Shabbat 124b abre completando a citação interrompida ao final de 124a: a mishná de Bet Shamai, que proíbe tirar uma criança, um lulav e um rolo da Torá para o domínio público em Yom Tov, e Bet Hilel, que permite. A Guemará valida a resolução de Rav Papa: ainda que se tenha ouvido de Bet Shamai apenas a proibição de retirada (hotzaah) entre domínios, não de mero manuseio (tiltul), o próprio manuseio é vedado apenas por decreto por causa da retirada — de modo que a mesma disputa se estende a ambos, permitindo a Rav Papa atribuir a mishná das frutas pela clarabóia a Bet Hilel. Confirma-se que também Rav concorda com Rava: uma enxada movida apenas para que não seja roubada é manuseio sem necessidade, e proibido; mas para sua própria necessidade e para a de seu lugar, é permitido. Levanta-se a história de Rav Kahana, a quem se trouxe uma rede para sentar-se, resolvida como necessidade de lugar ou como sol para a sombra. Segue-se a história de Rav Mari bar Rachel, que teve permissão de Rava para manusear seus travesseiros de feltro ao sol, mas a quem o próprio Rava proibiu, por ter revelado seguir a opinião mais restritiva de Rabah. Discute-se então as vassouras: de lã, permitidas; de ramos de tâmara, proibidas por nivelarem buracos; e a posição de Rabi Elazar sobre elas, emendada para concordar com Rav quanto ao sol para a sombra. Uma nova Mishná encerra esta unidade: todos os utensílios que podem ser manuseados em Shabat, seus cacos podem ser manuseados com eles, contanto que sirvam para alguma tarefa; Rabi Yehuda exige que sirvam para tarefa semelhante à original. A Guemará distingue cacos quebrados na véspera de Shabat dos quebrados no próprio Shabat; Rav Zutra objeta com a baraita de acender fogo com utensílios mas não com cacos, o que leva a inverter a resolução original entre "já preparado" e "coisa nova"; três versões de baraitot sobre acender fogo são atribuídas a Rabi Yehuda, Rabi Shimon e Rabi Nechemya. Rav Nachman permite manusear tijolos sobrados de construção, exceto se empilhados; discute-se o manuseio de um caco pequeno no pátio, na carmelit e no domínio público, ilustrado pela história do sapato sujo de barro de Rava em Machoza; e a rolha de barril esfarelada, permitida com seus cacos, mas não depois de jogada no lixo. O daf termina em pleno fluxo na objeção de Rav Papa — se assim fosse, também jogar uma capa no lixo a tornaria proibida?! — sem qualquer hadran, pois o Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim) continua em curso, a continuar diretamente em Shabbat 125a.
Não se tira uma criança, nem o lulav, nem um rolo da Torá para o domínio público em Yom Tov, mas Bet Hilel permite.
Completa-se aqui a citação de Rav Pappa interrompida ao final de 124a: a mishná de Bet Shamai, que proíbe tirar uma criança, um lulav ou um rolo da Torá de um domínio a outro em Yom Tov, mesmo sem qualquer relação com o preparo de comida; e Bet Hilel, que permite esse tipo de retirada. Com isso, Rav Pappa fundamenta sua resolução: a mishná das frutas pela clarabóia, que distingue Yom Tov de Shabat, segue Bet Hilel; a mishná que iguala os dois dias, exceto quanto à comida, segue Bet Shamai.
"Não se tira" — trata-se de uma retirada sem necessidade de comida, que não foi permitida de início em Yom Tov mais do que em Shabat, exceto para o preparo de comida; e esta mishná de "deixam-se cair as frutas" é segundo Bet Hilel.
Diga-se que ouviste deles, de Bet Shamai, quanto à retirada entre domínios; quanto ao manuseio, ouviste deles algo? Mas o manuseio em si, não é por causa da retirada?!
A Guemará levanta uma dificuldade contra a resolução de Rav Pappa: a mishná citada só prova a posição de Bet Shamai e Bet Hilel quanto à retirada plena entre domínios (hotzaah); mas a mishná das frutas trata de mero manuseio (tiltul), dentro do mesmo domínio, sem cruzar para o domínio público — categoria sobre a qual talvez nada se tenha ouvido diretamente de Bet Shamai. Responde-se, porém, que o próprio manuseio só é restrito por um decreto rabínico erigido por causa do receio de retirada; por isso, quem é permissivo quanto à retirada — como Bet Hilel — necessariamente também é permissivo quanto ao manuseio, que é a categoria mais leve.
"Manuseio, ouviste deles algo?" — isto é, alguma opinião que equipare Yom Tov a Shabat. "O manuseio não é por causa da retirada?" — em tom de pergunta retórica; portanto, se és leniente quanto ao manuseio, és leniente quanto à retirada.
E também Rav sustenta isto, conforme Rava. Pois disse Rav: mover uma enxada para que não seja roubada — isso é manuseio sem necessidade, e é proibido. A razão é que se moveu apenas para que não seja roubada; mas para sua própria necessidade e para a necessidade de seu lugar, é permitido.
A Guemará acrescenta que também Rav concorda com a posição de Rava (que permite objetos de função proibida tanto para a necessidade do corpo quanto para a do lugar, proibindo apenas o "sol para a sombra" e o receio de furto): Rav ensinou que mover uma enxada — objeto de função proibida — apenas para que não seja roubada é manuseio sem necessidade real, e por isso proibido; implicando que para sua própria necessidade ou para a necessidade de seu lugar, seria permitido.
"Isto de Rava" — que disse que a necessidade do lugar é como a necessidade do próprio corpo do utensílio. "Enxada" — em francês antigo, foissoir. "Para que não seja roubada" — semelhante ao caso do sol para a sombra, e é proibido num objeto cuja função é proibida.
É assim?! Mas Rav Kahana não chegou à casa de Rav, e este disse: "tragam uma rede para que Kahana se sente nela"? Não é isso dizer que um objeto cuja função é proibida, para sua própria necessidade, sim; para a necessidade de seu lugar, não?!
A Guemará questiona se Rav de fato concorda inteiramente com Rava: quando Rav Kahana visitou a casa de Rav, este mandou trazer uma rede — objeto de função proibida — apenas para que Kahana se sentasse nela, ou seja, para sua própria necessidade; mas por que não se ordenou simplesmente que Kahana se sentasse onde a rede já estava, liberando aquele lugar (necessidade de lugar)? Isso sugere que Rav distingue entre a necessidade do corpo (permitida) e a do lugar (proibida) até para objetos de função proibida — contradizendo a citação anterior de que Rav concorda com Rava, que permite ambas.
"Rede" — uma armadilha tecida de cordas, usada aqui como assento. "Não é isso dizer" etc — por que Rav precisaria explicar expressamente "para que se sente nela"? A pergunta é se não é para dizer que isso que ele permite manusear é por causa da necessidade de seu próprio corpo.
Assim ele lhes disse: "tirem a rede de diante de Kahana (para que ele se sente no lugar dela)". E, se quiseres, dize: ali, era do sol para a sombra.
A Guemará responde de duas maneiras: ou Rav realmente disse "tirem a rede de diante de Kahana" — pedindo a remoção apenas por necessidade do lugar, não por sua própria necessidade, o que não contradiz Rava; ou, alternativamente, a rede estava num lugar onde o sol lhe faria mal, e por isso foi movida "do sol para a sombra" — categoria que nem Rava permite para objeto de função proibida —, e Rav precisou explicar "para que se sente nela" justamente para deixar claro que não se tratava dessa hipótese proibida, mas de uma necessidade real de seu próprio corpo.
"Tirem a rede de diante de Kahana" — pois Rav disse isso para que Kahana se sentasse em seu lugar, e era apenas por necessidade de seu lugar. "Era do sol para a sombra" — a rede estava num lugar que lhe fazia mal; e se Rav não tivesse explicado expressamente "para que se sente nela", quem visse pensaria que do sol para a sombra é permitido, e que Rav não precisava do lugar dela, a ponto de dizer que Kahana se sentasse em seu lugar.
Rav Mari bar Rachel tinha uns certos travesseiros de feltro ao sol. Foi perante Rava, e disse-lhe: qual é a lei quanto a manuseá-los? Disse-lhe: é permitido. Disse-lhe: tenho outros (não preciso destes para sua própria necessidade). Disse-lhe: servem para hóspedes (necessidade de lugar). Disse-lhe: tenho também outros para hóspedes. Disse-lhe: revelaste tua opinião, que sustentas como Rabah. Para todo o mundo é permitido; para ti, é proibido.
Rav Mari bar Rachel consulta Rava sobre mover seus travesseiros de feltro, deixados ao sol, para protegê-los. Rava permite de imediato — pois, segundo sua própria opinião, mesmo "do sol para a sombra" é permitido para um objeto de função permitida. Mas Rav Mari insiste em justificar o manuseio por necessidades cada vez mais fracas — "tenho outros", depois "servem para hóspedes", depois "tenho outros também para hóspedes" —, mostrando que, para ele, apenas uma necessidade real (do corpo ou do lugar) justificaria o manuseio, nunca o mero "sol para a sombra". Rava então percebe que Rav Mari segue a opinião mais restritiva de Rabah, e por isso lhe diz: embora a lei siga Rava, e para todos seja permitido mover os travesseiros mesmo do sol para a sombra, para o próprio Rav Mari — que não aceita essa lei — permanece proibido, pois não se pode permitir a alguém agir contra aquilo que ele mesmo considera proibido.
"Travesseiros de feltro" — almofadas de lã prensada, chamadas em francês antigo feltre. "Ao sol" — literalmente, à luz do sol. "Disse-lhe: é permitido" — Rava segue seu próprio raciocínio, pois disse que um objeto cuja função é permitida, mesmo do sol para a sombra, é permitido. "Tenho outros" — ou seja, não preciso deles para seu próprio corpo. "Que sustentas como Rabah" — que disse que do sol para a sombra é proibido; e a lei é como Rava, que disse: um objeto cuja função é permitida é permitido totalmente; e um objeto cuja função é proibida, para sua própria necessidade e para a de seu lugar, é permitido; do sol para a sombra e para que não seja roubado, é proibido.
Disse Rabi Aba, disse Rabi Chiya bar Ashi, disse Rav: vassouras de lã (feltro) é permitido manuseá-las em Shabat; mas as de ramos de tâmara, não.
Rav distingue entre dois tipos de vassoura usados para varrer a mesa depois da refeição: as de tecido de lã, cuja função é claramente permitida, podem ser manuseadas livremente; mas as feitas de ramos de tâmara, usadas para varrer o chão da casa, são proibidas, porque seu uso implica nivelar buracos no chão — uma tarefa proibida em Shabat mesmo quando o resultado não é a intenção direta.
"Vassouras" — em francês antigo, escobe, com as quais se varre a mesa. "De lã" — panos para varrer a mesa, cuja função é permitida. "De ramos de tâmara" — semelhantes às nossas, para varrer a casa, o que é proibido por causa de nivelar buracos no chão, pois mesmo Rabi Shimon concorda quando é "certamente cortar a cabeça, ainda que não se pretenda a morte" (um resultado inevitável, mesmo sem intenção).
Rabi Elazar diz: mesmo as de tâmara. Do que tratamos? Se dissermos: para sua própria necessidade e para a necessidade de seu lugar — nesse caso, diria Rav que as de tâmara não podem ser manuseadas? Mas Rav sustenta como Rava! Antes, trata-se do sol para a sombra: nesse caso, diria Rabi Elazar mesmo as de tâmara? Na verdade, trata-se do sol para a sombra; dize então: e assim também disse Rabi Elazar.
A Guemará examina a suposta posição mais permissiva de Rabi Elazar, de que mesmo vassouras de tâmara podem ser manuseadas. Se se tratasse de necessidade do corpo ou do lugar, Rav já permitiria isso mesmo para as de tâmara, seguindo Rava — logo essa não é a hipótese. Se se tratasse do sol para a sombra, então Rabi Elazar estaria sendo mais permissivo até do que Rava, que proíbe do sol para a sombra qualquer objeto de função proibida — o que ninguém sustenta quanto a vassouras de tâmara, já proibidas por nivelarem buracos. A Guemará resolve emendando a leitura: em vez de "Rabi Elazar diz: mesmo as de tâmara" (like uma discordância), deve-se ler "e assim também disse Rabi Elazar" — ou seja, Rabi Elazar concorda com Rav de que, do sol para a sombra, as de lã são permitidas e as de tâmara, proibidas.
"Para sua própria necessidade" — para uma tarefa permitida. "Antes, trata-se do sol para a sombra: nesse caso, diria Rabi Elazar mesmo as de tâmara?" — pois é um objeto cuja função é proibida, e ninguém permite do sol para a sombra. "E assim também disse Rabi Elazar" — as vassouras de lã são permitidas, as de tâmara são proibidas, do sol para a sombra.
Todos os utensílios que podem ser manuseados em Shabat — seus cacos podem ser manuseados com eles, contanto que sirvam para algum tipo de tarefa.
Uma nova Mishná trata do estatuto dos cacos de utensílios quebrados: em princípio, todo utensílio que podia ser manuseado enquanto inteiro continua podendo ser manuseado depois de quebrado, desde que o caco em si sirva ainda para alguma tarefa — não importa qual, nem que seja diferente da função original do utensílio.
Mishná: "para algum tipo de tarefa" — qualquer tarefa, mesmo que não seja semelhante à primeira.
Cacos de gamela, para cobrir com eles a boca do barril; cacos de vidro, para cobrir com eles a boca do frasco.
A Mishná exemplifica: cacos de uma gamela de amassar pão podem servir para cobrir a boca de um barril, uma função bem diferente da original, mas ainda assim uma tarefa real; do mesmo modo, cacos de vidro podem cobrir a boca de um pequeno frasco.
Rabi Yehuda diz: contanto que sirvam para algo semelhante à sua própria tarefa: cacos de gamela, para despejar neles um mingau espesso; e os de vidro, para despejar neles azeite.
Rabi Yehuda é mais restritivo: não basta que o caco sirva para qualquer tarefa; é preciso que sirva para algo semelhante à função original do utensílio inteiro. Os cacos de uma gamela — usada para amassar e misturar — servem para despejar neles um mingau espesso, semelhante a uma massa; os de vidro, usado para conter líquidos finos, servem para despejar azeite.
"Para despejar neles um mingau espesso" — espesso, semelhante a uma massa misturada com água.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a disputa é sobre utensílios que se quebraram na véspera de Shabat, pois este mestre (Rabi Yehuda) entende: semelhante à sua própria tarefa, sim; semelhante a outra tarefa, não. E este mestre (os sábios, no primeiro tanná) entende: mesmo semelhante a outra tarefa.
Rav Yehuda em nome de Shmuel esclarece que a disputa entre o primeiro tanná e Rabi Yehuda se limita a cacos que já estavam quebrados desde antes do início de Shabat: para o primeiro tanná, qualquer tarefa nova basta; para Rabi Yehuda, apenas uma tarefa semelhante à original.
Guemará: este trecho de Rashi retoma, para referência, o comentário já dado em 124a sobre "o que significa 'com necessidade', e o que significa 'sem necessidade'? Disse Rabah" etc — "com necessidade", que o primeiro tanná permite, é um objeto cuja função é permitida, e o manuseia para sua própria necessidade.
Mas se se quebraram em Shabat — segundo todos, é permitido. Já que estavam preparados sobre seu "pai" (o próprio utensílio inteiro, desde antes de Shabat), é permitido.
Se o utensílio se quebrou apenas durante o próprio Shabat, todos concordam que os cacos podem ser manuseados livremente, mesmo sem servirem para nenhuma tarefa específica: como o utensílio inteiro já estava disponível e preparado desde a véspera, seus cacos são considerados uma extensão daquela mesma preparação original.
Guemará: "já que estavam preparados sobre seu 'pai'" — quando entrou o dia de Shabat.
Objetou Rav Zutra: acende-se o fogo com utensílios inteiros, mas não se acende o fogo com cacos de utensílios.
Rav Zutra traz uma baraita, referente a Yom Tov: um utensílio inteiro pode ser usado como lenha para o fogo, mas seus cacos, não — o que parece contradizer a afirmação de que cacos quebrados no próprio dia são sempre permitidos, por serem uma extensão do utensílio original.
"Acende-se o fogo com utensílios inteiros" — em Yom Tov, pois são aptos a ser manuseados, e a pessoa os manuseia e os coloca dentro do fogo. "Mas não se acende o fogo com cacos de utensílios" — pois são muktzê para eles, e não são aptos a manuseio.
Esses cacos que se quebraram, quando foi isso? Se dissermos que se quebraram na véspera de Yom Tov — são apenas lenha comum (e não haveria razão para proibi-los)! Antes, não é isso; quebraram-se no próprio Yom Tov, e ensina-se: acende-se o fogo com utensílios inteiros, mas não se acende o fogo com cacos de utensílios!
A Guemará esclarece a força da objeção de Rav Zutra: se os cacos já haviam se quebrado antes de Yom Tov, eles seriam simplesmente lenha comum, sem qualquer estatuto de "caco de utensílio" — a baraita não teria razão para mencioná-los separadamente. Logo, a baraita deve tratar de cacos quebrados no próprio Yom Tov, e mesmo assim os proíbe — contradizendo diretamente a afirmação anterior de que cacos quebrados no próprio dia são sempre permitidos por serem extensão do utensílio original.
Antes, se algo foi dito, foi dito assim: disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a disputa é sobre utensílios que se quebraram em Shabat, pois este mestre (os sábios) entende: o caco é algo já preparado; e este mestre (Rabi Yehuda) entende: o caco é uma coisa nova (surgida em Shabat). Mas se se quebraram na véspera de Shabat, segundo todos, é permitido, já que foram preparados para essa tarefa enquanto ainda era dia.
Diante da objeção de Rav Zutra, inverte-se a atribuição original: a disputa entre o primeiro tanná e Rabi Yehuda refere-se, na verdade, a cacos quebrados no próprio Shabat — o primeiro tanná considera o caco algo já preparado desde antes (por ser parte do utensílio original), enquanto Rabi Yehuda o considera uma "coisa nova", surgida apenas em Shabat, e por isso restringe seu uso à tarefa semelhante à original. Já cacos quebrados na véspera de Shabat, tendo tido tempo de ser preparados enquanto ainda era dia, são permitidos por todos, para qualquer tarefa — resolvendo a contradição com a baraita de Rav Zutra, que trata precisamente desse último caso.
"São apenas lenha comum" — pois já desde ontem estavam destinados a acender fogo. "E ensina-se: não se acende" — e não dizemos que estavam preparados desde antes, sobre seu "pai", mas dizemos que são uma coisa nova, e são proibidos.
"Este mestre entende: é algo já preparado" — já que o caco é apto para alguma tarefa; e este mestre entende: é uma coisa nova, pois desde ontem não estava destinado a esta tarefa; por isso, exigimos que sirva para tarefa semelhante à sua própria.
Foi ensinado numa baraita: acende-se o fogo com utensílios inteiros, mas não se acende o fogo com cacos de utensílios. E foi ensinado noutra: assim como se acende o fogo com utensílios inteiros, assim também se acende o fogo com cacos de utensílios. E foi ensinado ainda noutra: não se acende o fogo nem com utensílios inteiros, nem com cacos de utensílios.
A Guemará traz três versões divergentes da mesma baraita, sobre acender fogo em Yom Tov com utensílios ou seus cacos: uma distingue entre eles (permitindo utensílios inteiros, proibindo cacos); outra os iguala, permitindo ambos; a terceira os iguala na direção oposta, proibindo ambos.
Esta baraita é segundo Rabi Yehuda. Aquela é segundo Rabi Shimon. Aquela outra é segundo Rabi Nechemya.
A Guemará atribui cada versão a um tanná diferente: a que distingue utensílios de cacos segue Rabi Yehuda, que sustenta as categorias de muktzê e de "coisa nova" — os utensílios inteiros não são muktzê, mas os cacos, sendo uma coisa nova, são; a que permite ambos segue Rabi Shimon, que não sustenta nem muktzê nem "coisa nova"; e a que proíbe ambos segue Rabi Nechemya, para quem nenhum utensílio pode ser manuseado senão para o uso que lhe é especificamente próprio — e acender fogo não é o uso próprio de um utensílio comum.
"Esta baraita é segundo Rabi Yehuda" — "acende-se o fogo com utensílios inteiros, mas não se acende o fogo com cacos de utensílios", pois ele sustenta as categorias de muktzê e de coisa nova; os utensílios inteiros não são muktzê, os cacos são coisa nova. "Aquela" — que ensina que se acende o fogo com ambos. "Rabi Shimon" — pois ele não sustenta a categoria de muktzê nem a de coisa nova. "Aquela outra" — que ensina que nem mesmo com utensílios inteiros se acende o fogo. "É a opinião de Rabi Nechemya" — que disse que um utensílio só pode ser manuseado para o uso que lhe é próprio; e este utensílio não tem o acender fogo como seu uso próprio, pois não estava destinado a acender fogo.
Disse Rav Nachman: estes tijolos que sobraram da construção — é permitido manuseá-los, pois servem para se reclinar sobre eles. Mas se os empilhou em fileiras, certamente os reservou (tornando-os muktzê).
Rav Nachman ensina que tijolos que sobraram depois de terminada uma construção podem ser manuseados livremente em Shabat, pois servem para que alguém se sente ou se recline sobre eles — uma nova função real, que lhes confere estatuto de utensílio. Mas se o dono os empilhou cuidadosamente em fileiras, isso revela sua intenção de reservá-los para uma construção futura, tornando-os muktzê.
"Que sobraram" — que o construtor completou sua construção, e os tijolos sobraram; e a partir de agora não estão destinados à construção, mas a que se sente sobre eles, e recai sobre eles a categoria de utensílio. "Se os empilhou" — se os arrumou uns sobre os outros, certamente os reservou para outra construção.
Disse Rav Nachman, disse Shmuel: um caco pequeno de cerâmica — é permitido manuseá-lo no pátio; mas na carmelit, não. E Rav Nachman, de si mesmo, disse: mesmo na carmelit; mas no domínio público, não. E Rava disse: mesmo no domínio público.
Três opiniões, cada vez mais permissivas, sobre onde se pode manusear um pequeno caco de cerâmica, apto para cobrir outros utensílios ou para limpeza: Shmuel permite apenas no pátio, onde costumam estar utensílios que precisam de cobertura; Rav Nachman estende a permissão também à carmelit, onde pessoas costumam passar e sentar-se, tornando o caco útil ali também; Rava estende ainda mais, ao próprio domínio público, com base no princípio de que, uma vez que o caco tem estatuto de utensílio num lugar, esse estatuto não se perde em nenhum outro lugar.
"No pátio" — pois ali costumam estar utensílios para os quais este caco é apto para cobrir, e recai sobre ele a categoria de utensílio. "Mas na carmelit, não" — mesmo dentro de quatro cúbitos, pois ali não costumam estar utensílios, e o caco não é apto para cobrir. "Mesmo na carmelit" — já que não é domínio público, costumam pessoas andar e sentar-se ali, e o caco é apto para cobrir com ele saliva. "E Rava disse: mesmo no domínio público" — já que no pátio é um utensílio, também em qualquer outro lugar não se anula dele o nome de utensílio.
E Rava segue seu próprio raciocínio. Pois Rava ia andando na rua principal de Machoza, e seu sapato se sujou de barro. Veio seu servo, pegou um caco de cerâmica e com ele o limpava. Os sábios levantaram a voz contra ele. Disse Rava: não lhes basta que não aprenderam? Ainda ensinam o erro a outros?! Se o caco estivesse no pátio, não seria apto para cobrir com ele um utensílio? Aqui também, é apto para mim.
A Guemará ilustra a consistência de Rava com um episódio concreto: caminhando pela rua principal de Machoza — domínio público —, seu sapato se sujou de barro, e seu servo pegou um caco de cerâmica do chão para limpá-lo. Alguns sábios presentes repreenderam o servo, pensando que isso fosse proibido. Rava defendeu a ação: assim como no pátio o caco é apto para cobrir um utensílio, também no domínio público ele é apto para uso pessoal — para limpeza —, e por isso conserva seu estatuto de utensílio em qualquer lugar.
"Na rua principal" — nome de uma via do domínio público. "Seu sapato se sujou de barro" — sua sandália sujou-se de lama. "Com ele o limpava" — limpava-o. Disse Rava: "não lhes basta que não aprenderam" — o que é proibido, o que é permitido. "Ainda ensinam o erro a outros" — ensinam a outros o erro que está em suas mãos. "Para mim" — o caco é apto para limpeza; e ainda que isso não seja comum no domínio público, eis que recai sobre ele o nome de utensílio no pátio.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a rolha de barril que se esfarelou — é permitido manuseá-la em Shabat. Foi ensinado também assim: uma rolha que se esfarelou, ela e seus cacos, é permitido manuseá-la em Shabat; mas não se deve destacar dela um pedaço para cobrir com ele um utensílio, nem para apoiar com ele as pernas da cama. E se a jogou no lixo, é proibido.
Rav Yehuda em nome de Shmuel ensina que uma rolha de barril que se esfarelou — perdendo sua forma original de tampa — pode continuar sendo manuseada em Shabat, junto com seus cacos, pois ainda serve para cobrir utensílios ou apoiar objetos. Uma baraita confirma isso, mas acrescenta duas restrições: não se pode arrancar dela deliberadamente um pedaço para uma nova finalidade — pois isso seria fabricar um novo utensílio, um trabalho proibido —; e, se o dono já a jogou no lixo, ele revelou a intenção de descartá-la, tornando-a muktzê e proibida.
"Que se esfarelou" — refere-se à barrica. "A rolha" — de uma barrica cuja própria barrica se esfarelou. "Ela" — a rolha. "E seus cacos" — da barrica, podem ser manuseados em Shabat, pois servem para cobrir um utensílio.
"Não se deve destacar" — ou seja, consertá-la, soltando suas protuberâncias e pontas em Shabat, pois isso fabrica um utensílio, e constitui a categoria proibida de "dar o golpe final de martelo". "E se a jogou" — esta rolha no lixo, ela se anula da categoria de utensílio.
Objetou Rav Papa: mas então, se alguém jogar sua capa no lixo, também assim seria proibido manuseá-la?! Antes, disse Rav Papa:
Rav Papa contesta a regra de que jogar a rolha no lixo basta para torná-la muktzê: uma capa continua sendo um utensílio útil, apto ao uso, independentemente da intenção momentânea de quem a descartou — sua condição objetiva de utensílio não deveria depender de um gesto de desprezo. O daf termina exatamente no início da resposta alternativa de Rav Papa, que distinguirá melhor os dois casos.