Talmud Bavli · Massechet Shabat · Encerra-se o Perek Tet-Zayin · Abre-se o Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim)
כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין

Completa-se a resposta sobre a maioria e o caso de Shmuel; encerra-se o Perek Kol Kitvei HaKodesh com o hadran; abre-se o Perek Kol HaKelim com a Mishná dos utensílios e suas portas, o martelo, o machado e demais ferramentas

Shabbat 122b · continua diretamente de 122a · Perek Tet-Zayin (conclusão) → Perek Yod-Zayin (abertura)

Shabbat 122b abre completando a frase com que terminou 122a: à segunda tentativa de objeção sobre a lâmpada acesa numa reunião mista, a Guemará responde que "com a maioria em mente é que a acendem" — assim como no caso da casa de banho, quando a maioria dos gentios aquece ou acende, fazem-no tendo em mente a maioria dos presentes, e daí a distinção entre maioria de gentios e maioria de israelitas. Rashi explica que, no caso de apenas um gentio e um israelita, quando o próprio gentio que acende também se serve da luz, presume-se que o fez com sua própria intenção em mente, e uma lâmpada para um é uma lâmpada para cem. Segue-se um caso concreto: Shmuel chegou à casa de Avi Toran, e um gentio acendeu ali uma lâmpada; Shmuel virou o rosto, evitando servir-se de sua luz, até perceber que o gentio trouxera um documento e o lia à luz dela — sinal de que a acendera com sua própria intenção em mente —, e então voltou o rosto para junto da lâmpada. Aqui encerra-se o Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh) com o hadran, e abre-se o Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim): a nova Mishná ensina que todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, e suas portas junto com eles, mesmo que se tenham soltado; que se pode tomar um martelo para quebrar nozes, um machado para cortar o bolo de figos prensados, uma serra para o queijo, um ancinho para os figos secos; a pá e o forcado para dar comida a uma criança pequena; o fuso e a lançadeira para espetar frutas macias; a agulha de mão para tirar um espinho, e a agulha de sacos para abrir uma porta. A Guemará questiona o sentido de "ainda que se tenham soltado", e Abaie explica que a Mishná fala de portas soltas em dia de semana. Uma baraita distingue a porta do armário, da arca e da torre — retiráveis, mas não recolocáveis, por decreto — da porta do galinheiro, presa ao solo, que nem se retira nem se recoloca, por envolver verdadeira construção e demolição; Abaie e Rava discordam sobre o fundamento dessa distinção. Rav Yehuda ensina que apenas o martelo de nozes, e não o de ferreiros, pode ser manuseado, pois um utensílio cuja função principal é proibida não se manuseia nem para sua própria necessidade permitida; Rabah objeta a partir da pá e do forcado, que também não são feitos exclusivamente para dar comida a uma criança, e começa a propor sua própria explicação sobre o martelo de ferreiros — o daf termina em pleno fluxo dessa resposta, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 123a (ainda não publicado), que abre completando a posição de Rabah: "um objeto cuja função é para um propósito proibido, para sua própria necessidade, é permitido."

Completa-se a resposta: com a maioria em mente é que a acendem · אַדַּעְתָּא דְרוּבָּא מַדְלְקִי

764Completa-se a resposta da Guemará: com a maioria em mente é que a acendem
Anônimo (Guemará)
אַדַּעְתָּא דְרוּבָּא מַדְלְקִי.

Com a maioria em mente é que a acendem.

Nota

Completa-se aqui a frase com que terminou 122a: a segunda tentativa de objeção — a lâmpada acesa numa reunião mista, proibida quando a maioria dos presentes é de israelitas — recebe a mesma resposta dada ao caso da casa de banho: quando os gentios acendem a lâmpada, fazem-no com a maioria dos presentes em mente. Por isso, quando essa maioria é de israelitas, a própria profanação do Shabat é, em certo sentido, feita por causa deles, e a permissão de servir-se da luz não se aplica.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ada'ata deruba"
אדעתא דרובא - הלכך ישראל עיקר ומחצה על מחצה נמי ליכא למיקם עלה דמלתא דאיכא למימר עיקר דעתיה דמדליק בשביל ישראל ואיכא למימר עיקר דעתיה דמדליק בשביל נכרי אבל נכרי וישראל והמדליק עצמו משתמש לאורה ודאי עיקר אדעתא דידיה עביד וכיון דנר לאחד נר למאה שרי:

"Com a maioria em mente" — por isso, quando a maioria é de israelitas, considera-se que ela é o fator principal; e também no caso de metade e metade não se pode determinar a questão, pois se poderia dizer que a intenção principal de quem acende é por causa do israelita, e também se poderia dizer que a intenção principal de quem acende é por causa do gentio. Mas quando há apenas um gentio e um israelita, e o próprio que acende também se serve de sua luz, certamente o principal é que ele o faz com sua própria intenção em mente; e, visto que uma lâmpada para um é uma lâmpada para cem, é permitido.

765Caso de Shmuel na casa de Avi Toran: virou o rosto da lâmpada até perceber que o gentio a acendera para ler seu próprio documento
Anônimo (Guemará); Shmuel
שְׁמוּאֵל אִיקְּלַע לְבֵי אֲבִי תוֹרָן. אֲתָא הָהוּא גּוֹי אַדְלֵיק שְׁרָגָא. אַהְדְּרִינְהוּ שְׁמוּאֵל לְאַפֵּיהּ. כֵּיוָן דַּחֲזָא דְּאַיְיתִי שְׁטָר וְקָא קָרֵי, אָמַר: אַדַּעְתָּא דְנַפְשֵׁיהּ הוּא דְּאַדְלֵיק. אַהְדְּרִינְהוּ אִיהוּ לְאַפֵּיהּ גַּבֵּי שְׁרָגָא.

Shmuel chegou à casa de Avi Toran. Veio aquele gentio e acendeu uma lâmpada. Shmuel virou o rosto dela. Quando viu que o gentio trouxera um documento e o lia, disse: com sua própria intenção em mente é que ele a acendeu. E ele (Shmuel) voltou o rosto de novo para junto da lâmpada.

Nota

Ilustra-se o princípio recém-estabelecido com um caso concreto: Shmuel, hóspede na casa de Avi Toran, viu um gentio acender ali uma lâmpada, e, por não saber se o fazia por sua própria conta ou por causa dele, virou o rosto para não se beneficiar de sua luz enquanto a dúvida persistisse. Assim que percebeu que o gentio trouxera um documento e o lia à luz da lâmpada, concluiu que a acendera com sua própria necessidade em mente, e voltou-se para junto dela, servindo-se de sua luz sem mais receio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "toran" e "de'aiyti shtar"
תורן - מקום: דאייתי שטר - ההוא דאדלקה:

"Toran" — é um lugar. "Que trouxera um documento" — aquele mesmo que a acendera.

Fim do Perek Tet-Zayin · Kol Kitvei HaKodeshהַדְרָן עֲלָךְ כׇּל כִּתְבֵי
Início do Perek Yod-Zayin · Kol HaKelimכׇּל הַכֵּלִים

Nova Mishná: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, e suas portas junto com eles · כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת

766Mishná (abertura do perek): todos os utensílios e suas portas; o martelo, o machado, a serra, o ancinho; a pá, o forcado, o fuso, a lançadeira, as agulhas
Mishná
מַתְנִי׳ כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת, וְדַלְתוֹתֵיהֶן עִמָּהֶן, אַף עַל פִּי שֶׁנִּתְפָּרְקוּ בַּשַּׁבָּת. שֶׁאֵינָן דּוֹמִין לְדַלְתוֹת הַבַּיִת, לְפִי שֶׁאֵינָן מִן הַמּוּכָן. נוֹטֵל אָדָם קוּרְנָס — לְפַצֵּעַ בּוֹ אֶת הָאֱגוֹזִין, קַרְדּוֹם — לַחְתּוֹךְ בּוֹ אֶת הַדְּבֵילָה. מְגֵירָה — לָגוֹר בָּהּ אֶת הַגְּבִינָה. מַגְרֵיפָה — לִגְרוֹף בָּהּ אֶת הַגְּרוֹגְרוֹת. אֶת הָרַחַת וְאֶת הַמַּלְגֵּז — לָתֵת עָלָיו לְקָטָן. אֶת הַכּוּשׁ וְאֶת הַכַּרְכֵּר — לִתְחוֹב בּוֹ. מַחַט שֶׁל יָד — לִיטּוֹל בּוֹ אֶת הַקּוֹץ. וְשֶׁל סַקָּאִים — לִפְתּוֹחַ בּוֹ אֶת הַדֶּלֶת.

Todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, e suas portas junto com eles, ainda que se tenham soltado em Shabat; pois não são semelhantes às portas da casa, porque estas não são do que foi preparado de véspera. A pessoa pode tomar um martelo para quebrar com ele as nozes; um machado para cortar com ele o bolo de figos prensados; uma serra para cortar com ela o queijo; um ancinho para recolher com ele os figos secos. A pá e o forcado — para dar com eles comida a uma criança pequena. O fuso e a lançadeira — para espetar com eles frutas macias. A agulha de mão — para tirar com ela o espinho. E a agulha de sacos — para abrir com ela a porta.

Nota — nova Mishná; novo capítulo

Esta Mishná abre o décimo sétimo capítulo de Shabat, "Kol HaKelim" (Todos os utensílios), dedicado às leis de manuseio (tiltul) de utensílios em Shabat — quais podem ser deslocados, e para que funções. A regra geral é que todo utensílio pode ser manuseado em Shabat, e as portas que lhe pertencem (do armário, da arca, da torre) são manuseadas junto com ele, mesmo que se tenham soltado, pois, ao contrário das portas da casa — que não são utensílios, e por isso nunca estiveram "preparadas" para o manuseio —, as portas dos móveis são consideradas utensílios por dependerem de seu "pai", o móvel a que pertencem. Segue-se uma lista de ferramentas que, embora destinadas primariamente a um trabalho proibido, podem ser tomadas para usos alternativos permitidos: o martelo para quebrar nozes, o machado para cortar o bolo de figos prensados (muito duro), a serra para cortar queijo, o ancinho para recolher figos secos dos barris; a pá e o forcado (usados normalmente na eira) para dar comida a uma criança pequena; o fuso e a lançadeira (instrumentos de fiar e tecer) para espetar frutas macias como amoras; a agulha pequena de costurar roupas para tirar um espinho da pele; e a agulha grande de costurar sacos para abrir uma porta cuja chave se perdeu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kol hakelim nitalin bashabat vedaltoteihen imahem" e "ve'af al pi shenitparku"
מתני' כל הכלים ניטלין בשבת ודלתותיהן עמהם - כל הכלים שיש להם דלתות כגון שידה תיבה ומגדל ניטלין בשבת ודלתות שיש להם בצדן עמהן ניטלין עמהן: ואע"פ שנתפרקו - הדלתות מן הכלים ניטלין ואין דומין לדלתות הבית שאין ניטלין לפי שדלתות הבית אינן מן המוכן לטלטל שאינן כלי אבל אלו הן כלי אגב אביהן:

"Mishná: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, e suas portas junto com eles" — todos os utensílios que têm portas, como o armário (shidá), a arca (tevá) e a torre (migdal), podem ser manuseados em Shabat; e as portas que têm ao seu lado são manuseadas junto com eles. "E ainda que se tenham soltado" — as portas dos utensílios também podem ser manuseadas, e não são semelhantes às portas da casa, que não podem ser manuseadas, porque as portas da casa não são do que foi preparado para o manuseio, pois não são utensílios; mas estas (as portas dos móveis) são utensílios, por dependência de seu "pai" (o móvel a que pertencem).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kurnas", "develá", "umegirá", "lagor bah et hagevinah", "magrefá" e "ligrof bah et hagerogarot"
קורנס - מרטי"ל: דבילה - מאחר שעשאה עיגול עבה היא מאד וקשה כגבינה וצריך קורדום לחותכה: ומגירה - כעין סכין ויש בו פגימות הרבה: לגור בה את הגבינה - לחתכו ולחלקו לפי שממהרת לחתוך דבר עב: מגריפה - וודי"ל: לגרוף בה את הגרוגרות - מן החביות:

"Kurnas" (martelo) — em francês antigo, "martel". "Develá" (bolo de figos prensados) — visto que a fizeram em forma de disco, é muito espessa e dura como queijo, e é necessário um machado para cortá-la. "E serra" — semelhante a uma faca, mas com muitos dentes. "Para cortar com ela o queijo" — para cortá-lo e dividi-lo, pois a serra corta rapidamente uma coisa espessa. "Ancinho" — em francês antigo, "vodil". "Para recolher com ele os figos secos" — dos barris.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "rachat", "malgez", "latet alav lekatan", "kush", "karkar", "litchov bo", "machat shel yad" e "veshel sakaim"
רחת - פאל"א: מלגז - כמין עתר שקורין פורק"א של ברזל ולו ג' שיניים ומהפכין בו קש בגורן: לתת עליו לקטן - מזונות: כוש - פלך פושי"ל: כרכר - ראי"ל: לתחוב בו - לאכול בו תותים וכל פרי רך: מחט של יד - מחט קטן שתופר בו בגדים: ושל סקאים - מחט גדולה שתופרים בה שקים: לפתוח בו את הדלת - מי שאבד מפתחו:

"Rachat" (pá) — em francês antigo, "pá". "Malgez" (forcado) — semelhante a um ancinho chamado "forca" de ferro, com três dentes, com o qual se revolve a palha na eira. "Para dar com eles a uma criança pequena" — isto é, alimento. "Kush" (fuso) — em francês antigo, "fusil". "Karkar" (lançadeira) — em francês antigo, "rael". "Para espetar com ele" — para comer com ele amoras e toda fruta macia. "Agulha de mão" — uma agulha pequena, com a qual se costuram roupas. "E a de sacos" — uma agulha grande, com a qual se costuram sacos. "Para abrir com ela a porta" — para quem perdeu sua chave.

767Guemará: "ainda que se tenham soltado em Shabat" é surpreendente — deveria ser o oposto; Abaie explica: refere-se a soltas em dia de semana
Anônimo (Guemará); Abaie
גְּמָ׳ כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין, וְאַף עַל פִּי שֶׁנִּתְפָּרְקוּ בַּשַּׁבָּת, וְלָא מִיבַּעְיָא בְּחוֹל. אַדְּרַבָּה, בַּשַּׁבָּת מוּכָנִין עַל גַּבֵּי אֲבִיהֶן, בַּחוֹל אֵין מוּכָנִין עַל גַּבֵּי אֲבִיהֶן! אָמַר אַבָּיֵי, הָכִי קָאָמַר: כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת וְדַלְתוֹתֵיהֶן עִמָּהֶן. אַף עַל פִּי שֶׁנִּתְפָּרְקוּ בַּחוֹל — נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת.

Guemará. Do fato de a Mishná dizer "todos os utensílios podem ser manuseados", mesmo que se tenham soltado em Shabat, entender-se-ia que não é preciso dizer que também podem, se se soltaram em dia de semana. Ao contrário! Em Shabat, elas (as portas) já estavam preparadas por dependência de seu "pai" desde antes de entrar Shabat; em dia de semana, não estavam preparadas por dependência de seu "pai"! Disse Abaie: assim se deve entender o que ela diz: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, e suas portas junto com eles; mesmo que se tenham soltado em dia de semana, podem ser manuseadas em Shabat.

Nota

A Guemará questiona a expressão "ainda que se tenham soltado em Shabat": à primeira vista, pareceria que o caso mais difícil (que exige a expressão "ainda que") é justamente o de terem se soltado em Shabat, sendo óbvio que se soltas desde a véspera também seriam permitidas. Mas a Guemará observa que é o contrário: se as portas se soltaram em Shabat, elas já estavam "preparadas" por dependência do móvel desde antes de o Shabat começar, o que deveria facilitar sua permissão; ao passo que, se soltas em dia de semana, no momento em que entrou o Shabat elas já estavam soltas, sem essa dependência prévia estabelecida no momento crucial. Abaie resolve reformulando o sentido da Mishná: a expressão "ainda que se tenham soltado" não se refere ao caso de terem se soltado em Shabat (o caso fácil), mas ao caso mais difícil de já estarem soltas desde o dia de semana anterior — e mesmo assim são permitidas em Shabat, por dependerem do móvel.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "gemara vela mivaya bechol", "adrabah" e "hachi ka'amar"
גמ' ולא מיבעיא בחול - קא סלקא דעתך ואע"פ שנתפרקו אבשבת דקתני רישא קאי ומשמע אע"פ שנתפרקו היום מותרים ולא מיבעיא אם נתפרקו מאמש: אדרבה - מאי אע"פ שייך למתני הא ודאי נתפרקו בשבת איכא למישרי משום דכי קדיש יומא הוו מוכנין לטלטל אגב אביהן: הכי קאמר כו' - ואע"פ לא ארבותא דנתפרקו בשבת קאי אלא ארבותא דנתפרקו או בחול או בשבת קאי ולא מיבעיא כשהן מחוברין:

Guemará: "e não é preciso dizer, se em dia de semana" — vem à mente que a expressão "ainda que se tenham soltado" refere-se ao caso de terem se soltado em Shabat, mencionado no início da Mishná; e isso significa que, mesmo tendo se soltado hoje (no próprio Shabat), são permitidas, e não é preciso dizer que o são, se se soltaram desde ontem (véspera). "Ao contrário" — que sentido tem dizer "ainda que" na Mishná? Pelo contrário: se certamente se soltaram em Shabat, há motivo para permitir, porque, quando entrou o santo dia de Shabat, já estavam preparadas para o manuseio por dependência de seu "pai" (desde antes de se soltarem). "Assim ela diz" etc. — e a expressão "ainda que" não se refere ao caso extremo de terem se soltado em Shabat, mas ao caso extremo de terem se soltado ou em dia de semana ou em Shabat; e não é preciso dizer que são permitidas quando estão ainda presas.

768Baraita: a porta do armário, da arca e da torre — retiram-se mas não se recolocam; a do galinheiro — nem se retira nem se recoloca
Anônimo (baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: דֶּלֶת שֶׁל שִׁידָּה וְשֶׁל תֵּיבָה וְשֶׁל מִגְדָּל — נוֹטְלִין אֲבָל לֹא מַחֲזִירִין. וְשֶׁל לוּל שֶׁל תַּרְנְגוֹלִים — לֹא נוֹטְלִין וְלֹא מַחֲזִירִין.

Ensinaram os sábios: a porta do armário, da arca e da torre — podem ser retiradas, mas não recolocadas. E a porta do galinheiro — não pode ser retirada, nem recolocada.

Nota

Uma baraita distingue, entre os utensílios com portas mencionados na Mishná, dois graus de permissão. A porta do armário, da arca e da torre — objetos que, embora grandes, são considerados utensílios — pode ser retirada de suas dobradiças em Shabat, mas não recolocada, por decreto rabínico. Já a porta do galinheiro, por estar presa ao solo (o próprio galinheiro sendo uma construção fixa), não pode sequer ser retirada, e muito menos recolocada, pois recolocá-la equivale a uma verdadeira construção, e retirá-la, a uma verdadeira demolição — proibições da própria Torá, e não meros decretos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "notlin", "lul" e "lo notlin velo machzirin"
נוטלין - משמע מסלקין אותן בשבת [מהיתר] ציר שלהן: לול - בנין העשוי לתרנגולין: לא נוטלין ולא מחזירין - כדמפרש ואזיל חזרתו בנין ממש הוא וסילוקו סתירה גמורה היא:

"Podem ser retiradas" — significa que as tiram de seu lugar em Shabat, sendo permitido tirá-las de seu gonzo. "Galinheiro" — construção feita para as galinhas. "Não podem ser retiradas nem recolocadas" — como a Guemará passa a explicar: recolocá-la é como fazer uma verdadeira construção, e retirá-la é uma verdadeira demolição.

769Pergunta: o que a baraita entende quanto à porta do armário, da arca e da torre? Deveria ser: se há construção, há demolição, ou nenhuma das duas
Anônimo (Guemará)
בִּשְׁלָמָא שֶׁל לוּל שֶׁל תַּרְנְגוֹלִים, קָסָבַר: כֵּיוָן דִּמְחַבְּרִי בְּאַרְעָא — יֵשׁ בִּנְיָן בְּקַרְקַע יֵשׁ סְתִירָה בְּקַרְקַע. אֶלָּא שֶׁל שִׁידָּה וְשֶׁל תֵּיבָה וְשֶׁל מִגְדָּל, מַאי קָסָבַר? אִי קָסָבַר יֵשׁ בִּנְיָן בְּכֵלִים — יֵשׁ סְתִירָה בְּכֵלִים, וְאִי אֵין סְתִירָה בְּכֵלִים — אֵין בִּנְיָן בְּכֵלִים?

Está bem quanto à porta do galinheiro: a baraita entende que, visto que seus componentes estão presos ao solo, há o conceito de construção no solo, eo conceito de demolição no solo. Mas quanto à porta do armário, da arca e da torre, o que ela entende? Se ela entende que há o conceito de construção em utensílios, deveria haver também demolição em utensílios; e se não há demolição em utensílios, deveria também não haver construção em utensílios!

Nota

A Guemará compreende facilmente por que a porta do galinheiro nem se retira nem se recoloca: por estar presa ao solo, aplicam-se a ela as categorias plenas de construção e demolição próprias do solo. Mas quanto à porta do armário, da arca e da torre — objetos móveis, não presos ao solo —, a Guemará questiona qual o fundamento para permitir retirá-las (sinal de que não há demolição plena em utensílios) e, ao mesmo tempo, proibir recolocá-las (sinal de que há construção em utensílios). As duas posições parecem inconsistentes entre si: se há construção em utensílios, deveria haver também demolição, o que tornaria proibido retirá-las; e se não há demolição, deveria também não haver construção, o que tornaria permitido recolocá-las.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mai kasvar" e "i kasvar yesh binyan bechelim"
מאי קסבר - שמתיר סילוקו ואוסר חזרתו: אי קסבר יש בנין בכלים - וחזרתו בנין על כרחיך אם יש בנין יש סתירה ואמאי נוטלין:

"O que ela entende" — que a leva a permitir sua retirada e proibir sua recolocação. "Se ela entende que há construção em utensílios" — e recolocá-la é de fato uma construção — necessariamente, se há o conceito de construção, há o conceito de demolição; e então por que a baraita permite retirá-la?

770Abaie: a baraita entende que há construção e demolição em utensílios; fala apenas de portas já retiradas antes de Shabat
Abaie
אָמַר אַבָּיֵי: לְעוֹלָם קָסָבַר יֵשׁ בִּנְיָן בְּכֵלִים וְיֵשׁ סְתִירָה בְּכֵלִים, וְשֶׁנִּיטְּלוּ קָאָמַר.

Disse Abaie: na verdade, a baraita entende que há o conceito de construção em utensílios, e há o conceito de demolição em utensílios; e ela está falando de portas que já foram retiradas (antes de Shabat).

Nota

Abaie resolve a dificuldade afirmando que a baraita, na verdade, sustenta consistentemente que há tanto construção quanto demolição em utensílios — e por isso, em princípio, nem se deveria retirar nem recolocar tais portas em Shabat. Mas a baraita não está falando de retirar a porta durante o próprio Shabat; fala apenas de portas que já haviam sido retiradas antes de Shabat começar. Quanto a essas, permite-se manuseá-las (por já serem, tecnicamente, objetos soltos, e não parte fixa do móvel), mas proíbe-se recolocá-las em Shabat, pois isso constituiria uma verdadeira construção.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veshenitlu ka'amar"
ושניטלו קאמר - וה"ק דלת של תיבה שידה ומגדל שניטלו אין מחזירין:

"E ela está falando de portas que já foram retiradas" — e assim ela diz: a porta da arca, do armário e da torre que já foram retiradas antes de Shabat — não se recolocam em Shabat.

771Rava: duas objeções a Abaie; sua própria explicação — não há construção nem demolição em utensílios; a proibição de recolocar é decreto, por temor de encaixar com força
Rava
אֲמַר לֵיהּ רָבָא: [שְׁתֵּי תְּשׁוּבוֹת בַּדָּבָר]. חֲדָא, דְּ״נִיטָּלִין״ קָתָנֵי, וְעוֹד: מַאי ״אֲבָל לֹא מַחֲזִירִין״? אֶלָּא אָמַר רָבָא, קָסָבַר: אֵין בִּנְיָן בְּכֵלִים וְאֵין סְתִירָה בְּכֵלִים — וּגְזֵירָה שֶׁמָּא יִתְקַע.

Disse-lhe Rava: duas respostas quanto a isso. Uma: a baraita ensina "são retiradas" (no presente, e não "já foram retiradas"). E, além disso: que sentido teria dizer "mas não se recolocam" (se já estivessem retiradas de antes)? Mas a explicação correta é a que disse Rava: a baraita entende que não há o conceito de construção em utensílios, nem o conceito de demolição em utensílios; e a proibição de recolocar é apenas um decreto, por temor de que a pessoa venha a encaixá-la com força.

Nota

Rava rejeita a explicação de Abaie com duas objeções textuais: a baraita ensina "são retiradas" no tempo presente, referindo-se ao próprio ato de retirar em Shabat, e não a portas já retiradas de antemão; e, se a baraita já falasse de portas soltas de antes, a cláusula "mas não se recolocam" seria redundante ou sem sentido claro. Rava propõe então sua própria explicação: a baraita entende que não há, de fato, nem construção nem demolição verdadeiras em utensílios (por isso podem ser retiradas livremente), mas os sábios proibiram recolocá-las por decreto — temendo que, ao recolocar a porta, a pessoa venha a encaixá-la com força, usando faca ou cunhas, o que equivaleria à conclusão de um trabalho de construção, tornando-a culpada pela categoria de "golpe final de martelo" (makê befatish).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mai aval", "le'olam kasvar ein setirah ve'ein binyan" e "gezerah shema yitka"
מאי אבל - כיון דלא תנא נוטלין לא שייך למיתני אבל: לעולם קסבר אין סתירה ואין בנין - הלכך נוטלין ומיהו אין מחזירין מדרבנן: גזירה שמא יתקע - בחזקה בסכין ויתדות והוה ליה גמר מלאכה וחייב משום מכה בפטיש:

"'Mas' o quê" — visto que a baraita, segundo Abaie, não teria ensinado "são retiradas" (no sentido de já terem sido retiradas antes), não caberia ensinar "mas". "Na verdade, ela entende que não há demolição, nem construção" — por isso podem ser retiradas; mas, ainda assim, não se recolocam, por decreto rabínico. "Decreto, por temor de que a pessoa venha a encaixá-la" — com força, com uma faca e cunhas, o que seria a conclusão do trabalho, tornando-a culpada por a categoria de "golpe final de martelo".

772Rav Yehuda: apenas o martelo de nozes, e não o de ferreiros, pode ser tomado; um utensílio cuja função é proibida é vedado mesmo para sua própria necessidade
Rav Yehuda
נוֹטֵל אָדָם קוּרְנָס כּוּ׳. אָמַר רַב יְהוּדָה: קוּרְנָס שֶׁל אֱגוֹזִין לְפַצֵּעַ בּוֹ אֶת הָאֱגוֹזִין, אֲבָל שֶׁל נַפָּחִין — לֹא. קָסָבַר דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְאִיסּוּר, אֲפִילּוּ לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ — אָסוּר.

"A pessoa pode tomar um martelo" etc. Disse Rav Yehuda: trata-se do martelo usado para nozes, para quebrar com ele as nozes; mas o martelo de ferreiros — não. Rav Yehuda entende: um objeto cuja função é para um propósito proibido — mesmo quando usado para sua própria necessidade (isto é, para uma função permitida) — é proibido manuseá-lo.

Nota

Rav Yehuda esclarece que a permissão da Mishná de tomar um martelo para quebrar nozes refere-se apenas ao martelo destinado especificamente a essa função, e não ao martelo pesado dos ferreiros, cuja função principal é forjar metais — trabalho proibido em Shabat. O princípio subjacente é que um utensílio cuja função principal (melachto) é proibida não pode ser manuseado em Shabat nem mesmo para uma necessidade permitida (letzorech gufo) — como usar o martelo de ferreiro apenas para quebrar nozes —, por temor de que a pessoa acabe usando-o também para sua função habitual proibida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kurnas shel egozin", "aval shel nafachin" e "letzorech gufo"
קורנס של אגוזים - המיוחד לפציעת אגוזים הוא דקתני מתניתין דנוטלין אותו למלאכתו משום דעיקרו למלאכת היתר: אבל של נפחים - דעיקרו למלאכת איסור לא: לצורך גופו - שגופו צריך עוד למלאכה אחרת של היתר אין מטלטלין אותו לאותה מלאכה וכ"ש אם אין צריך לגופו אלא לפנות מקומו דאין מטלטלין:

"Martelo de nozes" — é apenas sobre o martelo destinado a quebrar nozes que a Mishná ensina que se pode tomá-lo para sua função, porque sua função principal é uma tarefa permitida. "Mas o de ferreiros" — não pode ser tomado, pois sua função principal é uma tarefa proibida. "Para sua própria necessidade" — isto é, quando o próprio objeto é necessário para outra tarefa permitida, ainda assim não se manuseia para essa tarefa; e tanto mais quando não se precisa dele mesmo, mas apenas de esvaziar seu lugar, caso em que certamente não se manuseia.

773Rabah objeta a partir da pá e do forcado; propõe sua própria explicação sobre o martelo de ferreiros, terminando em pleno fluxo
Rabah
אֲמַר לֵיהּ רַבָּה: אֶלָּא מֵעַתָּה, סֵיפָא דְּקָתָנֵי: וְאֶת הָרַחַת וְאֶת הַמַּלְגֵּז לָתֵת עָלָיו לְקָטָן, רַחַת וּמַלְגֵּז מִי מְיַיחֲדִי לֵיהּ לְקָטָן?! אֶלָּא אָמַר רַבָּה: קוּרְנָס שֶׁל נַפָּחִין לְפַצֵּעַ בּוֹ הָאֱגוֹזִין, קָסָבַר:

Disse-lhe Rabah: mas então, quanto à última cláusula que a Mishná ensina: "a pá e o forcado, para dar com eles comida a uma criança pequena" — acaso a pá e o forcado são destinados especificamente a uma criança pequena?! Mas disse Rabah: trata-se do martelo de ferreiros, para quebrar com ele as nozes, e Rabah entende:

Nota

Rabah objeta ao princípio de Rav Yehuda a partir da última cláusula da própria Mishná: a pá e o forcado, ferramentas de eira sem função exclusiva de alimentar crianças, ainda assim podem ser tomados para essa finalidade — o que mostra que a Mishná permite manusear um utensílio de função principal alheia para uma necessidade permitida, contrariando o critério estrito de Rav Yehuda. A partir disso, Rabah propõe reinterpretar o próprio caso do martelo: mesmo o martelo de ferreiros pode ser tomado para quebrar nozes, pois ele entende (o daf termina exatamente aqui, em pleno fluxo da explicação de Rabah).

O daf termina aqui, em pleno fluxo da explicação de Rabah sobre o martelo de ferreiros — "קָסָבַר" ("e Rabah entende:") —, sem qualquer hadran, pois o Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim), recém-aberto, está apenas em seu início. A discussão prossegue diretamente em Shabbat 123a (ainda não publicado), que abre completando a posição de Rabah: "דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְאִיסּוּר לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ — מוּתָּר" ("um objeto cuja função é para um propósito proibido, para sua própria necessidade, é permitido").