Shabbat 126b abre completando a citação da mishná interrompida ao final de 126a: as tampas de utensílios que têm alça podem ser manuseadas em Shabat. Disse Rav Yehudá bar Sheilá, em nome de Rav Assi, em nome de Rabi Yochanan: e isso desde que tenham sobre si a condição de utensílio (torat kli) — não bastando a mera alça, é preciso que a própria tampa sirva para algum uso independente. A Guemará objeta a partir de uma baraita: ramos de tamareira cortados para lenha, e depois designados para assento, precisam de amarração segundo o tanna anônimo, mas Rabban Shimon ben Gamliel dispensa a amarração — e ali não se exige condição de utensílio alguma. Conclui-se que Rabi Yochanan concorda com Rabban Shimon ben Gamliel quanto à dispensa da amarração, mas discorda dele quanto à exigência da condição de utensílio. Rabi Yitzchak Nafcha expôs, à porta do Exilarca, que a halachá é conforme Rabi Eliezer, que exige que o tampão esteja preso e pendurado; Rav Amram objeta a partir de uma baraita sobre tapar, medir e amarrar em Shabat, citando o caso de Abba Shaul ben Botnit e do pai de Rabi Tzadok, que taparam a claraboia com um caco e amarraram o jarro com um junco; Abaie responde que essa baraita também é ensinada de modo anônimo, conforme os sábios, do mesmo modo que a mishná do ferrolho é ensinada de modo anônimo conforme Rabi Eliezer — e, ainda assim, o caso concreto (maasé rav) prevalece como halachá. Repete-se então, com a fórmula formal de mishná, a última mishná do Perek Yud-Zayin: todas as tampas de utensílios com alça podem ser manuseadas em Shabat; Rabi Yosei distingue: isso vale para a tampa de buracos no chão, mas a tampa dos utensílios comuns pode ser manuseada com ou sem alça. A Guemará repete a condição de Rabi Yochanan e explica que a disputa remanescente é sobre utensílios fixos ao chão, como o forno — comparado, por um mestre, à tampa do chão, e, por outro, à tampa dos utensílios comuns. Aqui se encerra o Perek Yud-Zayin (Kol HaKelim) com o hadran. Abre-se o Perek Yud-Chet (Mefanin): a nova mishná ensina que se removem, por causa de hóspedes ou para não interromper o estudo na casa de estudo, até quatro ou cinco cestos de palha ou de grãos — mas não o depósito inteiro; removem-se a teruma pura, o demai, o primeiro dízimo já destacado, o segundo dízimo e o consagrado resgatados, e o tremoço seco, alimento de cabras; mas não o tevel, o dízimo não destacado, o segundo dízimo e o consagrado não resgatados, o luf ou a mostarda — exceto que Rabban Shimon ben Gamliel permite o luf, por servir de alimento a corvos; e feixes de palha, lenha ou ramos tenros, se preparados para alimento de animal, podem ser manuseados. A Guemará pergunta por que a mishná perguntaria sobre quatro cestos, se já permitiu cinco; Rav Chisdá responde: quatro de cinco, e cinco de um depósito grande; e explica que "mas não o depósito" significa que não se deve começar a esvaziá-lo por completo, segundo Rabi Yehudá, que sustenta o princípio de muktzê. O daf termina em pleno fluxo com a posição dissidente de Shmuel — "quatro e cinco" —, interrompida, a continuar diretamente em Shabbat 127a (ainda não publicado), que abre explicando essa posição de Shmuel: "como dizem as pessoas".
(Continuação direta de Shabbat 126a:) ...que têm alça (lugar de apreensão), podem ser manuseadas em Shabat. E disse Rav Yehudá bar Sheilá, disse Rav Assi, disse Rabi Yochanan: e isso desde que tenham sobre si a condição de utensílio.
O daf abre completando a citação da mishná que havia sido interrompida ao final de 126a, no meio de uma objeção contra a tradição de Rabi Yochanan sobre a halachá conforme Rabban Shimon ben Gamliel: todas as tampas de utensílios com alça podem ser manuseadas em Shabat. Imediatamente, Rav Yehudá bar Sheilá acrescenta, em nome de Rav Assi, em nome de Rabi Yochanan, uma condição adicional: não basta a tampa ter alça; é preciso também que tenha, ela mesma, a condição de utensílio — isto é, que sirva para algum uso independente, e não apenas para tampar.
"Que têm alça" — lugar de apreensão. Esta é a versão correta do texto: "e disse Rav Yehudá: e isso desde que tenham sobre si a condição de utensílio" — pois é somente quando a tampa é própria para um uso independente que se pode manuseá-la em Shabat; e, se não tem sobre si a condição de utensílio, não dizemos que a tampa de um utensílio seja, ela mesma, um utensílio. E as portas do armário, da arca e da torre, que a mishná ensinou que se retiram, têm sobre si a condição de utensílio, pois são próprias para sentar-se sobre elas e para colocar sobre elas comida para uma criança pequena; e mais adiante se explica por que, além disso, se exige que tenham alça, já que têm sobre si a condição de utensílio. Conclui-se, portanto, que, segundo Rabi Yochanan, tudo o que não tem sobre si a condição de utensílio não se manuseia; e esta cana (do daf anterior, usada para abrir e fechar a porta) — que condição de utensílio tem ela? Se é por servir para abrir e fechar, isso não é condição de utensílio, mas sim condição de construção.
E se disseres: também aqui (quanto à cana) há sobre ela a condição de utensílio (pois serve para revirar azeitonas ou quebrar nozes) — mas acaso Rabban Shimon ben Gamliel exige que haja sobre ela a condição de utensílio? Mas não foi ensinado (numa baraita): ramos de tamareira que alguém cortou para servir de lenha, e depois reconsiderou usá-los para assento — precisa amarrá-los. Rabban Shimon ben Gamliel diz: não precisa amarrá-los.
A Guemará antecipa uma possível defesa da condição de Rabi Yochanan: talvez a cana da porta também tenha condição de utensílio, por servir para outros usos. Mas essa defesa é refutada: Rabban Shimon ben Gamliel, na baraita sobre a cana, dispensa até a amarração, sem nunca mencionar exigência de condição de utensílio; e uma baraita paralela, sobre ramos de tamareira cortados para lenha e depois designados para assento, mostra que Rabban Shimon ben Gamliel dispensa a amarração também ali, com base apenas na designação, sem qualquer menção à condição de utensílio.
"E se disseres: também aqui há sobre ela condição de utensílio" — pois é própria para revirar com ela azeitonas, ou para quebrar com ela nozes. ("Condição de utensílio sobre ela" — mesmo que não seja própria para outra coisa.)
Rabi Yochanan opina como ele (Rabban Shimon ben Gamliel) num ponto, e discorda dele noutro ponto.
A Guemará resolve a tensão: Rabi Yochanan concorda com Rabban Shimon ben Gamliel quanto a dispensar a amarração — basta a designação para que o objeto esteja pronto. Mas discorda dele quanto à exigência da condição de utensílio, que Rabban Shimon ben Gamliel, nas baraitot da cana e dos ramos de tamareira, nunca exigiu, e que Rabi Yochanan acrescenta como requisito próprio.
"Opina como ele num ponto" — que o objeto está pronto ainda que não esteja preso. "E discorda dele noutro ponto" — pois Rabi Yochanan exige a condição de utensílio.
Expôs Rabi Yitzchak Nafcha, à porta do Exilarca (Reish Galutá): a halachá é conforme Rabi Eliezer (que exige que o tampão esteja preso e pendurado). Objetou Rav Amram: mas de suas próprias palavras (dos sábios) aprendemos que se tapa, se mede e se amarra em Shabat!
Rabi Yitzchak Nafcha proclama publicamente, à porta do Exilarca, que a halachá segue Rabi Eliezer, o mais estrito quanto ao tampão da janela e ao ferrolho. Rav Amram objeta a partir de uma baraita conhecida, que relata como, nos dias do pai de Rabi Tzadok e de Abba Shaul ben Botnit, taparam uma claraboia com um caco de barro e amarraram um jarro com um junco — sem que estivessem presos e pendurados de antemão — para verificar se havia, numa cuba, a abertura de um palmo; e dali se aprendeu que se pode tapar, medir e amarrar em Shabat, contrariando a posição estrita de Rabi Eliezer.
"A halachá é conforme Rabi Eliezer" — que exige que o tampão esteja preso e pendurado. "De suas próprias palavras aprendemos" — no último capítulo (deste tratado), conta-se que, nos dias do pai de Rabi Tzadok e nos dias de Abba Shaul ben Botnit, taparam a claraboia com um caco de barro e amarraram o jarro com um junco, para saber se havia na cuba a abertura de um palmo; e ali se explica isso, e se ensina: "de suas próprias palavras aprendemos". "Que se tapa" — a claraboia com algo que não está preso nem pendurado. "E se amarra" — um nó que, de antemão, não é permanente. "E se mede" — o mikvê e os retalhos de pano.
Disse-lhe [Abaie]: qual é o teu raciocínio? Porque a baraita a ensina de modo anônimo (conforme os sábios, contra Rabi Eliezer) — também a mishná do ferrolho que se arrasta é ensinada de modo anônimo (conforme Rabi Eliezer, que proíbe). E, mesmo assim, o caso concreto prevalece (maasé rav).
Abaie responde a Rav Amram que sua objeção não é decisiva: o mero fato de uma baraita ser ensinada de modo anônimo não prova, por si só, que a halachá siga essa posição contra Rabi Eliezer — pois a própria mishná do ferrolho que se arrasta também é ensinada de modo anônimo, e ainda assim segue Rabi Eliezer, o mais estrito. O que de fato decide a questão, no caso trazido por Rav Amram, é que se trata de um caso concreto (maasé rav): o próprio relato de Abba Shaul ben Botnit e do pai de Rabi Tzadok mostra que, na prática, confiou-se no procedimento leniente, o que basta para estabelecê-lo como halachá naquele caso específico — sem que isso, porém, contradiga a proclamação de Rabi Yitzchak Nafcha sobre a halachá geral conforme Rabi Eliezer.
"Qual é o teu raciocínio" — que objetas a Rabi Yitzchak Nafcha a partir disso; poder-se-ia responder-te que esta baraita segue os sábios; e, se é porque a ensina de modo anônimo que objetas — de fato, visto que a ensina de modo anônimo conforme os sábios, a halachá é como eles. "Também a mishná do ferrolho que se arrasta é anônima" — e, quanto a esta, ensina-a de modo anônimo conforme Rabi Eliezer, que proíbe. "O caso concreto prevalece" — para aprender a partir dele que, visto que se confiou nele para agir de modo leniente na prática, conclui-se que essa é a halachá.
MISHNÁ. Todas as tampas de utensílios que têm alça podem ser manuseadas em Shabat. Disse Rabi Yosei: a que se referem essas palavras? À tampa de buracos no chão; mas quanto à tampa dos utensílios comuns — seja assim, seja assim (com alça ou sem alça) — podem ser manuseadas em Shabat.
A Guemará repete, agora com a fórmula formal de mishná ("matnitin"), a última mishná do Perek Yud-Zayin — a mesma que havia sido citada, ao final de 126a e no início deste daf, como parte de uma objeção. Rabi Yosei restringe a exigência de alça: ela só se aplica às tampas de buracos no chão, como poços e cisternas, que sem a alça pareceriam obra de construção; já as tampas dos utensílios comuns podem ser manuseadas mesmo sem alça, pois já têm, por si mesmas, a condição de utensílio.
"A mishná fala da tampa de buracos no chão" — como a tampa de um poço ou de uma cisterna, que seria como construir, não fosse a alça provar que ela é feita para ser retirada e recolocada.
GUEMARÁ. Disse Rav Yehudá bar Sheilá, disse Rabi Assi, disse Rabi Yochanan: e isso desde que tenham sobre si a condição de utensílio. Pois, segundo todos, quanto à tampa de buracos no chão: se têm alça — sim (podem ser manuseadas); se não — não. Quanto à tampa dos utensílios comuns, ainda que não tenham alça (podem ser manuseadas).
A Guemará repete a mesma tradição de Rav Yehudá bar Sheilá quanto à condição de utensílio, agora ligando-a diretamente à distinção de Rabi Yosei. Note-se que aqui o nome é transmitido como "Rabi Assi", enquanto acima aparece como "Rav Assi" — variação de transmissão do próprio texto, preservada fielmente na tradução. Segundo todos, a tampa de um buraco no chão só pode ser manuseada se tiver alça; já a tampa de um utensílio comum, por já ter, em si mesma, a condição de utensílio, pode ser manuseada com ou sem alça.
"GUEMARÁ. Disse Rabi Yochanan: e isso desde que tenham sobre si a condição de utensílio" — pois essas tampas (dos utensílios) são próprias para uso comum; mas, quanto à tampa de um buraco, não dizemos que ela mesma seja um utensílio (sem essa condição). "Segundo todos" — visto que Rabi Yochanan estabeleceu a distinção com base em ter, ou não, a condição de utensílio, precisou dizer que, quando os sábios discordam (quanto à necessidade de alça), discordam apenas a respeito de utensílios fixos ao chão; pois, quanto aos utensílios comuns, ainda que suas tampas não tenham alça, podem ser manuseados, já que, estando sobre eles a condição de utensílio, tanto faz se têm alça ou não. Mas é apenas quanto à tampa de utensílios fixos ao chão — como o forno e o fogão — que discordam, por se assemelharem em parte à tampa de um poço ou de uma cisterna; e decretam a proibição sobre uns por causa dos outros.
Quando os sábios e Rabi Yosei discordam, é quanto a utensílios que estão fixados ao chão. Um mestre entende: decretamos a proibição, por semelhança à tampa do chão; e o outro mestre entende: não decretamos.
A Guemará delimita exatamente onde reside a disputa remanescente entre os sábios anônimos e Rabi Yosei: não quanto aos utensílios comuns, portáteis, cuja tampa é permitida com ou sem alça por todos; mas quanto aos utensílios fixados ao chão — como o forno e o fogão —, que se assemelham em parte à tampa de um buraco no chão. Um mestre teme essa semelhança e decreta a proibição sem alça também para esses utensílios; o outro não teme e permite.
Outra versão: quando discordam, é quanto à tampa do forno; um mestre a compara à tampa de um buraco no chão, e o outro mestre a compara à tampa dos utensílios comuns.
A Guemará traz uma segunda versão da mesma disputa, mais específica: em vez de "utensílios fixados ao chão" em geral, localiza-a precisamente na tampa do forno — objeto que, por sua natureza, pode ser comparado tanto à tampa de um buraco no chão (por estar fixo e imóvel) quanto à tampa de um utensílio comum (por servir, ele mesmo, para cozinhar). A resolução exata dessa disputa entre as duas versões não é retomada nesta página; o daf segue diretamente para o hadran.
MISHNÁ. Removem-se (de um lugar), mesmo quatro ou cinco cestos de palha ou de grãos, por causa de hóspedes, e por causa da perda de tempo da casa de estudo. Mas não o depósito (inteiro).
Abre-se aqui o Perek Yud-Chet, chamado Mefanin ("removem-se"), por sua primeira palavra. A nova mishná trata do transporte, em Shabat, de cestos de palha ou de grãos, quando o espaço é necessário para acomodar hóspedes numa refeição, ou discípulos para o estudo na casa de estudo — permitindo-se remover até quatro ou cinco cestos, apesar do esforço envolvido, mas nunca o depósito inteiro, cuja razão a própria Guemará explicará.
"A mishná: removem-se" — se é necessário o lugar deles para sentar ali hóspedes para a refeição, ou discípulos para o estudo, e não nos preocupamos com o esforço proibido em Shabat. "Mas não o depósito" — explica-se na Guemará.
Removem-se: a teruma pura; o demai (produto duvidoso quanto ao dízimo); o primeiro dízimo do qual já se retirou sua teruma; o segundo dízimo e o consagrado que foram resgatados; e o tremoço seco, porque é alimento para cabras.
A mishná enumera os produtos agrícolas que podem ser removidos em Shabat, por serem próprios para uso — ainda que exijam cuidados especiais de pureza ritual ou de dízimo. A teruma pura é própria como alimento para o animal de um cohen; o demai, o dízimo já destacado, e o segundo dízimo e consagrado já resgatados, todos perderam o impedimento que os tornaria proibidos; e o tremoço seco, embora não sirva de alimento humano nesse estado, serve de alimento para cabras.
"Removem-se a teruma pura" — isto é, o que se remove é uma coisa própria (para uso), como estas: a teruma pura, que é própria para o animal de um cohen; mas a teruma impura, não — pois nem sequer para o animal de um cohen é própria em Shabat, ainda que em dia de semana seja própria, conforme foi ensinado, "em qualquer hora", em Pessachim (32a), que, se o cohen quiser, pode lançá-la diante do cão; mas em Shabat e em Yom Tov não é própria, pois esse seria o modo de eliminá-la do mundo — seja pela queima, seja pelo animal —, e não se eliminam teruma impura nem coisas consagradas impuras em Yom Tov, conforme aprendemos (acima, Shabat 23a): "e não se acende com óleo de queima em Yom Tov"; e estabelecemos que a razão é que não se queimam coisas consagradas em Yom Tov.
Mas não o tevel (produto ainda não dizimado); nem o primeiro dízimo do qual não se retirou sua teruma; nem o segundo dízimo e o consagrado que não foram resgatados; nem o luf (uma leguminosa); nem a mostarda. Rabi Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento para corvos.
Em contraste, a mishná proíbe remover o tevel e os dízimos ainda não retirados, e o consagrado ainda não resgatado — todos proibidos para consumo, e por isso considerados muktzê (postos de lado); e proíbe também o luf e a mostarda, que, em seu estado cru, não são próprios nem para animais. Rabban Shimon ben Gamliel discorda quanto ao luf, por ser alimento apreciado por corvos, que os ricos costumam criar por ostentação — sendo, portanto, próprio para uso, ainda que não humano.
"Luf" — um tipo de leguminosa que, crua, não é própria nem sequer para um animal. "Para corvos" — como os ricos, que criam corvos por ostentação.
Feixes de palha, feixes de lenha e feixes de ramos tenros (zeradim) — se foram preparados para alimento de animal, manuseiam-se; e, se não, não se manuseiam.
A última cláusula da mishná estende o mesmo princípio a feixes de material vegetal: o que determina se podem ser manuseados em Shabat é exclusivamente a designação prévia do dono. Se foram preparados desde a véspera para servir de alimento a um animal, manuseiam-se livremente; se foram cortados apenas para lenha ou outro fim, sem essa designação, permanecem muktzê e não se manuseiam.
"Zeradim" — são um tipo de caniços que se cortam quando ainda tenros, e se comem.
GUEMARÁ. Ora, se removem-se cinco, quatro seria necessário perguntar?!
A Guemará abre a discussão sobre a mishná com uma dificuldade textual: se a mishná já ensina que se permite remover até cinco cestos — o número maior —, por que precisaria mencionar também quatro, o número menor, que seria óbvio a fortiori?
Disse Rav Chisdá: quatro de cinco (se havia apenas cinco cestos, removem-se somente quatro), — há os que dizem: quatro de um depósito pequeno — e cinco de um depósito grande.
Rav Chisdá resolve a dificuldade: os números "quatro" e "cinco" não descrevem o mesmo depósito, mas dois casos distintos. Se havia apenas cinco cestos no total, remove-se apenas quatro, deixando um para trás — pois é proibido esvaziar por completo o depósito. Já se o depósito é grande, com muitos cestos, permite-se remover até cinco, ainda que não se chegue a esvaziá-lo, por causa do esforço envolvido em remover mais.
"Quatro de cinco" — se não havia ali senão a medida de cinco cestos, não removerá senão quatro deles, pois é proibido esvaziar por completo o depósito, para que não venha a ver buracos no fundo dele e a nivelá-los. "De um depósito grande" — e, se há muito, não se removem senão cinco, pois nos preocupamos com o esforço.
E o que significa "mas não o depósito"? Que não comece a esvaziar o depósito desde o início (se ainda não se serviu dele antes de Shabat). E de quem é essa opinião? De Rabi Yehudá, que sustenta o princípio de muktzê.
A Guemará esclarece o sentido exato da restrição final da mishná: não se trata de proibir esvaziar o depósito por completo — pois isso já se depreendia do início da mishná, que limita a remoção a quatro ou cinco cestos. O que a mishná realmente proíbe é começar a se servir do depósito pela primeira vez em Shabat, caso não se tenha começado a usá-lo antes; pois, sem uso prévio, o depósito inteiro é considerado muktzê. Essa mishná, portanto, segue a opinião de Rabi Yehudá, que sustenta o princípio de muktzê — em contraste com Rabi Shimon, que não o sustenta, e cuja posição aparecerá adiante, em Shabbat 127a.
"O que significa: mas não o depósito" — não podes dizer que significa que não deve terminá-lo por completo, pois isso já se depreende do início (da mishná): quatro e cinco. "Desde o início" — se ainda não começou a servir-se dele para sua própria alimentação ou para a de seu animal; pois, se assim é, torna-se muktzê, e a mishná segue Rabi Yehudá.
E Shmuel disse: quatro e cinco...
Shmuel discorda da explicação de Rav Chisdá, propondo entendimento próprio para a expressão "quatro e cinco" da mishná — que não se resolve com a distinção entre depósito pequeno e depósito grande. O daf termina precisamente no início dessa posição dissidente, cujo sentido exato — "como dizem as pessoas" — só se esclarece com a continuação, em Shabbat 127a (ainda não publicado).