Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
מַצִּילִין סַל מָלֵא כִּכָּרוֹת

A objeção de Rav Ketina é resolvida; a Mishná sobre resgatar alimentos e vestes do fogo em Shabat; a baraita das dezoito peças de vestuário; a Mishná do couro de cabrito contra o fogo

Shabbat 120a · continua diretamente de 119b · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 120a abre completando a frase interrompida no fim de 119b, em pleno meio da citação de Yeshaiáhu 3:6: "coisas que as pessoas não conhecem com exatidão a menos que errem nelas estão em tua mão: chefe serás para nós". Segue-se o versículo seguinte, Yeshaiáhu 3:7, lido homileticamente: "levantará, naquele dia, dizendo: não serei um curador, etc." — onde "yissá" é lido como expressão de juramento, e "não serei um curador" significa que o homem não é dos que se prendem a si mesmos na casa de estudo; e "em minha casa não há pão nem manto" significa que em sua mão não há Escritura, nem Mishná, nem Guemará. A Guemará questiona a prova trazida por Rav Ketina, propondo que talvez o homem devesse ter dito apenas "aprendi e esqueci", e não jurar total ignorância — e resolve que a fidelidade descrita por Rav Ketina refere-se a matérias de Torá, e a fidelidade que faltou segundo Rava refere-se a negócios. Encerrada essa sugiá, o daf passa à segunda Mishná do perek: resgata-se do fogo, em Shabat, uma cesta cheia de pães, ainda que haja nela cem refeições, um círculo de figos secos e um barril de vinho, dizendo-se aos outros "vinde e resgatai para vós", e se eram sagazes, fazem contas com quem resgatou depois de Shabat; e resgata-se tudo isso para o pátio com eiruv, ou, segundo Ben Beteira, mesmo para o que não tem eiruv, vestindo e envolvendo-se em tudo o que se pode, sendo dezoito peças, segundo Rabi Yosei, e dizendo aos outros "vinde e resgatai comigo". Na Guemará, Rav Huna resolve a aparente contradição entre a Mishná anterior — que limitava o resgate a três refeições — e esta, distinguindo entre quem vem para resgatar tudo de uma só vez e quem vem para dobrar e guardar em várias cestas; Rabi Abba bar Zavda propõe outra distinção, entre resgatar para o mesmo pátio ou para outro; e Rav Huna filho de Rav Yehoshua pergunta sobre quem estende o manto e nele deposita alimento repetidamente. Segue-se o relato de como Rav Sheizvi induziu Rav Chisda a um erro, ao ensinar que o resgate se limita a um utensílio que não contenha mais que três refeições — quando, na verdade, um único utensílio, por maior que seja, é permitido, pois se assemelha a dobrar e guardar num só utensílio. Explica-se então por que se faz conta com quem resgatou alimentos alheios, ainda que os tenha adquirido por abandono: trata-se de um temente aos céus, a quem não agrada beneficiar-se às custas de outros nem se esforçar de graça. Explica-se também por que a Mishná diz "para vós" quanto aos alimentos, que só servem para três refeições, e "comigo" quanto às vestes, que servem a quem as veste o dia todo. Segue-se a baraita de Rabi Meir e Rabi Yosei sobre vestir, tirar e despir repetidamente as próprias roupas para salvá-las do fogo, com a lista detalhada de Rabi Yosei das dezoito peças de vestuário costumeiras — manto curto, capa, cinto oco, calção de linho, túnica, lençol, véu, lenços, sapatos, meias, mantas, cinturão, gorro e lenço de pescoço. A terceira Mishná do perek, de Rabi Shimon ben Nanas, ensina que se estende couro de cabrito sobre uma arca, um baú e um armário já tocados pelo fogo, pois o couro apenas chamusca sem se queimar, protegendo o que está dentro; e que se faz uma divisória com todos os utensílios, cheios ou vazios, para impedir a propagação do incêndio — com a ressalva de Rabi Yosei, que proíbe utensílios de barro novos cheios de água, por não suportarem o calor e se romperem, apagando o próprio incêndio. O daf termina em pleno fluxo da discussão de Rav Yehuda, em nome de Rav, sobre um manto tocado pelo fogo de um lado só, e a objeção correspondente sobre o manto e o Sefer Torá, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 120b, ainda não publicado.

A objeção de Rav Ketina, resolvida · כָּאן בְּדִבְרֵי תוֹרָה

709A leitura homilética de Yeshaiáhu 3:6–7 continua: "não serei um curador" e "em minha casa não há pão nem manto"; a objeção resolvida entre matérias de Torá e negócios
Yeshaiáhu (versículo); Anônimo (Guemará)
דְּבָרִים שֶׁאֵין בְּנֵי אָדָם עוֹמְדִין עֲלֵיהֶם אֶלָּא אִם כֵּן נִכְשָׁלִים בָּהֶן יֶשְׁנָן תַּחַת יָדֶיךָ, ״קָצִין תִּהְיֶה לָנוּ״. ״יִשָּׂא בַיּוֹם הַהוּא לֵאמֹר לֹא אֶהְיֶה חוֹבֵשׁ וְגוֹ׳״ — אֵין יִשָּׂא אֶלָּא לְשׁוֹן שְׁבוּעָה, וְכֵן הוּא אוֹמֵר ״לֹא תִשָּׂא אֶת שֵׁם ה׳״. ״לֹא אֶהְיֶה חוֹבֵשׁ״ — לֹא אֶהְיֶה מֵחוֹבְשֵׁי עַצְמָן בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ. ״וּבְבֵיתִי אֵין לֶחֶם וְאֵין שִׂמְלָה״ — שֶׁאֵין בְּיָדִי לֹא מִקְרָא וְלֹא מִשְׁנָה וְלֹא גְּמָרָא. וּמִמַּאי? דִּילְמָא שָׁאנֵי הָתָם, דְּאִי אֲמַר לְהוּ גְּמִירְנָא, אֲמַרוּ לֵיהּ: אֵימָא לַן. הֲוָה לֵיהּ לְמֵימַר גְּמַר וּשְׁכַח, מַאי ״לֹא אֶהְיֶה חוֹבֵשׁ״? — כְּלָל! לָא קַשְׁיָא: כָּאן בְּדִבְרֵי תוֹרָה, כָּאן בְּמַשָּׂא וּמַתָּן.

Coisas que as pessoas não conhecem com exatidão a menos que errem nelas estão em tua mão: por isso te dizem "chefe serás para nós" (Yeshaiáhu 3:6). "Levantará, naquele dia, dizendo: não serei um curador, etc." (Yeshaiáhu 3:7) — "yissá" não é senão expressão de juramento, e assim a Escritura diz: "não jurarás (tissá) pelo nome do Eterno em vão" (Shemot 20:7). "Não serei um curador" — não sou dos que se prendem a si mesmos na casa de estudo. "E em minha casa não há pão nem manto" — pois em minha mão não há Escritura, nem Mishná, nem Guemará. E de onde se prova isso? Talvez seja diferente ali, pois se ele lhes tivesse dito "eu aprendi", diriam-lhe: dize-nos então. Deveria ter dito "aprendi e esqueci" — então o que significa "não serei um curador"? De modo algum faz sentido essa objeção! Não é difícil: aqui trata-se de matérias de Torá, ali de negócios.

Nota

O daf abre completando a citação deixada interrompida no fim de 119b, em pleno meio do versículo de Yeshaiáhu 3:6, que Rav Ketina trouxera para provar que mesmo na hora da queda de Jerusalém ainda havia homens de fé: um homem seria escolhido líder justamente por não dominar as matérias delicadas da Torá com exatidão — e portanto ser fiel o bastante para não fingir sabedoria que não tem. O versículo seguinte, lido homileticamente, reforça essa fidelidade: o homem escolhido recusa o cargo sob juramento, dizendo que "em sua casa não há pão nem manto" — isto é, não tem conhecimento de Escritura, Mishná ou Guemará — preferindo confessar sua ignorância a aceitar uma posição que não merece. A Guemará então questiona essa mesma prova: por que ele não disse simplesmente "aprendi e esqueci", evitando negar todo conhecimento? A resposta resolve a tensão entre este relato e o lamento de Rava sobre o fim dos homens de fé: a fidelidade de que fala Rav Ketina — a recusa de fingir saber o que não sabe — refere-se a matérias de Torá, ao passo que a falta de fidelidade lamentada por Rava refere-se aos negócios cotidianos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "devarim she'ein adam omed bahen", "ela im ken nichshal bahen", "lo ehiyeh choveish", "umimai", "de'i amar lehu gemirna", "amrei leih", "umeshani" e "bedivrei Torah"
דברים שאין אדם עומד בהן - על בוריין לאומרן כהלכתן: אלא אם כן נכשל בהן - עד שאומרן ב' וג' פעמים בשיבוש דהיינו טעמי תורה המסותרין: לא אהיה חובש - איני רגיל להיות חובש חבוש בבהמ"ד. אהיה הורגלתי כמו שחוק לרעהו אהיה (איוב י״ב:ד׳) אני הווה: וממאי - דמשום דיש בהן אמנה הוא דילמא על כרחיך צריכים שישיבו האמת: דאי אמר להו גמירנא - אותן טעמי תורה: אמרי ליה - שואלים אימא לן: ומשני הוה ליה למימר גמר ושכח מאי לא אהיה חובש - מודה הוא על האמת שלא יגע בתורה: בדברי תורה - היו נאמנין ואין מתהללים על שקר:

"Coisas que a pessoa não domina" — para dizê-las com exatidão, conforme sua lei. "A menos que erre nelas" — até dizê-las duas ou três vezes com engano; isto é, os fundamentos ocultos da Torá. "Não serei um curador" — não costumo ficar preso na casa de estudo; "ehiyê" (serei) tem o sentido de "costumava", como em "motivo de riso para seu próximo, sou eu (ehiyê)" (Iyov 12:4)ou seja, "eu costumo ser". "E de onde se prova isso" — que é por haver neles fidelidade; talvez, ao contrário, precisem responder de fato com a verdade. "Se lhes tivesse dito 'eu aprendi'" — referindo-se a aqueles fundamentos da Torá. "Diriam-lhe" — perguntariam: dize-nos. "E respondemos: deveria ter dito 'aprendi e esqueci'; então o que significa 'não serei um curador'" — caso tivesse dito assim, isso mostraria que ele reconhece a verdade de que não se ocupa da Torá. "Em matérias de Torá" — eram fiéis e não se vangloriavam com mentira.

Segunda Mishná: resgatar do fogo uma cesta de pães, um círculo de figos e um barril de vinho · מַצִּילִין סַל מָלֵא כִּכָּרוֹת

710Mishná: resgata-se do fogo uma cesta cheia de pães, um círculo de figos secos e um barril de vinho, dizendo-se aos outros "resgatai para vós"; se eram sagazes, fazem contas depois de Shabat
Mishná
מַצִּילִין סַל מָלֵא כִּכָּרוֹת, אַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בּוֹ מֵאָה סְעוּדוֹת, וְעִיגּוּל שֶׁל דְּבֵילָה, וְחָבִית שֶׁל יַיִן. וְאוֹמֵר לַאֲחֵרִים: בּוֹאוּ וְהַצִּילוּ לָכֶם. וְאִם הָיוּ פִּיקְחִין, עוֹשִׂין עִמּוֹ חֶשְׁבּוֹן אַחַר הַשַּׁבָּת.

Resgata-se do fogo uma cesta cheia de pães, ainda que haja nela cem refeições, e um círculo de figos secos prensados, e um barril de vinho. E diz-se aos outros: vinde e resgatai algo para vós. E se eram sagazes, fazem contas com ele depois de Shabat.

Nota

Abre-se a segunda Mishná do perek, ainda sobre resgatar bens de um incêndio em Shabat, agora voltada a alimentos: permite-se resgatar uma cesta inteira de pães, mesmo que contenha cem refeições — quantidade muito superior ao limite de três refeições estabelecido para outros casos —, assim como um grande bolo prensado de figos secos e um barril de vinho, sem se preocupar com o volume. A pessoa pode convocar outros para ajudar, dizendo-lhes que resgatem para si mesmos o que salvarem; mas se esses ajudantes forem sagazes o bastante para perceber que essa "doação" não passa de uma forma disfarçada de pagamento por trabalho em Shabat — o que seria proibido —, fazem as contas devidas somente depois que Shabat terminar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'igul shel devela" e "im hayu pikchin"
מתני' ועיגול של דבילה - שהוא גדול ויש בו סעודות הרבה: ואם היו פקחין - לישאל שכרן כפועלים:

"E um círculo de figos secos" — refere-se a um bolo grande, com muitas refeições nele. "E se eram sagazes" — para pedir seu pagamento como se fossem trabalhadores contratados.

711Mishná: para onde se resgata — o pátio com eiruv, ou, segundo Ben Beteira, mesmo sem eiruv; vestir e envolver-se em tudo o que se pode, sendo dezoito peças segundo Rabi Yosei
Mishná
לְהֵיכָן מַצִּילִין אוֹתָן — לֶחָצֵר הַמְעוֹרֶבֶת. בֶּן בְּתִירָה אוֹמֵר: אַף לְשֶׁאֵינָהּ מְעוֹרֶבֶת. וּלְשָׁם מוֹצִיא כׇּל כְּלֵי תַּשְׁמִישׁוֹ, וְלוֹבֵשׁ כׇּל מַה שֶּׁיָּכוֹל לִלְבּוֹשׁ, וְעוֹטֵף כׇּל מַה שֶּׁיָּכוֹל לַעֲטוֹף. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שְׁמֹנָה עָשָׂר כֵּלִים. וְחוֹזֵר וְלוֹבֵשׁ וּמוֹצִיא, וְאוֹמֵר לַאֲחֵרִים: בּוֹאוּ וְהַצִּילוּ עִמִּי.

Para onde se resgata isso (os alimentos)? Para o pátio que possui eiruv. Ben Beteira diz: mesmo para o que não possui eiruv. E para lá a pessoa tira todos os seus utensílios de uso, e veste tudo o que pode vestir, e se envolve em tudo o que pode se envolver. Rabi Yosei diz: dezoito peças. E volta a vestir e a tirar, e diz aos outros: vinde e resgatai comigo.

Nota

A Mishná passa a especificar o destino do resgate: em princípio, apenas para um pátio que já possui eiruv chatzerot (a mistura que une as casas de um pátio comum para efeitos de carregar objetos em Shabat); Ben Beteira amplia essa permissão mesmo a um pátio sem eiruv. Em seguida, a Mishná trata de vestimentas: pode-se tirar do fogo todos os utensílios que se usa diariamente, vestindo e envolvendo-se em tudo o que for possível — carregar roupas vestidas no corpo não constitui transportar um objeto, ao contrário de carregá-las nas mãos. Rabi Yosei limita essa possibilidade a dezoito peças, o conjunto habitual de vestimentas que uma pessoa usaria normalmente num dia comum, e permite repetir o processo de vestir, sair, tirar as roupas e voltar para vestir novamente — convocando outros para ajudar no resgate junto consigo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lechatzer hameoravet", "kol klei tashmisho" e "yud-chet kelim"
לחצר המעורבת - ואפי' הכי טובא לא ליצול כדאמר לעיל (שבת דף קיז:) מתוך שבהול אי שרי לאיעסוקי בהצלה כולי האי אתי לכבויי: כל כלי תשמישו - שצריכין לו לאותו היום כגון כוסות וקיתוניות: י"ח כלים - מפרש להו בגמרא שכן דרך ללובשן בחול יחד אבל טפי מהכי לא ואינו פושטן לחזור וללבוש ולהציל אחרים:

"Para o pátio com eiruv" — e mesmo assim que não se resgate demais, como se disse acima (Shabat 117b): por estar apressado, se lhe permitirmos ocupar-se tanto assim do resgate, virá a apagar o fogo. "Todos os seus utensílios de uso" — os que lhe são necessários naquele dia, como copos e jarros. "Dezoito peças" — a Guemará as explicará; pois assim é costume vesti-las juntas em dia comum, mas não mais do que isso, e não as tira outra vez para tornar a vestir e resgatar outras.

Guemará: o alcance do resgate · בְּבָא לְהַצִּיל, כָּאן בְּבָא לְקַפֵּל

712Rav Huna: quem vem para resgatar tudo de uma vez resgata tudo; quem vem para dobrar e guardar só três refeições; Rabi Abba bar Zavda: distinção entre o mesmo pátio e outro pátio; a dúvida de Rav Huna filho de Rav Yehoshua
Rav Huna; Rabi Abba bar Zavda; Rav Huna filho de Rav Yehoshua
וְהָא תְּנָא לֵיהּ רֵישָׁא שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת וְתוּ לָא! אָמַר רַב הוּנָא: לָא קַשְׁיָא, כָּאן — בְּבָא לְהַצִּיל, כָּאן — בְּבָא לְקַפֵּל. וּבָא לְהַצִּיל — מַצִּיל אֶת כּוּלָּן. בָּא לְקַפֵּל — אֵינוֹ מְקַפֵּל אֶלָּא מְזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת. רַבִּי אַבָּא בַּר זַבְדָּא אָמַר רַב: אִידֵּי וְאִידֵּי בָּבָא לְקַפֵּל, וְלָא קַשְׁיָא: כָּאן — לְאוֹתָהּ חָצֵר, כָּאן — לְחָצֵר אַחֶרֶת. בָּעֵי רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ: פֵּירַשׂ טַלִּיתוֹ, וְקִיפֵּל וְהִנִּיחַ, וְקִיפֵּל וְהִנִּיחַ, מַאי: כְּבָא לְהַצִּיל דָּמֵי, אוֹ כְּבָא לְקַפֵּל דָּמֵי?

Mas não foi ensinado no início que se resgatam apenas três refeições e nada mais? Disse Rav Huna: não é difícil: aqui trata-se de quem vem para resgatar, ali de quem vem para dobrar e guardar. E quem vem para resgatar — resgata tudo; quem vem para dobrar e guardar — não dobra senão o alimento de três refeições. Rabi Abba bar Zavda disse em nome de Rav: ambos os casos tratam de quem vem para dobrar e guardar, e não é difícil: aqui, levando para o mesmo pátio; ali, para outro pátio. Perguntou Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: se alguém estendeu seu manto, e dobrou e pôs alimento nele, e tornou a dobrar e pôs — o que é isso: assemelha-se a quem vem para resgatar, ou assemelha-se a quem vem para dobrar e guardar?

Nota

A Guemará nota uma contradição: a Mishná anterior (117b) limitava o resgate de alimentos a apenas três refeições, ao passo que esta Mishná permite resgatar uma cesta inteira com cem refeições. Rav Huna resolve distinguindo dois modos de agir: quem resgata tudo de uma só vez, num único ato — como tirar a cesta inteira do incêndio — pode resgatar qualquer quantidade, pois o esforço é o mesmo independentemente do volume; já quem dobra e guarda, item por item, em várias cestas sucessivas, está limitado a três refeições, pois cada ato de dobrar é um esforço separado. Rabi Abba bar Zavda propõe outra resolução, ligada não ao modo de agir mas ao destino: para o mesmo pátio, permite-se mais; para outro pátio, o limite é mais estrito. Fica então em aberto o caso intermediário de quem estende o próprio manto no chão e vai depositando nele, repetidamente, o alimento que traz — sem saber se esse ato se assemelha ao resgate de uma vez só ou ao ato repetido de dobrar e guardar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bava lehatzil", "bava lekapel" e "peirash talito vekipel vehiniach"
גמ' בבא להציל - [שהציל] בסל [אחד] כדקתני סל מלא ככרות ואינו טורח אלא להצילן מתוך הדליקה בבת אחת מציל כל מה שבסל דהא חדא זימנא הוא מה לי פורתא מה לי טובא: בבא לקפל - סלים הרבה זה עם זה לטרוח [ולאוספם] ולחזור ולהוציא מזון ג' סעודות הוא דיכול להציל בסלים הרבה ותו לא שכל א' טורח בעצמו הוא: פירש טליתו וקיפל והניח - הביא אוכלין והניח וחזר והביא והניח מהו: כבא להציל דמי - הואיל ואין כאן אלא כלי אחד ובפעם אחת הוא מוציאם: או כבא לקפל דמי - הואיל וטורח לאסוף ולכנוס:

"Guemará: quem vem para resgatar" — quando resgata numa única cesta, como foi ensinado "uma cesta cheia de pães", e não se esforça senão para resgatá-los do incêndio de uma só vez, resgata tudo o que está na cesta, pois é um único ato — que diferença faz pouco ou muito? "Quem vem para dobrar e guardar" — muitas cestas, uma após a outra, esforçando-se para reuni-las e tornar a tirá-las; apenas o alimento de três refeições pode resgatar em muitas cestas, e não mais, pois cada ato é um esforço à parte. "Estendeu seu manto e dobrou e pôs" — trouxe alimentos e pôs, e voltou e trouxe e pôs — o que é isso? "Assemelha-se a quem vem para resgatar" — visto que não há aqui senão um único utensílio, e de uma só vez os tira. "Ou assemelha-se a quem vem para dobrar e guardar" — visto que se esforça para reunir e recolher.

713Rav Sheizvi induziu Rav Chisda ao erro ao limitar o resgate a um utensílio de três refeições; um único utensílio, por maior que seja, é permitido
Rava; Rav Sheizvi; Rav Chisda; Rav Nachman bar Yitzchak
מִדְּאָמַר רָבָא: אַטְעֲיֵהּ רַב שֵׁיזְבִי לְרַב חִסְדָּא, וּדְרַשׁ: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יָבִיא כְּלִי שֶׁהוּא מַחֲזִיק יוֹתֵר מִשָּׁלֹשׁ סְעוּדוֹת, שְׁמַע מִינַּהּ כְּבָא לְהַצִּיל דָּמֵי, וְשַׁפִּיר דָּמֵי. אֲמַר לֵיהּ רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק לְרָבָא: מַאי טָעוּתָא? אֲמַר לֵיהּ, דְּקָתָנֵי: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יָבִיא כְּלִי אַחֵר וְיִקְלוֹט, כְּלִי אַחֵר וִיצָרֵף. כְּלִי אַחֵר הוּא דְּלָא, אֲבָל בְּהָהוּא מָנָא — כַּמָּה דְּבָעֵי מַצִּיל.

De ter dito Rava: Rav Sheizvi induziu Rav Chisda ao erro, ao ensinar: contanto que não traga um utensílio que contenha mais que o alimento de três refeições — daí se aprende que isso se assemelha a quem vem para resgatar, e assim é correto. Disse-lhe Rav Nachman bar Yitzchak a Rava: qual foi o erro? Disse-lhe: que ele ensinava: contanto que não traga outro utensílio e o encha gota a gota, outro utensílio e o junte. Outro utensílio é que não se traz, mas naquele mesmo utensílio — quanto quiser, resgata.

Nota

Ilustra-se o princípio recém-estabelecido por meio de um episódio concreto: Rav Sheizvi, ao ensinar diante de Rav Chisda a Mishná anterior (sobre um barril que se quebra no telhado, cujo conteúdo é recolhido com um utensílio colocado embaixo), limitou incorretamente o resgate a um utensílio que não contenha mais que três refeições. Rava aponta que isso foi um erro: como se trata de um único utensílio recebendo o líquido que goteja aos poucos, o caso se assemelha a "quem vem para resgatar" de uma vez só, e portanto não há limite de quantidade — mesmo um utensílio muito grande é permitido. O erro de Rav Sheizvi, explica-se, veio de uma leitura equivocada da baraita, que na verdade só proíbe trazer outro utensílio adicional para completar o resgate, e não limita o tamanho do primeiro utensílio usado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "atye'ei Rav Sheizvi leRav Chisda", "mai ta'uta", "amar leih" e "uvilvad shelo yavi keli acher"
אטעייה רב שיזבי לרב חסדא - שדרש לפניו והודה לו רב חסדא ואהא מתני' דאמרן לעיל (שבת דף קיז:) נשברה לו חבית בראש גגו מביא כלי ומניח תחתיה ודרש רב שיזבי לרב חסדא ובלבד שלא יתן כלי המחזיק יותר משלש סעודות והודה לו רב חסדא ומדאמר רבא אטעייה שמע מינה טעותא הוא דאפילו מחזיק סעודות הרבה מותר כיון דחד מנא הוא והאי כמקפל ונותן בכלי אחד דמי דהא מעט מעט הוא נופל ומטפטף בו ש"מ בחד מנא כבא להציל דמי: מאי טעותא - מנא לך דטעותא הוא בידיה: אמר ליה - מדקתני בה בברייתא: ובלבד שלא יביא כלי אחר וכו' - ש"מ כלים טובא הוא דאסירי אבל בחד שפיר דמי:

"Rav Sheizvi induziu Rav Chisda ao erro" — pois ensinou diante dele, e Rav Chisda concordou com ele; e isso refere-se àquela Mishná que dissemos acima (Shabat 117b): quebrou-se-lhe um barril no alto de seu telhado, traz um utensílio e o põe debaixo dele; e Rav Sheizvi ensinou a Rav Chisda que isso vale contanto que não ponha um utensílio que contenha mais que o alimento de três refeições, e Rav Chisda concordou com ele. E de ter dito Rava "induziu ao erro", se aprende que foi um erro, pois mesmo um utensílio que contém muitas refeições é permitido, visto que é um único utensílio, e isso se assemelha a dobrar e guardar num único utensílio, pois pouco a pouco cai e goteja nele — daí se aprende que num único utensílio assemelha-se a quem vem para resgatar. "Qual foi o erro" — de onde sabes que houve erro da parte dele? "Disse-lhe" — com base no que se ensinou na baraita. "Contanto que não traga outro utensílio, etc." — daí se aprende que muitos utensílios é que são proibidos, mas com um único é correto.

Por que se faz conta com quem resgatou · מִדַּת חֲסִידוּת

714Para que serve a conta, se o alimento foi adquirido por abandono? Rava: trata-se de um temente aos céus, a quem não agrada beneficiar-se dos outros nem se esforçar de graça
Rav Chisda; Rava
וְעִיגּוּל שֶׁל דְּבֵילָה כּוּ׳. חֶשְׁבּוֹן מַאי עֲבִידְתֵּיהּ? מֵהֶפְקֵירָא קָזָכוּ? — אָמַר רַב חִסְדָּא: מִדַּת חֲסִידוּת שָׁנוּ כָּאן. אָמַר רָבָא: חֲסִידֵי אַגְרָא דְשַׁבְּתָא שָׁקְלִי?! אֶלָּא אָמַר רָבָא: הָכָא בִּירֵא שָׁמַיִם עָסְקִינַן, וְלָא נִיחָא לֵיהּ דְּלִיתְהֲנֵי מֵאֲחֵרִים, וּבְחִנָּם נָמֵי לָא נִיחָא לֵיהּ דְּלִיטְרַח. וְהָכִי קָאָמַר: וְאִם הָיוּ פִּיקְחִין, דְּיָדְעִי דִּכְהַאי גַּוְונָא לָאו שְׂכַר שַׁבָּת הוּא, עוֹשִׂין עִמּוֹ חֶשְׁבּוֹן לְאַחַר הַשַּׁבָּת.

"E um círculo de figos secos, etc." Para que serve a conta? Não teriam os outros adquirido o alimento a partir do abandono (hefker)? Disse Rav Chisda: um padrão de piedade se ensinou aqui. Disse Rava: acaso os piedosos recebem pagamento de Shabat?! Mas na verdade disse Rava: aqui trata-se de um temente aos céus, a quem não agrada beneficiar-se dos outros, mas também de graça não lhe agrada se esforçar. E isto é o que a Mishná diz: "e se eram sagazes" — que sabem que uma ajuda deste tipo não é pagamento de Shabat, fazem contas com ele depois de Shabat.

Nota

Pergunta-se por que motivo a Mishná previu a possibilidade de acerto de contas, se, uma vez que o dono chamou outros para "resgatar para vós", o alimento resgatado se torna, tecnicamente, propriedade abandonada (hefker) que os ajudantes adquirem gratuitamente. Rav Chisda responde que se trata de um padrão de piedade extra, além da letra da lei — os ajudantes, por piedade, devolvem o valor mesmo sem serem obrigados. Rava rejeita essa explicação com espanto: pessoas verdadeiramente piedosas não cobrariam nada, precisamente por ser Shabat; cobrar seria incompatível com a piedade. Rava propõe então outra leitura: não se trata de piedosos, mas de tementes aos céus — pessoas cuidadosas com a lei, mas não extraordinariamente altruístas — que não desejam se beneficiar às custas do dono (mesmo que a lei o permita), mas também não estão dispostos a fazer um esforço totalmente gratuito; por isso, cobram um valor justo depois de Shabat, sabendo que isso não constitui pagamento por trabalho feito em Shabat propriamente dito.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mehefkeira", "midat chasidut", "chasidei agra deshabta shakli", "hacha beyira shamayim askinan", "dela nicha leih deliteni me'acharini", "uvechinam nami" e "vehachi kaamar"
מהפקירא וכו' - דהא הצילו לכם קאמר להו לצרכיהם ואם פקחים הם יעכבו הכל הוה ליה למיתני: מדת חסידות - שמחזירין לו: חסידי אגרא דשבתא שקלי - בתמיה אם חסידים הם יש להם לוותר משלהם בכל דבר שיש בו נדנוד עבירה ואע"ג דלאו שכר שבת גמור הוא שהרי לא התנה ומהפקירא קא זכו מיהו חסיד לא מיקרי אא"כ מוותר משלו: הכא בירא שמים עסקינן - המציל הזה ירא שמים הוא ולא חסיד לוותר משלו: דלא ניחא ליה דליתהני מאחריני - בזכייה דהפקירא דידע דלא מרצונו הפקירו: ובחנם נמי לא ניחא ליה דליטרח - דלאו חסיד הוא ולמחול על שלו: והכי קאמר כו' - כלומר דהאי אם היו פקחין דמתני' לאו פקחין בדין קאמר ליטול את הראוי להם דאם כן יעכבו הכל הוה ליה למתני אלא לאו הכי קאמר הני יראי שמים אם פקחין הן בהלכות שבת דידעי דכה"ג לאו שכר שבת הוא דמעיקרא לאו אדעתא דשכר פעולה נחית עושין עמו חשבון והכי קאמר אדרב חסדא נמי קאי אלא לא שבקיניה לרב חסדא לסיימיה למילתיה:

"A partir do abandono, etc." — pois a Mishná lhes disse "resgatai para vós" para seu proveito próprio, e se são sagazes, deveria ter ensinado que retêm tudo. "Um padrão de piedade" — que lhe devolvem. "Acaso os piedosos recebem pagamento de Shabat?!" — em tom de espanto: se são piedosos, devem renunciar ao que é seu em toda questão que tenha sombra de transgressão; e ainda que não seja um pagamento de Shabat completo — pois não houve condição, e adquiriram a partir do abandono — mesmo assim não se chama piedoso senão quem renuncia ao que é seu. "Aqui trata-se de um temente aos céus" — este que resgata é temente aos céus, mas não piedoso a ponto de renunciar ao que é seu. "A quem não agrada beneficiar-se dos outros" — pela aquisição do abandono, pois sabe que não foi de sua própria vontade que o dono abandonou o alimento. "Mas também de graça não lhe agrada se esforçar" — pois não é piedoso a ponto de perdoar o que é seu. "E isto é o que diz, etc." — isto é, que o "se eram sagazes" da Mishná não significa sagazes em tomar para si o que lhes seria devido — pois, se assim fosse, deveria ter ensinado que retêm tudo — mas sim que estes tementes aos céus, se são sagazes nas leis de Shabat, sabendo que uma ajuda assim não é pagamento de Shabat, pois de início não vieram com a intenção de receber salário pelo trabalho, fazem contas com ele. E isto refere-se também a Rav Chisda — mas não deixaram Rav Chisda terminar de dizer sua explicação.

715Por que a Mishná diz "para vós" quanto aos alimentos e "comigo" quanto às vestes
Anônimo (Guemará)
וּלְהֵיכָן מַצִּילִין כּוּ׳. מַאי שְׁנָא הָכָא דְּקָתָנֵי ״לָכֶם״, וּמַאי שְׁנָא הָכָא דְּקָתָנֵי ״עִמִּי״? אָמְרִי: גַּבֵּי מְזוֹנוֹת קָתָנֵי ״לָכֶם״ — מִשּׁוּם דְּלָא קָא חֲזֵי אֶלָּא מְזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת. אֲבָל גַּבֵּי לְבוּשִׁים קָתָנֵי ״עִמִּי״ — מִשּׁוּם דְּקָחֲזֵי לֵיהּ לְכוּלֵּי יוֹמָא.

"E para onde se resgata, etc." Por que razão aqui se ensina "para vós", e por que razão ali se ensina "comigo"? Disseram: quanto aos alimentos, ensina-se "para vós", pois não serve senão o alimento de três refeições; mas quanto às vestes, ensina-se "comigo", pois serve a quem resgata para o dia todo.

Nota

A Guemará repara numa diferença de formulação entre as duas partes da Mishná: ao convocar ajuda para resgatar alimentos, diz-se "vinde e resgatai para vós" — no plural, dirigido aos ajudantes, como um presente para eles; mas ao convocar ajuda para resgatar vestes, diz-se "vinde e resgatai comigo" — sugerindo uma ação conjunta. A explicação é prática: como os alimentos servem no máximo para três refeições, o excedente realmente é doado aos ajudantes, sem uso para o dono; mas as vestes, por servirem para vestir o dia todo, continuam úteis ao próprio dono, e por isso o convite é para ajudá-lo, e não para ficarem com elas.

A baraita das dezoito peças de vestuário · שְׁמֹנָה עָשָׂר כֵּלִים

716Baraita: Rabi Meir permite vestir e tirar repetidamente o dia todo; Rabi Yosei limita a dezoito peças, listadas uma a uma
Rabi Meir; Rabi Yosei
תָּנוּ רַבָּנַן: לוֹבֵשׁ מוֹצִיא וּפוֹשֵׁט, וְחוֹזֵר וְלוֹבֵשׁ וּמוֹצִיא וּפוֹשֵׁט, וַאֲפִילּוּ כׇּל הַיּוֹם כּוּלּוֹ — דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שְׁמֹנָה עָשָׂר כֵּלִים, וְאֵלּוּ הֵם שְׁמֹנָה עָשָׂר כֵּלִים: מִקְטוֹרֶן, אוּנְקְלֵי, וּפוּנְדָּא, קַלְבּוֹס שֶׁל פִּשְׁתָּן, וְחָלוּק, וְאַפִּילְיוֹן, וּמַעְפּוֹרֶת, וּשְׁנֵי סַפְרֵקִין, וּשְׁנֵי מִנְעָלִים, וּשְׁנֵי אַנְפִּילָאוֹת, וּשְׁנֵי פַּרְגּוֹד, וַחֲגוֹר שֶׁבְּמׇתְנָיו, וְכוֹבַע שֶׁבְּרֹאשׁוֹ, וְסוּדָר שֶׁבְּצַוָּארוֹ.

Ensinaram os sábios: veste, tira e sai, e despe, e volta a vestir e a tirar e a despir, e mesmo o dia todo inteiro — palavras de Rabi Meir. Rabi Yosei diz: dezoito peças, e estas são as dezoito peças: manto curto, capa, cinto oco, calção de linho, túnica, lençol para envolver-se, véu, dois lenços, dois sapatos, duas meias de lã, duas mantas, cinturão sobre os quadris, gorro na cabeça, e lenço no pescoço.

Nota

A baraita elabora a divergência já anunciada na Mishná sobre o limite de vestimentas que se pode resgatar do fogo vestindo-as no corpo. Rabi Meir permite repetir o processo de vestir, sair, tirar e voltar a vestir quantas vezes forem necessárias, mesmo o dia inteiro, sem limite de peças. Rabi Yosei restringe a dezoito peças — o conjunto completo que uma pessoa vestiria normalmente num único dia — e a baraita lista cada peça: desde o manto externo curto até o lenço usado para limpar rosto e olhos, passando por cintos, calções, túnica, lençol de cobrir-se, véu para a cabeça, pares de sapatos e meias, e as demais peças íntimas e externas do vestuário costumeiro da época.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre cada uma das dezoito peças
מקטורן - מנטי"ל: אונקלי - לבוש רחב כעין שריניש"א ובלשון ערבי מחשיא"ה: פונדא - אזור חלול מעל למדיו: קלבוס - נביי"ש: חלוק - קמי"שא על בשרו: ואפליון - סדין להתעטף בו כולו: מעפורת - לעטף ראשו: ושני ספרקין - פיישול"ש: אנפילייאות - קלצנו"ש של צמר: פרגוד - גניליי"ש ובלשון אשכנז קני הוז"ן: חגור - על חלוקו מבפנים: וסודר שבצוארו - ותלויין ראשיו לפניו לקנח בו פיו ועיניו:

"Miktoren" — um manto curto (em francês antigo, mantil). "Unkeli" — veste larga, semelhante a uma surcot, chamada em árabe machiah. "Punda" — cinto oco, sobre suas vestes. "Kalbus" — calções (chausses). "Chaluk" — túnica (chemise), sobre sua pele. "Afilion" — um lençol para envolver-se nele por inteiro. "Maapores" — para envolver a cabeça. "E dois sifrekin" — panos (peissols). "Anfilaot" — meias de lã (chalçons). "Pargod" — mantas, chamadas em alemão Kniehosen. "Chagor" — sobre sua túnica, por dentro. "E o lenço no pescoço" — suas pontas penduradas à frente, para limpar com ele a boca e os olhos.

Terceira Mishná: o couro de cabrito contra o fogo · פּוֹרְסִין עוֹר שֶׁל גְּדִי

717Mishná: Rabi Shimon ben Nanas — estende-se couro de cabrito sobre arcas tocadas pelo fogo; faz-se divisória com utensílios cheios ou vazios; Rabi Yosei proíbe utensílios de barro novos cheios de água
Mishná
רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן נַנָּס אוֹמֵר: פּוֹרְסִין עוֹר שֶׁל גְּדִי עַל גַּבֵּי שִׁידָּה תֵּיבָה וּמִגְדָּל שֶׁאָחַז בָּהֶן אֶת הָאוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְחָרֵךְ. וְעוֹשִׂין מְחִיצָה בְּכׇל הַכֵּלִים, בֵּין מְלֵאִין בֵּין רֵיקָנִים, בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא תַּעֲבוֹר הַדְּלֵיקָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹסֵר בִּכְלֵי חֶרֶס חֲדָשִׁים מְלֵאִין מַיִם, לְפִי שֶׁאֵין יְכוֹלִין לְקַבֵּל אֶת הָאוּר וְהֵן מִתְבַּקְּעִין וּמְכַבִּין אֶת הַדְּלֵיקָה.

Rabi Shimon ben Nanas diz: estende-se couro de cabrito sobre uma arca, um baú e um armário que o fogo já alcançou, pois ele o couro apenas chamusca sem arder. E faz-se uma divisória com todos os utensílios, tanto cheios quanto vazios, para que o incêndio não se propague. Rabi Yosei proíbe fazê-lo com utensílios de barro novos cheios de água, pois não conseguem suportar o fogo e se rompem, e apagam o incêndio.

Nota

A terceira Mishná do perek volta ao tema de proteger objetos do fogo, mas agora sem removê-los — protegendo-os no próprio lugar. Rabi Shimon ben Nanas ensina que se pode estender um couro de cabrito, ainda úmido, sobre móveis de guarda-roupa já alcançados pelas chamas, pois o couro apenas chamusca e não queima por completo, servindo de escudo. Ensina-se também que se pode erguer uma barreira com utensílios domésticos, cheios ou vazios, para impedir que o fogo se alastre — sem que isso constitua "apagar" o incêndio, ação proibida em Shabat. Rabi Yosei restringe essa permissão, proibindo o uso de utensílios de barro novos cheios de água, pois o calor os racha, derramando a água e apagando efetivamente as chamas — o que seria proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "or shel gedi", "mipnei shehu mecharech", "bein melein" e "she'einan yecholin lekabel"
מתני' עור של גדי - לח: מפני שהוא מחרך - מן האור ובלע"ז רטריי"ט ואינו נשרף ומתוך כך הוא מגין על התיבה: בין מלאים - מים: שאינן יכולין לקבל כח האור - מפני שחדשים הם:

"Couro de cabrito" — úmido (fresco). "Pois ele chamusca" — pelo fogo, e em francês antigo rostit, e não se queima por completo, e por isso protege a arca. "Tanto cheios" — de água. "Que não conseguem suportar a força do fogo" — porque são novos.

O manto e o Sefer Torá tocados pelo fogo · טַלִּית שֶׁאָחַז בָּהּ הָאוּר

718Rav Yehuda em nome de Rav: manto tocado pelo fogo de um lado — água do outro lado; objeção: estende-se e cobre-se com ele; e assim também o Sefer Torá
Rav Yehuda; Rav
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: טַלִּית שֶׁאָחַז בָּהּ הָאוּר מִצַּד אֶחָד — נוֹתְנִין עָלֶיהָ מַיִם מִצַּד אַחֵר, וְאִם כָּבְתָה — כָּבְתָה. מֵיתִיבִי: טַלִּית שֶׁאָחַז בָּהּ הָאוּר מִצַּד אֶחָד — פּוֹשְׁטָהּ וּמִתְכַּסֶּה בָּהּ, וְאִם כָּבְתָה — כָּבְתָה. וְכֵן סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁאָחַז בּוֹ הָאוּר — פּוֹשְׁטוֹ וְקוֹרֵא בּוֹ, וְאִם כָּבָה — כָּבָה.

Disse Rav Yehuda, disse Rav: um manto que o fogo alcançou de um lado — coloca-se água sobre ele do outro lado, e se se apagou, se apagou. Objetaram: um manto que o fogo alcançou de um lado — estende-se e cobre-se com ele, e se se apagou, se apagou; e do mesmo modo um Sefer Torá que o fogo alcançou — estende-se e lê-se nele, e se se apagou, se apagou.

Nota

A Guemará passa do caso das arcas e utensílios ao caso mais delicado de uma peça de roupa já tocada pelo fogo: Rav Yehuda, em nome de Rav, ensina que se pode colocar água no lado ainda não queimado, mesmo sabendo que isso pode apagar o fogo por completo, pois a intenção não é apagar o incêndio, mas apenas salvar o restante do manto. Levanta-se uma objeção a partir de uma baraita que propõe uma solução diferente e mais indireta: em vez de água, a própria pessoa estende o manto e se cobre com ele, usando o corpo para abafar as chamas do lado ainda não queimado — e, do mesmo modo, um Sefer Torá tocado pelo fogo é estendido e lido, aproveitando o ato de segurá-lo aberto para proteger o restante do rolo. Em ambos os casos, se o fogo se apagou como resultado indireto dessas ações, não há transgressão. O daf termina em pleno fluxo dessa objeção, sem qualquer hadran, deixando em aberto de quem é a opinião citada na baraita — questão que a Guemará esclarece logo no início de Shabbat 120b, ainda não publicado, identificando-a com a posição de Rabi Shimon ben Nanas.

O daf termina aqui, em pleno fluxo da sugiá sobre o manto e o Sefer Torá tocados pelo fogo — sem qualquer hadran, pois o Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh) continua. A discussão prossegue diretamente em Shabbat 120b (ainda não publicado), onde a Guemará esclarece que a baraita citada acima segue a opinião de Rabi Shimon ben Nanas.