Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Zayin · Halachá 4
שַׁבָּת

A serra grande, o pino do arado e a necessidade de Rabi Nechemia

Perek Yud-Zayin, Kol HaKelim, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Quarta halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (todos os utensílios). A Mishná ensina que todos os utensílios são movidos no Shabat, exceto a serra grande e o pino do arado, e que são movidos por necessidade e sem necessidade, enquanto Rabi Nechemia diz que só por necessidade. A guemará traz Rav Yehudá em nome de Rav: a halachá é como Rabi Nechemia. Expõe então a divergência entre Rabi Yochanan e os sábios da Babilônia sobre o que é necessidade: para um, só a necessidade do próprio utensílio; para o outro, também a do seu lugar. Cita uma baraita de Rabi Yudan sobre o que Beit Shammai e Beit Hillel discutem a respeito dos utensílios cheios e vazios, e conclui com a dificuldade: a opinião de Beit Shammai coincide com a de Rabi Nechemia, mas a halachá é como Rabi Nechemia e não como Beit Shammai. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 123b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

כָּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת חוּץ מִן הַמַּסָּר הַגָּדוֹל וְיָתֵד שֶׁל מַחֲרֵישָׁה. כָּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין לְצוֹרֶךְ וְשֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ. רִבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר אֵין נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ:

Mishná: Todos os kelim (utensílios) são movidos no Shabat, exceto a massar (serra) grande e o yeted (pino) do arado. Todos os utensílios são movidos por necessidade e sem necessidade. Rabi Nechemia diz: não são movidos os utensílios senão por necessidade.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01A necessidade do utensílio e a do seu lugar, e a opinião de Beit Shammai
Yerushalmi · Shabbat 17:4
רַב יְהוּדָה בְשֵׁם רַב. הֲלָכָה כְּרִבִּי נְחֶמְיָה דְאָמַר אֵין נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ.

Rav Yehudá disse em nome de Rav: a halachá (a norma prática) é como Rabi Nechemia, que disse: não são movidos os utensílios senão por necessidade.

רִבִּי יוֹחָנָן וְרַבָּנִן דְּתַמָּן. חַד אָמַר. לְצוֹרֶךְ. לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ. שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ. שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ. רִבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר אֵינָן נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ. וְחָרָנָה אָמַר. לְצוֹרֶךְ. לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ וּלְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ. שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ. שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ וְשֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ. רִבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר אֵין נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ וּלְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ.

Rabi Yochanan e os rabanan (sábios) de lá, da Babilônia, divergem. Um disse: por necessidade quer dizer letzorech gufo (pela necessidade do próprio utensílio); sem necessidade quer dizer sem necessidade dele mesmo; Rabi Nechemia diz: não são movidos senão pela necessidade dele mesmo. E o outro disse: por necessidade quer dizer pela necessidade dele mesmo e letzorech mekomo (pela necessidade do seu lugar); sem necessidade quer dizer sem necessidade dele mesmo e sem necessidade do seu lugar; Rabi Nechemia diz: não são movidos senão pela necessidade dele mesmo e pela necessidade do seu lugar.

תַּנֵּי. אָמַר רִבִּי יוּדָן. לֹא נֶחְלְקוּ בֵית שַׁמַּי וּבֵית הִלֵּל עַל הַמְּלֵאִין שֶׁמְטַלְטְלִין אוֹתָן שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ וְעַל הָרֵיקָנִין שֶׁיֵּשׁ בְּדַעְתּוֹ לְמַלּוֹתָן. וְעַל מַה נֶחְלְקוּ. עַל שֶׁאֵין בְּדַעְתּוֹ לְמַלּוֹתָן. שֶׁבֶּית שַׁמַּי אוֹסְרִין וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין.

Ensinou-se: disse Rabi Yudan: não divergiram Beit Shammai (a escola de Shammai) e Beit Hillel (a escola de Hillel) sobre os utensílios cheios, que se movem sem necessidade, nem sobre os vazios que ele tem em mente encher. E sobre o que divergiram? Sobre os vazios que ele não tem em mente encher, pois Beit Shammai proíbem movê-los e Beit Hillel o permitem.

אַתְיָא דְבֵית שַׁמַּי כְּרִבִּי נְחֶמְיָה. אַתְּ אָמַרְתָּ. הֲלָכָה כְּרִבִּי נְחֶמְיָה. וְלֹא הֲלָכָה כְבֵית שַׁמַּי.

Resulta que a opinião de Beit Shammai é como a de Rabi Nechemia. Tu disseste: a halachá é como Rabi Nechemia, e a halachá não é como Beit Shammai.

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 17:4 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “todos os utensílios” até “senão por necessidade”. A diferença de conteúdo é uma só: a avulsa abre com “Rabi Yossi diz”, atribuindo a Rabi Yossi a primeira frase, e o Yerushalmi não tem essas palavras; o Penei Moshe registra que assim lê a Mishná do Bavli. A avulsa também não tem בַּשַּׁבָּת depois do primeiro נִטָּלִין. As demais diferenças são de grafia e vocalização: o Yerushalmi escreve נִיטָּלִין, com yod, onde a avulsa escreve נִטָּלִין; מַחֲרֵישָׁה, onde a avulsa escreve מַחֲרֵשָׁה; לְצוֹרֶךְ, com vav, onde a avulsa escreve לְצֹרֶךְ; e רִבִּי, onde a avulsa vocaliza רַבִּי; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi tem pontos. No Bavli, a primeira parte desta Mishná, a da serra e do pino do arado, está em Shabbat 123b, e a segunda, a de “por necessidade e sem necessidade”, abre uma nova Mishná em Shabbat 124a. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é toda a guemará; a seção 01 contém esse segundo segmento inteiro, dividido em quatro pares de hebraico e português, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Nesta halachá não há marcador embutido de folha das edições de Veneza ou de Vilna, nem colchetes ou parênteses no hebraico. Mantivemos como está no Sefaria a grafia שֶׁבֶּית, com dagesh no bet.

Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 123b, Rav Nachman e Abaye acrescentam outros instrumentos que são como o pino do arado, e uma baraita conta que no princípio se permitiam só três utensílios, e depois se permitiu mais e mais, até que se disse: todos os utensílios são movidos no Shabat, exceto a serra grande e o pino do arado. No Bavli, Shabbat 124a, a guemará pergunta o que é “por necessidade” e o que é “sem necessidade”, e a mesma divisão que aqui está entre Rabi Yochanan e os sábios de lá aparece ali entre Rabah e Rava: para Rabah, a necessidade do próprio utensílio permitido é “por necessidade”, e Rabi Nechemia proíbe movê-lo pela necessidade do seu lugar; para Rava, a necessidade do próprio utensílio e a do seu lugar são ambas “por necessidade”, e “sem necessidade” é movê-lo até do sol para a sombra. A palavra de Rav Yehudá em nome de Rav, que a halachá é como Rabi Nechemia, não a encontramos nessas folhas do Bavli. A baraita de Beit Shammai e Beit Hillel está na Tosefta Beitzah 1:11 (ed. Lieberman), mas ali em nome de Raban Shimon ben Gamliel, e com outra redação: concordam que se levam os utensílios cheios por necessidade, e os vazios para enchê-los; e divergem sobre os vazios sem necessidade, que Beit Shammai proíbem e Beit Hillel permitem.

Observações de leitura. O Penei Moshe e o Korban HaEdah explicam que a serra grande é a que corta vigas ou paredes, e que o pino do arado é o instrumento que abre o sulco na terra; o dono cuida para que não se estraguem, e por isso não são movidos para outro uso. O Penei Moshe, ao explicar a Mishná, entende “sem necessidade” como mover o utensílio por causa dele mesmo, para que não seja roubado ou do sol para a sombra, e encerra dizendo que a halachá não é como Rabi Nechemia; a guemará, porém, traz Rav Yehudá em nome de Rav dizendo que é. Entendemos a frase final assim: se a opinião de Beit Shammai sobre os vazios coincide com a de Rabi Nechemia, como pode a halachá ser como Rabi Nechemia, se não é como Beit Shammai? Guggenheimer conclui que, por isso, Rabi Nechemia deve permitir também pela necessidade do lugar, como na segunda explicação; o texto não diz como a dificuldade se resolve, e não decidimos. O hebraico do Sefaria pontua essas frases com pontos, e assim traduzimos. Os רַבָּנִן דְּתַמָּן, “os sábios de lá”, são os da Babilônia, e o texto não diz qual das duas explicações é de Rabi Yochanan e qual é deles. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer lê רִבִּי יוּדָן como “Rebbi Jehudah”; mantivemos “Rabi Yudan”, como está no hebraico. Ele traduz אַתְיָא דְבֵית שַׁמַּי כְּרִבִּי נְחֶמְיָה como pergunta; seguimos a pontuação do hebraico. Ele traduz as explicações de “por necessidade” com “ou”, “for a need of itself or of its place”, onde o hebraico diz וּלְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ, “e pela necessidade do seu lugar”; seguimos o hebraico. Ele escreve “Rav Jehudah”, “Rebbi Nehemiah”, “Rebbi Joḥanan”, “the House of Shammai” e “the House of Hillel”; mantivemos “Rav Yehudá”, “Rabi Nechemia”, “Rabi Yochanan”, “Beit Shammai” e “Beit Hillel”, como nas halachot anteriores deste tratado. Das suas remissões, foram conferidas e estão corretas as do Bavli, Shabbat 124a, e da Tosefta Beitzah 1:11 (ed. Lieberman).