Terceira halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (todos os utensílios). A Mishná ensina que a vara usada no trabalho das azeitonas, se tem um nó na ponta, recebe impureza como utensílio, e, se não, não recebe; de um modo ou de outro, é movida no Shabat. A guemará traz a explicação dos da casa de Rabi Yanai: é a vara com que se examinam as azeitonas, para saber se o trabalho do maatan (o tanque das azeitonas) se completou; e a de Rabi Mana, segundo quem Shmuel ensinou que é a vara com que se tiram as azeitonas. Passa então à vara preparada para tampar a janela, que se usa se está amarrada e pendurada, e, segundo Raban Shimon ben Gamliel, basta que esteja preparada; contrapõe a isso a tranca da casa de Rabi que Rabi Yochanan viu, amarrada mas não pendurada, e conclui com Rabi Yudan: a tranca que se tira e se toma na mão é como uma chave. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 123b.
Mishná: Uma kané (vara) de azeitonas, se há um nó na sua ponta, recebe tumá (impureza), como utensílio; e, se não, não recebe impureza como utensílio. De um modo ou de outro, é movida no Shabat.
Os da casa de Rabi Yanai dizem: trata-se de uma vara que ele preparou para examinar com ela as azeitonas. Como ele sabia? Se a vara estava suja de líquido, é sabido que se completou o trabalho do maatan (o tanque em que se amontoam as azeitonas); e, se não, é sabido que não se completou o trabalho do maatan. Disse-lhe Rabi Mana: Shmuel não ensinou senão que a preparou para tirar com ela as azeitonas do maatan.
Quanto a uma vara que ele preparou para tampar com ela a janela, diremos: se estava amarrada e pendurada, tampa-se com ela a janela no Shabat; e, se não, não se tampa com ela. Raban Shimon ben Gamliel diz: se está preparada, tampa-se com ela, ainda que não esteja amarrada e pendurada.
E não disse assim Rabi Yochanan: puxou-me Chilfai e mostrou-me um neguer (tranca) dos da casa de Rabi, que estava amarrado, ainda que não estivesse pendurado? Disse Rabi Yudan: desde que ele o tirou da porta e o pôs na sua mão, tornou-se a tranca como uma chave.
Esta é a terceira halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 17:3 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “uma vara de azeitonas” até “é movida no Shabat”. No Bavli, a mesma Mishná está em Shabbat 123b, e a sua guemará ocupa o mesmo daf. As diferenças de redação são só de grafia e vocalização: o Yerushalmi escreve טוּמְאָה, com vav, onde a avulsa escreve טֻמְאָה; יֶשׁ, onde a avulsa vocaliza יֵשׁ; e נִיטָּל בַּשַּׁבָּת, onde a avulsa diz נִטָּל בְּשַׁבָּת; a avulsa tem ainda vírgulas onde o Yerushalmi tem pontos. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é toda a guemará; a seção 01 contém esse segundo segmento inteiro, dividido em três pares de hebraico e português, e nada foi deixado de fora. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Nesta halachá não há marcador embutido de folha das edições de Veneza ou de Vilna, nem colchetes ou parênteses no hebraico. Mantivemos como estão no Sefaria as grafias וִאִי לֹא e וִאִילֹא, com chiriq sob o vav, לִהְיוּת, com shuruk, e לִהיוֹת, sem vogal no he.
Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 123b, a guemará pergunta por que a vara recebe impureza, se é um utensílio de madeira plano, e os utensílios de madeira planos não recebem impureza, pois se exige algo semelhante ao saco; e responde com o que se ensinou em nome de Rabi Nechemia: quando revolve as azeitonas, ele vira a vara e olha nela. A regra está na Mishná Kelim 2:1: os utensílios de madeira, de couro, de osso e de vidro, os planos são puros, e os que têm receptáculo são impuros. O maatan aparece na Mishná Tahorot 9:1: as azeitonas recebem impureza “desde que suem o suor do maatan”, segundo Beit Shammai, e Raban Gamliel diz “desde que se complete o seu trabalho”. A vara preparada para fechar está na Tosefta Shabbat 14:3 (ed. Lieberman): “uma vara que o dono da casa preparou para abrir e fechar com ela”, se está amarrada e pendurada, abre-se e fecha-se com ela, e, se não, não; Raban Shimon ben Gamliel diz: se está preparada, ainda que não amarrada e ainda que não pendurada. No Bavli, Shabbat 126a, a mesma baraita é trazida como apoio na discussão sobre a tranca, com Raban Shimon ben Gamliel dizendo “ainda que não esteja amarrada”. A Mishná avulsa Shabbat 17:7 traz a disputa sobre o tampão da janela: Rabi Eliezer diz que se tampa com ele quando está amarrado e pendurado, e os sábios, que de um modo ou de outro. A palavra de Rabi Yochanan sobre Chilfai e a tranca da casa de Rabi volta no Yerushalmi, Shabbat 17:7, e em Eruvin 10:10, na numeração do Sefaria, ali como resposta à pergunta “o que é a tranca”.
Observações de leitura. Os comentaristas do Yerushalmi explicam que as azeitonas eram amontoadas no maatan para que o óleo se juntasse nelas, e que com a vara se examinava se já estavam prontas para a prensa; o nó na ponta, como o de uma pena de junco, retém um pouco do líquido, e por isso é como um receptáculo, e a vara recebe impureza. Entendemos que os da casa de Rabi Yanai explicam a Mishná assim: a vara foi preparada para o exame, e o líquido no nó mostra que o trabalho do maatan se completou. Rabi Mana responde que Shmuel ensinou que a vara serve para tirar as azeitonas, e, segundo o Penei Moshe, isso ensina que mesmo sem ser feita para o exame a vara com nó é utensílio; o texto não diz a quem Rabi Mana responde, e não o identificamos. A palavra נֵימַר, “diremos”, pode ser lida como pergunta, “diremos que se usa só se está amarrada e pendurada?”, ou como afirmação; o hebraico do Sefaria pontua com ponto, e assim traduzimos. A pergunta de Rabi Yochanan põe a tranca da casa de Rabi, amarrada mas não pendurada, contra as duas opiniões da baraita: contra a primeira, que exige amarrada e pendurada, e contra Raban Shimon ben Gamliel, que não exige nem uma coisa nem outra. Rabi Yudan responde que, como a tranca se tira e se toma inteira na mão, ela é como uma chave, que se move no Shabat; o Penei Moshe entende que a tranca estava amarrada por acaso, e que a halachá segue Raban Shimon ben Gamliel; o Korban HaEdah, que ainda assim é preciso que esteja amarrada, porque não é de fato uma chave. Não decidimos entre as duas leituras. “Rabi”, sem nome, é Rabi Yehudá HaNassi. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz מְלֶאכֶת הַמַּעֲטָן por “the work of loading”, o trabalho de carregar; seguimos os comentaristas, que entendem o maatan como o tanque em que as azeitonas são amontoadas, e mantivemos a palavra hebraica. Ele traduz שׁוֹלֶה בוֹ הַזֵּיתִין por “fishing out olives”, e nós por “tirar com ela as azeitonas”. Ele lê נֵימַר como pergunta e põe a palavra de Raban Shimon ben Gamliel entre aspas, como citação da baraita; seguimos a pontuação do hebraico. Ele escreve “Rebbi Yannai”, “Rebbi Mana”, “Samuel”, “Rabban Simeon ben Gamliel”, “Rebbi Joḥanan”, “Ḥilfai” e “Rebbi Yudan”; mantivemos “Rabi Yanai”, “Rabi Mana”, “Shmuel”, “Raban Shimon ben Gamliel”, “Rabi Yochanan”, “Chilfai” e “Rabi Yudan”, como nas halachot anteriores deste tratado. Das suas remissões, foram conferidas e estão corretas as do Bavli, Shabbat 126a, da Tosefta Shabbat 14:3 (ed. Lieberman), e do Yerushalmi, Shabbat 17:7 e Eruvin 10:10.