica que o utensílio vai escondido no próprio cabelo. Por fim, Rav Yehudá, em nome de Shmuel, ensina que se profana o Shabat pela parturiente enquanto o útero está aberto, quer ela diga que precisa, quer não diga. O daf termina em pleno fluxo, no meio da frase sobre o útero já fechado, prosseguindo diretamente em Shabbat 129a (ainda não publicado).
A mishná conclui: carne inchada (estragada, imprópria para o homem) — removem-se, no Shabat, porque é alimento para animal selvagem; água descoberta (que ficou exposta durante a noite) — remove-se, porque é própria para o gato. Rabban Shimon ben Gamliel diz: de qualquer modo (mesmo fora do Shabat), é proibido deixá-las parada, por causa do perigo.
Encerra-se aqui a longa lista de itens que, embora imprestáveis ao homem, servem de alimento a algum animal e por isso podem ser removidos no Shabat: a carne já estragada, que serve a um animal selvagem, e a água deixada descoberta, que serve ao gato — este último caso especial, pois teme-se que uma serpente tenha bebido dela e nela deixado veneno; mas o veneno não prejudica o gato, que também come serpentes. Rabban Shimon ben Gamliel acrescenta uma última cláusula, já não sobre a remoção no Shabat, mas sobre uma regra geral e permanente: por causa do perigo de envenenamento, é proibido, em qualquer dia, deixar essa água descoberta parada, temendo-se que uma pessoa venha a bebê-la sem saber do risco.
"Carne inchada" — que está apodrecendo. "Para o gato" — não lhe faz mal o veneno da serpente, pois o gato também come serpentes. "Por causa do perigo" — para que não venha alguém a beber dela.
Mishná: vira-se de boca para baixo a cesta diante dos pintos, para que subam e desçam por cima dela. A galinha que fugiu de casa — empurram-na até que entre.
Uma nova mishná, dentro do mesmo capítulo, trata de pequenas ações com animais domésticos no Shabat. Virar uma cesta de boca para baixo para que pintos possam subir e descer sobre ela é permitido, ainda que a cesta em si seja um utensílio que normalmente não se desloca para tal finalidade — pois se trata de um uso incidental, sem carregá-la de um lugar a outro. Quanto à galinha que fugiu de casa, é permitido empurrá-la de volta com as mãos, sem tocá-la de modo que se assemelhe a carregá-la.
"Mishná: vira-se a cesta diante dos pintos" — ensina-nos que um utensílio pode ser deslocado para uma finalidade que, em si, não pode ser deslocada no Shabat; e Rabi Yitzchak resolve isso, no capítulo terceiro (acima, Shabat 43a), explicando que se trata do caso de "necessitar de seu próprio lugar". "Que fugiu" — de casa. "Empurram-na" — com as mãos.
Guiam-se a passo bezerros e potros. A mulher guia a passo seu filho. Disse Rabi Yehudá: quando é permitido? Quando ele levanta um pé e pousa o outro; mas, se estivesse sendo arrastado, é proibido.
Guiar um animal jovem ou uma criança "a passo" significa segurá-lo de modo a ajudá-lo a caminhar por conta própria, sem carregá-lo — o que é permitido, pois o próprio animal ou a própria criança sustenta seu peso e se move. Rabi Yehudá esclarece a condição exata dessa permissão: ela vale apenas enquanto a criança de fato levanta cada pé alternadamente e caminha; se, em vez disso, ela é arrastada pelo chão sem realmente andar, isso equivale a carregá-la, o que é proibido.
"Guiam-se a passo bezerros" — segura-se pelo pescoço e pelos lados, e puxa-se, ajudando-o e fazendo-o mover as patas. "A mulher guia a passo seu filho" — segura-o pelos braços por trás, ajudando-o, enquanto ele move as pernas e anda. "Quando levanta um pé e pousa o outro" — isto é, quando a criança move as pernas: ao pousar uma, levanta a outra. "Mas, se estivesse sendo arrastado, é proibido" — porque então ela o carrega.
Guemará. Disse Rav Yehudá em nome de Rav: um animal que caiu num canal de água — traz-se almofadas e mantas, e coloca-se sob ele (para que suba pisando sobre elas); e, se subiu, subiu.
A guemará passa a um novo tema, ligado ao cuidado com animais no Shabat: um animal que cai num canal e não consegue sair sozinho. Rav ensina que é permitido trazer almofadas e mantas — objetos que normalmente não se destinam a esse uso — e colocá-los sob o animal, para que, pisando sobre eles, ele possa se elevar e sair da água por conta própria; mas ninguém pode puxá-lo diretamente para fora.
A guemará objeta: um animal que caiu num canal de água — providencia-se para ele sustento (alimento) em seu próprio lugar, para que não morra. Sustento — sim; almofadas e mantas — não!
Uma baraita parece contradizer o ensinamento de Rav: ela só permite alimentar o animal preso onde está, sem mencionar a possibilidade de trazer objetos para ajudá-lo a subir — e sua formulação parece excluir explicitamente essa segunda opção.
Não é difícil (não há contradição): este caso, o da baraita, é quando é possível prover-lhe sustento; aquele caso, o de Rav, é quando não é possível prover-lhe sustento. Sendo possível prover-lhe sustento — sim (apenas isso, e nada mais); e, se não for possível, traz-se almofadas e mantas, e coloca-se sob ele.
A guemará harmoniza as duas fontes distinguindo as circunstâncias: quando é possível alimentar o animal onde caiu — por exemplo, quando a água é rasa e ele consegue permanecer ali sem se afogar —, basta esse sustento, sem necessidade de movê-lo. Mas quando isso não é possível — como quando a água é profunda demais para que o animal sobreviva apenas sendo alimentado —, é permitido trazer almofadas e mantas para que ele suba por si mesmo.
"E, se não for possível" — como quando as águas são profundas demais para que o animal sobreviva apenas sendo alimentado.
A guemará objeta: mas isto anula um utensílio de sua função própria (pois, uma vez postas sob o animal, as almofadas não podem mais ser removidas)! Resposta: Rav sustenta que anular um utensílio de sua função própria é proibição apenas dos sábios, e que o sofrimento dos seres vivos é proibição da Torá; e vem a proibição da Torá e afasta a proibição dos sábios.
Surge uma nova objeção: colocar as almofadas sob o animal as torna, na prática, inutilizáveis para qualquer outro fim enquanto ali permanecerem, o que constitui a proibição de "anular um utensílio de sua função própria" — proibida por assemelhar-se a desfazer uma construção. A guemará responde que essa proibição é apenas de origem rabínica, ao passo que o sofrimento dos seres vivos, que se evitaria salvando o animal, é uma proibição de origem da própria Torá; e uma proibição da Torá tem prioridade sobre uma proibição rabínica, afastando-a.
"Mas isto anula um utensílio de sua função própria" — pois, uma vez postas sob ele, não se pode mais removê-las, o que se assemelha a desfazer uma construção, por decreto dos sábios. "O sofrimento dos seres vivos é da Torá" — pois está dito: "certamente ajudarás com ele" (Êxodo 23:5), e há quem interprete a razão desse versículo como sendo por causa do sofrimento dos seres vivos, segundo se ensina em Eilu Metziot (Bava Metzia 32b).
"A galinha que fugiu" etc. Empurrar — sim (permitido); guiar a passo — não. Já aprendemos isto (numa outra fonte), pois ensinaram os sábios numa Tosefta: guiam-se a passo animal doméstico, animal selvagem e ave no pátio, mas não a galinha.
A guemará observa que a mishná, ao mencionar apenas "empurrar" para a galinha fugida, implicitamente exclui a possibilidade de guiá-la a passo, como se faz com outros animais — e traz uma Tosefta que confirma essa distinção, permitindo guiar a passo animais domésticos, selvagens e aves em geral, mas excluindo especificamente a galinha.
"Guiar a passo — não" — para que não a segure pelas asas, com as patas dela tocando o chão, e assim a conduza.
A galinha, qual é a razão de não se poder guiá-la a passo? Disse Abaie: porque ela se ergue do chão, encolhendo-se, por si mesma.
Abaie explica a diferença: quando se segura um ganso ou outro animal pelas asas para guiá-lo, suas próprias patas continuam a tocar o chão e caminhar, de modo que ele sustenta seu peso. A galinha, porém, tem o hábito de se erguer do chão quando segurada, encolhendo as patas — de modo que quem a segura, na prática, acaba por carregar todo o seu peso, o que constitui remoção proibida.
"Porque ela se ergue por si mesma" — levanta-se do chão, e assim quem a segura acaba por carregá-la; mas os gansos, quando seguros pelas asas, andam com as próprias patas. Porém, em domínio público, mesmo os demais animais não se guiam a passo, por receio de que se levantem do chão e sejam carregados — pois a mishná, em sua formulação anônima, segue os sábios, que discordam de Rabi Natan, em Hamatznia (acima, Shabat 94a), quanto a quem carrega animal selvagem ou ave, vivos ou abatidos, ser responsável; e a mulher guia seu filho a passo mesmo em domínio público, pois, ainda que o levante, sendo vivo, ele carrega a si mesmo — como se estabelece ali, que, quanto ao homem, os sábios concordam com Rabi Natan. "Ergue-se (makfia)" — como em "erguei vossas mãos" (Chaguigá 16b).
Foi ensinado numa baraita: guiam-se a passo animal doméstico, animal selvagem e ave no pátio, mas não em domínio público; e a mulher guia seu filho a passo em domínio público, e não é necessário dizer que pode fazê-lo no pátio. E foi ensinado noutra baraita: não se arranca do chão animal doméstico, animal selvagem e ave no pátio, mas empurram-se para que entrem.
Duas baraitot trazem formulações aparentemente diferentes. A primeira distingue domínios: no pátio, domínio privado, é permitido guiar animais a passo, mas não em domínio público, onde se teme que sejam de fato carregados; já a criança pode ser guiada a passo mesmo em domínio público, pois, sendo viva, sustenta a si mesma mesmo se levantada do chão. A segunda baraita, porém, fala apenas de pátio, e distingue não domínios, mas modos de manuseio: nunca se arranca um animal inteiramente do chão, mas é permitido empurrá-lo para dentro.
A guemará observa: isto mesmo (a segunda baraita) é difícil (contraditório) em si: disseste "não se arranca do chão", implicando que, mas guiar a passo, guiamos — e então voltaste a dizer: "empurrar — sim; guiar a passo — não"! Disse Abaie: a parte final da baraita refere-se especificamente à galinha.
A guemará nota que a própria segunda baraita parece se contradizer: sua primeira cláusula, ao proibir apenas "arrancar do chão", sugere implicitamente que guiar a passo é permitido; mas sua segunda cláusula permite apenas empurrar, excluindo guiar a passo. Abaie resolve a dificuldade explicando que a cláusula final não se refere aos animais em geral, mencionados na primeira parte, mas especificamente à galinha, para a qual, como já explicado, guiar a passo equivale a carregá-la.
"Não se arranca" — as patas completamente do chão, pois o animal, então, é muktzê para removê-lo inteiramente. "Guiar a passo, guiamos" — segura-se o animal pelos dois lados com a mão e guia-se, o que constitui mais remoção do que empurrá-lo, que é empurrá-lo por trás. "A parte final" — que ensina: empurram-se, mas não se guiam a passo. "Referimo-nos à galinha" — e a parte inicial trata das demais aves.
Disse Abaie: aquele que abate uma galinha no Shabat — que pressione as patas dela contra o chão, ou então que as levante bem alto; pois, caso contrário, talvez ela apoie suas garras no chão e, debatendo-se, arranque com elas sulcos no solo (assemelhando-se ao trabalho proibido de lavrar).
Abaie encerra este tema com uma advertência prática: ao abater uma galinha no Shabat, ela costuma se debater com as patas nos momentos finais. Se as patas estiverem tocando o chão nesse instante, as garras podem arranhar e revolver a terra, o que se assemelharia ao trabalho proibido de lavrar. Por isso, deve-se ou pressionar as patas firmemente contra o chão, de modo que fiquem dobradas e sem força para se mover, ou levantá-las completamente do chão, de modo que não o toquem.
"Que pressione as patas dela contra o chão" — para que se dobrem, e ela não possa apoiar-se firmemente sobre elas. "Ou então que as levante" — que as erga, para que suas patas não toquem o chão.
Mishná: não se faz parto de um animal em Yom Tov, mas ajuda-se. E faz-se parto de uma mulher em Shabat, e chama-se para ela uma parteira de um lugar a outro, e profana-se por causa dela o Shabat, e amarra-se o cordão umbilical. Rabi Yossei diz: corta-se o cordão também. E todas as necessidades da circuncisão fazem-se em Shabat.
Uma nova mishná trata dos limites da intervenção no parto — animal e humano — nos dias sagrados. Fazer o parto completo de um animal, com toda a manipulação ativa que isso implica, é vedado até mesmo em Yom Tov, mais leniente que o Shabat quanto às necessidades alimentares; permite-se apenas ajudar passivamente. Já para a mulher, a mishná é ampla: permite-se fazer o parto completo em Shabat, trazer parteira mesmo de longe, e profanar o Shabat pelo que for necessário — incluindo amarrar o cordão umbilical do recém-nascido, e, segundo Rabi Yossei, também cortá-lo. A mishná acrescenta que, mais além, todas as necessidades da circuncisão também se realizam em Shabat.
"Mishná: ajuda-se" — a guemará explica o que isso significa. "Parteira (chachamá)" — a que faz o parto (meyaledet). "Não se faz parto de um animal em Yom Tov" — pois há esforço excessivo. "Mas ajuda-se" — a ele em Yom Tov. "E faz-se parto de uma mulher em Shabat" — e não é necessário dizer que ao menos se ajuda; e tanto mais em Yom Tov. "E amarra-se o cordão umbilical" — do recém-nascido, que é comprido; pois, se não for amarrado nem enrolado em algo, poderiam sair-lhe as entranhas, ao se levantar a criança.
Guemará. Como se ajuda no parto do animal? Disse Rav Yehudá: segura-se o filhote, para que não caia ao chão. Disse Rav Nachman: pressiona-se a carne, para que saia o filhote.
A guemará esclarece o que a mishná quis dizer por "ajudar" no parto de um animal, distinguindo-o de "fazer o parto" ativamente. Rav Yehudá entende que a ajuda permitida consiste em apenas segurar o filhote no momento em que ele já está saindo, para que não caia e se machuque; Rav Nachman entende que a ajuda consiste em pressionar externamente a carne da mãe, facilitando a saída do filhote, mas sem manipulá-lo diretamente por dentro.
"Pressiona-se" — na carne do animal, por dentro, para que o filhote saia saliente, para fora.
Foi ensinado numa baraita conforme a opinião de Rav Yehudá: como se ajuda? Segura-se o filhote, para que não caia ao chão; e sopra-se em seu focinho; e coloca-se uma teta em sua boca, para que mame.
A baraita apoia a posição de Rav Yehudá — de que ajudar consiste em segurar o filhote — e acrescenta dois procedimentos adicionais também permitidos: soprar em seu focinho, para desobstruir as narinas cobertas de muco ao nascer, e colocar a teta da mãe diretamente em sua boca, para que aprenda a mamar.
"E sopra-se em seu focinho" — pois suas narinas estão obstruídas por muco. "E coloca-se uma teta" — da mãe, dentro de sua boca.
Disse Rabban Shimon ben Gamliel: costumávamos ter compaixão fazer com que a mãe tivesse compaixão de um animal puro em Yom Tov que houvesse repelido sua cria. Como se procede? Disse Abaie: traz-se um bloco de sal, e coloca-se a mãe dentro do útero (faz-se com que sinta a dor dele contra o útero), para que ela se lembre de sua dor do parto e tenha compaixão dele. E aspergem-se as águas em que se deixou de molho a placenta sobre o filhote, para que a mãe sinta seu odor e tenha compaixão dele. E isso é especificamente quanto ao animal puro; mas quanto ao impuro — não.
Rabban Shimon ben Gamliel relata um costume adicional relativo ao cuidado com animais recém-nascidos cuja mãe os rejeita: em Yom Tov, era permitido tomar medidas para induzir compaixão materna. Abaie explica os dois métodos: colocar um bloco de sal, do tamanho aproximado de um punho, junto ao útero da mãe, causando-lhe uma dor que lembra a do próprio parto, despertando assim sua compaixão; e aspergir sobre a cria a água em que se deixou de molho a placenta, para que a mãe, sentindo seu odor familiar, volte a reconhecê-la e aceitá-la. Esses procedimentos, porém, valem apenas para animais puros.
"Têm-se compaixão" — fazem-se amar a cria pela mãe. "Um bloco de sal" — do tamanho de um punho, que lhe causa dor, e ela se lembra da dor do parto, e tem compaixão da cria, caso a tenha repelido. "As águas da placenta" — deixa-se a placenta de molho na água.
Qual é a razão? O animal impuro não repele sua cria; e, se a repele, não se aproxima mais dela (mesmo com esses procedimentos, de modo que não haveria proveito em tentá-los).
A guemará explica por que os procedimentos de Abaie se limitam ao animal puro: por sua natureza, o animal impuro raramente repele sua cria, tornando o problema incomum; e, na rara ocasião em que o faz, seu temperamento é tal que nenhum estímulo a fará voltar atrás, tornando inútil qualquer tentativa de reconciliação.
"Não repele" — não é seu costume repelir a cria.
"Faz-se parto de uma mulher" etc. Ora, já se ensinou: "faz-se parto de uma mulher, e chama-se para ela uma parteira de um lugar a outro" — então, "e profana-se por causa dela o Shabat" vem incluir o quê de novo, que já não estivesse implícito?
A guemará nota uma aparente redundância na mishná: se já se ensinou que se pode chamar uma parteira de longe — o que por si só já implica profanar o Shabat, atravessando domínios —, por que a mishná acrescenta separadamente a cláusula geral "profana-se por causa dela o Shabat"? A guemará busca identificar que caso adicional essa cláusula pretende incluir.
Vem incluir isto que ensinaram os sábios numa Tosefta: se ela a parturiente precisasse de uma vela, sua companheira acende para ela a vela. E, se precisasse de óleo, sua companheira traz-lhe óleo na mão; e, se não for suficiente o que cabe na mão, traz no próprio cabelo; e, se não for suficiente o que cabe no cabelo, traz-lhe num utensílio.
A guemará traz uma Tosefta que explica exatamente o que a cláusula geral pretendia incluir: casos de necessidade da parturiente que exigem uma ação adicional de outra pessoa — acender uma vela para ela, ou trazer-lhe óleo, preferencialmente do modo menos ostensivo possível: primeiro na própria mão da companheira, depois em seu cabelo, e somente como último recurso, num utensílio comum.
"Traz-lhe óleo" — atravessando domínio público. "Na mão" — na palma da mão, e não num utensílio, pois, na medida do possível, alteramos o modo habitual de transportar. "No cabelo" — unta o próprio cabelo com óleo, e, ao chegar perto dela, limpa-o nele; e não há aqui profanação do Shabat, pois esse não é o modo costumeiro de transportar.
Disse o Mestre: "se ela precisasse de uma vela, sua companheira acende para ela a vela". Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto quanto a uma parturiente cega. Para que não penses: já que ela não enxerga, isso é proibido (pois de nada lhe serve a vela) — vem ensinar-nos que sua mente se acalma e se tranquiliza, mesmo sem ver a vela, pensando: se houver algo de anormal comigo, minha companheira verá, e cuidará para mim.
À primeira vista, permitir acender uma vela para uma parturiente pareceria óbvio, dado que o perigo de vida afasta a proibição do Shabat. A guemará explica que o caso especial é o da parturiente cega: poder-se-ia pensar que, já que ela mesma não se beneficia de enxergar a vela, não haveria razão para acendê-la em seu nome. Mas a guemará ensina que a vela ainda lhe traz um benefício psicológico real: sabendo que a vela permite à companheira ver e agir prontamente diante de qualquer complicação, sua mente se acalma, o que por si só é considerado necessário ao parto.
"Óbvio" — pois o perigo de vida afasta a proibição de o Shabat.
"Se precisasse de óleo" etc. Que se derive a proibição de trazê-lo no cabelo por causa da espremedura!
A guemará questiona a solução de trazer o óleo no cabelo da companheira: ainda que evite o transporte num utensílio, esse método pareceria incorrer noutra proibição — a de espremer, já que, ao limpar o óleo do cabelo sobre a parturiente, seria necessário de algum modo extraí-lo dos fios.
"Que se derive a proibição por causa da espremedura" — isto é: à primeira vista poderia perguntar-se: por que não lhe trouxe o óleo num utensílio, para que não profanasse o Shabat por meio de transporte em domínio público? Mas a mesma pergunta se aplica ao cabelo: aqui também ela o profana por meio de espremedura!
Rabá e Rav Yossef, que ambos disseram: não há proibição de espremedura no cabelo (pois o cabelo, sendo rígido, não absorve o líquido, apenas o retém sobre si). Rav Ashi disse: mesmo que digas que há espremedura no cabelo, a solução é que ela lhe traz o óleo num utensílio, escondido por meio de seu cabelo, pois, na medida do possível de alterar o modo habitual de transportar, alteramos.
A guemará oferece duas respostas independentes à dificuldade. Rabá e Rav Yossef resolvem-na na raiz, negando que exista sequer a categoria de "espremedura" aplicável ao cabelo: como o cabelo é rígido e não absorve o líquido como um tecido absorveria, limpar o óleo dele não constitui espremer, mas apenas retirar algo que estava sobre a superfície. Rav Ashi propõe uma solução alternativa, que funcionaria mesmo que se admitisse a existência de espremedura no cabelo: o utensílio com óleo pode ser trazido escondido, envolto no próprio cabelo da companheira, de modo que o transporte não pareça o modo costumeiro de carregar um utensílio em público.
"Não há espremedura no cabelo" — pois ele é rígido e não absorve. "Por meio de seu cabelo" — envolve o utensílio em sua cabeça, com o cabelo.
Disse Rav Yehudá em nome de Shmuel: uma parturiente, todo o tempo em que a sepultura (o útero) está aberta (o parto ainda em curso) — quer tenha dito "preciso", quer não tenha dito "preciso" — profana-se por causa dela o Shabat.
Rav Yehudá, em nome de Shmuel, estabelece o princípio geral por trás de toda a discussão sobre profanar o Shabat pela parturiente: enquanto o parto está em curso — o que a guemará expressa pela imagem do útero ainda "aberto" —, presume-se que ela está em risco de vida, e o Shabat se profana por ela automaticamente, independentemente de ela própria reconhecer ou verbalizar essa necessidade, pois em tais momentos até o julgamento da própria parturiente pode não ser confiável.
"Parturiente (chayá)" — a que dá à luz. "Sepultura" — a câmara do útero.
Fechou-se a sepultura (terminou o parto), quer tenha dito...
A guemará passa agora ao caso oposto: quando a sepultura, isto é, o útero, já se fechou — o parto tendo terminado. A frase é interrompida exatamente neste ponto pelo fim do daf, e prossegue em Shabbat 129a, onde se completa: quer ela tenha dito que ainda precisa, quer não tenha dito — não se profana mais o Shabat por causa dela, pois cessou o risco de vida que justificava a profanação.