Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Zayin · Halachá 6
שַׁבָּת

A pedra na cabaça e a pedra dentro da cesta

Perek Yud-Zayin, Kol HaKelim, Halachá 6, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Sexta halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (todos os utensílios). A Mishná ensina que a pedra posta na kiruyá (cabaça) com que se tira água, se não cai quando se enche, pode-se encher com ela, e, se cai, não; e que com o ramo de videira amarrado ao jarro se enche no Shabat. A guemará parte da Mishná que permite tomar a cesta com a pedra dentro dela, que os tanaim da casa de Rabi ensinam com alimentos junto da pedra; traz a divergência entre Rabi Chiya bar Yossef, que segue a nossa versão, e Rabi Yochanan, que segue a da casa de Rabi; põe as duas opiniões à prova com a Mishná da cabaça, com a explicação de Rabi Yudan sobre a pedra que serve de peso; e termina com a criança que se toma com a pedra na mão, que uns explicam como alimentos e outros como um amuleto comprovado. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 125b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הָאֶבֶן שֶׁבַּקֵּירוּיָא אִם מְמַלְאִין בָּהּ וְאֵינָהּ נוֹפֶלֶת מְמַלְאִין בָּהּ. וְאִם לָאו אֵין מְמַלְאִין בָּהּ. זְמוֹרָה שֶׁהִיא קְשׁוּרָה בַטָּפִיחַ מְמַלְאִין בָּהּ בַּשַּׁבָּת:

Mishná: A pedra que está na kiruyá (cabaça): se se enche água com ela e ela não cai, enche-se com ela; e, se não, não se enche com ela. Uma zemorá (ramo de videira) que está amarrada ao tafiach (jarro): enche-se com ela no Shabat.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01A pedra na cesta e a pedra na cabaça: Rabi Chiya bar Yossef e Rabi Yochanan
Yerushalmi · Shabbat 17:6
אֲנָן תַּנִּינָן. הָאֶבֶן בְּתוֹכָהּ. תַּנֵּי דְבֵי רִבִּי. וְהָאוֹכְלִין וְהָאֶבֶן בְּתוֹכָהּ. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר זַבְדִּי בְשֵׁם רִבִּי אַבָּהוּ. אִיתָפַּלְּגוֹן רִבִּי חִיָיה בַּר יוֹסֵף וְרִבִּי יוֹחָנָן. רִבִּי חִיָיה בַּר יוֹסֵף כְּמַתְנִיתִין. רִבִּי יוֹחָנָן כְּהָדָא דְתַנֵּי דְבֵי רִבִּי.

Nós ensinamos na Mishná da cesta: “A pedra dentro dela.” Os tanaim da casa de Rabi ensinaram: “E os alimentos e a pedra dentro dela.” Rabi Yaakov bar Zavdi disse em nome de Rabi Abahu: divergiram Rabi Chiya bar Yossef e Rabi Yochanan. Rabi Chiya bar Yossef segue a nossa Mishná; Rabi Yochanan segue isto que ensinaram os tanaim da casa de Rabi.

מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רִבִּי יוֹחָנָן. הָאֶבֶן שֶׁבַּקֵּירוּיָה אִם מְמַלִּין בָּהּ וְאֵינָהּ נוֹפֶלֶת. מְמַלִּין בָּהּ. כֵּיוָן שֶׁהִיא אָפִיצָה לָהּ כְּגוּפָהּ הִיא. וְסֵיפָא פְלִיגָא עַל רִבִּי חִיָיא בַּר יוֹסֵף. וְאִם לָאו אֵין מְמַלִּין בָּהּ. אָמָר רִבִּי יוּדָן. כֵּיוָן שֶׁהִיא עֲשׂוּיָה לְהַכְבִּיד נַעֲשֶׂה כִמְטַלְטֵל קִירוּיָא עַל גַּב הָאֶבֶן. מָה עֲבַד לָהּ רִבִּי יוֹחָנָן. נַעֲשֶׂה כִמְטַלְטֵל קִירוּיָה עַצְמָהּ.

A matnita (Mishná) diverge de Rabi Yochanan: “A pedra que está na kiruyá (cabaça), se se enche com ela e ela não cai, enche-se com ela.” Visto que a pedra está apertada nela, é como o corpo da cabaça. E o final da Mishná diverge de Rabi Chiya bar Yossef: “E, se não, não se enche com ela.” Disse Rabi Yudan: visto que a pedra é feita para dar peso, torna-se como quem move a cabaça sobre a pedra. Que faz Rabi Yochanan com isto? Torna-se como quem move a própria cabaça.

מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רִבִּי יוֹחָנָן. נוֹטֵל אָדָם בְּנוֹ וְהָאֶבֶן בְּיָדוֹ כַלְכָּלָה וְהָאֶבֶן בְּתוֹכָהּ. וְתַנֵּי דְבֵי רִבִּי. הָאֶבֶן וְהָאוֹכְלִין בְּתוֹכָהּ. רִבִּי כֹהֵן בְּשֵׁם רַבָּנִן דְּתַמָּן. תִּינּוֹק עָשׂוּ אוֹתוֹ כְאוֹכְלִין. תַּמָּן אָמְרִין. עָשׂוּ הָאֶבֶן בְּיַד הַתִּינּוֹק כְּקַמֵּיעַ מוּמְחֶה בְּיַד תִּינּוֹק.

A Mishná diverge de Rabi Yochanan: “Um homem toma o seu filho, e a pedra está na mão dele; uma kalkalá (cesta), e a pedra está dentro dela.” E os tanaim da casa de Rabi ensinaram: “A pedra e os alimentos dentro dela.” Rabi Kohen disse em nome dos rabanan (sábios) de lá: a criança, fizeram-na como alimentos. Lá dizem: fizeram a pedra na mão da criança como um kamea mumche (amuleto comprovado) na mão da criança.

Nota

Esta é a sexta halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 17:6 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “a pedra que está na cabaça” até “no Shabat”. Não há diferença de palavras; as diferenças são de grafia e vocalização: o Yerushalmi escreve שֶׁבַּקֵּירוּיָא, com yod e terminado em alef, onde a avulsa escreve שֶׁבְּקֵרוּיָה; מְמַלְאִין, sem dagesh no lamed, onde a avulsa escreve מְמַלְּאִין; בַטָּפִיחַ e בַּשַּׁבָּת, com artigo, onde a avulsa escreve בְטָפִיחַ e בְּשַׁבָּת; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi não tem pontuação. No Bavli, a Mishná começa no fim de Shabbat 125a e termina em 125b, onde está a sua guemará; ali se escreve שֶׁבְּקֵירוּיָה. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é toda a guemará; a seção 01 contém esse segundo segmento inteiro, dividido em três pares de hebraico e português, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Não há marcador de folha de Vilna nem de Veneza embutido nesta halachá, nem colchetes ou parênteses no hebraico.

Referências conferidas. As duas Mishnayot que a guemará chama de matnita são a nossa, Shabbat 17:6, e a Mishná Shabbat 21:1, que diz que um homem toma o seu filho com a pedra na mão, e a cesta com a pedra dentro dela; a avulsa escreve ali אֶת בְּנוֹ e וְכַלְכַּלָּה, e a guemará aqui cita בְּנוֹ, sem “et”, e כַלְכָּלָה, sem vav, como a Mishná do Yerushalmi em 21:1. No Bavli, em Shabbat 125b, Rabá, em nome de Rabi Ami, e Rav Yossef, em nome de Rabi Assi, ambos em nome de Rabi Yochanan, divergem sobre a pedra posta de propósito sobre a boca da ânfora, se a ânfora se torna base para coisa proibida ou se a pedra se torna tampa; Rabá traz como objeção o início da nossa Mishná e a rejeita, pois na cabaça quem prendeu a pedra fez dela uma parede; Rav Yossef traz o final e o rejeita, pois quem não a prendeu a anulou. A versão dos tanaim da casa de Rabi não está ali. Em Shabbat 142a, sobre a cesta com a pedra dentro dela, o Bavli pergunta por que a cesta não se torna base para coisa proibida; Rabá bar bar Chana responde, em nome de Rabi Yochanan, que se trata de uma cesta cheia de frutas, o que concorda com a posição de Rabi Yochanan aqui; e Rav Chiya bar Ashi, em nome de Rava, que se trata de uma cesta furada, em que a própria pedra se torna parede da cesta. Na Tosefta Shabbat, na numeração da edição Lieberman no Sefaria, não encontramos a pedra na cabaça nem a criança com a pedra na mão; o amuleto comprovado é definido em 4:9 como o que curou uma, duas e três vezes, e 4:10 diz que o amuleto não comprovado, embora não se saia com ele no Shabat, pode ser movido.

Observações de leitura. Entendemos a discussão assim: para Rabi Chiya bar Yossef, a cesta pode ser tomada mesmo com a pedra sozinha dentro dela; para Rabi Yochanan, só quando há também alimentos. O início da Mishná da cabaça parece contradizer Rabi Yochanan, pois ali se move a cabaça com a pedra sem alimentos; a resposta é que a pedra apertada faz parte da cabaça. O final parece contradizer Rabi Chiya bar Yossef, pois a pedra solta proíbe; Rabi Yudan responde que a pedra está ali para dar peso, e quem enche move a cabaça apoiada sobre ela, usando a pedra; e a pergunta “que faz Rabi Yochanan com isto” parece responder que, para ele, com a pedra presa, quem enche move a própria cabaça, e não a pedra. O texto não diz a que parte da Mishná se refere essa pergunta, e a nossa leitura é incerta. A palavra אָפִיצָה, que traduzimos por “apertada”, segue o sentido dado por Guggenheimer e pelo paralelo do Bavli, que diz que a prendeu; é palavra rara. Na primeira citação os tanaim da casa de Rabi dizem “os alimentos e a pedra”, e na segunda, “a pedra e os alimentos”; deixamos a ordem do hebraico. O texto diz primeiro “os rabanan de lá” e depois “lá dizem”; como de costume no Yerushalmi, “lá” refere-se à Babilônia, mas o texto não diz se são as mesmas pessoas. A guemará escreve מְמַלִּין, sem alef, onde a Mishná escreve מְמַלְאִין; a cabaça é קֵּירוּיָה e קִירוּיָא; e o nome de Rabi Chiya bar Yossef é escrito חִיָיה e חִיָיא. Tudo foi mantido como está. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. A nota de Guggenheimer que remete ao Bavli 142a para a opinião de Rabi Yochanan está correta. Numa nota, ele chama a nossa Mishná de 17:5, quando é a 17:6, como ele mesmo a chama na nota anterior. Ele traduz אֲנָן תַּנִּינָן como “we have stated”; traduzimos “nós ensinamos”, como nas halachot anteriores deste tratado. Ele traduz a zemorá como “piece of vine” e o tafiach como “pail”; preferimos “ramo de videira” e “jarro”, como no Bavli deste site. Ele escreve “Rebbi Jacob bar Zavdi”, “Rebbi Abbahu”, “Rebbi Ḥiyya bar Joseph”, “Rebbi Joḥanan” e “Rebbi Cohen”; mantivemos “Rabi Yaakov bar Zavdi”, “Rabi Abahu”, “Rabi Chiya bar Yossef”, “Rabi Yochanan” e “Rabi Kohen”, como nas halachot anteriores do Yerushalmi; e o “expert amulet” é o amuleto comprovado, como na halachá 5:4.