Sexta halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (todos os escritos sagrados). A Mishná traz a palavra de Rabi Shimon ben Nanas: estende-se um couro de cabrito sobre a shidá (arca), a teivá (caixa) e o migdal (armário) em que o fogo pegou, porque o couro só se chamusca; ensina que se faz uma mechitzá (divisória) com todos os utensílios, cheios ou vazios, para que o incêndio não passe; e Rabi Yossi proíbe os vasos de barro novos cheios de água, que se racham e apagam o incêndio. A guemará corrige a leitura da Mishná, “desde que o fogo os pegue”; traz a regra de Rav sobre o sefer (rolo) e o talit (manto) em que o fogo pegou; e, com Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira, mostra que a controvérsia de Rabi Yossi e dos rabinos vale também para a divisória de água. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 120a.
Mishná: Rabi Shimon ben Nanas diz: estende-se um couro de cabrito sobre a shidá (arca), a teivá (caixa) e o migdal (armário) em que o fogo pegou, porque ele apenas se chamusca e não queima. Faz-se uma mechitzá (divisória) com todos os utensílios, sejam cheios, sejam vazios, para que o incêndio não passe adiante. Rabi Yossi proíbe fazê-la com utensílios de barro novos cheios de água, que não conseguem suportar em si o fogo, e eles se racham e apagam o incêndio.
Assim é a leitura da Mishná: “desde que o fogo os pegue”. Rabi Yirmeyá, Rabi Ba bar Mamal em nome de Rav: um sefer (rolo) em que o fogo pegou no Shabat de um lado, põe água do outro lado; e, se o fogo se apagou, apagou-se. Se o fogo pegou nele dos dois lados, estende-o e lê nele; e, se se apagou, apagou-se. Um talit (manto) em que o fogo pegou de um lado, põe água do outro lado; e, se o fogo se apagou, apagou-se. Se o fogo pegou nele dos dois lados, toma-o e envolve-se nele; e, se se apagou, apagou-se.
Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira: esta regra é de Rabi Yossi. Disse o amorá Rabi Yossi: pensávamos dizer: em que divergem Rabi Yossi e os rabinos? No caso em que alguém fez uma divisória de utensílios cheios de água; mas, se fez uma divisória de água, não divergem. Do que disse Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira, que esta regra é de Rabi Yossi, isto diz: mesmo se fez uma divisória de água, também ali está a controvérsia.
Esta é a sexta halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 16:5 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, a de Rabi Shimon ben Nanas sobre o couro de cabrito, como antecipou a nota da halachá 16:5; e a nota da halachá 16:3 já citou esta Mishná, sobre os vasos de barro novos. A Mishná avulsa 16:6, a do gentio que vem apagar o incêndio, não está nesta halachá: no Sefaria, ela abre a halachá 16:7 do Yerushalmi. No Bavli, a nossa Mishná está em Shabbat 120a, e a sua guemará vai de 120a até 120b. Há diferenças de redação: o Yerushalmi diz עוֹשִׂין מְחִיצָּה, sem o vav, onde a avulsa diz וְעוֹשִׂין מְחִצָּה; e diz שֶׁאֵינָן יְכוֹלִין לְקַבֵּל בָּהֶן אֶת הָאוּר, onde a avulsa diz לְפִי שֶׁאֵין יְכוֹלִין לְקַבֵּל אֶת הָאוּר; o sentido é o mesmo. As demais são de grafia: שִׁידָּה, תֵּיבָה, בָּהֶם, רֵיקָנִין, הַדְּלֵיקָה, רִבִּי e מְלֵאִים, onde a avulsa escreve שִׁדָּה, תֵּבָה, בָּהֶן, רֵיקָנִים, הַדְּלֵקָה, רַבִּי e מְלֵאִין. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná” e a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois deles não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. Nestes três segmentos não há marcadores de folha da edição de Vilna ou de Veneza, nem sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico.
Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 120a traz a nossa Mishná e, logo depois, a palavra de Rav Yehudá em nome de Rav: o talit em que o fogo pegou de um lado, põe-se água sobre ele do outro lado, e, se se apagou, apagou-se; e uma baraita objeta que o talit em que o fogo pegou de um lado se estende e com ele a pessoa se cobre, e que assim também o sefer Torá em que o fogo pegou se estende e nele se lê. Em Shabbat 120b, o Bavli responde que Rav segue Rabi Shimon ben Nanas, e que da proibição de Rabi Yossi, na Mishná, se deduz que o primeiro taná permite causar indiretamente o apagar; discute a divisória de utensílios com uma baraita sobre os utensílios de metal e os de Kfar Shichin e Kfar Chananyá; e cita Rabá bar Tachlifa em nome de Rav: quem ensinou que causar o apagar é proibido? Rabi Yossi. É o paralelo da palavra de Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira. Na Tosefta Shabbat, na numeração de Lieberman, 13:6 traz o sefer em que o fogo pegou numa ponta, que se toma e em que se lê, e o talit, que se toma e com que a pessoa se cobre, “e, se se apagou, apagou-se”; e 13:8 traz a palavra de Rabi Shimon ben Nanas sobre o couro de cabrito, com o acréscimo: “e os sábios não concordaram com ele”. A Tosefta 13:9 trata do gentio que vem apagar, e não desta Mishná. A seção 02 aparece também, quase igual, no Yerushalmi Shabbat 3:8, onde se refere à Mishná do recipiente posto sob a vela, cuja água apagaria as faíscas; segundo Guggenheimer, o texto foi copiado daquele lugar.
Observações de leitura. Na Mishná, o couro de cabrito, segundo Guggenheimer, não costuma arder no fogo, e cobrir com ele os móveis não é dar combustível ao incêndio; a divisória com utensílios também não é construir. Na seção 01, a correção “desde que o fogo os pegue” lê מִשֶּׁיֶּאֱחוֹז הָאוּר בָּהֶן no lugar de שֶׁאָחַז בָּהֶם אֶת הָאוּר, da Mishná; o alcance da correção é incerto, e Guggenheimer a entende de outro modo, como se explica abaixo. O hebraico não diz se “Rabi Yirmeyá, Rabi Ba bar Mamal” é uma cadeia de transmissão ou se os dois dizem juntos, e assim o deixamos. Pôr água do outro lado é causar indiretamente o apagar; segundo Guggenheimer, isso é proibido só por decreto rabínico e é tolerado aqui. Estender o rolo e envolver-se no manto podem também abafar o fogo, e por isso a regra repete, nos dois casos: se se apagou, apagou-se. Na seção 02, a regra que Rabi Shmuel atribui a Rabi Yossi não é nomeada; no paralelo de 3:8, é a proibição de pôr água no recipiente sob a vela. A conclusão é que também a divisória de água entra na controvérsia de Rabi Yossi e dos rabinos. O hebraico escreve מַה פְלִיגִין מֵימַר רִבִּי יוֹסֵה וְרַבָּנִן, com um segundo מֵימַר, “dizer”, que o paralelo de 3:8 não tem, e que não traduzimos à parte. O nome do amorá que fala, רִבִּי יוֹסֵה, e o do taná da Mishná se escrevem aqui ora יוֹסֵה, ora יוֹסֵי, e o de Rabi Zeira ora זֵירָא, ora זְעִירָא; escrevemos sempre Rabi Yossi e Rabi Zeira, como em 3:8. Onde 3:8 diz הֲוִינָן סָבְרִין, רִבִּי מֵאִיר e מִן מַה דָמַר, aqui se lê הֲוָה סָבְרִינַן, רִבִּי יוֹסֵה e מִמָּה דָמַר. A grafia שֶׁלְּכֶלִים e שֶׁלְּמַיִם, numa só palavra, é a do Sefaria, e assim a mantivemos. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer traduz a correção da Mishná como “Before they are on fire”, e anota que Rabi Shimon ben Nanas só permite proteger a arca do fogo, e não abafá-lo com o couro; o hebraico diz מִשֶּׁיֶּאֱחוֹז, “desde que pegue”, e assim traduzimos. Ele traduz טַלִּית por “toga”; mantivemos talit, com a glosa já usada no site. Na Mishná, ele traduz מִתְבַּקְּעִין por “spring leaks”; traduzimos “se racham”. Ele escreve “Rebbi Simeon ben Nanas”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Jeremiah”, “Rebbi Abba bar Mamal”, “Rebbi Samuel” e “Rebbi Zeˋira”; mantivemos “Rabi Shimon ben Nanas”, “Rabi Yossi”, “Rabi Yirmeyá”, “Rabi Ba bar Mamal”, “Rabi Shmuel” e “Rabi Zeira”, como nas halachot anteriores deste tratado. A sua referência ao Bavli, 120a, foi conferida, e está correta.