Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Tet-Zayin · Halachá 9 (última do perek)
שַׁבָּת

A vela acesa pelo gentio, Shmuel na casa do persa e a rampa de Raban Gamliel

Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh, Halachá 9, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat — encerramento do capítulo

Nona e última halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (todos os escritos sagrados). A Mishná ensina que, se um gentio acendeu a vela, um israelita se serve da sua luz; se encheu água para dar de beber ao seu animal, o israelita dá de beber depois dele; e se fez uma rampa para descer, o israelita desce depois dele; mas, se o fez por causa do israelita, é proibido; e conta que Raban Gamliel e os anciãos vinham num navio, um gentio fez uma rampa para descer, e os anciãos desceram por ela. A guemará pergunta sobre a vela acesa para a necessidade do gentio e também para a do israelita; traz o caso de Shmuel, que virou o rosto quando o persa que o hospedava acendeu a lamparina, e o virou de novo quando o viu ocupado com os seus documentos; e a discussão de Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Yoná e Rabi Eliezer sobre o que se aprende disso; e termina com a pergunta feita a Raban Gamliel e a sua resposta: visto que não o fez por nossa causa, é-nos permitido descer. Com ela se encerra o Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh; o tratado continua no Perek Yud-Zayin, Kol HaKelim. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 122a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

נָכְרִי שֶׁהִדְלִיק אֶת הַנֵּר מִשְׁתַּמֵּשׁ לְאוֹרוֹ יִשְׂרָאֵל. וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל אָסוּר. מִילָּא מַיִם לְהַשְׁקוֹת בְּהֶמְתּוֹ מַשְׁקֶה אַחֲרָיו יִשְׂרָאֵל וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל אָסוּר. עָשָׂה גוֹי כֶּבֶשׁ לֵירֵד בּוֹ יוֹרֵד אַחֲרָיו יִשְׂרָאֵל וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל אָסוּר. מַעֲשֶׂה בְרַבָּן גַּמְלִיאֵל וּזְקֵנִים שֶׁהָיוּ בָאִין בִּסְפִינָה וְעָשָׂה גוֹי כֶּבֶשׁ לֵירֵד בּוֹ וְיָרְדוּ בוֹ זְקֵנִים:

Mishná: Um nochri (gentio) que acendeu a vela, um israelita se serve da sua luz; e, se a acendeu por causa do israelita, é proibido. Se encheu água para dar de beber ao seu animal, um israelita dá de beber ao seu depois dele; e, se a encheu por causa do israelita, é proibido. Se um goy (gentio) fez uma kevesh (rampa) para descer por ela, um israelita desce depois dele; e, se a fez por causa do israelita, é proibido. Aconteceu com Raban Gamliel e os anciãos, que vinham num navio, e um gentio fez uma rampa para descer por ela, e os anciãos desceram por ela.

A Halachá · הֲלָכָה ט

01A vela acesa para os dois e Shmuel na casa do persa
Yerushalmi · Shabbat 16:9
לְצוֹרְכוֹ וּלְצוֹרֶךְ יִשְׂרָאֵל. נִישְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא. שְׁמוּאֵל אִיקְבַּל גַּבֵּי חַד פַּרְסִיי. אִיטְפֵּי בּוּצִינָא. אֲזַל הַהוּא פַרְסִיי בְּעָא מִדְלַקָתֵּיהּ. וַהֲפַךְ שְׁמוּאֵל אַפּוֹי. כֵּיוָן דַּחֲזִיתֵיהּ מִתְעַסֵּק בִּשְׁטָרוֹתָיו יְדַע דְּלָא בְגִינֵיהּ אַדְלְקָהּ. וַהֲפַךְ שְׁמוּאֵל אַפּוֹי. אָמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא. הָדָא אָמְרָה. לְצוֹרְכוֹ וּלְצוֹרֶךְ יִשְׂרָאֵל אָסוּר. אָמַר רִבִּי יוֹנָה. שַׁנְיָיא הִיא. שֶׁאֵין מַטְרִיחִין עַל הָאָדָם לָצֵאת מִבֵּיתוֹ. אָמַר רִבִּי אֱלִיעֶזֶר. מִשּׁוּם שֶׁאֵין מַטְרִיחִין עַל הָאָדָם לָצֵאת מִבֵּיתוֹ לָמָּה הֲפַךְ שְׁמוּאֵל אַפּוֹי.

Se o gentio a acendeu para a sua necessidade e para a necessidade de um israelita, que lei se aplica? Ouçamo-lo disto: Shmuel foi recebido como hóspede em casa de um persa. Apagou-se a lamparina no Shabat. Foi aquele persa e quis acendê-la, e Shmuel virou o seu rosto. Quando o viu ocupado com os seus shtarot (documentos) à luz dela, soube que não a acendera por causa dele, e Shmuel virou de novo o seu rosto. Disse Rabi Yaakov bar Achá: isto diz que, para a sua necessidade e para a necessidade de um israelita, é proibido. Disse Rabi Yoná: é diferente o caso de Shmuel, porque não se impõe a uma pessoa o incômodo de sair da sua casa. Disse Rabi Eliezer: se é porque não se impõe a uma pessoa o incômodo de sair da sua casa, por que então Shmuel virou o seu rosto?

02Raban Gamliel, os anciãos e a rampa do navio
Yerushalmi · Shabbat 16:9
אָמְרוּ לוֹ. מָה אָנוּ לֵירֵד. אָמַר לָהֶן. הוֹאִיל וְלֹא בִשְׁבִילֵינוּ עָשָׂה מוּתָּרִין אָנוּ לֵירֵד.

Disseram-lhe: que dizes, descemos nós? Disse-lhes: visto que não a fez por nossa causa, é-nos permitido descer.

Nota

Esta é a nona e última halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 16:8 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “um gentio que acendeu a vela” até “e desceram por ela”, a última Mishná do capítulo. No Bavli, a mesma Mishná está em Shabbat 122a, e a guemará vai de 122a a 122b, onde se encerra o capítulo. Há diferenças de redação entre o Yerushalmi e a avulsa: o Yerushalmi escreve מִילָּא, onde a avulsa escreve מִלֵּא, só na grafia; e termina com וְיָרְדוּ בוֹ זְקֵנִים, “e os anciãos desceram por ela”, onde a avulsa diz וְיָרְדוּ בוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל וּזְקֵנִים, “e desceram por ela Raban Gamliel e os anciãos”, como também diz o Bavli. A avulsa e o Yerushalmi abrem com נָכְרִי, e o Bavli com גּוֹי; na terceira cláusula, os três dizem גוֹי. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Nestes três segmentos não há marcadores de folha das edições de Vilna ou de Veneza embutidos, nem sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico.

Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 122a, a guemará explica por que a Mishná precisa dos três casos: a vela, porque a vela para um é vela para cem; a água, porque nela se poderia decretar, para que o gentio não acrescente água por causa do israelita; e a rampa, para ensinar o caso de Raban Gamliel e os anciãos. Na mesma página, uma baraita ensina que, se o gentio colheu ervas ou encheu água para o seu animal, o israelita faz o mesmo depois dele, mas só quando o gentio não o conhece; e a guemará pergunta como Raban Gamliel desceu, se o gentio o conhecia. Abaye responde que o gentio fez a rampa fora da sua presença, e Rava, que, mesmo na sua presença, a vela para um é vela para cem. Contra Rava, a guemará objeta com as palavras de Raban Gamliel, “visto que a fez fora da nossa presença, desceremos por ela”, e as corrige para “visto que a fez, desceremos por ela”. Ainda em 122a, uma baraita trata da vela acesa num banquete: se a maioria é de gentios, é permitido servir-se da sua luz; se a maioria é de israelitas, ou se é metade e metade, é proibido. No Bavli, Shabbat 122b, está o caso paralelo ao de Shmuel: Shmuel chegou à casa de Avin Toran, um gentio veio e acendeu uma lamparina, e Shmuel virou o rosto; quando viu que o gentio trouxe um documento e o lia, disse que ele a acendera para si mesmo, e voltou o rosto para a lamparina. No Bavli, quem acende não é chamado de persa, nem é o dono da casa. A pergunta e a resposta da nossa seção 02 estão na Tosefta Shabbat 13:14 (ed. Lieberman): ali se ensina que não se sobe de um navio que vem pelo mar à terra firme, a menos que ele estivesse dentro do limite de caminhada do Shabat antes de escurecer; conta-se que Raban Gamliel e os anciãos vinham num navio e o dia se santificou sobre eles, e disseram a Raban Gamliel: מה אנו לירד?; ele respondeu que estivera observando e que estavam dentro do limite antes de escurecer, mas que o navio fora sacudido muitas vezes; então um gentio fez uma סקלא, uma escada, para descer por ela; perguntaram-lhe de novo, e ele respondeu: הואיל ולא בפנינו עשאו מותרין אנו לירד בו, “visto que não a fez na nossa presença, é-nos permitido descer por ela”; e os anciãos desceram por ela. O nosso Yerushalmi diz וְלֹא בִשְׁבִילֵינוּ, “não por nossa causa”, onde a Tosefta diz “não na nossa presença”, como também a baraita citada no Bavli.

Observações de leitura. Na Mishná, segundo o Penei Moshe, o gentio acendeu a vela para a sua própria necessidade; a Mishná ensina a água porque, embora nela se pudesse decretar, para que o gentio não encha a mais por causa do israelita, quando ele a encheu para o seu animal é permitido; e ensina também a vela, porque, se ensinasse só a água, se pensaria que a vela acesa por causa do israelita seria permitida, já que a vela para um é vela para cem; e ensina a rampa por causa do caso de Raban Gamliel, porque um caso ensina a lei. Segundo o Korban HaEdá, o que se faz só por causa do israelita é proibido pelos rabinos, para que o gentio não se acostume a fazê-lo em outro Shabat, e, na água, para que o israelita não lhe diga que encha; a água é tirada de um poço no domínio público; e a rampa se faz num navio grande, para descer do navio à terra, e só se permite descer por ela depois do gentio, mas não mover as suas tábuas. Na seção 01, segundo o Penei Moshe, a pergunta é se é permitido servir-se da luz quando o gentio a acendeu também para a sua própria necessidade; a prova é que Shmuel, que de início pensou que o persa a acendera também por causa dele, não quis servir-se dela até ver que ele a acendera só para si, e por isso Rabi Yaakov bar Achá conclui que, para os dois, é proibido. Rabi Yoná, segundo o Penei Moshe, responde que é diferente: na verdade, para os dois também é permitido, e Shmuel virou o rosto por boas maneiras, porque o dono da casa acendeu ele mesmo, e para que não parecesse que a acendeu por causa do hóspede, já que não é boa maneira incomodar uma pessoa a sair da sua casa por causa do hóspede; e Rabi Eliezer objeta a Rabi Yoná que, se fosse por isso, Shmuel deveria ter-se portado como quem só não precisa da vela, e não virar o rosto, como quem mostra que não quer de modo algum servir-se dela. Guggenheimer entende de outro modo: Rabi Yoná diria que Shmuel virou o rosto porque estava em casa alheia, e em sua própria casa não o teria feito; e a pergunta de Rabi Eliezer mostraria que o argumento de Rabi Yoná não procede e que Rabi Yaakov bar Achá tem razão. O hebraico diz só “é diferente” e “não se impõe a uma pessoa o incômodo de sair da sua casa”, e assim o deixamos; “o caso de Shmuel”, em itálico, completa o sujeito, que o hebraico não diz. Nas duas vezes o hebraico diz וַהֲפַךְ שְׁמוּאֵל אַפּוֹי, “e Shmuel virou o seu rosto”; segundo o Penei Moshe, a segunda vez foi para o lado da vela, e por isso pusemos “de novo” em itálico; e, segundo ele, o persa se ocupava dos seus documentos diante da vela, e por isso pusemos “à luz dela” em itálico. O hebraico também não diz que a lamparina se apagou no Shabat, mas a pergunta só tem sentido no Shabat, e assim o completamos em itálico. Na seção 02, segundo o Penei Moshe, as palavras são da Tosefta, que ele situa no capítulo 14, e que lê que os anciãos perguntaram a Raban Gamliel e ele lhes respondeu; e o “desceram por ela” da Mishná foi depois que Raban Gamliel o permitiu. O hebraico do Yerushalmi diz só “disseram-lhe” e “disse-lhes”, sem nomes, e assim o deixamos; pela Mishná e pela Tosefta, a pergunta é feita a Raban Gamliel, e é ele quem responde. O Penei Moshe encerra aqui o capítulo, com סליק פרקא. Neste trecho, o Korban HaEdá comenta só a Mishná. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer traduz o fim, וְיָרְדוּ בוֹ זְקֵנִים, por “the Elders descended on it”, como o nosso hebraico, sem o nome de Raban Gamliel. Na seção 01, ele traduz שְׁטָרוֹתָיו por “his securities”; traduzimos “os seus documentos”. Ele traduz a segunda וַהֲפַךְ שְׁמוּאֵל אַפּוֹי por “Samuel again turned his face”, como nós. Ele observa que não se conhece nenhum amora chamado Rabi Eliezer e propõe outra leitura do nome; mantivemos “Rabi Eliezer”, conforme o hebraico. Na seção 02, ele traduz מָה אָנוּ לֵירֵד por “may we descend?”; traduzimos mais à letra, “que dizes, descemos nós?”. Ele escreve “Rabban Gamliel”, “Samuel”, “Rebbi Jacob bar Aḥa”, “Rebbi Jonah” e “Rebbi Eliezer”; mantivemos “Raban Gamliel”, “Shmuel”, “Rabi Yaakov bar Achá”, “Rabi Yoná” e “Rabi Eliezer”, como nas halachot anteriores deste tratado. As suas remissões ao Bavli, Shabbat 122a e 122b, e à Tosefta Shabbat 13:14 (ed. Lieberman) foram conferidas, e estão corretas.

A Mishná seguinte, Shabbat 17:1, abre o Perek Yud-Zayin, Kol HaKelim: “כָּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת וְדַלְתוֹתֵיהֶן עִמָּהֶן…”, “todos os utensílios são movidos no Shabat, e as suas portas com eles, ainda que se tenham desmontado no Shabat; e não são semelhantes às portas da casa, porque não estão entre o que está preparado”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 122b, na mesma folha em que termina o capítulo Kol Kitvei HaKodesh.

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (כָּל כִּתְבֵי הַקּוֹדֶשׁ).