Shabbat 121b continua diretamente a história interrompida no fim de 121a: trouxeram camas a Rav Yehuda e a Rav Yirmeya bar Abba, mas não a Rav Chanan bar Rava. Este encontrou Avin, de Neshikeya, ensinando a seu filho a Mishná do daf anterior, dizendo que se vira uma tigela sobre as fezes de uma criança "por causa da criança"; e o repreendeu, chamando-o de tolo por ensinar tolices a seus filhos, pois as próprias fezes já estão destinadas aos cães — não havendo, portanto, necessidade de protegê-las por causa da criança. E se disserem que não estavam destinadas desde ontem, por terem surgido apenas hoje, foi ensinado que rios que correm e fontes que jorram são como os pés de qualquer pessoa — isto é, permitidos ao manuseio mesmo sem preparo prévio, porque essa é a natureza costumeira da coisa. Avin pergunta então como deveria ter ensinado, e propõe: sobre as fezes de galinhas, por causa da criança — pois estas, ao contrário, não são destinadas aos cães. A Guemará questiona por que não se deriva isso simplesmente do princípio do resto repugnante (graf shel re'i), permitido por ser nojento, citando o caso do rato encontrado nas especiarias de Rav Ashi, removido pelo rabo sem vasilha; a resposta distingue um monte de lixo comum, onde uma criança não estaria, de um monte de lixo dentro de um pátio, onde ela poderia estar. Repete-se a Mishná sobre o escorpião, para que não pique, e Rabi Yehoshua ben Levi ensina que todos os seres nocivos podem ser mortos em Shabat; Rav Yosef objeta com uma baraita que lista apenas cinco nocivos sempre matáveis, atribuindo a posição a Rabi Shimon. Rabi Yirmeya questiona a solidez da baraita, e Rav Yosef responde que ela trata apenas de quando os nocivos perseguem a pessoa, caso em que todos concordam. Um taná ensina, perante Rava bar Rav Huna, que quem mata cobras e escorpiões em Shabat não agrada ao espírito dos piedosos; Rava bar Rav Huna retruca que o espírito dos sábios não se agrada desses piedosos, o que diverge de Rav Huna, que repreendeu um homem por ter matado apenas uma vespa, sem completar o serviço. Uma baraita ensina que, se cobras e escorpiões vierem ao encontro de alguém e ele os matar, é sinal de que vieram para que ele os matasse; se não os matar, é sinal de que vieram para matá-lo, e ocorreu-lhe um milagre do Céu — segundo Ulá (ou, dizem, Rabá bar bar Chana), em nome de Rabi Yochanan, quando a cobra sibila contra ele. Rabi Abba bar Kahana relata que uma cobra caiu na casa de estudo, e um homem de Nínive a matou; Rabi comentou: "seu igual o encontrou". Discute-se se essa frase elogia ou censura o ato, e traz-se o caso de Rabi Abba, filho de Rabi Chiya bar Abba, e Rabi Zeira, que perguntaram a Rabi Yanai se é permitido matar cobras e escorpiões em Shabat; ele respondeu que já mata vespas, quanto mais cobra e escorpião — mas talvez isso valha apenas para quando se pisa neles incidentalmente, no caminho, sem intenção direta, regra que Rav Yehuda aplica à saliva, Rav Sheshet estende à cobra e Rav Katina ao escorpião. Segue-se o caso de Abba bar Marta (Abba bar Minyomi), que devia dinheiro à casa do Reish Galuta e foi trazido para ser pressionado; havia saliva no chão, e quando o Reish Galuta mandou cobri-la com um vaso invertido, Abba bar Marta citou a regra de Rav Yehuda, e foi dispensado por ser um erudito da Torá. Por fim, Rabi Abba bar Kahana, em nome de Rabi Chanina, ensina que os castiçais da casa de Rabi podem ser manuseados em Shabat; Rabi Zeira pergunta se isso vale quando são carregados com uma mão, ou apenas com as duas. O daf termina em pleno fluxo dessa pergunta, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 122a, ainda não publicado.
Trouxeram-lhes camas para se sentarem; a Rav Chanan bar Rava não lhe trouxeram uma, e o sentaram no chão. Este encontrou Avin ensinando a seu filho: "e sobre as fezes de uma criança, por causa da criança". Disse-lhe: Avin, o tolo, ensina tolices a seus filhos! Mas não estão elas mesmas já destinadas aos cães?! E se disseres que não estavam destinadas a isso desde ontem pois nasceram hoje — mas não foi ensinado numa baraita: rios que correm e fontes que jorram são como os pés de qualquer pessoa (sempre permitidos ao manuseio, mesmo sem preparo prévio).
A história interrompida no fim de 121a prossegue: trouxeram bancos ou camas para Rav Yehuda e Rav Yirmeya bar Abba se sentarem na casa de Avin, de Neshikeya, mas não trouxeram nenhum para Rav Chanan bar Rava, que ficou sentado no chão. Irritado, Rav Chanan encontrou Avin ensinando a seu filho a razão dada pela Mishná anterior (120b–121a) para se virar uma tigela sobre as fezes de uma criança: "por causa da criança" — isto é, para que ela não a toque e se suje. Rav Chanan repreendeu-o duramente, chamando-o de tolo: segundo ele, essa razão é desnecessária, pois as fezes de uma criança já estão, por natureza, destinadas ao uso dos cães, e por isso não são consideradas muktzeh (objeto reservado, cujo manuseio é proibido em Shabat) — bastaria removê-las por serem um resto repugnante, sem precisar de razão adicional ligada à criança. Antecipa-se uma objeção: e se as fezes não estivessem destinadas aos cães desde antes de Shabat, por terem sido produzidas apenas hoje (o que tornaria seu manuseio proibido, por não terem sido "preparadas" com antecedência)? A resposta vem de uma baraita sobre rios e fontes: mesmo eles, que fluem e mudam a cada instante sem preparo prévio, são considerados permanentemente permitidos ao manuseio, porque essa é a sua natureza costumeira — e o mesmo se aplica às fezes da criança, cuja produção diária já está, por assim dizer, previamente contemplada.
"Trouxeram-lhes camas" — leitos para se sentarem sobre eles. "Não lhe trouxeram" — e o sentaram no chão. "Por causa da criança" — para que ela não toque nas fezes e se suje. "Disse-lhe" — Rav Chanan, que estava irritado e tinha a intenção de provocar Rabi Avin. "Mas não estão destinadas aos cães" — e para que eu preciso virar um utensílio sobre elas? Que as removam dali, pois já são aptas ao manuseio. "Que não estavam destinadas desde ontem" — pois nasceram hoje. "Rios que correm são como os pés de qualquer pessoa" — porque se trata de coisa que se movimenta, e não adquire um lugar de repouso fixo; e, embora venham de fora do limite de Shabat de qualquer um, cada pessoa os leva ao lugar aonde já tinha o direito de ir por sua própria mescla de Shabat (eruv) — mas, de todo modo, aprendemos daí que são permitidos ao manuseio; e, embora ontem estes especificamente não estivessem diante de nós, ainda assim são permitidos, pois, sendo esse o seu costume, a intenção da pessoa já recai sobre eles de antemão; o mesmo aqui: sendo esse o costume da criança, a intenção de quem cuida dela já recai sobre as fezes, para que, assim que surjam, sejam dadas de comer aos cães.
Mas então como deveria eu tê-lo ensinado? Diga-se: sobre as fezes de galinhas, por causa da criança.
Avin responde à repreensão de Rav Chanan bar Rava perguntando como, então, deveria ter formulado o ensino. Ele propõe corrigir o texto da Mishná: em vez de falar das fezes da própria criança (que, como visto, já são destinadas aos cães e por isso não são muktzeh), deveria falar das fezes de galinhas — que não são aptas ao consumo dos cães, sendo portanto genuinamente muktzeh — e que precisam ser cobertas especificamente por causa da criança, para que ela não as toque e se suje.
"Disse-lhe Rabi Avin" — mas então como deveria eu tê-lo ensinado? "Fezes de galinhas" — que não são aptas ao consumo dos cães; e quanto à expressão "de uma criança" que a Mishná ensina, quer dizer que a criança as toca e se suja com elas, e é por causa da criança que se diz: vira-se a tigela.
Mas que se derive a permissão de removê-las pelo fato de serem um resto repugnante (graf shel re'i, permitido por ser nojento)! E se disseres: o resto repugnante só é permitido de mover quando junto de uma vasilha — sim, mas ele mesmo (sem vasilha) — não; mas não houve aquele rato que se encontrou nas especiarias de Rav Ashi, e ele lhes disse: peguem-no pelo rabo e o retirem daqui, sem vasilha! Isso ocorreu num monte de lixo. E o que faria uma criança num monte de lixo? Num pátio. Mas o pátio também é como um resto repugnante! Num monte de lixo que está dentro de um pátio.
A Guemará questiona por que a permissão de remover as fezes não se deriva simplesmente do princípio geral de que um resto repugnante (graf shel re'i, como um vaso sanitário ou algo igualmente nojento) pode ser removido em Shabat, sem necessidade de invocar o cuidado com a criança. Levanta-se a possibilidade de que esse princípio só permita a remoção quando o objeto repugnante está associado a uma vasilha (por exemplo, um penico), mas não quando é removido sozinho, com as próprias mãos. Contra isso, traz-se o caso do rato encontrado nas especiarias de Rav Ashi, que mandou removê-lo segurando-o pelo rabo, sem vasilha alguma — o que provaria que mesmo objetos repugnantes soltos podem ser removidos diretamente. A resposta distingue: aquele caso ocorreu num monte de lixo comum, onde o rato já estava destinado a ser descartado, e onde normalmente uma criança não estaria; mas a Mishná trata do caso de um monte de lixo dentro de um pátio doméstico, onde uma criança poderia estar e tocar nas fezes — daí a necessidade da razão adicional "por causa da criança", distinta do princípio geral do resto repugnante.
"Que se derive a permissão pelo fato de ser um resto repugnante" — pois é nojento, e por isso permitida sua remoção, já que estabelecemos, em Massechet Beitzá, que o resto repugnante é permitido de retirar para o monte de lixo. "E se disseres: o resto repugnante que sabemos ser permitido é apenas junto de uma vasilha, sim" — pois aquilo que sabemos ser permitido é porque está posto numa vasilha, sendo o resto repugnante propriamente dito um utensílio de barro feito para isso, e só junto dele é permitido movê-lo, mas o objeto por si só — não; e aqui não estava posto numa vasilha. "Nas especiarias" — perfumes. "Pelo rabo" — logo, mesmo sem vasilha, também se pode movê-lo. "E responde-se: num monte de lixo" — que não estava posto perante eles, e ali não se aplica a regra do resto repugnante. "E o que faria uma criança num monte de lixo?" — um monte de lixo comum fica em domínio público, e o que faria uma criança ali, a ponto de exigir que se cubra as fezes por causa dela? "E responde-se: num pátio" — onde é comum haver crianças; e se pensarias que se trata de um pátio que não é um monte de lixo, pergunta-se afinal: mas é um resto repugnante de todo modo! E responde-se: num monte de lixo que está dentro do pátio.
"E sobre um escorpião, para que não pique" (repetição da Mishná). Disse Rabi Yehoshua ben Levi: todos os seres nocivos podem ser mortos em Shabat. Rav Yosef objetou de uma baraita: cinco seres podem ser mortos em Shabat, e estes são eles: a mosca que há na terra do Egito, a vespa que há em Nínive, o escorpião que há em Chadyav, a cobra que há na terra de Israel, e o cão raivoso em qualquer lugar. Segundo quem é esta baraita? Se disseres que é Rabi Yehuda — mas ele disse: um trabalho que não é necessário por si mesmo (melachá she'einá tzericha legufáh), torna-se responsável por ele! Mas então certamente é Rabi Shimon, e é estes especificamente que ele permite, mas outros — não!
A Guemará repete a última cláusula da Mishná de 121a — "e sobre um escorpião, para que não pique" — como ponto de partida para uma nova discussão. Rabi Yehoshua ben Levi ensina, de modo amplo, que qualquer criatura nociva pode ser morta em Shabat, sem restrição. Rav Yosef objeta com uma baraita que limita essa permissão a apenas cinco criaturas específicas, cada uma associada a um lugar onde é particularmente perigosa (a mosca egípcia, a vespa de Nínive, o escorpião de Chadyav, a cobra da terra de Israel e o cão raivoso em qualquer lugar) — sugerindo que, fora dessas, matar outros nocivos seria proibido, contrariando Rabi Yehoshua ben Levi. A Guemará tenta identificar de quem é essa baraita: não pode ser de Rabi Yehuda, que considera responsável mesmo por um trabalho "que não é necessário por si mesmo" (isto é, realizado por um motivo diferente do usual — aqui, matar não pelo propósito normal de aproveitar a carne, mas para eliminar um perigo), o que tornaria proibido matar livremente qualquer criatura. Conclui-se que a baraita segue Rabi Shimon, que isenta esse tipo de trabalho — mas mesmo assim, ela permite apenas essas cinco criaturas, reconhecidamente letais, e não outras.
"Todos os nocivos" — os que matam (criaturas perigosas). "Podem ser mortos em Shabat" — e o entendimento inicial é de que isso vale mesmo quando não estão correndo atrás da pessoa, e isso porque Rabi Yehoshua ben Levi entende, como Rabi Shimon, que um trabalho que não é necessário por si mesmo é proibido apenas por decreto rabínico, e aqui os sábios não decretaram proibição alguma. (Podem ser mortos em Shabat, mesmo quando não estão correndo atrás, porque ele entende que, por regra geral, essas criaturas matam.) "Mas ele disse: torna-se responsável por ele" — e como seria permitido, num trabalho pleno, quando não estão correndo atrás da pessoa, já que ali não há perigo de vida?
Disse Rabi Yirmeya: e quem nos dirá que esta baraita é correta? Talvez seja uma versão corrompida! Disse Rav Yosef: eu mesmo a ensino, e eu mesmo a objetei com ela, e eu mesmo a resolvo: trata-se de quando estão correndo atrás da pessoa, e isso é palavra de todos (consenso de todas as opiniões).
Rabi Yirmeya questiona a própria confiabilidade da baraita citada por Rav Yosef, sugerindo que poderia estar corrompida ou mal transmitida, e que talvez não haja necessidade de reconciliá-la com a opinião de Rabi Yehoshua ben Levi. Rav Yosef defende a autenticidade do texto, afirmando que ele mesmo o ensina, ele mesmo levantou a objeção a partir dele, e ele mesmo agora o resolve: a baraita, ao restringir a matança a apenas cinco criaturas, refere-se especificamente ao caso em que elas não estão perseguindo a pessoa; mas quando estão de fato correndo atrás dela, há perigo de vida, e todos — inclusive Rabi Yehuda — concordam que é permitido matá-las, seja qual for a criatura.
Ensinou um tanná perante Rava bar Rav Huna: quem mata cobras e escorpiões em Shabat — o espírito dos piedosos não se agrada dele. Disse-lhe Rava bar Rav Huna: e quanto a esses piedosos, o espírito dos sábios não se agrada deles! E isto diverge da opinião de Rav Huna. Pois Rav Huna viu certo homem que estava matando uma vespa, e disse-lhe: já as mataste a todas?
Um taná ensina, diante de Rava bar Rav Huna, uma posição de cautela: quem mata cobras e escorpiões em Shabat desagrada ao espírito dos piedosos — sugerindo que, embora tecnicamente permitido, matar esses seres seria um ato de menor piedade, talvez por envolver um trabalho proibido mesmo que justificado pelo perigo. Rava bar Rav Huna retruca duramente, invertendo a crítica: são esses "piedosos" que desagradam ao espírito dos sábios — pois sua contenção excessiva, ao evitar matar criaturas perigosas, poderia acabar custando vidas, caso essas criaturas sobrevivessem para atacar outras pessoas depois. Essa posição diverge da atitude do próprio Rav Huna, que, ao ver um homem matando apenas uma vespa e parando, o repreendeu perguntando se já havia terminado de matar todas — implicando que se deve eliminar totalmente o perigo, e não se contentar com uma solução parcial.
"O espírito dos piedosos não se agrada dele" — o entendimento dos piedosos não se mistura com o dele, pois aquilo que ele fez não é adequado a seus olhos. "Se agrada" — termo que significa aprazível; eles não aprovam seus atos. "Disse-lhe" — Rava bar Rav Huna disse ao tanná. "E aqueles piedosos" — que o odeiam por isso, o espírito dos sábios não se agrada, para estar tranquilo e sereno, com o que veem nesse traço desses piedosos, que o matador agiu bem — pois, se ele não os matasse agora, no final eles causariam dano, no momento de sua ira. "Já as mataste a todas?" — isto é: mataste apenas uma delas, e o que isso adiantou, se ainda há muitas outras? Concluindo-se que ele não agiu bem — e isto é o que faz Rava divergir de seu pai (Rav Huna).
Ensinaram os sábios: se vieram ao encontro de alguém cobras e escorpiões, e ele os matou — é sinal de que vieram ao seu encontro para que ele os matasse. Se não os matou — é sinal de que vieram ao seu encontro para matá-lo, e ocorreu-lhe um milagre do Céu. Disse Ulá — e alguns dizem que foi Rabá bar bar Chaná — em nome de Rabi Yochanan: isto se refere a quando a cobra sibila contra ele.
Uma baraita ensina um princípio sobre encontros inesperados com cobras e escorpiões: se a pessoa os mata, isso demonstra retrospectivamente que eles vieram ao seu encontro justamente para serem mortos por ela (talvez como mérito, ou porque estavam destinados a morrer, e ela foi o instrumento). Mas se ela não os mata, e ainda assim sai ilesa, isso demonstra que, na verdade, eles vieram para matá-la, e que ocorreu um milagre celestial que a poupou. Ulá (ou, segundo outra tradição, Rabá bar bar Chaná), em nome de Rabi Yochanan, esclarece que essa regra sobre o sinal de perigo se refere especificamente ao caso em que a cobra sibila — um comportamento ameaçador que indica agressividade e intenção de atacar, distinguindo-o de um encontro casual e inofensivo.
"É sinal de que vieram ao seu encontro para que ele os matasse" — por isso vieram parar em suas mãos, pois o Onipresente lhas destinou para eliminá-las, porquanto estavam destinadas a causar dano, e o mérito foi feito rodar por meio de uma pessoa merecedora. "Se não os matou, é sinal de que vieram ao seu encontro para matá-lo" — e o Santo, abençoado seja, mostrou-lhe que havia pecado, mas que lhe foi feito um milagre. "Quando sibila contra ele" — é em tal caso que se ensina "é sinal de que vieram para matá-lo": sibilar é o modo próprio da cobra, uma espécie de assobio, quando vê seu adversário e se enfurece.
Disse Rabi Abba bar Kahana: certa vez, caiu uma cobra na casa de estudo, e levantou-se um homem nivti (de Nínive) e a matou. Disse Rabi: seu igual o encontrou!
Rabi Abba bar Kahana relata um episódio: uma cobra caiu na casa de estudo, e um homem originário de Nínive (uma região conhecida, segundo o daf, por seus perigosos vespões) levantou-se e a matou. Rabi (Yehuda HaNasi) comentou: "seu igual o encontrou" — uma frase ambígua, que tanto pode ser lida como elogio (implicando que o homem soube lidar com o perigo por ser ele mesmo experiente com criaturas perigosas) quanto como crítica sutil (sugerindo que o próprio matador era, de algum modo, tão perigoso ou agressivo quanto a cobra que matou). A Guemará dedica o próximo trecho a esclarecer qual dos dois sentidos é o correto.
"Nivti" — chamado assim por causa de seu lugar de origem (Nínive), e era israelita.
Perguntaram-se: "seu igual o encontrou" significa que ele agiu bem, ou não? Vem e ouve: Rabi Abba, filho de Rabi Chiya bar Abba, e Rabi Zeira estavam sentados no pavilhão (sucá ou tenda) da casa de Rabi Yanai. Surgiu uma questão entre eles, e perguntaram a Rabi Yanai: é permitido matar cobras e escorpiões em Shabat? Disse-lhes: vespa eu mato, cobra e escorpião — não é ainda mais evidente que se pode?! Talvez isso valha apenas incidentalmente (pisando sem intenção direta). Pois disse Rav Yehuda: a saliva, pisa-se sobre ela incidentalmente. E disse Rav Sheshet: a cobra, pisa-se sobre ela incidentalmente. E disse Rav Katina: o escorpião, pisa-se sobre ele incidentalmente.
A Guemará levanta a dúvida sobre o sentido exato do comentário de Rabi a respeito do homem de Nínive que matou a cobra: teria ele agido bem, ou o comentário conteria uma crítica velada? Para esclarecer, traz-se o relato de Rabi Abba e Rabi Zeira, sentados na tenda ou pavilhão da casa de Rabi Yanai, entre os quais surgiu a mesma questão, levada então diretamente a Rabi Yanai: é permitido matar cobras e escorpiões em Shabat? Ele responde afirmativamente e de modo enfático: se já mata vespas (presumivelmente por serem particularmente perigosas), com maior razão pode matar cobras e escorpiões. A Guemará então sugere uma leitura mais restrita dessa permissão: talvez ela se aplique apenas a "pisar incidentalmente" — isto é, quando a pessoa, caminhando normalmente, sem propósito direto de matar, encontra a criatura em seu caminho e a pisa sem se desviar, e a criatura morre como efeito colateral de um ato não intencional. Esse princípio, aplicado por Rav Yehuda à saliva (que não se precisa evitar ao caminhar, mesmo que se espalhe), é estendido por Rav Sheshet à cobra e por Rav Katina ao escorpião — todos casos em que "pisar sem intenção direta" é permitido, por se tratar de um trabalho não intencional (davar she'eino mitkaven), ainda que o resultado seja a morte da criatura.
"Significa que ele agiu bem" — isto é, "seu igual" que Rabi disse não é para censura, mas quer dizer que a cobra o perseguia, e este se tornou seu igual em determinação. "Ou não" — isto é, "seu igual" que ele disse é para censura. "Vespa eu mato" — em Shabat, para eliminar seres nocivos, ainda que ela não seja tão comprovadamente perigosa quanto estas outras. "Não é ainda mais evidente que se pode" — logo, o homem de Nínive agiu bem. "Talvez seja permitido apenas incidentalmente" — não que a pessoa se detenha sobre a criatura e a mate abertamente, mas, quando caminha ao seu modo costumeiro e encontra à sua frente uma cobra ou um escorpião, não precisa desviar-se dele, mas pisa e segue caminhando; e, se a criatura morre com o pisão, que morra, visto que não houve intenção — pois uma coisa sem intenção direta é, para Rabi Yehuda, proibida apenas por decreto rabínico, e quanto a seres nocivos os sábios não decretaram tal proibição. "A saliva, pisa-se sobre ela incidentalmente" — pois a pessoa não tem a intenção de esfregá-la e nivelar buracos com ela; e, embora automaticamente o pisão a esfregue, quando não há intenção direta, é permitido, por causa de sua repugnância.
Abba bar Marta, que é Abba bar Minyomi, devia dinheiro à casa do Reish Galuta (o Exilarca). Trouxeram-no, e estavam angustiando-o por causa da dívida. Havia saliva jogada no chão diante deles. Disse-lhes o Reish Galuta: tragam um utensílio e virem-no sobre ela. Disse-lhes Abba bar Marta: não precisais, pois assim disse Rav Yehuda: a saliva, pisa-se sobre ela incidentalmente. Disseram-lhe: ele é um jovem erudito da Torá, deixem-no ir.
A Guemará traz um episódio concreto para ilustrar a regra recém-ensinada. Abba bar Marta (também conhecido como Abba bar Minyomi) devia dinheiro à casa do Reish Galuta (o Exilarca, a autoridade política da comunidade judaica na Babilônia), e foi trazido perante ela, sendo pressionado a pagar. No local havia saliva no chão, em Shabat, e o Reish Galuta, por precaução, ordenou que trouxessem um vaso para cobri-la (evitando qualquer dúvida sobre pisá-la). Abba bar Marta interveio, citando a regra de Rav Yehuda de que se pode pisar na saliva incidentalmente, sem necessidade de cobri-la. Ao ouvir isso, os presentes reconheceram nele um jovem erudito da Torá, e por respeito ao seu conhecimento, dispensaram-no da cobrança — um final que mostra tanto a aplicação prática da regra quanto o respeito social devido à erudição talmúdica.
"Havia saliva jogada" — havia saliva no chão diante deles, e era Shabat.
Disse Rabi Abba bar Kahana, que disse Rabi Chanina: os castiçais da casa de Rabi (Yehuda HaNasi) são permitidos de manusear em Shabat. Disse-lhe Rabi Zeira: isso vale quando se carregam com uma só mão, ou também quando se carregam com as duas mãos?
Rabi Abba bar Kahana ensina, em nome de Rabi Chanina, que os castiçares (ou lampadários) usados na casa de Rabi Yehuda HaNasi são permitidos de manusear em Shabat — apesar de, em outros contextos, objetos como esses poderem ser considerados muktzeh por serem instrumentos associados ao fogo ou por seu valor (reservados para uso especial, e não para qualquer manuseio comum). Rabi Zeira levanta uma dúvida sobre o alcance exato dessa permissão: aplica-se apenas a castiçais leves o bastante para serem carregados com uma única mão, ou também aos maiores e mais pesados, que exigem as duas mãos? A distinção pode se relacionar à questão de saber se castiçais grandes e vistosos seriam tratados como objetos de exibição, reservados apenas para o olhar (e portanto proibidos de manusear), enquanto os menores seriam utensílios comuns.
"Castiçais" — candelabros, e não eram feitos de segmentos articulados (que se desmontam, o que os tornaria suscetíveis a uma proibição diferente).