Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Zayin · Halachá 5
שַׁבָּת

Os cacos dos utensílios e o vidro que raspa a cabeça do karkad

Perek Yud-Zayin, Kol HaKelim, Halachá 5, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Quinta halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (todos os utensílios). A Mishná ensina que os cacos de todos os utensílios que são movidos no Shabat também são movidos, contanto que sirvam para algum trabalho, como os cacos de uma gamela para cobrir a boca da ânfora e os de vidro para cobrir a boca do frasco; Rabi Yehudá exige que sirvam para algo semelhante ao seu próprio trabalho, como derramar neles papa ou azeite. A guemará confronta esta Mishná com a que ensina, a respeito de quem transporta no Shabat, que basta de vidro o suficiente para raspar a cabeça do karkad (lançadeira), e traz duas respostas: uma distingue entre o vidro grosso e o afiado; a outra, entre mover o caco e transportá-lo de um domínio a outro. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 124b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

כָּל הַכֵּלִים הַנִּיטָּלִין בַּשַּׁבָּת שִׁבְרֵיהֶן נִיטָּלִין וּבִלְבַד שֶׁיִּהְיוּ עוֹשִׂין מֵעֵין מְלָאכָה. שִׁיבְרֵי עֲרֵיבָה לְכַסּוֹת בָּהֶן אֶת פִּי הֶחָבִית. וְשֶׁל זְכוּכִית לְכַסּוֹת בָּהֶן אֶת פִּי הַפַּךְ. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר וּבִלְבַד שֶׁיִּהְיוּ עוֹשִׂין מֵעֵין מְלַאכְתָּן שִׁיבְרֵי עֲרֵיבָה לָצוּק לְתוֹכָן מִקְפָּה. וְשֶׁל זְכוּכִית לָצוּק בְּתוֹכָן שֶׁמֶן:

Mishná: Todos os kelim (utensílios) que são movidos no Shabat, os seus cacos também são movidos, contanto que façam algo semelhante a algum trabalho: os cacos de uma arevá (gamela), para cobrir com eles a boca da chavit (ânfora); e os cacos de vidro, para cobrir com eles a boca do pach (frasco). Rabi Yehudá diz: contanto que façam algo semelhante ao seu próprio trabalho: os cacos de uma gamela, para derramar dentro deles mikpá (papa); e os cacos de vidro, para derramar dentro deles azeite.

A Halachá · הֲלָכָה ה

01O vidro que raspa a cabeça do karkad: o grosso e o afiado, mover e transportar
Yerushalmi · Shabbat 17:5
תַּמָּן תַּנְּינָן. זְכוּכִית לִגְרוֹד בָּהּ רֹאשׁ הַכַּרְכִּד. וְהָכָא הוּא אָמַר הָכֵן. רִבִּי אָחָא רִבִּי מַיְישָׁא בְשֵׁם רַבָּנִן דְּקַיְסָרִי. כָּאן בְּעָבָה כָּאן בְּחַדָּה. וְאִית דְּבָעֵי מֵימַר. כָּאן בִּמְטַלְטֵל. כָּאן בְּמוֹצִיא.

Lá ensinamos: “Vidro, o suficiente para raspar com ele a cabeça do karkad (lançadeira).” E aqui ele diz assim, sobre os cacos de vidro? Rabi Achá, Rabi Maisha, em nome dos rabanan (sábios) de Cesareia: num caso, o vidro é grosso; no outro, afiado. E há quem queira dizer: num caso, quem move; no outro, quem transporta para fora.

Nota

Esta é a quinta halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 17:5 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “todos os utensílios” até “azeite”. As diferenças de redação são três: a avulsa diz que os cacos são movidos עִמָּהֶן, “com eles”, palavra que o Yerushalmi não tem; diz שִׁבְרֵי זְכוּכִית, “os cacos de vidro”, onde o Yerushalmi diz וְשֶׁל זְכוּכִית, “e os de vidro”; e, na frase de Rabi Yehudá sobre o vidro, diz לְתוֹכָן, onde o Yerushalmi diz בְּתוֹכָן. As demais diferenças são de grafia e vocalização: o Yerushalmi escreve נִיטָּלִין, שִׁיבְרֵי e עֲרֵיבָה, com yod, onde a avulsa escreve נִטָּלִין, שִׁבְרֵי e עֲרֵבָה; בַּשַּׁבָּת, onde a avulsa escreve בְּשַׁבָּת; לָצוּק, onde a avulsa escreve לִצּוֹק; הַפַּךְ, רִבִּי e שֶׁמֶן, onde a avulsa vocaliza הַפָּךְ, רַבִּי e שָׁמֶן; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi não tem pontuação. A Mishná do Bavli, em Shabbat 124b, também traz “com eles” e “os cacos de vidro”. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é toda a guemará; a seção 01 contém esse segundo segmento inteiro, num só par de hebraico e português, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. No meio da Mishná, entre עֲרֵיבָה e לָצוּק, o Sefaria tem embutido o marcador da folha 83b da edição de Vilna, que retiramos; não há colchetes nem parênteses no hebraico.

Referências conferidas. O “lá ensinamos” da guemará não é uma Mishná de Kelim: é a Mishná Shabbat 8:6, sobre as medidas de quem transporta no Shabat, que diz “vidro, o suficiente para raspar com ele a cabeça do karkar”; conferimos os trinta capítulos de Kelim no Sefaria, e a frase não está ali, e o capítulo 30 de Kelim, que trata dos utensílios de vidro, não fala do karkar. A mesma discussão está no Yerushalmi na halachá 8:6, em ordem inversa: ali a Mishná do vidro que raspa é a base, e o “lá se ensina” cita a nossa, “e os de vidro, para derramar dentro deles azeite”. Ali a cadeia é Rabi Achá, Rabi Maisha, Rabi Kohen, em nome dos rabanan de קַיְסָרִין; aqui não há Rabi Kohen, e o hebraico escreve קַיְסָרִי, sem nun; ali se diz אַתְּ אָמַר, “tu dizes”, e aqui הוּא אָמַר, “ele diz”; ali אִית, e aqui וְאִית. No Bavli, em Shabbat 124b, Rav Yehudá diz em nome de Shmuel, primeiro, que a divergência entre os sábios e Rabi Yehudá é sobre utensílios que se quebraram na véspera do Shabat; Rav Zutra objeta com a baraita “acende-se com utensílios, e não se acende com cacos de utensílios”, e a palavra é reformulada: a divergência é sobre os que se quebraram no Shabat, pois para um são muchan, preparados, e para o outro são nolad, coisa nova; mas, se se quebraram na véspera, todos permitem. Ali mesmo três baraitot sobre acender com utensílios e com cacos são atribuídas a Rabi Yehudá, a Rabi Shimon e a Rabi Nechemia; e Rav Nachman, em nome de Shmuel, permite mover um caco pequeno de barro no pátio, enquanto Rava o permite até no domínio público. Em Shabbat 125a, uma baraita diz que os cacos de um forno velho são como todos os utensílios movidos no pátio, palavras de Rabi Meir, e que Rabi Yehudá diz que não são movidos; e Abaye explica que divergem sobre o que serve para algo semelhante a um trabalho, mas não ao seu próprio trabalho, cada um segundo a sua opinião na Mishná. Na Tosefta Shabbat, na numeração da edição Lieberman no Sefaria, 14:6 traz a mesma Mishná, com סכוכית escrito com samech na primeira frase e com o azeite “para o bebê”, לתינוק; 14:3 traz os cacos do forno velho com os nomes trocados, pois ali Rabi Meir diz que não são movidos e Rabi Yossi diz que são, e Rabi Yossi testemunha em nome de Rabi Liezer ben Yaakov que são movidos; e 14:8 traz Raban Shimon ben Gamliel dizendo que se movem os cacos de vidro porque são alimento das avestruzes.

Observações de leitura. “Num caso… no outro” traduz כָּאן… כָּאן, “aqui… aqui”, que não diz qual caso é qual. Entendemos a pergunta assim: na Mishná das medidas, um pedaço de vidro bom para raspar a lançadeira já é coisa de valor; por que aqui se exige que os cacos de vidro sirvam para cobrir a boca do frasco ou para receber azeite? A primeira resposta parece ser que a nossa Mishná fala do vidro grosso, que não serve para raspar, e a outra, do afiado; a segunda, que a nossa trata de mover os cacos dentro do domínio, e a outra, de transportá-los de um domínio a outro. O texto não diz quem é “ele” em “ele diz assim”; entende-se o tanna da nossa Mishná. Entre Rabi Achá e Rabi Maisha o hebraico não põe conjunção nem diz se um transmite em nome do outro, e não decidimos. O Yerushalmi escreve הַכַּרְכִּד, karkad, onde a Mishná avulsa diz karkar, como já nas halachot 8:6 e 17:2; a glosa “lançadeira” segue a da halachá 17:2. O hebraico do Sefaria escreve תַּנְּינָן, com dagesh no nun, e assim ficou. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. A nota de Guggenheimer remete à halachá 8:6, notas 108 a 110, e a remissão está correta. Ele traz “Rebbi Aḥa, Rebbi Maisha, Rebbi Cohen”, mas aqui o hebraico não tem Rabi Kohen, que só aparece no paralelo da halachá 8:6; seguimos o hebraico. Ele traduz הוּא אָמַר como “you are saying”; seguimos o hebraico, “ele diz”. Ele traduz o karkad como “weaver’s beam” e o pach como “phial”; mantivemos as glosas do site. Ele escreve “Rebbi Jehudah” e “Rebbi Aḥa”; mantivemos “Rabi Yehudá” e “Rabi Achá”, como nas halachot anteriores deste tratado.