Segunda halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim (todos os utensílios). A Mishná ensina que se pega no Shabat um utensílio de trabalho para um uso permitido: o kurnas (martelo) para quebrar nozes, o machado para cortar o bolo de figos, a serra para o queijo, o ancinho para os figos secos, a pá e o forcado para dar comida à criança, o fuso e a lançadeira para espetar, a agulha de mão para tirar o espinho e a dos fabricantes de sacos para abrir a porta. A guemará deduz que, não sendo para esse uso, não se pega, e atribui a Mishná a Rabi Nechemia, para quem os utensílios não se movem sem necessidade; traz a palavra de Rabi Chinena bar Shelemya em nome de Rav sobre a prensa, a tábua de bater e o pilão, em que os sábios concordam com Rabi Nechemia; distingue o utensílio destinado ao uso proibido do destinado ao permitido, e contrapõe, com Rabi Yossi e Rabi Lazar, a leniência do Shabat ao rigor da impureza, que torna impuras a delfiki (a mesa de três pés) e a sua base; por fim, a partir do fuso e da agulha, trata do kilorit (colírio) no Shabat, com Rabi Abahu e Rav Sheshet, e no dia festivo, com Rabi Mana. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 122b.
Mishná: Uma pessoa pega, no Shabat, um kurnas (martelo) para quebrar com ele nozes; um machado para cortar com ele a develá (bolo de figos secos); uma serra para raspar com ela o queijo; um ancinho para juntar com ele os figos secos; a rachat (pá) e o malguez (forcado) para pôr sobre ele comida para a criança; o kush (fuso) e o karkar (lançadeira) para espetar com ele a comida; a agulha de mão para tirar com ela o espinho, e a agulha dos fabricantes de sacos para abrir com ela a porta.
“Uma pessoa pega um kurnas para quebrar com ele nozes.” Portanto, não para quebrar com ele nozes, não se pega. A matnita (a Mishná) é de Rabi Nechemia, pois disse Rabi Nechemia: os utensílios não são movidos sem necessidade.
Rabi Ba, Rabi Yudá, Rabi Chinena bar Shelemya em nome de Rav: os sábios concordam com Rabi Nechemia quanto à zayará (a prensa), à mezorá (a tábua de bater) e à mechuná (o pilão), que não se movem sem necessidade. A zayará, porque ele espreme com ela; a mezorá, porque ele bate com ela; a mechuná, porque ele esmaga com ela.
Um utensílio destinado ao uso proibido move-se para uma necessidade; um destinado ao uso permitido, tanto para uma necessidade quanto sem necessidade. Disse Rabi Yossi: vê até onde os sábios foram lenientes no Shabat, que mesmo coisas cujo uso não é próprio para o Shabat, permitiram-nas para o uso do Shabat.
É como disse Rabi Lazar: a delfiki (a mesa de três pés), por que ela é impura? Porque o shamash (servente) come sobre ela. A sua base, por que é impura? Porque o shamash fica de pé sobre ela. Vê até onde os sábios foram rigorosos na impureza, que mesmo coisas cujo uso não é próprio para mesa, declararam-nas impuras a título de mesa.
“A pá e o forcado para pôr sobre ele comida para a criança; o fuso e o karkad (lançadeira) para espetar com ele.” Disse Rabi Simon: permitiu-me Rabi Abahu tomar kilorit (colírio) para os olhos no Shabat. Rabi Ba bar Kohen disse em nome de Rav Sheshet: a Mishná diz assim, pois ensina: “a agulha de mão para tirar com ela o espinho”; pois, se não fosse assim, que diferença há entre o espinho e isto, o colírio?
Rabi Ba perguntou diante de Rabi Mana: pode-se amassá-la no Yom Tov (dia festivo)? Disse-lhe: não é ochel nefesh (alimento da pessoa).
Esta é a segunda halachá do Perek Yud-Zayin de Massechet Shabbat, Kol HaKelim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 17:2 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “uma pessoa pega um martelo” até “para abrir com ela a porta”. No Bavli, a mesma Mishná está em Shabbat 122b, e a sua guemará segue de 122b a 123b. As diferenças de redação são pequenas. O Yerushalmi diz לִפְצּוֹעַ בּוֹ אֱגוֹזִים, “para quebrar com ele nozes”, onde a avulsa diz לְפַצֵּעַ בּוֹ אֶת הָאֱגוֹזִים, “as nozes”, com artigo; קִירְדּוֹם לַחְתּוֹךְ בּוֹ, onde a avulsa diz וְקֻרְדֹּם לַחְתֹּךְ, com vav e sem “com ele”; לַגּוֹר, onde a avulsa diz לִגְרֹר, ambos “raspar”; הַמַּלְגֵּז, “o forcado”, como no Bavli, onde a avulsa diz הַמַּזְלֵג, “o garfo”; לִיטּוֹל בָּהּ, no feminino, onde a avulsa diz לִטֹּל בּוֹ; e סַקָּאִין, onde a avulsa escreve סַקָּאִים; as demais são de grafia e vocalização. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os quatro seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 04 é o quinto. Os segmentos das seções 03 e 04 aparecem em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Tiramos também o marcador embutido da coluna 16b da edição de Veneza (na seção 01) e o do início da folha 83a da edição de Vilna (na seção 03), que não fazem parte do texto. Nesta halachá o hebraico não tem colchetes nem parênteses; mantivemos como estão no Sefaria a grafia בְּזַַיָירָא, com dois patach, na seção 02, e לקָּטָן, sem vogal no lamed, na seção 04.
Referências conferidas. A opinião de Rabi Nechemia está na Mishná avulsa, Shabbat 17:4: “todos os utensílios são movidos para uma necessidade e sem necessidade; Rabi Nechemia diz: não são movidos senão para uma necessidade”; no Bavli, essa Mishná está em Shabbat 124a, onde Rabba e Rava discutem o que é “para uma necessidade” e “sem necessidade”, com as categorias do utensílio cuja função é proibida e do utensílio cuja função é permitida, para a necessidade do próprio utensílio, para a necessidade do seu lugar, ou para tirá-lo do sol para a sombra. A Tosefta Shabbat 14:1 (ed. Lieberman) traz Rabi Nechemia dizendo “mesmo o manto, mesmo a concha, não são movidos senão para uma necessidade”, e Rabi Lazar dizendo que Beit Shammai dizem “não são movidos senão para uma necessidade”, e Beit Hillel, “para uma necessidade e sem necessidade”. No Bavli, Shabbat 122b, Rav Yehudá explica que a Mishná fala do martelo próprio para nozes, e Rabba, do martelo dos ferreiros; em Shabbat 123a, Rabba atribui a Rabi Nechemia a baraita do almofariz, que só se move quando tem alho dentro; e, sobre o eli, o pilão em que se corta carne, a guemará traz a palavra de Rav Chinena bar Shelemya em nome de Rav: “todos concordam” quanto aos sikei, zayarei e mezorei, porque o dono é cuidadoso com eles e lhes reserva um lugar; e Rashi ali os explica como utensílios de tintureiros. A palavra de Rabi Chinena bar Shelemya tem paralelo no Yerushalmi, Beitzah 1:6, na numeração do Sefaria, sobre o mesmo eli para cortar carne no Yom Tov: ali o nome aparece como רבי (בא) חיננה בר שלמיה, com “Ba” entre parênteses, e os utensílios são בזיירה ומזורה ובוכנה, com buchná em lugar de mechuná. A delfiki aparece com a mesa na Mishná Kelim 22:1–2, que trata da mesa e da delfiki que se quebraram ou perderam os pés. Rav Sheshet traz a mesma prova da agulha de mão no Bavli, Shabbat 123b, a respeito de endireitar os membros do recém-nascido no Shabat, e Rav Nachman a rejeita. Sobre o colírio, no Bavli, Shabbat 108b, Mar Ukva diz em nome de Shmuel que se molha o colírio na véspera do Shabat e se põe sobre os olhos no Shabat. A Mishná Meguilá 1:5 ensina que “entre o Yom Tov e o Shabat não há diferença senão o ochel nefesh”.
Observações de leitura. Na seção 01, a guemará deduz do “para quebrar com ele nozes” que não se pega o martelo sem esse uso, e por isso atribui a Mishná a Rabi Nechemia, para quem nada se move sem necessidade; o hebraico do Sefaria pontua a frase como afirmação, e assim traduzimos. Na seção 02, entendemos que a palavra de Rabi Chinena bar Shelemya limita a dedução: só nesses utensílios valiosos os sábios concordam com Rabi Nechemia, e por isso a Mishná pode ser também a dos sábios; o texto não o diz explicitamente. A identificação da zayará, da mezorá e da mechuná é incerta: Guggenheimer as entende como a prensa, a tábua e o maço do lagar de vinho, e Rashi, no Bavli, como utensílios de tintureiros; traduzimos pelos verbos do próprio texto, espremer, bater e esmagar. Na seção 03, o “utensílio destinado ao uso proibido” corresponde ao que o Bavli chama davar shemelachto le’issur, e o “destinado ao uso permitido”, ao davar shemelachto leheter. A delfiki é palavra grega, uma mesa de três pés sobre a qual se põe um tampo; não tem receptáculo, e ainda assim é impura como mesa, porque o servente come sobre ela, e a sua base, porque ele fica de pé sobre ela. A palavra טַבֶּלָּה, do latim tabula, traduzimos “mesa”. Entendemos que a guemará contrapõe as duas coisas: no Shabat os sábios foram lenientes, permitindo usar para o Shabat o que não é próprio dele; na impureza foram rigorosos, tornando impuro como mesa o que não é mesa; o texto não diz se a segunda frase é também de Rabi Yossi, e não a atribuímos. Na seção 04, o Yerushalmi escreve הַכַּרְכַּד, karkad, onde a sua Mishná diz karkar, como já na halachá 8:6. A ligação entre o fuso “para espetar” e o colírio não é explicada no texto; entendemos que tomar o colírio é permitido como uso semelhante, e que a prova de Rav Sheshet vem da agulha, que tira o espinho, pois não há diferença entre curar o olho e tirar o espinho. A palavra מֵיסַב, “tomar”, Guggenheimer traduz “aplicar”. A pergunta de Rabi Ba é se se pode amassar o colírio no Yom Tov, e a resposta é que não, porque no Yom Tov só se permite o trabalho do alimento, e o colírio não é alimento. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. A tradução de Guggenheimer no Sefaria divide o texto de outro modo: ela põe a frase do utensílio destinado ao proibido no fim do terceiro segmento; seguimos a divisão do hebraico. Na seção 01, ele traduz a atribuição a Rabi Nechemia como pergunta, “Is the Mishnah Rebbi Nehemiah’s”; seguimos a pontuação do hebraico. Na seção 02, ele põe entre parênteses “Rebbi Judah, Rebbi” e diz que essas palavras devem ser apagadas, com o apoio do paralelo de Beitzah, e escreve “Rebbi Abba”; seguimos o hebraico, “Rabi Ba, Rabi Yudá, Rabi Chinena bar Shelemya”. Ele escreve “Rebbi Eleazar” para רִבִּי לָעְזָר, e nós, “Rabi Lazar”, conforme o hebraico; “Rebbi Abba” para רִבִּי בָּא, e nós, “Rabi Ba”; e “Rebbi Abba bar Cohen”, “Rebbi Abbahu”, “Rebbi Yose” e “Rebbi Neḥemiah”; mantivemos “Rabi Ba bar Kohen”, “Rabi Abahu”, “Rabi Yossi” e “Rabi Nechemia”, como nas halachot anteriores deste tratado. Ele traduz מַלְגֵּז por “pitchfork”, e nós por “forcado”, e קִילוֹרִית por “eye salve”, e nós por “colírio”. Das suas remissões, foram conferidas e estão corretas as do Bavli, Shabbat 124a, e da Mishná Meguilá 1:5; o paralelo que ele chama Beitzah 1:5 está, na numeração do Sefaria, em Beitzah 1:6, e assim o citamos.