Oitava halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (todos os escritos sagrados). A Mishná ensina que no Shabat se emborca uma keará (tigela) sobre a vela, para que o fogo não pegue na viga, e também sobre o excremento de um menor e sobre um escorpião, para que não pique; e Rabi Yehudá conta o caso que veio diante de Raban Yochanan ben Zakai em Arav, que receou por quem o fez a obrigação de uma oferta de expiação. A guemará liga a tigela à disputa sobre o ovo posto no yom tov, entre Rabi Shimon beRabi Yanai e Shmuel; pergunta por que se cobre o excremento, se ele é alimento de galinhas, e Rabi Ukban responde que se trata do mole; e, por fim, Rabi Ula conta que Raban Yochanan ben Zakai passou dezoito anos em Arav e só dois casos vieram diante dele, e que ele disse: “Galileia, Galileia, odiaste a Torá!” O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 121b.
Mishná: Emborca-se uma keará (tigela) sobre a vela, para que o fogo não pegue na viga; e emborca-se sobre o excremento de um katan (menor); e sobre um escorpião, para que não pique. Disse Rabi Yehudá: um caso veio diante de Raban Yochanan ben Zakai em Arav (uma aldeia na Galileia), e ele disse: receio por ele a obrigação de chatat (oferta de expiação).
“Emborca-se uma tigela sobre a vela.” Isto vem como aquilo que disse Rabi Shimon beRabi Yanai: eu não o ouvi diretamente do meu pai; minha irmã me disse isto em nome dele: um ovo que foi posto num yom tov (dia de festa), encosta-se algo a ele, para que não role; mas não se emborca sobre ele o recipiente. Shmuel disse: até se emborca sobre ele o recipiente.
“E sobre o excremento de um menor.” E não são eles alimento de galinhas? Disse Rabi Ukban: explica-se a Mishná com estes excrementos moles, que se cobrem para que não se chegue a espalhá-los.
“E sobre um escorpião, para que não pique.” “Um caso de alguém que emborcou uma tigela sobre um escorpião veio diante de Raban Yochanan ben Zakai em Arav, e ele disse: receio por ele a obrigação de chatat.” Rabi Ula disse: dezoito anos Raban Yochanan ben Zakai passou sentado nesta Arav, e não vieram diante dele senão estes dois casos de lei. Disse ele: Galileia, Galileia, odiaste a Torá! O teu fim é trabalhar entre os massikin (colhedores de azeitona).
Esta é a oitava halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 16:7 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, como antecipou a nota da halachá 16:7. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve תֶאֱחוֹז e תִישָּׁךְ, onde a avulsa escreve תֶאֱחֹז e תִשֹּׁךְ, só na grafia; e diz חוֹשְׁשַׁנִי אֲנִי לוֹ, com um אֲנִי a mais, onde a avulsa diz חוֹשְׁשָׁנִי לוֹ; o sentido é o mesmo. Quando a guemará repete as palavras de Raban Yochanan ben Zakai, no terceiro segmento, o hebraico diz חוֹשֵׁשׁ אֲנִי לוֹ, também com o mesmo sentido. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento, a seção 02 é o terceiro e a seção 03 é o quarto, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Nestes quatro segmentos não há marcadores de folha das edições de Vilna ou de Veneza embutidos, nem sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico. O nome עוקְבַּן está, no Sefaria, sem sinal vocálico no vav, e assim o deixamos.
Referências conferidas. No Bavli, a nossa Mishná está no fim de Shabbat 121a, com חוששני לו מחטאת, sem o אֲנִי, e a sua guemará está em Shabbat 121b. Ali, Rav Chanan bar Rava ouviu Rabi Avin ensinar ao filho “e sobre o excremento de um menor, por causa do menor”, e objetou que o excremento mesmo está preparado para os cães; por isso a guemará lê “sobre o excremento de galinhas, por causa do menor”, que é o paralelo da pergunta do nosso texto, “não são eles alimento de galinhas?”. Na mesma página, sobre o escorpião, Rabi Yehoshua ben Levi diz que todos os animais que causam dano podem ser mortos no Shabat. No Bavli, Shabbat 43a, a guemará objeta com a nossa Mishná, “emborca-se uma tigela sobre a vela, para que não pegue na viga”, e responde que se trata de casas baixas, onde o incêndio é frequente; na mesma página, Rabi Yitzchak diz que, assim como não se põe um recipiente debaixo da galinha para receber o ovo, também não se emborca sobre ele um recipiente para que não se quebre, e a guemará objeta com uma baraita segundo a qual, sobre o ovo posto no Shabat ou no yom tov, emborca-se um recipiente para que não se quebre. A palavra de Rabi Shimon beRabi Yanai sobre o ovo está também, com mais palavras, no Yerushalmi, Shabbat 4:2, onde o nome aparece só como “Rabi Shimon beRabi”, e no Yerushalmi, Shabbat 13:7, com o nome inteiro; nos dois lugares o hebraico diz סוֹמְכִין לָהּ כֶּלִי, “encosta-se a ele um recipiente”, onde o nosso diz só סוֹמְכִין לָהּ. O segundo caso que veio diante de Raban Yochanan ben Zakai em Arav, segundo Penei Moshe, Korban HaEdah e Guggenheimer, é o da Mishná Shabbat 22:3, a da cera sobre o furo do barril, “porque ele alisa”, que conferimos e que também termina com as palavras de Rabi Yehudá, “um caso veio diante de Raban Yochanan ben Zakai em Arav”. A frase sobre a Galileia que odiou a Torá não a achamos no Bavli, e não a citamos de outro lugar.
Observações de leitura. Na Mishná, segundo Penei Moshe, a tigela se emborca sobre a vela acesa para que o fogo não pegue na viga; Korban HaEdah acrescenta que seja de barro e que não apague a vela. O excremento, segundo Penei Moshe, não é o do próprio menor, que pode ser levado para o monturo, mas o das galinhas, posto no monturo do pátio, e cobre-se para que o menor não se suje; Korban HaEdah, nesta mesma Mishná, só explica a tigela, o escorpião e Arav. Sobre o escorpião, segundo Korban HaEdah, Raban Yochanan ben Zakai receou a obrigação de chatat porque o escorpião não corria atrás do homem, e não sabia se ele era culpado pela caça; Penei Moshe diz o mesmo, e acrescenta que a lei permite até matá-lo. Arav, segundo Penei Moshe, é um lugar na Galileia; segundo Guggenheimer, uma aldeia perto de Tzipori. Na seção 01, o hebraico não explica como a nossa Mishná “vem como” a palavra de Rabi Shimon beRabi Yanai; Penei Moshe remete à halachá do Perek HaOreg, isto é, a 13:7 deste tratado. O hebraico também não diz o que se encosta ao ovo, e nos paralelos é um recipiente; por isso pusemos “algo” em itálico. Na seção 02, segundo Penei Moshe e Korban HaEdah, a pergunta é que o excremento é alimento de galinhas e pode ser movido, e então não seria preciso emborcar um recipiente sobre ele; a resposta é que se trata do excremento mole, e Penei Moshe explica que, se fosse dado às galinhas, elas o espalhariam e sujariam a casa, enquanto Korban HaEdah explica que ele só serve às galinhas se for espalhado, e há receio de que se espalhe. O hebraico diz só “que não cheguem a espalhar”, e assim o deixamos. Na seção 03, o caso citado da Mishná é, segundo Korban HaEdah, o de quem emborcou um recipiente sobre o escorpião, e por isso o completamos em itálico. Rabi Ula fala de Raban Yochanan ben Zakai, cujo nome está na frase anterior; o hebraico não repete o nome, nem diz quem disse “Galileia, Galileia”, mas Penei Moshe atribui as duas coisas a Raban Yochanan ben Zakai. A última palavra, בְּמִסִּיקִין, é de leitura incerta: Penei Moshe lê כמסיקין, “como colhedores de azeitona”, porque a Galileia tem muitas oliveiras, e o sentido é que todos serão colhedores de azeitona e nenhum será homem de Torá; Korban HaEdah explica que o fim da Galileia será estar tomada por salteadores. Traduzimos segundo Penei Moshe, com a preposição do nosso hebraico. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer traduz “an egg which was laid on the Sabbath”; o hebraico diz בְיוֹם טוֹב, “num yom tov”, e assim traduzimos, como na halachá 13:7. Ele acrescenta “[a vessel]” depois de “props up against”, que não está no nosso hebraico; nós o pusemos em itálico como “algo”. Ele traduz אַף כּוֹפִין por “one may cover”, sem traduzir o אַף; nós o traduzimos por “até”. Na seção 03, ele traduz שְׂנֵאת por “you are hating”, e nós, pelo passado, “odiaste”; e explica מִסִּיקִין pelo latim missicius, “soldados dispensados do serviço”, traduzindo “in the end you will work for discharged veterans”; seguimos Penei Moshe, como se explicou acima. Ele escreve “Rebbi Jehudah”, “Rabban Joḥanan ben Zakkai”, “Arab”, “Rebbi Simeon ben Rebbi Yannai”, “Samuel”, “Rebbi Uqban” e “Rebbi Ulla”; mantivemos “Rabi Yehudá”, “Raban Yochanan ben Zakai”, “Arav”, “Rabi Shimon beRabi Yanai”, “Shmuel” e “Rabi Ula”, como nas halachot anteriores deste tratado, e escrevemos “Rabi Ukban”, conforme o hebraico. As suas remissões ao capítulo 4 deste tratado, para o ovo, e à Mishná 22:3, para o segundo caso de Arav, foram conferidas, e estão corretas.