Primeira halachá do Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, que abre o décimo oitavo capítulo, Mefanin (desocupam-se). A Mishná ensina que no Shabat se desocupam até quatro ou cinco cestos de palha e de grão por causa dos hóspedes e da casa de estudo, mas não o otsar (o depósito de produtos); que se desocupam a terumá (a porção da colheita devida ao cohen) pura, o demai, os dízimos e o consagrado que já podem ser comidos, e o tremoço seco, porque é alimento dos pobres; mas não o tevel, os dízimos e o consagrado ainda proibidos, nem o luf e a mostarda, e que Raban Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento dos corvos. A guemará traz as perguntas de Rabi Zeira a Rabi Yoshiyá sobre a medida dos cestos e a dos copos; pergunta se se desocupa do depósito; discute o dimúa (a mistura de terumá com produto profano), segundo Rabi Lazar e Rabi Eliezer; a terumá declarada na véspera do Shabat, com Rabi Elazar, Rabi Yossi beRabi Bun e Rabi Chiya; a terumá impura e o tevel com condição; a mostarda, o chatzav e o vidro, com a objeção de Rabi Natan sobre os elefantes; o luf de Raban Shimon ben Gamliel; e os seixos lisos de Chamat Gader, segundo Rabi Chanina. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 126b.
Mishná: No Shabat, desocupam-se até quatro ou cinco cestos de palha e de grão por causa dos hóspedes, para lhes dar lugar, e por causa da interrupção da casa de estudo, quando falta lugar para os alunos, mas não o otsar (o depósito de produtos). Desocupam-se a terumá (a porção da colheita devida ao cohen) pura, o demai (produto duvidoso quanto ao dízimo), o primeiro dízimo cuja terumá já foi retirada, o segundo dízimo e o hekdesh (o consagrado ao Templo) que foram resgatados, e o turmos (tremoço) seco, porque é alimento para os pobres. Mas não o tevel (produto ainda não dizimado), nem o primeiro dízimo cuja terumá não foi retirada, nem o segundo dízimo e o hekdesh que não foram resgatados, nem o luf (uma planta de bulbo, o arum), nem a mostarda. Raban Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento para os corvos.
“Desocupam-se até quatro ou cinco cestos” etc. Rabi Zeira perguntou a Rabi Yoshiyá: quanto é a medida dos cestos? Disse-lhe Rabi Yoshiyá: aprendamos o que está fechado a partir do que está explícito, pois ensinamos lá na Mishná: “Em três cestos de três seá (medida de volume) cada um se retira a contribuição da lishká (a câmara dos siclos no Templo)”.
Lá ensinamos na Mishná: “Quem leva para fora vinho, é culpado se leva o bastante para misturar o copo” etc. Rabi Zeira perguntou a Rabi Yoshiyá: quanto é a medida dos copos? Disse-lhe Rabi Yoshiyá: aprenda-se o que está fechado a partir do que está explícito, pois ensinou Rabi Chiya: os quatro copos do Pessach contêm uma reviit (um quarto de log) de vinho itálico.
Pode-se desocupar do otsar segundo esta ordem, de quatro ou cinco cestos? Ouçamo-lo desta baraita: “E concordam que não se toque no otsar, mas faz nele um caminho e entra e sai.”
Há tanaim (recitadores de baraitot) que ensinam: move-se o dimúa (a mistura de terumá com produto profano). Há tanaim que ensinam: não se move. Disse Rabi Lazar: quem diz “move-se” fala do que se misturou com terumá pura; e quem diz “não se move” fala do que se misturou com terumá impura. E move-se aquele em que há quantidade bastante para fazer subir a terumá; mas aquele em que não há quantidade bastante para fazer subir, não. Quem é o tana que ensina “move-se”? Rabi Eliezer, pois ensinamos na Mishná: “Rabi Eliezer diz: a seá que caiu é a seá que subiu.”
Disse Rabi Elazar: uma pessoa se põe de pé na véspera do Shabat e diz: “Eis que isto é terumá amanhã”; mas uma pessoa não se põe de pé no Shabat e diz o mesmo: “Eis que isto é terumá amanhã”. Rabi Yossi beRabi Bun diz: uma pessoa não se põe de pé na véspera do Shabat e diz: “Eis que isto é terumá amanhã”. Uma matnita (a Mishná) diverge de Rabi Yossi beRabi Bun: “Um laguin (jarro) que é tevul yom (que imergiu e aguarda o pôr do sol), e alguém o encheu do barril de dízimo ainda tevel: se disse ‘Eis que isto é terumá amanhã, quando escurecer’, eis que é terumá amanhã; se disse ‘Eis que isto é eruv (a junção dos domínios)’, não disse nada.” Ele a explica como depois de feito. E não se ensinou? Rabi Chiya diz: “ele diz”, de antemão. Tens como dizer “depois de feito”? Retratou-se Rabi Yossi beRabi Bun da sua palavra por causa disto.
Como se diz agora? Diz: “Desde já, para quando eu a separar.” Considera que era terumá pura: diz “Desde já, para quando eu a comer.” Considera que era terumá impura: diz “Desde já, para quando eu a deixar num canto.”
Ensina-se numa baraita: move-se tanto a terumá pura quanto a terumá impura. Disse Rabi Zeira: isto diz que o tevel sobre o qual há uma condição, feita na véspera, é permitido movê-lo no Shabat. Como faz a pessoa? Põe os olhos numa parte dele, a que será terumá, e come o resto.
Ensina-se numa baraita: move-se no Shabat a mostarda, porque é alimento de pombas; e move-se o chatzav (uma planta bulbosa, a cebola-albarrã), porque é alimento de gazelas; e o vidro, porque é alimento de avestruzes. Disse Rabi Natan: se é assim, que se movam também os ramos de videira, porque os elefantes os comem.
“Raban Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento para os corvos.” Em que caso estamos tratando? Se é quando ele tem algo daquela espécie e aquela espécie se encontra no mercado, segundo as palavras de todos movê-lo é permitido. Se é quando ele não tem nada daquela espécie e aquela espécie não se encontra no mercado, segundo as palavras de todos movê-lo é proibido. Mas aqui estamos tratando do caso em que ele tem daquela espécie e aquela espécie não se encontra no mercado, e nisto divergem. Os rabanan (os sábios) dizem: uma vez que aquela espécie não se encontra no mercado, ele é como quem não tem daquela espécie. E Raban Shimon ben Gamliel diz: uma vez que ele tem daquela espécie, é como se aquela espécie se encontrasse no mercado.
Disse Rabi Zeira: isto não vem senão conforme a opinião de Rabi Chanina, que disse: subíamos com Rabi a Chamat Gader (as fontes quentes de Gadara), e ele nos dizia na véspera do Shabat: escolhei para vós seixos lisos, e estareis permitidos a movê-los amanhã, no Shabat. Disse Rabi Yossi: há diferença aqui, porque a pedra lisa é como uma cadeira.
Esta é a primeira halachá do Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 18:1 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “desocupam-se até quatro ou cinco cestos” até “porque é alimento para os corvos”, como antecipou a nota final da halachá 17:7. No Bavli, a mesma Mishná está em Shabbat 126b, e a sua guemará segue até 128a. As diferenças de redação entre o Yerushalmi e a avulsa são pequenas: o Yerushalmi diz הָאוֹרְחִין, onde a avulsa diz הָאוֹרְחִים; diz וְלֹא אֶת מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן, onde a avulsa diz וְלֹא מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן; diz לֹא אֶת הַלּוּף וְלֹא אֶת הַחַרְדָּל, onde a avulsa diz וְלֹא אֶת הַלּוּף, וְלֹא הַחַרְדָּל; e diz מַתִּיר בַּלּוּף e מַאֲכַל לָעוֹרְבִים, onde a avulsa diz מַתִּיר בְּלוּף e מַאֲכַל עוֹרְבִין; as demais diferenças são só de grafia e de vocalização, como אֲפִילוּ e אֲפִלּוּ, הַטֵּבֵל e הַטֶּבֶל. O Bavli, em 126b, diz que o tremoço seco se desocupa מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְעִזִּים, “porque é alimento para as cabras”, onde o Yerushalmi e a avulsa dizem “para os pobres”. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os nove seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 09 é o décimo. O segmento da seção 05 aparece em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção; nenhum segmento foi dividido entre seções, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Tiramos também os marcadores embutidos da coluna 16c da edição de Veneza (no início da seção 01) e das folhas 84b (na seção 04) e 85a (na seção 05) da edição de Vilna, que não fazem parte do texto. Não há colchetes nem parênteses no hebraico. Mantivemos como estão no Sefaria a grafia שֶׁעָלָת, na seção 04, onde a Mishná Terumot escreve שֶׁעָלְתָה, e a palavra תְּנַּי, na seção 06, que o Sefaria isola entre pontos.
Referências conferidas. A Mishná citada na seção 01 com “ensinamos lá” é a Mishná Shekalim 3:2, que diz que em três cestos de três seá cada um se retira a contribuição da câmara. A Mishná citada na seção 02 com “lá ensinamos” é a Mishná Shabbat 8:1, que abre com “quem leva para fora vinho, o bastante para misturar o copo”. As seções 01 e 02 estão também no Yerushalmi Shabbat 8:1, em ordem inversa: ali a pergunta sobre os copos vem primeiro, na própria halachá do vinho, e a dos cestos vem depois, introduzida por “lá ensinamos”; ali Rabi Zeira se escreve זְעוּרָא, a resposta sobre os copos diz נִלְמוֹד, e o ensino de Rabi Chiya diz אַרְבָּעָה כּוֹסוֹת שֶׁאָמְרוּ יֵשְׁנָן רְבִיעִית יַיִן בָּאִיטַלְקִי, “os quatro copos que disseram contêm uma reviit de vinho pela medida itálica”. A Tosefta Pesachim 10:1 (ed. Lieberman) diz que não se dão ao pobre menos de quatro copos de vinho que tenham uma reviit. A baraita da seção 03 tem paralelo no Bavli, Shabbat 127a: não se começa pelo depósito, mas se faz nele um caminho para entrar e sair, que o Bavli explica como um caminho feito com os pés, ao entrar e ao sair; ali mesmo, Rabi Achá e Rabi Shimon divergem sobre o monte de grão começado ou não na véspera do Shabat; e, em 126b, o Bavli atribui o “mas não o depósito” a Rabi Yehudá, que sustenta o muktzé (o que foi posto de lado e não se move no Shabat), e, em 127a, a Rabi Shimon, que não o sustenta. A Mishná citada na seção 04 é a Mishná Terumot 5:2: uma seá de terumá impura caiu em cem de produto profano puro; Rabi Eliezer diz que se retire e se queime, porque a seá que caiu é a seá que subiu. A Mishná citada na seção 05 é a Mishná Tevul Yom 4:4, que diz “terumá do dízimo” onde o nosso texto diz só “terumá”. Toda a seção 05 e a seção 06 estão também no Yerushalmi Demai, no fim da halachá 7:4 e no início da 7:5, na numeração do Sefaria, onde a primeira palavra é de Rabi Yitzchak bar Elazar, e não de Rabi Elazar, e onde se lê טֵבֵל שֶׁיֵּשׁ עָלָיו תְּנַיי מוֹתָּר לְטַלְטְלוֹ בְשַׁבָּת, com “no Shabat”. A baraita da seção 07 está na Tosefta Shabbat 14:8 (ed. Lieberman) e no Bavli, Shabbat 128a; nas duas, o vidro é palavra de Raban Shimon ben Gamliel, e não do texto anônimo; a Tosefta acrescenta a regra de que se move tudo o que é do preparado para o Shabat; e o Bavli responde a Rabi Natan que as avestruzes são comuns e os elefantes não, e Amemar diz que isso vale quando a pessoa tem avestruzes. Em 128a, o Bavli explica também o tevel da Mishná como o tevel por decreto dos sábios. A palavra de Rabi Chanina sobre os seixos de Chamat Gader, na seção 09, está também no Yerushalmi Shabbat 4:2, onde se lê בָּחֲרוּ לָכֶם חֲלָקֵי אֲבָנִים, e onde Rabi Zeira, os companheiros, os de Tzipori e Rabi Yochanan discutem o que é preciso fazer às pedras para que se possam mover. A Mishná Shabbat 18:2, que segue, trata dos feixes de palha, de lenha e de ramos preparados para alimento dos animais.
Observações de leitura. Na seção 01, a resposta de Rabi Yoshiyá aprende a medida de um cesto, que a nossa Mishná não diz, dos cestos de três seá da Mishná Shekalim, e a conclusão, que o texto não diz, é que a medida de um cesto é de três seá. Na seção 02, a medida do copo se aprende dos quatro copos do Pessach; o hebraico não diz se a reviit é a de cada copo ou a dos quatro juntos, e “vinho itálico” pode querer dizer a medida itálica, como lê Guggenheimer e como sugere o paralelo do capítulo 8; deixamos a ambiguidade. Na seção 03, “segundo esta ordem” entendemos como os quatro ou cinco cestos da Mishná; o texto não diz quem são os que “concordam”, e a resposta parece ser que do depósito não se tira nada, mas se abre nele um caminho. Na seção 04, o dimúa é a mistura de terumá com produto profano: se a terumá era pura, a mistura é comida para um cohen e se move; se era impura, não serve para nada e não se move. A frase seguinte é uma segunda explicação: “fazer subir” é a anulação da terumá caída em cem vezes a sua quantidade de produto profano, quando se retira dali uma quantidade igual à que caiu; a palavra “move-se” em itálico completa o sentido, e Guggenheimer lê a frase como uma alternativa, “ou”. A palavra de Rabi Eliezer mostra que, para ele, basta retirar a seá, e por isso a mistura não fica proibida no Shabat. Na seção 05, o tevul yom é o jarro que imergiu e só fica puro ao pôr do sol: quem quer separar a terumá com ele só pode fazê-lo de noite, quando já é Shabat, e por isso a declara na véspera; a Mishná de Tevul Yom contradiz Rabi Yossi beRabi Bun, que responde que ela vale só depois de feito; a baraita de Rabi Chiya, que ensina a fórmula “ele diz”, de antemão, o fez retratar-se. As três fórmulas finais, “desde já, para quando eu a separar”, “para quando eu a comer” e “para quando eu a deixar num canto”, são as que se dizem na véspera, conforme a terumá seja comum, pura ou impura. Na seção 06, a palavra תְּנַּי, que o Sefaria põe entre pontos como se fosse “ensina-se”, lemos como תְּנַיי, “condição”, pelo paralelo de Demai; a leitura é incerta. Na seção 07, a identificação do chatzav é incerta: é uma planta de bulbo, que muitos identificam com a cebola-albarrã, e que Guggenheimer, por uma identificação dos geonim, traduz “rue”, arruda. Na seção 08, o texto não diz de que “espécie” se trata, se dos corvos ou do luf; Guggenheimer entende os animais, e a pergunta é se basta que a pessoa os tenha para que o luf seja comida preparada. Na seção 09, o texto não diz a que se refere o “isto” de Rabi Zeira; Guggenheimer entende que a frase pertence à discussão da Mishná 18:2, dos feixes preparados para os animais, mas ela está aqui no hebraico do Sefaria, e assim a deixamos; a palavra de Rabi Yossi distingue as pedras lisas, que servem logo de assento, como uma cadeira, de outras coisas que precisam de preparo. A expressão “na véspera do Shabat”, em itálico, completa o sentido de “amanhã”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. No segundo segmento, a tradução de Guggenheimer no Sefaria começa com uma frase que não está no hebraico, uma objeção de Rabi Elazar sobre os feixes de palha, que a sua própria nota liga à Mishná 18:2; não a traduzimos. Ele traduz אִיטַלְקִי por “an Italic quartarius”, e nós, “vinho itálico”. Ele acrescenta entre colchetes “of the tithe” na Mishná de Tevul Yom; deixamos esse dado na nota, porque não está no nosso hebraico. Ele traduz o chatzav por “rue”, os נָעֲמִיּוֹת por “ostriches”, como nós, avestruzes, e o luf por “serpentary”. Ele escreve “Rebbi Eleazar” tanto para רִבִּי לָעְזָר, na seção 04, como para רִבִּי אֶלְעָזָר, na seção 05; seguimos o hebraico, “Rabi Lazar” e “Rabi Elazar”. Ele escreve “Rebbi Zeˋira”, “Rebbi Joshiah”, “Rebbi Ḥiyya”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun”, “Rebbi Nathan”, “Rabban Simeon ben Gamliel”, “Rebbi Ḥanina” e “Rebbi Yose”; mantivemos “Rabi Zeira”, “Rabi Yoshiyá”, “Rabi Chiya”, “Rabi Yossi beRabi Bun”, “Rabi Natan”, “Raban Shimon ben Gamliel”, “Rabi Chanina” e “Rabi Yossi”, como nas halachot anteriores deste tratado. Das suas remissões, foram conferidas e estão corretas as da Mishná Shekalim 3:2, da Mishná Terumot 5:2, da Mishná Tevul Yom 4:4, da Tosefta Pesachim 10:1 e da Tosefta Shabbat 14:8 (ed. Lieberman), do Bavli, Shabbat 126b, 127a e 128a, e do Yerushalmi Shabbat 4:2 e 8:1; a do Yerushalmi Demai 7:5 corresponde, na numeração do Sefaria, ao fim da halachá 7:4 e ao início da 7:5.
Com esta halachá, abre-se o Perek Yud-Chet de Massechet Shabbat, Mefanin (מְפַנִּין).