Sétima halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (todos os escritos sagrados). A Mishná ensina que ao nochri (gentio) que vem apagar o incêndio no Shabat não se diz nem “apaga” nem “não apagues”, porque o seu repouso não está a cargo do judeu; mas ao katan (menor) que vem apagar não se dá ouvidos, porque o seu repouso está a cargo dele. A guemará conta o arauto que Rabi Imi fez sair pelos mercados dos gentios, “quem fizer não perde”, e discute se era um caso de perigo; traz a história de Yossi ben Simai, que não deixou os soldados de Tzipori apagarem o fogo do seu pátio, e a nuvem que o apagou; o vizinho nabateu de Rabi Yoná; o manto de Rabi Yudan de Kfar Imi, de que o fogo fugiu; e, por fim, a pergunta sobre o menor que colhe ervas no Shabat. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 121a.
Mishná: Um nochri (gentio) que vem apagar o incêndio no Shabat, não se lhe diz: apaga, ou: não apagues, porque o seu repouso de Shabat não está a teu cargo. Mas um katan (menor) que vem apagar, não se lhe dá ouvidos para que apague, pois o seu repouso está a teu cargo.
“Um gentio que vem apagar.” Nos dias de Rabi Imi, caiu um incêndio na aldeia no Shabat. Rabi Imi fez sair um arauto pelos mercados dos arameus (os gentios) e disse: quem fizer o trabalho de apagar não perde a sua paga. Disse Rabi Elazar beRabi Yossi diante de Rabi Yossi: era um caso de perigo de vida. Se era perigo, até Rabi Imi mesmo apagaria! E não se ensinou assim: em todo caso em que há perigo, não se diz: que se façam estas coisas por mulheres e por menores; mas que se façam mesmo por adultos, mesmo por gente de Israel?
Sucedeu que caiu um incêndio no Shabat no pátio de Yossi ben Simai, em Shichin, e desceram os homens da kitzra (fortaleza) de Tzipori para apagar o fogo, e ele não os deixou apagar. Disse-lhes: deixai o cobrador cobrar a sua dívida. Imediatamente a nuvem se condensou sobre ele, sobre o fogo, e o apagou. Na saída do Shabat, enviou a cada um deles um sela (moeda de prata), e ao iparchos (comandante) deles, cinquenta denários. Disseram os sábios: não era preciso fazer assim.
Um nabateu morava na vizinhança de Rabi Yoná. Caiu um incêndio no Shabat na vizinhança de Rabi Yoná. Foi aquele nabateu, quis apagá-lo, e não o deixou apagar. Disse-lhe: o que é meu fica por tua conta? Disse-lhe: sim. E salvou-se a vizinhança inteira. Rabi Yudan de Kfar Imi estendeu o seu manto sobre o gadish (meda de feixes) que ardia, e o fogo fugiu dele.
“Mas um menor que vem apagar, não se lhe dá ouvidos.” E não se ensinou assim: viram-no, ao menor, sair e colher ervas no Shabat; não estás obrigado a detê-lo? Ali, ele não tem necessidade das ervas; mas aqui, ele tem necessidade do apagar do incêndio.
Esta é a sétima halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 16:6 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, como antecipou a nota da halachá 16:6. A Mishná avulsa 16:7, a da tigela emborcada sobre a vela, sobre a sujeira do menor e sobre o escorpião, não está nesta halachá: no Sefaria, ela abre a halachá 16:8 do Yerushalmi. No Bavli, a nossa Mishná está em Shabbat 121a, e a sua guemará ocupa a mesma página. Há diferenças de redação: o Yerushalmi diz כַּבֵּה אוֹ אַל תְּכַבֶּה, onde a avulsa diz כַּבֵּה וְאַל תְּכַבֶּה; diz, nas duas vezes, עָלֵיךָ, “a teu cargo”, onde a avulsa diz עֲלֵיהֶן, “a cargo deles”; e diz שֶכֵּן שֶׁשְּׁבִיתָתוֹ, onde a avulsa diz מִפְּנֵי שֶׁשְּׁבִיתָתוֹ; o sentido é o mesmo. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O segundo segmento, longo, vai na seção 01 em três pares de hebraico e português, sem que nada se tire ou se acrescente. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. No segundo segmento, antes das palavras פָּרַס גּוּלְתֵּיהּ, o Sefaria traz embutido o marcador de folha 81b da edição de Vilna, que retiramos. Não há, nestes três segmentos, sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico.
Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 121a traz a nossa Mishná, com גּוֹי no lugar de נָכְרִי, e logo depois a palavra de Rabi Ami: num incêndio, permitiram dizer “todo aquele que apaga não perde”, que é o paralelo do arauto de Rabi Imi. Na mesma página está a baraita do incêndio no pátio de Yossef ben Simai, em Shichin: os homens da fortaleza de Tzipori vieram apagar, porque ele era administrador do rei, e ele não os deixou, por honra do Shabat; aconteceu-lhe um milagre, desceu a chuva e apagou o fogo; à noite enviou a cada um deles dois selaim, e cinquenta ao comandante; e os sábios disseram que não era preciso, porque a Mishná ensina que ao gentio que vem apagar não se diz nem “apaga” nem “não apagues”. Ali também, sobre o menor que vem apagar, Rabi Yochanan explica que se trata do menor que age segundo a vontade do pai. Na Tosefta Shabbat, na numeração de Lieberman, 13:9 traz a mesma lei do gentio e a história do incêndio no pátio de Yossef ben Simai, de Shichin: os homens da קצטרה de Tzipori vieram apagar, ele não os deixou, desceu uma nuvem e apagou; os sábios disseram que não era preciso; e, mesmo assim, ao fim do Shabat ele enviou um sela a cada um e cinquenta dinares ao comandante. No Bavli, Yevamot 114a cita a nossa Mishná numa redação em que, ao menor que vem apagar, se diz “não apagues”, e traz ali a mesma explicação de Rabi Yochanan: o menor age segundo a vontade do pai. No Bavli, Yoma 84b traz uma baraita parecida com a do nosso texto: as coisas que salvam a vida no Shabat não se fazem por meio de gentios nem de samaritanos, mas por meio dos adultos de Israel, e não se diz que sejam feitas por ordem de mulheres ou de samaritanos. O trecho de Rabi Imi até Rabi Yudan aparece também, quase igual, no Yerushalmi Nedarim 4:9, e o trecho da baraita até Rabi Yudan, no Yerushalmi Yoma 8:5.
Observações de leitura. Na Mishná, segundo Penei Moshe, o repouso do gentio não está a cargo do judeu, porque ele não é seu servo, e por isso não é preciso impedi-lo; o do menor está a cargo do judeu quando ele age segundo a vontade do pai. Na seção 01, “arameus” é o nome que o aramaico do Yerushalmi dá aos gentios; o arauto não pede que apaguem, só promete que quem o fizer não perde, e esta é, segundo Penei Moshe, a fórmula permitida. O hebraico não diz quem responde a Rabi Elazar beRabi Yossi com “se era perigo, até Rabi Imi mesmo apagaria”; segundo Penei Moshe, é Rabi Yossi, e a conclusão é que, mesmo sem perigo de vida, é permitido dizer “quem fizer não perde”. A baraita citada diz בַּנָּשִׁים וּבִקְטַנִּים, “por mulheres e por menores”, onde os paralelos de Nedarim 4:9 e de Yoma 8:5 dizem בַגּוֹיִם וּבַקְּטַנִּים, “por gentios e por menores”; seguimos o hebraico desta página. “Deixai o cobrador cobrar a sua dívida”, segundo Penei Moshe, se diz de Deus: o incêndio veio por causa das suas faltas. A nuvem que “se condensou sobre ele” é, nos paralelos de Nedarim e do Bavli, a chuva que caiu. Yossi ben Simai é o nome do nosso hebraico; a Tosefta e o Bavli dizem Yossef ben Simai. קַיצְרָה, segundo Guggenheimer, é o latim castra, o quartel, e אִיפַּרְכוֹס é o grego ἔπαρχος, o comandante. Os sábios dizem que não era preciso impedi-los, porque, segundo a Mishná, ao gentio não se diz “não apagues”. Sobre o nabateu: נַפְּתִּי é, segundo Penei Moshe, o nome de um lugar, e o homem era gentio; em Nedarim ele é um samaritano. O hebraico deixa sem sujeito “e não o deixou”, e os paralelos de Nedarim e de Yoma 8:5 dizem que foi Rabi Yoná. A frase בַּגְרָךְ מִדְּלִי é de leitura incerta; Penei Moshe lê, com Nedarim, בגדך מדלי, “na tua sorte esteja tudo o que é meu”, isto é, o nabateu pede que Rabi Yoná se responsabilize pelos seus bens, se o fogo os alcançar, e Rabi Yoná responde “sim”; o hebraico não diz quem fala em cada vez, e assim o deixamos. O nosso hebraico diz Rabi Yudan de Kfar Imi, como Yoma 8:5, onde Nedarim diz Rabi Yoná de Kfar Imi; o manto, segundo Penei Moshe, é o seu manto de cima, e o gadish é a meda em que caiu o fogo. Na seção 02, a baraita do menor que colhe ervas pergunta por que a Mishná manda não dar ouvidos ao menor que apaga. Segundo Penei Moshe, a resposta se lê como pergunta retórica, e o menor que apaga age segundo a vontade do pai; segundo Korban HaEdah, “ele” é o adulto: ali o adulto não quer as ervas, e não é preciso avisar o menor; aqui o adulto precisa que o fogo se apague, e é como se o menor agisse segundo a sua vontade. O hebraico diz só “ele”, e assim o deixamos. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer não traduz קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵה, “diante de Rabi Yossi”, que está no hebraico, e nós o traduzimos. Ele traduz o último personagem por “Rebbi Jonah from Kefar-Immi”, como em Nedarim; o nosso hebraico diz רִבִּי יוּדָן, e assim traduzimos Rabi Yudan. Ele traduz בְּשׁוּקֵי דַאֲרָמָאֵי por “to the markets of the Gentiles”; mantivemos “arameus”, com a glosa. Ele traduz סֶלַע por “tetradrachma”; mantivemos sela. Ele traduz בַּגְרָךְ מִדְּלִי por “because of my property!”; seguimos a leitura de Penei Moshe, como se explicou acima. Ele escreve “Rebbi Immi”, “Rebbi Eleazar ben Rebbi Yose”, “Rebbi Yose”, “Yose ben Simai”, “Shiḥin” e “Sepphoris”; mantivemos “Rabi Imi”, “Rabi Elazar beRabi Yossi”, “Rabi Yossi”, “Yossi ben Simai”, “Shichin” e “Tzipori”, como nas halachot anteriores deste tratado. As suas referências ao Bavli Shabbat 121a, ao Bavli Yoma 84b, à Tosefta 13:9, na edição de Lieberman, e ao Yerushalmi Nedarim 4:9 foram conferidas, e estão corretas.