Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Tet-Zayin · Halachá 3
שַׁבָּת

O alimento de três refeições: a artimanha, o apagar e o causar impureza

Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Terceira halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (todos os escritos sagrados). A Mishná ensina que se salva do incêndio no Shabat o alimento de três seudot (refeições), ou de duas, ou de uma, conforme a hora em que o fogo irrompeu, e que Rabi Yossi permite sempre três. A guemará traz a opinião de Rabi Bun bar Chiya, em nome de Rabi Ba bar Mamal, de que a Mishná segue Rabi Nechemyá, e a resposta de Rabi Yossi; atribui a palavra de Rabi Yossi a Rabi Hondekas e pergunta pelo Yom Kipur (o Dia do Perdão); ensina a medida para o doente, a criança e o glutão; discute a haarama (artimanha para contornar a lei) de salvar e depois convidar; ensina que também se apaga e se causa impureza para salvar, com a palavra de Rabi Shimon sobre o shevut (proibição rabínica do Shabat); e estende a regra à tropa, ao rio e ao desabamento. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 117b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלשׁ סְעוּדּוֹת הָרָאוּי לָאָדָם לָאָדָם הָרָאוּי לַבְּהֵמָה לַבְּהֵמָה. כֵּיצַד נָפְלָה דְלֵיקָה בְּלֵילֵי שַׁבָּת מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלשׁ סְעוֹדּוֹת בַּשַּׁחֲרִית מַצִּילִין מְזוֹן שְׁתֵּי סְעוּדּוֹת בַּמִּנְחָה מַצִּילִין מְזוֹן סְעוּדָּה אַחַת. רִבִּי יוֹסֵה אוֹמֵר לְעוֹלָם מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלשׁ סְעוּדּוֹת:

Mishná: Salvam-se do incêndio, no Shabat, alimentos de três seudot (refeições): o que é próprio para o homem, salva-se para o homem; o que é próprio para o animal, salva-se para o animal. Como assim? Se irrompeu um incêndio na noite do Shabat, salvam-se alimentos de três refeições; se de manhã, salvam-se alimentos de duas refeições; se na minchá (à tarde), salvam-se alimentos de uma refeição. Rabi Yossi diz: sempre se salvam alimentos de três refeições.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01Rabi Nechemyá, Rabi Hondekas e o Yom Kipur
Yerushalmi · Shabbat 16:3
רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא בְּשֵׁם רִבִּי בָּא בַּר מָמָל. דְּרִבִּי נְחֶמָיָה הִיא. דְּאָמַר. אֵינָן נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵה. טַעֲמוֹן דְּרַבָּנִן תַּמָּן. כָּל מַה שֶׁיֵּשׁ בַּבָּיִת מִן הַמּוּכָן. בְּרַם הָכָא אִם אַתָּה אוֹמֵר כֵּן אַף הוּא מַצִּיל מִן הַיּוֹם לְמָחָר.

Rabi Bun bar Chiya, em nome de Rabi Ba bar Mamal: a Mishná é de Rabi Nechemyá, que disse: “não se movem os objetos no Shabat senão para uma necessidade”. Disse Rabi Yossi: a razão dos rabinos lá é que tudo o que há na casa é tido por muchan (preparado para o Shabat); mas aqui, se tu disseres assim, a pessoa salvaria também do dia de hoje para amanhã.

מַתְנִיתָא דְּרִבִּי הונדקס דְּאָמַר. לְעוֹלָם מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת. תִּיפְתָּר בְּשֶׁנָּפְלָה דְלֵיקָה בְלֵילֵי שַׁבָּת עַד שֶׁלֹּא אָכְלָהּ.

A Mishná é de Rabi Hondekas, que disse: “sempre se salvam alimentos de três refeições”. Explica-a no caso em que o incêndio irrompeu na noite do Shabat, ainda antes que ele comesse a refeição.

בְּיוֹם הַכִּיפּוּרִים מַאי אִיכָּא לְמֵימַר. עַל דַּעְתְּהוֹן דְּרַבָּנִן לֹא יַצִּיל כְּלוּם. כָּל עַמָּא מוֹדוֹי שֶׁמַּצִּילִין מְזוֹן סְעוּדָה אַחַת מִפְּנֵי הַסַּכָּנָה.

No Yom Kipur (o Dia do Perdão), o que se há de dizer? Segundo a opinião dos rabinos, a pessoa não salvaria nada! Mas todo o mundo concorda que se salvam alimentos de uma refeição, por causa do perigo.

02O doente, a criança e o glutão
Yerushalmi · Shabbat 16:3
תַּנֵּי. מַצִּילִין לַחוֹלֶה וּלְקָטָן בְּבֵינוֹנִית. וּלְרַעָבְתָן כְּדֵי מָזוֹנוֹ. מְעָרְבִין לַחוֹלֶה וּלְקָטָן כְּדֵי מָזוֹנוֹ. וּלְרַעָבְתָן בְּבֵינוֹנִית.

Ensinou-se: salva-se para o doente e para a criança segundo a medida média, e para o glutão, conforme o seu alimento habitual. Faz-se o eruv (o alimento depositado antes do Shabat) para o doente e para a criança conforme o seu alimento habitual, e para o glutão, segundo a medida média.

03A artimanha: salvar e depois convidar
Yerushalmi · Shabbat 16:3
תַּנֵּי. אֵין מַעֲרִימִין. רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוֹן אָמַר. מַעֲרִימִין.

Ensinou-se: não se usa haarama (artimanha para contornar a lei). Rabi Yossi beRabi Bun disse: usa-se artimanha.

אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי. מַצִּיל וְאַחַר כָּךְ מְזַמֵּן. אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי. מְזַמֵּן וְאַחַר כָּךְ מַצִּיל. מָאן דָּמַר. מַצִּיל וְאַחַר כָּךְ מְזַמֵּן. כְּמָאן דָּמַר. מַעֲרִימִין. וּמָאן דָּמַר. מְזַמֵּן וְאַחַר כָּךְ מַצִּיל. כְּמָאן דָּמַר. אֵין מַעֲרִימִין.

Há tanaim (os sábios da época da Mishná) que ensinam: a pessoa salva e depois convida os hóspedes; há tanaim que ensinam: convida e depois salva. Quem diz “salva e depois convida” pensa como quem diz “usa-se artimanha”; e quem diz “convida e depois salva” pensa como quem diz “não se usa artimanha”.

04Apagar para salvar: Rabi Shimon e o shevut
Yerushalmi · Shabbat 16:3
תַּנֵּי. אַף מְכַבִּין לְהַצִּיל. מַתְנִיתָא דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן דְּאָמַר. אֵין דָּבָר מִשׁוּם שְׁבוּת עוֹמֵד בִּפְנֵי כִתְבֵי הַקּוֹדֶשׁ.

Ensinou-se: também se apaga para salvar os escritos sagrados. A matnita (ensino tanaítico) é de Rabi Shimon, que disse: “não há coisa proibida por shevut (proibição rabínica do Shabat) que se interponha diante dos kitvei hakodesh”.

05Causar impureza para salvar: a terumá
Yerushalmi · Shabbat 16:3
תַּנֵּי. אַף מְטַמְּאִין לְהַצִּיל. וְהָתַנֵּי. בְּכָל קוֹדֶשׁ לֹא תִגָּע. לְרַבּוֹת הַתְּרוּמָה. הִיא תְרוּמָה הִיא מַעֲשֵׂר שֵׁינִי. מַאי כְדוֹן. וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה בַשַּׁבָּת כְּדֶרֶךְ שֶׁעוֹשֶׂה בַחוֹל.

Ensinou-se: também se causa impureza a algo para salvar os escritos sagrados. Mas não se ensinou: “em nenhuma coisa sagrada tocará” (Vayikra 12:4), versículo que vem para incluir a terumá (a porção do sacerdote)? Ora, terumá e segundo dízimo são uma só coisa quanto a isso. O que é, então, a regra? Contanto que não faça no Shabat do modo como faz no dia comum.

06A tropa, o rio e o desabamento
Yerushalmi · Shabbat 16:3
תַּנֵּי. כְּשֵׁם שֶׁמַּצִּילִין מִן הַדְּלֵיקָה כָּךְ מַצִּילִין מִיַּד הַגַּיִיס וּמִיַּד הַנָּהָר וּמִיַּד הַמַּפּוֹלֶת וּמִיַּד כָּל דָּבָר שֶׁאוֹבֵד.

Ensinou-se: assim como se salva no Shabat do incêndio, assim se salva da mão do gayis (tropa invasora), da mão do rio, da mão do desabamento e da mão de toda coisa pela qual algo se perde.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh, e a sua Mishná corresponde à Mishná Shabbat 16:2 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, como antecipou a nota da halachá 16:2; a Mishná avulsa 16:3, sobre o cesto cheio de pães (מַצִּילִין סַל מָלֵא כִכָּרוֹת), não está nesta halachá. No Bavli, a nossa Mishná está em Shabbat 117b, e a sua guemará se estende até 118a. As diferenças de redação são pequenas: o Yerushalmi diz לָאָדָם e לַבְּהֵמָה, com artigo, onde a avulsa diz לְאָדָם e לִבְהֵמָה; בַּשַּׁחֲרִית e בַּמִּנְחָה, onde a avulsa diz בְּשַׁחֲרִית e בְּמִנְחָה; o Yerushalmi repete מַצִּילִין antes de “alimentos de uma refeição”, que a avulsa omite; e diz רִבִּי יוֹסֵה, onde a avulsa diz רַבִּי יוֹסֵי; o sentido é o mesmo. As demais são de grafia: סְעוּדּוֹת, דְלֵיקָה e אַחַת, onde a avulsa escreve סְעֻדּוֹת, דְלֵקָה e אֶחָת; e, uma vez, o Yerushalmi escreve סְעוֹדּוֹת, com cholam. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os seis seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 06 é o sétimo. Os segmentos das seções 01 e 03 aparecem em três e em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; depois dele não há marcador numérico, e não inventamos nenhum. No início do terceiro segmento (seção 02), o Sefaria traz os marcadores de folha da edição de Veneza (15d) e da de Vilna (80b), que retiramos do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico. O nome הונדקס, na seção 01, vem sem vocalização no Sefaria, e a leitura “Hondekas” é incerta.

Referências conferidas. A opinião de Rabi Nechemyá, “não se movem senão para uma necessidade” (אֵין נִטָּלִין אֶלָּא לְצֹרֶךְ), é a da Mishná Shabbat 17:4, diante da opinião anônima, para a qual todos os objetos se movem, com necessidade ou sem ela. No Bavli, Shabbat 117b traz a nossa Mishná e a baraita sobre quantas refeições se devem comer no Shabat: três, e Rabi Chidka diz quatro, e ambos interpretam o mesmo versículo, Shemot 16:25, em que “hoje” aparece três vezes; Shabbat 118a conclui que a Mishná não segue Rabi Chidka. Ainda em Shabbat 117b, uma baraita ensina que se salva do Yom Kipur para o Shabat, mas não do Shabat para o Yom Kipur; e outra, sobre o barril quebrado no telhado, ensina: “não recolha e depois convide, mas convide e depois recolha; e não se usa artimanha nisso; em nome de Rabi Yossi bar Yehudá disseram: usa-se artimanha”. A Tosefta Shabbat 13:7, na numeração de Lieberman, traz o paralelo do incêndio: “não salve e depois convide, mas convide e depois salve”, “e não se usa artimanha nisso; Rabi Yossi beRabi Yehudá diz: usa-se artimanha nisso”. A Tosefta Shabbat 13:6 ensina: “apaga-se para salvar os kitvei hakodesh, mas não para a terumá”, e, no mesmo trecho, que o livro que caiu no forno torna impura a terumá. A palavra de Rabi Shimon sobre o shevut é a da Mishná Eruvin 10:3, sobre o livro que rolou da mão de quem lia. A Mishná Shabbat 16:5, na numeração do Sefaria, trata do apagar indireto: faz-se uma divisória com quaisquer vasos para que o incêndio não passe, e Rabi Yossi proíbe os vasos de barro novos cheios de água, porque se rompem e apagam o incêndio; o Bavli a discute em Shabbat 120a–120b. O versículo da seção 05 é Vayikra 12:4, sobre a mulher depois do parto. A frase “terumá e segundo dízimo são uma só coisa”, seguida de “contanto que não faça no Shabat do modo como faz no dia comum”, aparece também no Yerushalmi Shabbat 14:3. Para a seção 06, a Tosefta Shabbat 13:5 tem a mesma forma de frase, em sentido negativo, sobre os livros dos hereges: assim como não se salvam do incêndio, não se salvam do desabamento, nem das águas, nem de nada que os destrua. Não encontramos no Sefaria uma Mishná ou passagem do Bavli que fale expressamente de tornar-se impuro para salvar coisas sagradas, e por isso não citamos nenhuma.

Observações de leitura. Na seção 01, segundo Guggenheimer, Rabi Bun bar Chiya quer atribuir a Mishná a Rabi Nechemyá, porque, se se movem objetos só para uma necessidade, salva-se apenas o alimento das refeições do Shabat; e Rabi Yossi responde que os rabinos de lá, da Mishná 17:4, permitem mover tudo o que há na casa, porque tudo está preparado, mas aqui limitam o salvar para que não se prepare no Shabat para o dia seguinte. Rabi Hondekas é, segundo Guggenheimer, um nome atestado só aqui; no Bavli, o mestre das quatro refeições chama-se Rabi Chidka. A resposta “explica-a…” entende, segundo Guggenheimer, que as três refeições incluem a da noite do Shabat, e que a opinião de Rabi Yossi vale quando o incêndio irrompeu antes dessa refeição. No Yom Kipur, em que não se come, não haveria, pela opinião dos rabinos, nada a salvar; mas todos concordam que se salva uma refeição, a de depois do jejum, porque ficar sem comer ao sair do dia seria perigoso; esta explicação é de Guggenheimer. Na seção 02, a medida do eruv, segundo Guggenheimer, é a do eruv dos limites de caminhada do Shabat, em que se quer a menor medida possível, e por isso para o glutão basta a média; no salvar, ao contrário, quer-se a maior. Na seção 03, segundo Guggenheimer, as três refeições se contam para cada pessoa da casa, inclusive os hóspedes; quem salva primeiro e só depois convida usa uma artimanha para salvar mais. Na seção 04, entendemos, com a Tosefta 13:6 e com o contexto do perek, que se apaga para salvar os escritos sagrados; segundo Guggenheimer, Rabi Shimon considera que o trabalho não feito pela sua própria finalidade é proibido só por decreto dos sábios, de modo que apagar para salvar os livros seria apenas um shevut. Na seção 05, מְטַמְּאִין significa causar impureza a algo, e não tornar-se impuro; Guggenheimer nota que o copista escreveu מטמין e o corretor mudou para מטמאין. Ele considera a frase sobre terumá e segundo dízimo deslocada aqui, copiada do Perek Yud-Dalet; traduzimos o texto como está. Na seção 06, מִיַּד é literalmente “da mão de”, e assim traduzimos; o גַּיִיס é a tropa, do grego. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer traduz עַל דַּעְתְּהוֹן דְּרַבָּנִן לֹא יַצִּיל כְּלוּם como pergunta, “Should he not save anything following the rabbis?”; o hebraico tem a forma de afirmação, “segundo a opinião dos rabinos, não salvaria nada”, que a frase seguinte corrige, e assim traduzimos. Na seção 03, ele nota que um mestre tão tardio como Rabi Yossi beRabi Bun não poderia estar aqui e propõe outra leitura; mantivemos o nome que está no hebraico, e a Tosefta e o Bavli trazem Rabi Yossi beRabi Yehudá e Rabi Yossi bar Yehudá. Para o último segmento, o Sefaria não traz a tradução de Guggenheimer, e sim a francesa de Schwab; traduzimos diretamente do hebraico. Ele escreve “Rebbi Abun bar Ḥiyya”, “Rebbi Abba bar Mamal”, “Rebbi Nehemiah”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun” e “Rebbi Simeon”, e deixa הונדקס em letras hebraicas; mantivemos “Rabi Bun bar Chiya”, “Rabi Ba bar Mamal”, “Rabi Nechemyá”, “Rabi Yossi”, “Rabi Yossi beRabi Bun”, “Rabi Shimon” e “Rabi Hondekas”, como nas halachot anteriores deste tratado.