Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Chet (Mefanin)
אֲבָל לֹא אֶת הַטֶּבֶל

Continua o exame da mishná sobre o que se remove por causa dos hóspedes: tevel, maasser rishon, maasser sheni e hekdesh; o lôf e o princípio de que todo Israel são filhos de reis; feixes, temperos, carne e peixe salgados; e os ossos

Shabbat 128a · continua diretamente de 127b · Perek Yud-Chet (Mefanin)

Shabbat 128a prossegue, sem qualquer interrupção, o exame frase a frase da mishná sobre o que se remove por causa dos hóspedes, iniciado em 127b. Sobre a cláusula "mas não o tevel": a guemará pergunta se isso não é óbvio, e responde que é necessária apenas para o tevel que é tevel somente por decreto rabínico — o caso do grão semeado num vaso não perfurado, cujo vínculo com a terra a Torá não reconhece plenamente. Sobre "e não o maasser rishon do qual não se tirou sua teruma": a guemará explica que se trata do caso em que o maasser foi antecipado depois de o grão já ter sido amontoado na eira, de modo que se tirou dele o maasser, mas não a teruma gedolá; e, para que não se pense, como perguntou Rav Papa a Abaie ao final de 127b, que também esse caso mereceria isenção da teruma gedolá, ensina-se a distinção que Abaie já havia respondido, entre o grão ainda nas espigas e o grão já amontoado. Sobre "e não o maasser sheni e o hekdesh que não foram redimidos": a guemará explica tratar-se do caso em que foram redimidos, mas não conforme sua lei — o maasser sheni redimido sobre um asimon, moeda de prata sem cunho, quando a Torá exige dinheiro com forma cunhada; e o hekdesh resgatado com terra, quando a Torá exige especificamente dinheiro. Sobre "e não o lôf": uma baraita ensina que se removem o chatzav, por ser alimento de gazelas, e a mostarda, por ser alimento de pombas; Rabban Shimon ben Gamliel acrescenta que também se removem cacos de vidro, por servirem de alimento a avestruzes — e, ao desafio de Rabi Natan, que então também feixes de ramos de videira deveriam ser removidos por servirem de alimento a elefantes, Rabban Shimon ben Gamliel responde que avestruzes são comuns e elefantes não; Ameimar e Rav Ashi discutem se o critério depende de o indivíduo possuir o animal ou apenas da aptidão do alimento, concluindo pela aptidão. Abaie ensina que Rabban Shimon ben Gamliel, Rabi Shimon, Rabi Yishmael e Rabi Akiva sustentam todos que todo Israel são filhos de reis, trazendo prova de cada um: a mishná que permite a filhos de reis ungir óleo de rosas sobre feridas no Shabat, estendida por Rabi Shimon a todo Israel; e a baraita de que não se penhora, de um devedor, a capa de valor de cem manés que veste, pois todo Israel é digno de tal capa, segundo Rabi Yishmael e Rabi Akiva. Segue a baraita sobre feixes de palha, lenha e galhos, que se removem se preparados para alimento de animal, com a distinção de Rabban Shimon ben Gamliel entre feixes que se pegam com uma mão e com duas; sobre feixes de sávia, hissopo e tomilho selvagem, que servem de alimento apenas se trazidos com esse propósito, e não como lenha; sobre colher e esfregar temperos com a mão, sem utensílio, segundo Rabi Yehudá e os sábios; e sobre a identificação de amita, peigam, sávia, hissopo e tomilho selvagem, com a correção de um erro cometido por um vendedor de mercado. Por fim, a disputa entre Rav Huna, que permite remover carne sem sal, e Rav Chisda, que proíbe — resolvida, quanto a Rav Huna, pela distinção entre muktzê para comer e muktzê para remover, e, quanto a Rav Chisda, pelo caso do ganso, cuja carne serve como alimento cru; a baraita sobre peixe salgado, permitido, e sem sal, proibido, e carne, permitida em ambos os casos; e, por fim, os ossos, que se removem por serem alimento de cães. O daf termina em pleno fluxo, sem qualquer hadran — o Perek Yud-Chet (Mefanin) continua em andamento —, prosseguindo diretamente em Shabbat 128b (ainda não publicado).

A mishná: tevel, maasser rishon, maasser sheni e hekdesh · אֲבָל לֹא אֶת הַטֶּבֶל

939"Mas não o tevel etc." — óbvio?! Necessário para o tevel que é tevel apenas por decreto rabínico, semeado em vaso não perfurado
Mishná; Anônimo (Guemará)
אֲבָל לֹא אֶת הַטֶּבֶל וְכוּ׳. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא בְּטֶבֶל טָבוּל מִדְּרַבָּנַן, שֶׁזְּרָעוֹ בְּעָצִיץ שֶׁאֵינוֹ נָקוּב.

A mishná ensina: "mas não se remove o tevel (produto do qual ainda não se separou nenhum dízimo)" etc. Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto para o caso de tevel que é tevel apenas por decreto dos sábios, a saber, produto que foi semeado num vaso que não é perfurado.

Nota

Que o tevel — produto do qual não se separou nenhum dízimo — não possa ser removido no Shabat pareceria óbvio, pois ele é totalmente proibido para consumo, sem servir a ninguém. A guemará explica que a mishná é necessária para o caso especial de produto cultivado num vaso sem furo no fundo: como esse vaso é considerado, para efeitos de lei da Torá, como não conectado à terra, o produto nele crescido é, por lei da Torá, isento de dízimos; sua obrigação de ser dizimado é apenas de origem rabínica. Ainda assim, a mishná ensina que ele permanece proibido de ser removido, como qualquer outro tevel.

940"E não o maasser rishon do qual não se tirou sua teruma" — o caso em que foi antecipado já no monte debulhado, sem isenção da teruma gedolá
Mishná; Anônimo (Guemará)
וְלֹא מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וְכוּ׳. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא, שֶׁהִקְדִּימוֹ בִּכְרִי, שֶׁנָּטַל מִמֶּנּוּ מַעֲשֵׂר וְלֹא נִטְּלָה מִמֶּנּוּ תְּרוּמָה גְּדוֹלָה. מַהוּ דְתֵימָא כְּדַאֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְאַבָּיֵי, קָא מַשְׁמַע לַן כִּדְשַׁנִּי לֵיהּ אַבָּיֵי.

"E não se remove o maasser rishon (primeiro dízimo)" etc. Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto para o caso em que foi antecipado no monte já debulhado, de modo que se tirou dele o maasser, mas não se tirou dele a teruma gedolá. Para que não penses como disse Rav Papa a Abaie (que também aqui haveria isenção da teruma gedolá), vem ensinar-nos a mishná como Abaie lhe respondeu (que há distinção entre o grão nas espigas e o grão já amontoado).

Nota

A discussão retoma exatamente onde 127b a deixou: ali, Rabi Abahu, em nome de Reish Lakish, havia ensinado que o maasser antecipado ainda nas espigas é isento da teruma gedolá, e Rav Papa havia perguntado a Abaie por que a isenção não se estenderia também ao grão já amontoado e debulhado — ao que Abaie respondeu que apenas o grão já transformado em dagan fica plenamente sujeito à obrigação de teruma gedolá. Agora a mishná ensina exatamente esse caso: quando o maasser foi antecipado depois de o grão já ter sido amontoado, ele permanece proibido de ser removido, pois ainda não se separou dele a teruma gedolá devida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shelo nitla terumato"
שלא ניטלה תרומתו - קא סלקא דעתך שלא ניטלה תרומת מעשר שלו:

"Do qual não se tirou sua teruma" — poderia vir-te à mente pensar que se trata da teruma do maasser (terumat maasser, que o levita deve separar do dízimo), que não foi tirada dele.

941"E não o maasser sheni e o hekdesh que não foram redimidos" — o caso em que foram redimidos, mas não conforme sua lei: sobre um asimon, ou com terra
Mishná; Anônimo (Guemará)
וְלֹא אֶת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְכוּ׳. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא דְּנִפְדּוּ וְלֹא נִפְדּוּ כְּהִלְכָתָן. מַעֲשֵׂר — שֶׁפְּדָאוֹ עַל גַּבֵּי אֲסִימוֹן, דְּרַחֲמָנָא אָמַר ״וְצַרְתָּ הַכֶּסֶף בְּיָדְךָ״, דָּבָר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ צוּרָה. הֶקְדֵּשׁ — שֶׁחִילְּלוֹ עַל גַּבֵּי קַרְקַע, דְּרַחֲמָנָא אָמַר ״וְנָתַן הַכֶּסֶף וְקָם לוֹ״.

"E não se remove o maasser sheni (segundo dízimo)" — e o hekdesh que não foram redimidos — etc. Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto para o caso em que foram redimidos, mas não foram redimidos conforme sua lei. Maasser — o caso em que o dono o redimiu sobre um asimon (barra de prata sem cunho), enquanto o Misericordioso disse: "e atarás o dinheiro em tua mão" (Deuteronômio 14:25) — algo que tem nele uma forma cunhada. Hekdesh — o caso em que alguém o resgatou sobre terra, enquanto o Misericordioso disse: "e dará o dinheiro, e se manterá para ele" (Levítico 27:19 — exigindo especificamente dinheiro).

Nota

A mishná passa agora ao maasser sheni e ao hekdesh já resgatados, mas cujo resgate não seguiu corretamente a lei da Torá: o maasser sheni exige, para seu resgate, dinheiro cunhado — não um asimon, barra ou disco de metal precioso sem qualquer cunho gravado; e o hekdesh exige especificamente dinheiro, não podendo ser resgatado com terra ou outro imóvel. Em ambos os casos, o resgate é inválido, e o produto ou objeto permanece com sua santidade original, proibido de ser removido no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "asimon"
אסימון - שאין עליו צורה:

"Asimon" — metal que não tem nele uma forma cunhada.

O lôf, e o princípio de que todo Israel são filhos de reis · כׇּל יִשְׂרָאֵל בְּנֵי מְלָכִים הֵם

942"E não o lôf": removem-se o chatzav, alimento de gazelas, a mostarda, alimento de pombas, e cacos de vidro, alimento de avestruzes
Mishná; Baraita (Sábios); Rabban Shimon ben Gamliel
וְלֹא אֶת הַלּוּף. תָּנוּ רַבָּנַן: מְטַלְטְלִין אֶת הֶחָצָב מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לִצְבָיִים, וְאֶת הַחַרְדָּל מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְיוֹנִים. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: אַף מְטַלְטְלִין שִׁבְרֵי זְכוּכִית מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְנַעֲמִיּוֹת.

"E não se remove o lôf (uma raiz venenosa para o homem)." Ensinaram os sábios numa Tosefta: removem-se o chatzav (esquila), porque é alimento para gazelas, e a mostarda, porque é alimento para pombas. Rabban Shimon ben Gamliel diz: removem-se também cacos de vidro, porque são alimento para avestruzes.

Nota

Depois de tratar do que não se remove, a mishná volta a listar mais um item proibido — o lôf, raiz que, crua, é venenosa para o homem e por isso não serve de alimento a ninguém enquanto não preparada. A partir daí, uma Tosefta amplia o princípio geral por trás de toda a lista: tudo que serve de alimento a algum animal, mesmo que não sirva ao homem, pode ser removido — como o chatzav, comido por gazelas, e a mostarda, comida por pombas; Rabban Shimon ben Gamliel estende ainda mais o princípio, permitindo remover até cacos de vidro, por servirem de alimento às avestruzes, aves conhecidas por engolir objetos duros.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "chatzav" e "ne'amiyot"
חצב - עשב שמשתרש בעומק כנגדו ואין שרשיו מתפשטין ובו תיחם יהושע את הארץ לישראל: נעמיות - בנות היענה:

"Chatzav" — erva que enraíza na profundidade correspondente <à sua altura>, e cujas raízes não se espalham; e com ela Josué demarcou a terra para Israel. "Avestruzes (ne'amiyot)" — filhas do avestruz (bat haya'aná).

943Rabi Natan desafia: então também feixes de ramos de videira, alimento de elefantes! Rabban Shimon ben Gamliel: avestruzes são comuns, elefantes não
Rabi Natan; Rabban Shimon ben Gamliel
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי נָתָן: אֶלָּא מֵעַתָּה חֲבִילֵי זְמוֹרוֹת יְטַלְטְלוּ מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְפִילִין! וְרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל: נַעֲמִיּוֹת — שְׁכִיחִי, פִּילִין — לָא שְׁכִיחִי.

Disse-lhe Rabi Natan: mas então, feixes de ramos de videira deveriam ser removidos, porque são alimento para elefantes! E Rabban Shimon ben Gamliel respondeu: avestruzes são comuns, elefantes não são comuns.

Nota

Rabi Natan leva o princípio de Rabban Shimon ben Gamliel a uma conclusão que lhe parece absurda: se cacos de vidro podem ser removidos por servirem de alimento a avestruzes — animais raros —, então feixes de ramos de videira também deveriam poder ser removidos, por servirem de alimento a elefantes, animais ainda mais raros. Rabban Shimon ben Gamliel responde distinguindo os dois casos pela frequência: avestruzes, ainda que não universais, são relativamente comuns, ao passo que elefantes praticamente não se encontram entre os judeus da terra de Israel.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "yetaltelu"
יטלטלו - ראוי הוא להיות לו פילין ולהאכילן:

"Devem ser removidos" — pois todo israelita é apto a ter elefantes e alimentá-los (sendo, em princípio, filho de reis).

944Ameimar: apenas se o indivíduo tiver avestruzes; Rav Ashi objeta e conclui que o critério é a aptidão do alimento, não a posse do animal
Ameimar; Rav Ashi
אָמַר אַמֵּימָר: וְהוּא דְּאִית לֵיהּ נַעֲמִיּוֹת. אָמַר רַב אָשֵׁי לְאַמֵּימָר: אֶלָּא דְּקָאֲמַר לֵיהּ רַבִּי נָתָן לְרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל חֲבִילֵי זְמוֹרוֹת יְטַלְטֵל מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְפִילִין, אִי אִית לֵיהּ פִּילִין — אַמַּאי לָא? אֶלָּא רָאוּי, הָכָא נָמֵי רָאוּי.

Disse Ameimar: e isso (a permissão de remover cacos de vidro) é desde que o indivíduo tenha avestruzes. Disse Rav Ashi a Ameimar: mas, quanto ao que disse Rabi Natan a Rabban Shimon ben Gamliel — feixes de ramos de videira devem ser removidos, porque são alimento para elefantes —, se ele tivesse elefantes, por que não seria permitido? Antes, o critério é ser apto (independentemente da posse real do animal); também aqui (quanto aos cacos de vidro), o critério é ser apto.

Nota

Ameimar propõe restringir a permissão de Rabban Shimon ben Gamliel apenas a quem de fato possui avestruzes. Rav Ashi rejeita essa restrição: se a permissão dependesse da posse real do animal, então mesmo Rabi Natan, ao propor o caso extremo do elefante, teria de admitir que, para quem realmente possuísse elefantes, os ramos de videira poderiam ser removidos — o que mostra que o critério verdadeiro em toda a discussão nunca foi a posse do animal, mas apenas a aptidão do material como alimento de alguma espécie, ainda que rara.

945Abaie: Rabban Shimon ben Gamliel, Rabi Shimon, Rabi Yishmael e Rabi Akiva sustentam todos que todo Israel são filhos de reis
Abaie
אָמַר אַבָּיֵי: רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי שִׁמְעוֹן וְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְרַבִּי עֲקִיבָא כּוּלְּהוּ סְבִירָא לְהוּ כׇּל יִשְׂרָאֵל בְּנֵי מְלָכִים הֵם.

Disse Abaie: Rabban Shimon ben Gamliel, e Rabi Shimon, e Rabi Yishmael, e Rabi Akiva — todos eles sustentam que todo Israel são filhos de reis.

Nota

Abaie identifica um princípio comum subjacente a quatro opiniões independentes de diferentes sábios: a ideia de que todo israelita, mesmo o mais humilde, é tratado, para efeitos de certas leis, como se fosse filho de rei — o que justifica, entre outras coisas, permitir-lhe remover objetos incomuns, como cacos de vidro, sob a suposição de que poderia possuir animais exóticos como avestruzes.

946Prova de Rabban Shimon ben Gamliel: a própria permissão dos cacos de vidro, já mencionada
Anônimo (Guemará)
רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל — הָא דַּאֲמַרַן.

Rabban Shimon ben Gamliel — isto é o que já dissemos (a permissão de remover cacos de vidro por serem alimento de avestruzes, animal próprio de reis).

Nota

A guemará aponta que a fonte da opinião de Rabban Shimon ben Gamliel já foi citada acima: sua permissão de remover cacos de vidro, alimento de avestruzes — ave associada à riqueza real —, pressupõe que qualquer israelita pode, em princípio, possuir tal animal, exatamente porque todo Israel é tratado como filho de reis.

947Prova de Rabi Shimon: a mishná que permite a filhos de reis ungir óleo de rosas sobre feridas, estendida por ele a todo Israel
Mishná; Rabi Shimon
רַבִּי שִׁמְעוֹן — דִּתְנַן: בְּנֵי מְלָכִים סָכִין עַל גַּבֵּי מַכּוֹתֵיהֶן שֶׁמֶן וֶורֶד, שֶׁכֵּן דַּרְכָּן שֶׁל בְּנֵי מְלָכִים לָסוּךְ בַּחוֹל. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: כׇּל יִשְׂרָאֵל בְּנֵי מְלָכִים הֵם.

Rabi Shimon — pois aprendemos numa mishná: filhos de reis untam, sobre suas feridas, óleo de rosas (mesmo no Shabat), pois assim é o costume dos filhos de reis, ungirem-se com esse óleo mesmo durante a semana (sem que se suspeite de intenção medicinal). Rabi Shimon diz: todo Israel são filhos de reis (e, portanto, todos podem fazer o mesmo).

Nota

A segunda prova vem de uma mishná sobre curativos no Shabat: em geral, é proibido aplicar remédios no Shabat por decreto rabínico, receando-se que se chegue a moer especiarias medicinais; mas untar óleo de rosas é permitido a filhos de reis, pois, sendo costume deles fazê-lo também durante a semana por puro luxo, não há como suspeitar de intenção curativa. Rabi Shimon estende essa permissão a todo Israel, precisamente porque considera todo israelita, para este efeito, filho de rei.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "al makoteihen" e "shekein darkan lassuch"
על מכותיהן - בשבת ולא גזר משום שחיקת סממנין: שכן דרכן לסוך - בלא מכה הלכך. לאו מוכחא מילתא דלרפואה:

"Sobre suas feridas" — em Shabat; e não decretaram a proibição por causa do receio de moagem de especiarias medicinais. "Pois assim é seu costume ungir-se" — mesmo sem ferida; portanto, não é evidente que a unção seja para cura.

948Prova de Rabi Yishmael e Rabi Akiva: não se penhora a capa de valor de cem manés de ninguém, pois todo Israel é digno dela
Baraita (Sábios)
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְרַבִּי עֲקִיבָא — דְּתַנְיָא: הֲרֵי שֶׁהָיוּ נוֹשִׁין בּוֹ אֶלֶף מָנֶה וְלָבוּשׁ אִיצְטְלָא בַּת מֵאָה מָנֶה — מַפְשִׁיטִין אוֹתוֹ, וּמַלְבִּישִׁין אוֹתוֹ אִיצְטְלָא הָרְאוּיָה לוֹ. תָּנָא מִשּׁוּם רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וּמִשּׁוּם רַבִּי עֲקִיבָא: כׇּל יִשְׂרָאֵל רְאוּיִן לְאוֹתָהּ אִיצְטְלָא.

Rabi Yishmael e Rabi Akiva — pois foi ensinado numa baraita: eis um devedor a quem cobravam uma dívida de mil manés, e que vestia uma capa de valor de cem manés — despem-no dela, e vestem-no com uma capa apropriada para ele. Ensinou-se em nome de Rabi Yishmael e em nome de Rabi Akiva: todo Israel é digno daquela mesma capa de cem manés.

Nota

A terceira prova vem das leis de cobrança de dívidas: em geral, quando se penhora um devedor, retira-se dele uma peça de roupa de luxo e substitui-se por outra mais modesta, compatível com sua condição, aplicando-se o valor da diferença ao pagamento da dívida. Mas Rabi Yishmael e Rabi Akiva ensinam que ninguém pode ser despido de uma capa de até cem manés, pois todo Israel é considerado digno de tal vestimenta como necessidade básica — o que, segundo Abaie, também decorre da premissa de que todo israelita é, em princípio, filho de rei.

Feixes, temperos, e o que se toma com a mão · חֲבִילֵי קַשׁ וַחֲבִילֵי עֵצִים

949Feixes de palha, lenha e galhos, se preparados para alimento de animal; Rabban Shimon ben Gamliel: os de uma mão são permitidos, os de duas são proibidos
Mishná; Baraita (Sábios); Rabban Shimon ben Gamliel
חֲבִילֵי קַשׁ וַחֲבִילֵי כּוּ׳. תָּנוּ רַבָּנַן: חֲבִילֵי קַשׁ וַחֲבִילֵי עֵצִים וַחֲבִילֵי זְרָדִים, אִם הִתְקִינָן לְמַאֲכַל בְּהֵמָה — מְטַלְטְלִין אוֹתָן, וְאִם לָאו — אֵין מְטַלְטְלִין אוֹתָן. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: חֲבִילִין הַנִּיטָּלִין בְּיָד אַחַת — מוּתָּר לְטַלְטְלָן, בִּשְׁתֵּי יָדַיִם — אָסוּר לְטַלְטְלָן.

A mishná ensina: "feixes de palha, e feixes" etc. Ensinaram os sábios numa Tosefta: feixes de palha, e feixes de lenha, e feixes de galhos — se os preparou para alimento de animal, removem-se; e se não, não se removem. Rabban Shimon ben Gamliel diz: feixes que se pegam com uma mão, é permitido removê-los; os que só se pegam com duas mãos, é proibido removê-los.

Nota

A mishná retorna ao princípio de que o alimento de animal, quando preparado como tal antes do Shabat, pode ser removido, ao passo que a mesma palha, lenha ou galhos, se não destinados a esse fim, permanecem muktzê. Rabban Shimon ben Gamliel acrescenta uma distinção adicional, independente da intenção: mesmo feixes já preparados para alimento de animal, se forem tão grandes que só possam ser carregados com as duas mãos, permanecem proibidos, pois removê-los envolve um esforço equivalente ao de um trabalho, incompatível com o espírito do Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hitkinan" e "assur letaltelan"
התקינן - הזמינן: אסור לטלטלן - ואפילו הזמינם למאכל בהמה דטירחא היא:

"Preparou-os" — designou-os de antemão para esse fim. "É proibido removê-los" — referindo-se aos feixes de duas mãos, mesmo que os tenha designado para alimento de animal, pois carregá-los é esforço.

950Feixes de sávia, hissopo e tomilho selvagem: se trazidos como lenha, não se serve deles no Shabat; se para alimento de animal, sim
Anônimo (Guemará)
חֲבִילֵי סִיאָה אֵזוֹב וְקוֹרָנִית, הִכְנִיסָן לְעֵצִים — אֵין מִסְתַּפֵּק מֵהֶן בְּשַׁבָּת, לְמַאֲכַל בְּהֵמָה — מִסְתַּפֵּק מֵהֶן בְּשַׁבָּת.

Feixes de sávia, hissopo, e tomilho selvagem — ervas aromáticas próprias para alimento humano — se os trouxe para servirem de lenha, não se serve deles em Shabat (para comer); se os trouxe para alimento de animal, serve-se deles em Shabat.

Nota

Essas ervas aromáticas, próprias tanto para consumo humano quanto animal, dependem inteiramente da intenção do dono no momento em que as trouxe para casa antes do Shabat: se as designou apenas como lenha, tornam-se muktzê para consumo, e ninguém pode servir-se delas como alimento; mas, se as designou desde o início para alimento de animal, é permitido também ao próprio dono comer delas no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "sia ezov vekoranit" e "hichnisan le'etzim"
סיאה אזוב וקורנית - לקמיה מפרש לה: הכניסן לעצים - לייבשן:

"Sávia, hissopo, e tomilho selvagem" — mais adiante a guemará os explica. "Trouxe-os para lenha" — para secá-los e queimá-los como combustível.

951Colher com a mão, sem utensílio; esfregar e comer — Rabi Yehudá permite pouco num utensílio, e os sábios exigem que seja só com as pontas dos dedos
Baraita; Rabi Yehudá; Sábios
וְקוֹטֵם בַּיָּד וְאוֹכֵל, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִקְטוֹם בִּכְלִי. וּמוֹלֵל וְאוֹכֵל, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִמְלוֹל בִּכְלִי הַרְבֵּה, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: מוֹלֵל בְּרָאשֵׁי אֶצְבְּעוֹתָיו וְאוֹכֵל, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִמְלוֹל בְּיָדוֹ הַרְבֵּה כְּדֶרֶךְ שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בַּחוֹל.

E quem quiser comer dessas ervas colhe a planta com a mão e come, contanto que não a colha com um utensílio. E esfrega as vagens para retirar a semente e come, contanto que não esfregue com um utensílio muito — palavras de Rabi Yehudá. E os sábios dizem: esfrega com as pontas dos dedos e come, contanto que não esfregue com a mão muito, do modo como faz durante a semana.

Nota

A baraita estabelece os limites de como se pode preparar essas ervas para comer no Shabat, sem incorrer na proibição de moer: é permitido colher a planta apenas com a mão, nunca com um utensílio, que lembraria demais o processo de trabalho da semana; e é permitido esfregar as vagens para extrair a semente, com a mão. Rabi Yehudá permite ainda um pouco de uso de utensílio, desde que não em excesso, enquanto os sábios são mais rigorosos, exigindo que se esfregue apenas com as pontas dos dedos, e nunca com a mão inteira do modo habitual da semana.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shelo yiktom bichli"
שלא יקטום בכלי - כדרך חול כדאמרן (לעיל שבת דף עד:) האי מאן דפרים סילקא דמי לטוחן. במילתיה דרבי יהודה גרסינן מולל ואוכל ובלבד שלא ימלול בכלי הרבה וחכמי' אומרים מולל בראשי אצבעותיו ובלבד שלא ימלול בידו הרבה כדרך חול כך מצאתי בתוספתא דרבנן מחמרי דבכולי ידא אסור אלא בראשי אצבעותיו ומהו מולל כגון אם בא לאכול הזרע מולל השרביטין שהזרע בתוכם:

"Que não a colha com um utensílio" — como se faz durante a semana, conforme já dissemos (acima, Shabat 74b): quem corta beterraba com utensílio é como quem mói. Na formulação de Rabi Yehudá, lemos: "esfrega e come, contanto que não esfregue muito com um utensílio"; e os sábios dizem: "esfrega com as pontas dos dedos, contanto que não esfregue muito com a mão, do modo como faz durante a semana" — assim encontrei na Tosefta, de onde se vê que os sábios são mais rigorosos, pois proíbem esfregar com a mão inteira, permitindo apenas com as pontas dos dedos. E o que é "esfregar"? Por exemplo, se quer comer a semente, esfrega as vagens que contêm a semente dentro.

952O mesmo vale para amita, arruda e outros temperos; identificação de cada erva, e a correção de um erro de um vendedor de mercado
Baraita; Sábios; Rav Yehudá; Anônimo (Guemará)
וְכֵן בְּאַמִּיתָא וְכֵן בְּפֵיגָם וְכֵן בִּשְׁאָר מִינֵי תַּבְלִין. מַאי אַמִּיתָא? ״נִינְיָא״. סִיאָה? אָמַר רַב יְהוּדָה: (סִיאָה) ״צִתְרִי״. אֵזוֹב — ״אַבְרָתָא״. קוֹרָנִית — ״קוֹרָנִיתָא״ שְׁמָהּ. וְהָא הָהוּא דַּאֲמַר לְהוּ: מַאן בָּעֵי קוֹרָנִיתָא? וְאִישְׁתְּכַח חָשֵׁי! אֶלָּא: סִיאָה צִתְרִי, אֵזוֹב אַבְרָתָא, קוֹרָנִיתָא חָשֵׁי.

E o mesmo vale para amita, e o mesmo para arruda, e o mesmo para os demais tipos de temperos. O que é amita? "Ninya" (hortelã). E o que é sávia? Disse Rav Yehudá: sávia é "tzitri". Hissopo — "avrata". Tomilho selvagem — "koranita" é seu nome. Mas eis que houve um certo vendedor que lhes disse: quem quer koranita? — e se descobriu que era tomilho comum! Antes, corrija-se: sávia é tzitri, hissopo é avrata, koranita é tomilho.

Nota

A guemará estende as mesmas regras de colher e esfregar a outras ervas aromáticas semelhantes, e passa a identificar, uma a uma, as plantas mencionadas, usando seus nomes correntes em aramaico. Ao final, corrige-se uma confusão prática: um vendedor de mercado, ao anunciar "koranita", na verdade vendia tomilho comum, o que obriga a guemará a reajustar suas próprias identificações anteriores para que correspondam ao uso real do mercado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "vechen be'amita", "peigam", "ninya", "tzitri", "avrata" e "chashei"
וכן באמיתא - לקמיה מפרש מאי אמיתא: פיגם - רוד"א: ניניא - מינטא"י: צתרי - שדריא"ה לוי"ה ל"א פוליאול: אברתא - אישני"א: חשי - שדריא"ה וללשון הראשון לא פורש:

"E o mesmo para amita" — mais adiante a guemará explica o que é amita. "Arruda (peigam)" — identificada por Rashi com um termo em francês antigo. "Ninya" — identificada com um termo em francês antigo (mentai, hortelã). "Tzitri" — identificada, em variantes, com termos em francês antigo. "Avrata" — identificada com um termo em francês antigo. "Chashei" — identificada com o mesmo termo dado para tzitri; e, segundo a primeira versão, não se explica.

Carne e peixe salgados, e os ossos · בָּשָׂר מָלִיחַ מוּתָּר לְטַלְטְלוֹ

953Carne salgada é permitido remover; carne sem sal — Rav Huna permite, Rav Chisda proíbe
Anônimo (Guemará); Rav Huna; Rav Chisda
אִיתְּמַר: בָּשָׂר מָלִיחַ מוּתָּר לְטַלְטְלוֹ בְּשַׁבָּת. בָּשָׂר תָּפֵל, רַב הוּנָא אָמַר: מוּתָּר לְטַלְטְלוֹ, רַב חִסְדָּא אָמַר: אָסוּר לְטַלְטְלוֹ.

Foi dito: carne salgada é permitido removê-la em Shabat. Carne sem sal (ainda crua, imprópria para comer nesse estado) — disse Rav Huna: é permitido removê-la; disse Rav Chisda: é proibido removê-la.

Nota

Carne já salgada é considerada apta ao consumo e, portanto, pode ser removida sem qualquer dúvida. A controvérsia surge quanto à carne ainda sem sal, crua e imprópria para consumo imediato: Rav Huna sustenta que ainda assim pode ser removida, ao passo que Rav Chisda a considera muktzê, proibida de ser removida enquanto não estiver pronta para consumo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bassar tafel" e "mutar letaltelo"
בשר תפל - שאינו מלוח ומאן דגריס תפוח היא היא: מותר לטלטלו - דלית ליה מוקצה בטלטול:

"Carne sem sal (tafel)" — que não está salgada; e quem lê "tapuach" em vez de "tafel", é a mesma palavra. "É permitido removê-la" — pois Rav Huna não tem a opinião de que há proibição de muktzê quanto à remoção.

954Objeção a Rav Huna, discípulo de Rav, que segue Rabi Yehudá quanto ao muktzê; resposta: distinção entre muktzê para comer e muktzê para remover
Anônimo (Guemará)
רַב הוּנָא אָמַר מוּתָּר לְטַלְטְלוֹ? וְהָא רַב הוּנָא תַּלְמִיד דְּרַב הֲוָה, וְרַב כְּרַבִּי יְהוּדָה סְבִירָא לֵיהּ דְּאִית לֵיהּ מוּקְצֶה?! בְּמוּקְצֶה לַאֲכִילָה — סָבַר לַהּ כְּרַבִּי יְהוּדָה, בְּמוּקְצֶה לְטַלְטֵל — סָבַר לַהּ כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

A guemará pergunta: Rav Huna disse que é permitido removê-la? Mas Rav Huna era discípulo de Rav, e Rav sustenta como Rabi Yehudá, que tem a lei de muktzê?! Resposta: quanto ao muktzê relativo à comida, Rav sustenta como Rabi Yehudá (que proíbe comê-la); quanto ao muktzê relativo à remoção, sustenta como Rabi Shimon (que permite removê-la).

Nota

A guemará questiona a coerência de Rav Huna, aluno de Rav, que em geral segue a opinião mais restritiva de Rabi Yehudá quanto ao muktzê — o que tornaria surpreendente sua permissão de remover carne crua. A resposta distingue dois planos diferentes da lei de muktzê: quanto à proibição de comer a carne enquanto crua, Rav de fato segue Rabi Yehudá; mas quanto à proibição específica de removê-la, ele segue a posição mais permissiva de Rabi Shimon, que não considera muktzê apenas por não estar pronta para consumo imediato.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bemuktze la'achilah savar lah keRabi Yehudah"
במוקצה לאכילה סבר לה כר' יהודה - כלומר באיסור מוקצה לענין אכילה סבר לה כרבי יהודה דאסר לאוכלו ובאיסור מוקצה לטלטול סבר לה כרבי שמעון:

"Quanto ao muktzê relativo à comida, sustenta como Rabi Yehudá" — isto é: quanto à proibição de muktzê relativa a comer, sustenta como Rabi Yehudá, que proíbe comê-la; e quanto à proibição de muktzê relativa à remoção, sustenta como Rabi Shimon.

955Objeção a Rav Chisda, do caso do ganso movido do sol para a sombra em sua própria casa; resposta: o ganso é diferente, pois serve como carne crua
Anônimo (Guemará); Rav Chisda
רַב חִסְדָּא אָמַר אָסוּר לְטַלְטְלוֹ. וְהָא רַב יִצְחָק בַּר אַמֵּי אִיקְּלַע לְבֵי רַב חִסְדָּא, וַחֲזָא הָהוּא בַּר אֲווֹזָא דַּהֲווֹ קָא מְטַלְטְלוּ לֵיהּ מִשִּׁמְשָׁא לְטוּלָּא, וְאָמַר רַב חִסְדָּא: חֶסְרוֹן כִּיס קָא חָזֵינַן הָכָא! שָׁאנֵי בַּר אֲווֹזָא, דַּחֲזֵי לְאוּמְצָא.

Rav Chisda disse: é proibido removê-la. Mas eis que Rav Yitzchak bar Ami chegou à casa de Rav Chisda, e viu que estavam removendo a carne de um certo ganso do sol para a sombra, e disse Rav Chisda: uma perda de bolso vemos aqui! Resposta: o ganso é diferente, pois sua carne serve como carne crua (comestível mesmo sem sal ou cozimento).

Nota

A guemará traz um caso concreto que parece contradizer a própria posição de Rav Chisda: em sua própria casa, permitiu-se mover a carne de um ganso abatido do sol para a sombra, para que não se estragasse — o que pressupõe que ela não era considerada muktzê. A resposta distingue: a carne de ganso, ao contrário de outras carnes cruas, é comestível mesmo sem sal, cozimento ou preparo, servindo como uma espécie de carne crua consumível diretamente, e por isso não se enquadra na proibição geral que Rav Chisda aplica à carne sem sal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bar avazza", "mishimsha letula" e "be'umtza"
בר אווזא - שחוט: משמשא לטולא - שלא יסריח: ואמר להו רב חסדא חסרון כיס קא חזינא הכא - שאתם מניחים אותה בשמש ומתחמם וסלקוהו על פיו מחמה לצל: באומצא - כשהוא חי אוכלין אותו בלא מלח:

"Um pedaço da carne de ganso" — abatido. "Do sol para a sombra" — para que não apodreça. "E disse-lhes Rav Chisda: perda de bolso vemos aqui" — isto é: vós a deixais ao sol e ela se aquece e se estraga; e removeram-na, por sua ordem, do sol para a sombra. "Como carne crua (umtza)" — quando está crua, come-se sem sal.

956Baraita: peixe salgado é permitido remover, sem sal é proibido; carne, seja sem sal ou salgada, é permitido — e esta baraita anônima segue Rabi Shimon
Baraita (Sábios)
תָּנוּ רַבָּנַן: דָּג מָלִיחַ — מוּתָּר לְטַלְטְלוֹ, דָּג תָּפֵל — אָסוּר לְטַלְטְלוֹ. בָּשָׂר, בֵּין תָּפֵל וּבֵין מָלִיחַ — מוּתָּר לְטַלְטְלוֹ, וּסְתָמָא כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Ensinaram os sábios: peixe salgado — é permitido removê-lo; peixe sem sal — é proibido removê-lo. Carne, seja sem sal ou salgada — é permitido removê-la; e esta baraita anônima segue a opinião de Rabi Shimon.

Nota

Ao contrário da carne sem sal, cuja remoção foi objeto de disputa entre Rav Huna e Rav Chisda, o peixe sem sal é considerado, por esta baraita, plenamente muktzê, sem servir a ninguém em seu estado cru — talvez por não ser comestível cru nem apto sequer como alimento de animal. A carne, porém, tanto salgada quanto sem sal, é permitida sem qualquer distinção nesta baraita, o que a guemará identifica como seguindo a posição, mais permissiva quanto ao muktzê, de Rabi Shimon.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "dag tafel assur letaltelo"
דג תפל אסור לטלטלו - דאינו ראוי לכלום ולכלבים לאו דעתיה למישדייה אבל מליח נאכל חי על ידי מלחו:

"Peixe sem sal, é proibido removê-lo" — pois não serve para nada, e não se tem em mente jogá-lo aos cães; mas o peixe salgado se come cru por meio de seu sal.

957Removem-se os ossos, porque são alimento para cães
Baraita (Sábios)
תָּנוּ רַבָּנַן: מְטַלְטְלִין אֶת הָעֲצָמוֹת מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לִכְלָבִים.

Ensinaram os sábios: removem-se os ossos, porque são alimento para cães.

Nota

Encerrando esta série de baraitot sobre alimentos de animais, os ossos — imprestáveis para o homem — são permitidos para remoção pelo mesmo princípio geral que percorreu todo o daf: tudo que serve de alimento a algum ser vivo, mesmo que não ao homem, não é considerado muktzê e pode ser removido no Shabat.

O daf termina aqui, ao final da baraita sobre os ossos. Não há qualquer hadran nesta página — o Perek Yud-Chet (Mefanin) continua em andamento. A discussão prossegue diretamente em Shabbat 128b (ainda não publicado), que abre com a carne inchada, alimento de animais selvagens, e a água descoberta, apta para o gato.