Shabbat 123b abre concluindo a disputa entre Rav Nachman e Rav Sheshet sobre alinhar os membros de um recém-nascido, iniciada ao final de 123a. Rav Nachman citava a mishná segundo a qual não se induz vômito em Shabat; Rav Sheshet distingue: ali não é o modo natural do corpo, aqui é seu modo natural. Rav Sheshet traz então sua própria prova, da agulha de mão usada para tirar um espinho — permitida ainda que não seja seu manuseio designado; Rav Nachman distingue: ali o espinho está apenas depositado, sem se ligar ao corpo, enquanto aqui se trata de reunir partes ligadas entre si. A Guemará passa então a uma nova Mishná: a cana de oliveiras, que recebe impureza se tem um nó em sua ponta — usado para verificar se o azeite já se acumulou —, mas de qualquer modo pode ser manuseada em Shabat, pois serve para revirar as azeitonas, conforme explica Rabi Nechemya. Segue-se a Mishná de Rabi Yossei: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, exceto a serra grande e o pino do arado — aos quais Rav Nachman acrescenta o utensílio dos lavadores, e Abaie acrescenta a faca dos sapateiros, a faca do açougue e o machado dos carpinteiros, todos cuidadosamente guardados em lugar fixo. Uma baraita relata a história da liberação progressiva: no início apenas três utensílios podiam ser manuseados — o formão do bolo de figos, a colher de tirar a sujeira da panela e a faquinha de mesa —, até que, em sucessivas permissões, chegou-se a autorizar todos os utensílios. Abaie e Rava propõem, cada um a seu modo, os estágios exatos dessa liberação — a necessidade do próprio corpo do utensílio, a necessidade de seu lugar, e o simples cuidado de protegê-lo do sol —, com Abaie retratando-se aqui da posição que Rabah defendera sobre o martelo de ferreiros. Rabi Chanina situa a mishná restritiva original nos dias de Neemias filho de Hachalia, citando sua repreensão contra os que pisavam lagares em Shabat. Rabi Elazar enumera as mishnayot anteriores a essa liberação final — as canas, os bastões, a glustra e o pilão —, com a explicação das canas para separar os pães da proposição, e dos bastões finos e lisos usados para pendurar e esfolar as ofertas pascais, apoiados sobre os ombros de dois homens. O daf termina em pleno fluxo na explicação de Rabi Elazar sobre o procedimento quando o catorze de Nissan cai em Shabat, interrompida a meio — "coloca..." —, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 124a (ainda não publicado).
"Não se induz vômito (apiktevizin) em Shabat" (completando a citação de Rav Nachman). E Rav Sheshet respondeu: ali (quanto ao vômito), não é o modo natural do corpo; aqui (quanto ao recém-nascido), é o modo natural dele.
Rav Nachman completa aqui a citação com que terminou o daf anterior: a mishná ensina que não se induz vômito em Shabat, o que Rav Nachman traz como prova de que "consertar" o corpo é proibido mesmo sem visar a medicina — e, por analogia, alinhar os membros desconjuntados de um recém-nascido também seria proibido. Rav Sheshet, porém, distingue os dois casos: induzir vômito não é algo natural ao corpo, mas uma intervenção externa sobre ele; já o alinhamento dos membros do recém-nascido é seu modo natural de vir a ser — como alimentá-lo e dar-lhe de beber —, e por isso permanece permitido.
"Apiktevizin" — induzir vômito: bebe líquidos e vomita, não para se curar, mas para esvaziar o estômago, a fim de poder comer e beber muito naquele dia, como dizemos no capítulo HaChavit; e, ainda que os sábios não tenham decretado quanto a isso por causa da proibição de triturar especiarias medicinais — pois isso não é para se curar —, é proibido porque "conserta" a pessoa. "Aqui é o modo natural" — e o recém-nascido é como quem se alimenta e se dá de beber.
Disse Rav Sheshet: de onde eu tiro que digo isso (que é permitido)? Pois ensinamos: a agulha de mão, para tirar com ela o espinho! E Rav Nachman distinguiu: ali (o espinho), está apenas depositado; aqui (os membros do recém-nascido), não está apenas depositado.
Rav Sheshet traz agora sua própria prova, tomando a Mishná já discutida em 123a: permite-se manusear a agulha de mão especificamente para tirar um espinho, e ali também há uma espécie de "conserto" corporal — retirar algo do corpo — e ainda assim é permitido. Rav Nachman distingue: o espinho não está de fato ligado ao corpo, mas apenas depositado nele, de modo que sua remoção não é um "conserto" propriamente dito; já os membros do recém-nascido estão genuinamente ligados uns aos outros, e reuni-los em sua posição correta assemelha-se a montar um utensílio a partir de suas partes conectadas — daí a diferença entre os dois casos.
"Para tirar com ela o espinho" — isso mostra que consertar a pessoa, em algo que não é para se curar — de modo que não há a preocupação com a proibição de triturar especiarias medicinais —, é permitido. "Depositado" — este espinho não está ligado à pessoa, mas apenas depositado e colocado ali, e essa remoção não é um conserto. "Aqui não está apenas depositado" — e isso assemelha-se a uma tarefa proibida, que arruma as partes e as insere em seu lugar de ligação.
Uma cana usada para revirar azeitonas: se há um nó em sua ponta, recebe impureza; e se não, não recebe impureza. De qualquer modo, pode-se manuseá-la em Shabat.
Inicia-se aqui uma nova Mishná. Depois de colhidas, as azeitonas são empilhadas para que seu azeite se acumule e escorra com mais facilidade; usa-se uma cana para revirá-las e verificar se já fermentaram o suficiente para irem ao lagar. Se a ponta da cana tem um nó — uma espécie de cavidade fechada, como a de uma pena de escrever —, ela é considerada um utensílio de fato e recebe impureza ritual; se não tem, é apenas madeira lisa e não recebe impureza. Mas, em Shabat, de qualquer modo pode ser manuseada, pois em ambos os casos serve à sua função de revirar as azeitonas.
Mishná: "Uma cana de oliveiras" — depois de colhidas, empilha-se as azeitonas num monte (ma'atan), e seu azeite se acumula dentro delas e sai com facilidade; e há para isso uma cana, para revirá-las com ela e verificar se já fermentaram o quanto necessário e chegam ao lagar. "Se há um nó em sua ponta" — como uma espécie de rolha de uma pena de escrever feita de cana. "Recebe impureza" — pois é um utensílio, visto que sua ponta é um pouco mais espessa. "E se não" — não se assemelha a um utensílio, e a Guemará explica isso.
Por quê é assim? Sem o nó, é um utensílio de madeira simples (peshutei klei etz), e utensílios de madeira simples não recebem impureza. Qual é a razão? Precisamos de algo semelhante a um saco (para receber impureza). Ensinou-se em nome de Rabi Nechemya: no momento em que revira as azeitonas com ela, revira-a e olha para dentro dela.
A Guemará explica por que a cana sem nó não recebe impureza: sem essa cavidade fechada, é apenas madeira lisa, e a categoria de "utensílios de madeira simples" está isenta de impureza, pois se exige uma cavidade que efetivamente receba e contenha algo, como um saco. Rabi Nechemya explica a função prática do nó: ao revirar as azeitonas com a cana, um pouco do azeite que escorre delas fica retido na cavidade fechada pelo nó, e o dono examina esse azeite retido para verificar se as azeitonas já amadureceram o suficiente para serem prensadas — o que constitui, para essa cavidade, uma verdadeira função de "receber".
Guemará: "Por quê" — ainda que haja nele um nó em sua ponta, e admitamos que o nó o torne um utensílio, contudo é um utensílio de madeira simples, pois, ainda que seja oco, sua cavidade não é feita para receber coisa alguma. "Revira-a e olha" — na cavidade de sua ponta, onde fica retido, por estar tapada pelo nó, um pouco do azeite que escorre das azeitonas, e verifica com isso se já chegaram ao ponto de serem prensadas — e essa é, para ele, uma forma de recepção em sua cavidade. E se não — se não há nó em sua ponta —, o azeite não aparece ali, porque a cana não está tapada e é toda oca; por isso não é feita para receber, e é um utensílio de madeira simples. "De qualquer modo" — pode ser manuseada em Shabat, pois é um utensílio para revirar com ele as azeitonas.
Rabi Yossei diz: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, exceto a serra grande e o pino do arado.
Uma nova Mishná traz a opinião de Rabi Yossei, mais permissiva do que as posições anteriores discutidas ao longo do capítulo: em regra, todos os utensílios — mesmo aqueles cuja função principal é proibida — podem ser manuseados em Shabat para qualquer necessidade, exceto dois casos extremos: a serra grande, feita para cortar vigas, e o pino do arado, um instrumento de lâmina grande usado para abrir o sulco, ambos tão especificamente cuidados por seus donos que lhes é reservado um lugar fixo, excluindo-os de qualquer outro uso.
Mishná: "A serra grande" — uma serra grande feita para cortar vigas. "E o pino do arado" — é um utensílio grande, feito como uma faca, com o qual se abre o sulco do arado; em francês antigo, "coltre"; pois com estes utensílios o dono é cuidadoso e lhes reserva um lugar fixo, já que não servem para outra tarefa.
Disse Rav Nachman: este utensílio dos lavadores (ukhla dekatzarei) assemelha-se ao pino do arado.
Rav Nachman acrescenta à lista da Mishná um terceiro exemplo: o utensílio de cobre dos lavandeiros, cheio de furos como uma peneira, usado para aspergir água sobre as roupas (ou, segundo outra explicação, para deixá-las se perfumarem por meio de fumaça que passa através dos furos). Por ser um utensílio especializado e cuidadosamente conservado, assemelha-se ao pino do arado quanto a ficar excluído do manuseio geral.
Guemará: "O utensílio dos lavadores" — um utensílio de cobre feito como uma peneira, cheio de furos, pertencente aos lavandeiros; colocam-no sobre as roupas e aspergem água sobre elas através dele. E há quem explique que fumigam por baixo dele, e as roupas ficam colocadas sobre ele, perfumando-se pelos furos.
Disse Abaie: a faca dos sapateiros, a faca do açougue e o machado dos carpinteiros assemelham-se ao pino do arado.
Abaie acrescenta ainda mais três exemplos de utensílios de artesãos especializados que, por precisarem de fio ou têmpera constantemente cuidados, também são excluídos do manuseio geral, tal como o pino do arado: a faca dos sapateiros (ou correeiros), a faca usada nos açougues para cortar carne, e o machado dos carpinteiros.
"A faca dos sapateiros" — faca dos correeiros. "E a faca do açougue" — faca da casa de açougue, com a qual os açougueiros cortam a carne. "O machado" — em francês antigo, "doloire"; com todos estes o dono é cuidadoso, porque se cegam facilmente, e por isso lhes reserva um lugar com as mãos.
Ensinaram os sábios: no início, diziam que três utensílios podem ser manuseados em Shabat: o formão do bolo de figos prensados, a colher grande de tirar a sujeira da panela, e a faquinha que fica sobre a mesa. Permitiram, e voltaram a permitir, e voltaram a permitir, até que disseram: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, exceto a serra grande e o pino do arado.
Uma baraita traz a história por trás dessa liberação: originalmente, num período de maior rigor, só se permitia manusear três utensílios de uso muito frequente. Com o tempo, à medida que a comunidade se tornava mais cuidadosa com as demais proibições de Shabat, os sábios foram progressivamente ampliando a permissão, em sucessivas etapas, até chegarem à regra final de Rabi Yossei: todos os utensílios podem ser manuseados, com exceção apenas da serra grande e do pino do arado.
"Três utensílios" — e mais nenhum; e mais adiante diremos que, nos dias de Neemias filho de Hachalia, no Segundo Templo, decretaram sobre o manuseio de todos os utensílios, a fim de erguer uma cerca de reforço às proibições de Shabat, porque estavam sendo leves com elas. "O formão" — o buril com que se corta o bolo de figos prensados; traduzimos "ya'assehu bamaktzuot" (Isaías 44:13) como "com seus buris". "Colher grande de tirar a sujeira" — uma colher grande com a qual se retira a sujeira da panela. "E a faquinha" — com a qual se corta pão e carne, e se come; pois estes são de uso frequente. "Permitiram" — mais, quando viram que voltaram a ser um pouco cuidadosos com a proibição de Shabat; e voltaram a permitir quando a comunidade foi ainda mais cuidadosa; e voltaram a permitir; e mais adiante se explica o que significam todas essas permissões. "Até que disseram" — voltaram a permitir tudo, até que disseram: tudo pode ser manuseado, exceto a serra grande etc.
O que significa "permitiram, e voltaram a permitir, e voltaram a permitir"?
A Guemará pergunta o conteúdo exato de cada uma dessas três etapas sucessivas de liberação mencionadas na baraita, o que dará origem a duas explicações distintas, de Abaie e de Rava.
Disse Abaie: permitiram manusear um objeto cuja função é permitida, para sua própria necessidade; e voltaram a permitir um objeto cuja função é permitida, para a necessidade de seu lugar; e voltaram a permitir um objeto cuja função é proibida — para sua própria necessidade, sim; para a necessidade de seu lugar, não. E ainda: com uma só mão, sim; com as duas mãos, não — até que disseram: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, e até mesmo com as duas mãos.
Abaie propõe uma sequência de cinco etapas, encaixadas nas três permissões da baraita: primeiro, permitiu-se manusear um objeto de função permitida para sua própria necessidade; depois, o mesmo objeto também para a necessidade de seu lugar; depois, um objeto de função proibida, mas só para sua própria necessidade, não para a de seu lugar; e ainda restringia-se a uma só mão, até por fim se permitir com as duas mãos. Rashi nota que, ao propor essa explicação, Abaie retrata-se aqui de uma posição que aceitara de Rabah em 123a — de que um objeto de função proibida, como o martelo de ferreiros, é permitido para sua própria necessidade sem qualquer restrição adicional dessa ordem.
"Permitiram" — manusear um objeto cuja função principal, em dia de semana, é para um fim permitido, para algo permitido em Shabat; permitiram manuseá-lo para sua própria necessidade, se se precisou usar o próprio corpo do utensílio, mas não por se precisar de seu lugar. "E voltaram a permitir" — estes mesmos, para a necessidade de seu lugar. "E voltaram a permitir também aquele cuja função é proibida" — e se precisou dele em Shabat para seu próprio corpo, para uma tarefa permitida; mas não foram permitidos estes para a necessidade de seu lugar. "Todos os utensílios" — estes que dissemos, exceto a serra grande, que não é permitida nem para sua própria necessidade nem para a de seu lugar; e Abaie, que assim explica, retrata-se aqui perante Rabah, que disse acima que ensinamos sobre o martelo dos ferreiros que um objeto cuja função é proibida é permitido para sua própria necessidade.
Disse-lhe Rava: mas "permitiram" foi ensinado já na primeira permissão — que diferença faz para mim se é para sua própria necessidade ou para a necessidade de seu lugar? Ambos são igualmente uma necessidade! Antes, disse Rava: permitiram um objeto cuja função é permitida, tanto para sua própria necessidade quanto para a necessidade de seu lugar; e voltaram a permitir do sol para a sombra. E voltaram a permitir um objeto cuja função é proibida — para sua própria necessidade e para a de seu lugar, sim; do sol para a sombra, não. E ainda: por uma pessoa, sim; por duas pessoas, não — até que disseram: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, mesmo por duas pessoas.
Rava rejeita a explicação de Abaie: se a baraita já diz "permitiram" na primeira etapa, não há razão para distinguir entre a necessidade do próprio corpo do utensílio e a necessidade de seu lugar, pois ambas são igualmente "uma necessidade". Rava propõe outra sequência: primeiro, permitiu-se um objeto de função permitida tanto para sua necessidade própria quanto para a de seu lugar; depois, o mesmo mesmo objeto até "do sol para a sombra" — isto é, por mero cuidado de protegê-lo, sem qualquer necessidade real; depois, um objeto de função proibida para sua necessidade própria e a de seu lugar, mas ainda não do sol para a sombra; e ainda restringia-se a uma só pessoa, até por fim se permitir mesmo por duas pessoas juntas.
Disse-lhe Rava: mas — para uma necessidade permitiram já na primeira vez. "Que diferença faz para mim se é seu corpo ou seu lugar" — ambos são igualmente uma necessidade. "Do sol para a sombra" — quando não se precisa dele agora nem para seu corpo nem para seu lugar, mas apenas se tem pena dele, para que não rache ao sol. "Até que disseram" — esta é ainda outra permissão: todos os utensílios, mesmo os grandes; mas, conforme estabelecemos, o de função permitida vale mesmo do sol para a sombra, e o de função proibida, para sua própria necessidade ou a de seu lugar.
Objetou-lhe Abaie: não ensinamos que um pilão — se há nele alho, pode-se manuseá-lo; e se não, não se pode manuseá-lo? Se o pilão é de função proibida, deveria ser permitido para sua própria necessidade! Respondeu Rava: aqui, do que tratamos? Do sol para a sombra. Objetou-lhe ainda: e ambos (Bet Shamai e Bet Hilel) concordam que, se se cortou com ele carne, é proibido manuseá-lo depois? Respondeu Rava: aqui também, do sol para a sombra.
Abaie traz de volta as mesmas duas objeções já discutidas em 123a — a respeito do pilão de alho e do pilão-de-mão usado para cortar carne em Yom Tov — mas agora contra a posição de Rava, e não contra a de Rabah: se um objeto de função proibida é permitido para sua própria necessidade (como Rava sustenta ali ter sido a segunda etapa da liberação), por que essas fontes proíbem seu manuseio uma vez esgotada sua função original? Rava responde, em ambos os casos, que essas fontes tratam apenas da situação "do sol para a sombra" — quando não há necessidade real, apenas o cuidado de proteger o objeto —, o que, segundo sua própria sequência, ainda não havia sido permitido nessa etapa. Rashi observa que essa resposta funciona bem para Rava, que já havia distinguido "do sol para a sombra" como uma etapa à parte, mas não se aplicaria da mesma forma à posição de Abaie.
"Não se pode manuseá-lo" — está bem para mim (Rava), que digo que "não se manuseia" refere-se à necessidade de seu lugar; mas para ti (Abaie), por que seria proibido?
Disse Rabi Chanina: nos dias de Neemias filho de Hachalia foi ensinada esta mishná (a que restringia a apenas três utensílios), pois está escrito: "Naqueles dias, vi em Judá homens pisando lagares em Shabat, e trazendo os montões de grãos" (Neemias 13:15).
Rabi Chanina situa historicamente a mishná restritiva original — "no início diziam que três utensílios podem ser manuseados, e mais nenhum" — nos dias de Neemias filho de Hachalia, no período do Segundo Templo. Ele traz como prova o versículo em que Neemias repreende o povo por pisar os lagares e trazer os montões de grãos em pleno Shabat: diante desse relaxamento generalizado das leis de Shabat, os sábios daquela geração decretaram uma cerca restritiva, limitando o manuseio a apenas três utensílios de uso indispensável, cerca que só mais tarde, com o retorno da comunidade ao cuidado religioso, foi sendo progressivamente afrouxada até a permissão final de Rabi Yossei.
"Esta mishná" — a de acima, "no início diziam: três utensílios, e mais nenhum", porque estavam sendo desrespeitosos com os Shabats, como está escrito: "naqueles dias..." etc.
Disse Rabi Elazar: as canas, os bastões, a glustra e o pilão — todos foram ensinados antes da liberação dos utensílios.
Rabi Elazar identifica quatro mishnayot conhecidas — sobre as canas do arranjo dos pães da proposição, os bastões usados nas ofertas pascais, a glustra (um instrumento não detalhado nesta passagem) e o pilão de alho já discutido em 123a — como tendo sido ensinadas antes da etapa final de liberação geral dos utensílios (a de Rabi Yossei, ou a última etapa segundo Abaie e Rava), pois todas restringem o manuseio de objetos de função permitida à sua própria necessidade, sem estender a permissão à necessidade de seu lugar.
"Canas e bastões" etc — são mishnayot, como se explica a seguir. "Antes da liberação dos utensílios" — antes da contagem final segundo a qual todos os utensílios foram permitidos para sua própria necessidade — segundo Abaie e Rava, até para a necessidade de seu lugar.
As canas — pois ensinamos: nem o arranjo das canas nem sua remoção têm precedência sobre o Shabat.
A primeira mishná citada por Rabi Elazar refere-se às canas colocadas entre os pães da proposição no Templo, para separá-los e permitir a passagem do ar entre eles, evitando que mofassem. Essa mishná ensina que nem colocar as canas nem retirá-las tem precedência sobre o Shabat — ou seja, não se pode arrumá-las ou removê-las em Shabat mesmo que isso seja necessário para a disposição do pão —, mostrando que, mesmo sendo um objeto de função permitida, seu manuseio ainda era restrito à sua própria necessidade, sem alcançar o manuseio de sua colocação ou remoção do arranjo.
"Nem o arranjo das canas" — que colocavam na disposição dos pães da proposição, entre um pão e outro, para separá-los, a fim de que o ar entrasse entre eles e não mofassem. "Nem sua remoção" — da disposição antiga. "Tem precedência sobre o Shabat" — mas entra na véspera de Shabat e retira as canas, e no dia seguinte remove a disposição antiga e arruma a nova sem as canas, e à saída do Shabat entra e coloca as canas entre eles; esta mishná foi ensinada antes da primeira permissão, pois sua função é permitida, e contudo se proíbe seu manuseio para sua própria necessidade.
Os bastões — pois ensinamos: havia ali bastões finos e lisos, e o sacerdote coloca-o sobre seu ombro e sobre o ombro de seu companheiro, e pendura e esfola a oferta pascal. Disse Rabi Elazar: quando o dia catorze de Nissan cai em Shabat, coloca...
A segunda mishná citada por Rabi Elazar refere-se ao procedimento das ofertas pascais no Templo: usavam-se bastões finos e lisos, apoiados sobre os ombros de dois sacerdotes, para pendurar os cordeiros e esfolá-los. Como esses bastões são de função permitida mas seu manuseio, segundo essa mishná mais antiga, ainda era restrito, Rabi Elazar passa a explicar o procedimento alternativo quando o próprio dia catorze de Nissan — véspera de Pessach, quando se abatem as ofertas pascais — cai em Shabat, o que exigiria evitar o manuseio proibido dos bastões. O daf termina exatamente no meio dessa explicação.
"Havia ali bastões finos e lisos" — no pátio do Templo, na mishná que trata de Pessach quando o catorze cai em dia de semana.