Sétima e última halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (todos os utensílios). A Mishná ensina que, segundo Rabi Eliezer, com o pekak hachalon (a tampa da janela) se tampa a janela no Shabat quando está amarrado e pendurado, e, se não, não; e os sábios dizem que de um modo ou de outro se tampa com ele; e que todas as tampas dos utensílios que têm um lugar por onde segurar são movidas no Shabat, ao que Rabi Yossi diz que isso se disse das tampas do chão, mas as tampas dos utensílios são movidas de um modo ou de outro. A guemará pergunta qual é o neguer hanigrar (a tranca que se arrasta); traz a definição de Rabi Yochanan, a tranca da casa de Rabi que Chilfai lhe mostrou, e a sua palavra de que a opinião individual daqui é como a anônima de lá; traz a pergunta de Rabi Yossi a Rabi Yirmeyá sobre como se age na prática, a halachá de Rabi Shmuel, a de Rabi Yanai sobre a tranca amarrada à porta com algo que a sustente, e a tranca de Rabi Lazar, amarrada com junco; e termina com a palavra de Rav, por Abba bar Kahana e Rav Chiya bar Ashi, de que a halachá é como Rabi Yossi. Com ela se encerra o Perek Yud-Zayin, Kol HaKelim; o tratado continua no Perek Yud-Chet, Mefanin. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 125b.
Mishná: Rabi Eliezer diz: o pekak hachalon (a tampa da janela), quando está amarrado à janela e pendurado, tampa-se com ele a janela no Shabat; e, se não, não se tampa com ele. E os chachamim (os sábios) dizem: de um modo ou de outro, tampa-se com ele. Todas as tampas dos utensílios que têm beit achizá (um lugar por onde segurar) são movidas no Shabat. Disse Rabi Yossi: em que caso foram ditas estas palavras? Nas tampas das covas do chão; mas, nas tampas dos utensílios, de um modo ou de outro, elas são movidas no Shabat.
Qual é o neguer hanigrar (a tranca que se arrasta)? Disse Rabi Yochanan: é o que está amarrado, ainda que não esteja pendurado. Disse Rabi Yochanan: puxou-me Chilfai e mostrou-me um neguer (tranca) dos da casa de Rabi, que estava amarrado, ainda que não estivesse pendurado. Disse Rabi Yochanan: vem a opinião individual daqui como a opinião anônima de lá, e a individual de lá como a anônima daqui.
Rabi Yossi perguntou diante de Rabi Yirmeyá: como se age na prática? Disse-lhe Rabi Yirmeyá: pelo que disse Rabi Yochanan, “puxou-me Chilfai e mostrou-me um neguer dos da casa de Rabi, amarrado, ainda que não pendurado”, isto diz que se age na prática como Rabi Yudan. Veio Rabi Huna e disse em nome de Rabi Shmuel: a halachá (a norma prática) é como Rabi Yehudá, contanto que o neguer esteja amarrado à porta. Rabi Yanai, Rabi Imi, disse: contanto que o neguer esteja amarrado à porta com uma coisa que seja capaz de sustentá-lo. A tranca de Rabi Lazar estava amarrada com guemi (junco). Se se soltou, é proibido. Se se enfiou no chão, que lei se aplica? Rabi Yaakov bar Achá disse em nome dos rabanan (sábios): ele o conduz com as pontas dos seus dedos.
Quanto à Mishná “todas as tampas dos utensílios” etc.: Abba bar Kahana, Rav Chiya bar Ashi, em nome de Rav: a halachá é como Rabi Yossi nesta Mishná.
Esta é a sétima e última halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim, e a sua Mishná corresponde a duas Mishnayot da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria: a Mishná Shabbat 17:7, de “a tampa da janela” até “tampa-se com ele”, e a Mishná Shabbat 17:8, a última do capítulo, de “todas as tampas dos utensílios” até “são movidas no Shabat”. Há diferenças de redação entre o Yerushalmi e a avulsa: o Yerushalmi abre com רִבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר פְּקַק הַחַלּוֹן, onde a avulsa põe primeiro o objeto, פְּקַק הַחַלּוֹן, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר; diz נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת, nas duas vezes, onde a avulsa diz נִטָּלִים בְּשַׁבָּת; e diz no plural בְּכִסּוּיֵי הַקַּרְקָעוֹת e בְּכִסּוּיֵי הַכֵּלִים, onde a avulsa diz בְּכִסּוּי קַרְקַע e בְּכִסּוּי הַכֵּלִים; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi não tem pontuação. No Bavli, a Mishná da tampa da janela está em Shabbat 125b, junto com a do ramo de videira; a sua guemará vai de 125b a 126b; e a Mishná das tampas dos utensílios está em 126b, onde a ordem é a da avulsa, פְּקַק הַחַלּוֹן, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, e onde se lê בְּכִיסּוּי קַרְקָעוֹת, בְּכִיסּוּי הַכֵּלִים e נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; a seção 01 é o segundo segmento, dividido em dois pares de hebraico e português, e a seção 02 é o terceiro; nenhum segmento foi dividido entre seções, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. No segundo segmento havia um marcador embutido da folha 84a da edição de Vilna, entre דְהָכָא e כִּסְתָמָא, que retiramos; não há colchetes nem parênteses no hebraico. Mantivemos como estão no Sefaria a grafia מִשֶּׁלְבֵּית, numa só palavra, e a vocalização שְִׁמוּאֵל, com shevá e chiriq sob o shin.
Referências conferidas. Quase toda a seção 01 está também no Yerushalmi Eruvin 10:10, na discussão da Mishná que ali ensina que com o neguer hanigrar se tranca no Templo, mas não na província, e que o que está apenas pousado é proibido aqui e ali, e que Rabi Yehudá diz que o pousado é permitido no Templo e o que se arrasta na província. Na Mishná avulsa, essa é a Mishná Eruvin 10:11; a Mishná Eruvin 10:10 é a do neguer que tem na ponta uma maçaneta, que Rabi Eliezer proíbe e Rabi Yossi permite, e que o Yerushalmi Eruvin reúne na mesma halachá. As diferenças do paralelo de Eruvin são estas: pergunta só אֵי זֶהוּ נֶגֶר, sem “que se arrasta”; nas duas vezes diz וְהַרְאֵנִי שֶׁלְּבֵית רִבִּי, sem a palavra “neguer”; escreve דִיחִידָאָה e וְדִיחִידָאָה; na resposta a Rabi Yossi, que ali se escreve יוֹסֵה, diz הָדָא אָמְרָה. כְּרִבִּי יְהוּדָה עָבְדִין. עַד שֶׁיְּהֵא קָשׁוּר בַּדֶּלֶת, isto é, “como Rabi Yehudá”, e não “como Rabi Yudan”, e sem a frase de Rabi Huna em nome de Rabi Shmuel, de modo que a condição de estar amarrado à porta é ali parte da resposta; diz רִבִּי יַנַּיי חָמוֹי דְרִבִּי אִמִּי, “Rabi Yanai, sogro de Rabi Imi”; diz נֶגְרָא הָדָא רִבִּי אֶלְעָזָר קְטַר בְּגָמִי; e diz מְדָדֵיהוּ, onde o nosso texto diz מְדָרֵיהוּ. Logo depois, o Yerushalmi Eruvin traz רִבִּי בָּא בַּר כַּהֲנָא רִבִּי חִיָיה בַּר אַשִּׁי בְשֵׁם רַב. הֲלָכָה כְרִבִּי יוֹסֵי, sem o cabeçalho “todas as tampas dos utensílios”; ali, o Rabi Yossi mais próximo é o da Mishná da tranca com maçaneta. Na Tosefta Eruvin, na edição Lieberman no Sefaria, 8:15 ensina que o neguer hanigrar, se está amarrado e pendurado, abre-se e tranca-se com ele, e, se não, não; Rabi Yehudá diz: amarrado, ainda que não pendurado, as mesmas palavras da definição de Rabi Yochanan aqui; e ensina que o neguer hanigrar é todo o que está amarrado e pendurado e tem uma ponta pousada no chão, permitido no Templo e proibido na província, e que Rabi Yehudá permite também na província; e 8:14 ensina que o neguer que se soltou é proibido e o que se enfiou é permitido, e traz a palavra de Rabi Yehudá sobre o que se enfiou, ainda que não se tenha soltado, que no Sefaria termina sem verbo. No Bavli, Eruvin 102a, uma baraita traz a mesma definição; Rav Yehudá diz em nome de Shmuel que a halachá é como Rabi Yehudá no que se arrasta; Rava acrescenta que isso é quando está amarrado à porta; Rav Avya, em Nehardea, viu alguém amarrando uma tranca com guemi e disse que com ela não se tranca; a baraita do que se soltou e do que se enfiou é citada por Rav Yossef, e nela Rabi Yehudá diz que o que se enfiou, ainda que não se tenha soltado, é proibido; e Rav Yehudá, em nome de Shmuel, fixa a halachá como Rabi Yehudá também no que se enfiou. No Bavli, Shabbat 126a, Rabá bar bar Chana diz em nome de Rabi Yochanan que a divergência sobre a tampa da janela é como a divergência sobre o neguer hanigrar, e Rabi Yehoshua bar Abba, em nome de Ulla, diz que o tana do neguer hanigrar é Rabi Eliezer; em 126b, Rabi Yitzchak Nafcha ensina à porta do Exilarca que a halachá é como Rabi Eliezer, e, sobre a Mishná das tampas, Rav Yehudá bar Sheilá diz, em nome de Rabi Assi, em nome de Rabi Yochanan, que isso é quando têm sobre si a condição de utensílio. Na Tosefta Shabbat 14:3, na mesma edição, Rabi Yossi testemunha em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov que a tampa do forno não precisa de lugar por onde segurar.
Observações de leitura. Segundo o Penei Moshe e o Korban HaEdá, o pekak hachalon é aquilo com que se fecha a janela; “pendurado” quer dizer que a corda com que está amarrado não se arrasta no chão; se se arrasta, tampar com ele é como acrescentar à construção, e Rabi Eliezer entende que não se acrescenta a uma tenda, ainda que provisória, no Shabat, e os sábios entendem que se acrescenta; e o Penei Moshe diz que a halachá é como os sábios. Sobre as tampas, o Korban HaEdá explica que o lugar por onde segurar é uma alça, e que as tampas do chão são as de uma cova ou de uma cisterna, cuja remoção pareceria construção se a alça não mostrasse que são feitas para tirar e repor; o Penei Moshe acrescenta que nas tampas dos utensílios se exige que tenham a condição de utensílio. Os dois comentam aqui só a Mishná, e não a guemará. Na guemará, entendemos “daqui” como a Mishná da tampa da janela, em que Rabi Eliezer é o individual e os sábios são a maioria, e “de lá” como a Mishná do neguer hanigrar em Eruvin, que é anônima e cujo individual é Rabi Yehudá; Guggenheimer lê do mesmo modo, mas a frase vem de Eruvin, onde “aqui” e “lá” se invertem, e a nossa leitura é incerta. O hebraico diz כְּרִבִּי יוּדָן, e assim traduzimos, “como Rabi Yudan”; no paralelo de Eruvin se lê “como Rabi Yehudá”, o da Mishná, e “Yudan” é forma do mesmo nome, mas o texto não o diz, e deixamos como está. A frase de Rabi Huna em nome de Rabi Shmuel interrompe a resposta de Rabi Yirmeyá e não está em Eruvin; Guggenheimer a considera uma glosa, mas está no hebraico do Sefaria, e a traduzimos no seu lugar; não sabemos se a condição “contanto que esteja amarrado à porta” pertence a ela ou à resposta de Rabi Yirmeyá. O hebraico diz רִבִּי יַנַּאי רִבִּי אִמִּי אָמַר, dois nomes seguidos e um só verbo, e assim o deixamos; pelo paralelo de Eruvin, trata-se de Rabi Yanai, sogro de Rabi Imi. A palavra נִיגָרַיָיא é a forma aramaica de neguer, e a traduzimos por “a tranca”. A palavra נִקְמַז é rara; seguimos o Bavli em Eruvin 102a e a Tosefta, que a opõem ao que se soltou, e a entendemos como a tranca que se enfiou no chão; Guggenheimer traduz “loose”. A pergunta não tem resposta explícita no texto, e a resposta de Rabi Yaakov bar Achá parece ser que quem tranca a conduz com as pontas dos dedos, sem cravá-la; a palavra מְדָרֵיהוּ não tem sentido claro, e traduzimos “ele o conduz” pelo paralelo de Eruvin, מְדָדֵיהוּ, como Guggenheimer. Na seção 02, o hebraico abre com o cabeçalho da Mishná das tampas, e por isso pusemos em itálico “nesta Mishná”; Guggenheimer julga que o cabeçalho é um acréscimo, e que a frase, se veio de Eruvin, se referiria ao Rabi Yossi da tranca com maçaneta. O hebraico diz אַבָּא בַּר כַּהֲנָא רַב חִיָיה בַּר אַשִּׁי בְשֵׁם רַב, sem verbo, e assim o deixamos; o paralelo de Eruvin diz “Rabi Ba bar Kahana” e “Rabi Chiya bar Ashi”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz a tampa da janela por “window plug” e o neguer hanigrar por “dragged bolt”; preferimos “tampa da janela” e “a tranca que se arrasta”, como na halachá 17:3 deste site. Ele acrescenta entre colchetes “the father-in-law of” a Rabi Yanai, tirado de Eruvin; deixamos esse dado na nota, porque não está no nosso hebraico. Ele traduz כְּרִבִּי יוּדָן por “following Rebbi Jehudah”; seguimos o hebraico. Ele traduz מְדָרֵיהוּ por “he supports it”, pelo texto de Eruvin, e diz que a palavra escrita aqui não tem explicação; concordamos que a leitura é incerta. As suas remissões ao Yerushalmi Eruvin 10:10 e ao Bavli, Eruvin 102a, para o neguer que se enfiou, foram conferidas e estão corretas. Numa nota, ele diz que a frase de Rabi Yanai aparece no “Babli 102a” em nome de autoridades babilônicas, e o link do Sefaria leva a Shabbat 102a; o lugar certo é Eruvin 102a, onde Rava diz que a tranca deve estar amarrada à porta. Ele escreve “Rebbi Joḥanan”, “Ḥilfai”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Jeremiah”, “Rebbi Huna”, “Rebbi Samuel”, “Rebbi Yannai”, “Rebbi Immi”, “Rebbi Eleazar”, “Rebbi Jacob bar Aḥa”, “Abba bar Cahana” e “Rav Ḥiyya bar Ashi”; mantivemos “Rabi Yochanan”, “Chilfai”, “Rabi Yossi”, “Rabi Yirmeyá”, “Rabi Huna”, “Rabi Shmuel”, “Rabi Yanai”, “Rabi Imi”, “Rabi Lazar”, “Rabi Yaakov bar Achá”, “Abba bar Kahana” e “Rav Chiya bar Ashi”, como nas halachot anteriores deste tratado.
A Mishná seguinte, Shabbat 18:1, abre o Perek Yud-Chet, Mefanin: “מְפַנִּין אֲפִילוּ אַרְבַּע וְחָמֵשׁ קוּפּוֹת שֶׁל תֶּבֶן…”, “desocupam-se até quatro ou cinco cestos de palha e de grão por causa dos hóspedes e por causa da interrupção da casa de estudo, mas não o depósito”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 126b, na mesma folha em que termina o capítulo Kol HaKelim.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (כָּל הַכֵּלִים).