Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Tet-Zayin · Halachá 2
שַׁבָּת

O estojo do livro e o dos tefilin: as moedas dentro e o beco aberto

Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh (todos os escritos sagrados). A Mishná ensina que se salvam do incêndio no Shabat o tik (estojo) do livro com o livro e o dos tefilin (filactérios) com os tefilin, ainda que haja moedas dentro deles, e que se salvam para um beco que não é aberto nas duas pontas, enquanto Ben Betera permite também o beco aberto. A guemará explica que a Mishná trata do estojo que não está preso ao livro e pergunta pelo estojo dos tefilin, que Rabi Chagai, em nome de Rabi Zeira, aprende de dois versículos, de Tehilim e de Daniel; compara as moedas dentro do estojo ao alforje com moedas sobre o qual se põe um pão, segundo Rabi Yaakov bar Achá; discute por que não se salva para o beco aberto, entre quem anda e quem lança, com a resposta de Rabi Chizkiyá em nome de Rabi Achá sobre o eruv (a junção dos domínios); e mostra que Ben Betera segue Rabi Yehudá. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 116b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מַצִּילִין תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר וְתִיק הַתְּפִילִּין עִם הַתְּפִילִּין אַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בְּתוֹכָן מָעוֹת. וּלְאֵיכָן מַצִּילִין אוֹתָן לְמָבוֹי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ. בֶּן בְּתֵירָה אוֹמֵר אַף לַמְפוּלָּשׁ:

Mishná: Salvam-se do incêndio, no Shabat, o tik (estojo) do livro com o livro e o tik dos tefilin (filactérios) com os tefilin, ainda que haja moedas dentro deles. E para onde se salvam? Para um mavoi (beco) que não é mefulash (aberto nas duas pontas). Ben Betera diz: também para o beco aberto.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01O estojo preso ao livro e o anjo que acampa ao redor
Yerushalmi · Shabbat 16:2
מַתְנִיתָא בְּשֶׁאֵינוֹ טָפוּל לוֹ. אֲבָל אִם הָיָה טָפוּל לוֹ כְגוּפוֹ הוּא. נִיחָא תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר. תִּיק תְּפִילִּין עִם הַתְּפִילִּין.

A Mishná trata do caso em que o estojo não está preso a ele, ao livro; mas, se estava preso a ele, é como o seu corpo. Compreende-se o estojo do livro com o livro; mas o estojo dos tefilin com os tefilin, por quê?

רִבִּי חַגַּי בְשֵׁם רִבִּי זְעִירָא שָׁמַע לָהּ מֵהָדָא. חוֹנֶה מַלְאַךְ יְי סָבִיב לִירֵיאָיו וַיְחַלְּצֵם. וְכֵן הוּא אוֹמֵר. בֵּאדַיִן גּוּבְרַיָּא אִילֵּךְ כְּפִיתוּ בְּסַרְבָּלֵיהוֹן וגו׳.

Rabi Chagai, em nome de Rabi Zeira, entendeu esta regra a partir disto que está escrito: “o anjo do Eterno acampa ao redor dos que O temem e os livra” (Tehilim 34:8). E assim também diz o versículo sobre Chananyá, Mishael e Azaryá: “então aqueles homens foram amarrados com os seus mantos” etc. (Daniel 3:21).

02As moedas dentro do estojo: o pão sobre o alforje
Yerushalmi · Shabbat 16:2
אַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בְּתוֹכוֹ מָעוֹת. יָיבֹא כַיי דָּמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא אָמַר חִינְנָא קַרְתִיגֵנָאָה בְשֵׁם רִבִּי הוֹשַׁעְיָה. דִּיסִיקִיָּא שֶׁיֵּשׁ בְּתוֹכָהּ מָעוֹת נוֹתֵן עָלֶיהָ כִּכָּר וּמְטַלְטְלָהּ.

“Ainda que haja moedas dentro dele.” Isto vem como aquilo que disse Rabi Yaakov bar Achá: disse Chinena de Cartago em nome de Rabi Hoshaya: uma disikiya (alforje) que tem moedas dentro dela, a pessoa põe sobre ela um pão e a movimenta no Shabat.

03Para onde se salvam: quem anda, quem lança e Ben Betera
Yerushalmi · Shabbat 16:2
וּלְאֵיכָן מַצִּילִין אוֹתָן. לְמָבוֹי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ. הָא לִמְפוּלָּשׁ לֹא. בְּכָל אָתָר אַתְּ אָמַר. אֵין הַמְהַלֵּךְ כְּמַנִּיחַ. וָכָא אַתְּ אָמַר. הַמְהַלֵּךְ כְּמַנִּיחַ. אֶלָּא בְזוֹרֵק. תַּמָּן אַתְּ אָמַר. הַזּוֹרֵק פָּטוּר. וָכָא אַתְּ אָמַר. הַזּוֹרֵק חַיָיב.

“E para onde se salvam? Para um beco que não é aberto nas duas pontas.” Portanto, para um aberto, não. Em todo lugar dizes: quem anda com um objeto não é como quem o deposita; e aqui dizes: quem anda é como quem deposita? Mas fala de quem lança os livros. Mas lá dizes: quem lança está isento; e aqui dizes: quem lança é culpado?

רִבִּי חִזְקִיָּה בְשֵׁם רִבִּי אָחָא. בְּשֶׁלֹּא עִירְיבוּ אֲנָן קַיָימִין. בֶּן בְּתֵירָה כְּרִבִּי יְהוּדָה. דְּתַנִּינְן תַּמָּן. גְּשָׁרִין הַמְפוּלָּשִׁין מְטַלְטְלִין תַּחְתֵּיהֶן בַּשַּׁבָּת. דִּבְרֵי רַבִּי יוּדָה. וַחֲכָמִים אוֹסְרִין.

Rabi Chizkiyá em nome de Rabi Achá: estamos tratando do caso em que não fizeram eruv (a junção dos domínios). Ben Betera pensa como Rabi Yehudá, pois ensinamos lá: “sob as pontes abertas nas duas pontas movimentam-se objetos no Shabat, palavras de Rabi Yudá; e os sábios proíbem” (Mishná Eruvin 9:4).

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Tet-Zayin de Massechet Shabbat, Kol Kitvei HaKodesh, e a sua Mishná corresponde à segunda parte da Mishná Shabbat 16:1 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, de “salvam-se o estojo do livro com o livro” (מַצִּילִין תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר) até a palavra de Ben Betera, “também para o aberto”, como antecipou a nota da halachá 16:1; a Mishná avulsa 16:2, sobre o alimento de três refeições (מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלשׁ סְעֻדּוֹת), é no Yerushalmi a Mishná da halachá 16:3. No Bavli, a nossa Mishná está em Shabbat 116b, e a sua guemará se estende até 117a. As diferenças de redação são pequenas: o Yerushalmi diz אַף עַל פִּי, onde a avulsa diz וְאַף עַל פִּי, com vav; וּלְאֵיכָן, onde a avulsa diz וּלְהֵיכָן; בֶּן בְּתֵירָה, onde a avulsa escreve בֶּן בְּתֵירָא; e אַף לַמְפוּלָּשׁ, “também para o aberto”, com artigo, onde a avulsa diz אַף לִמְפֻלָּשׁ, “também para um aberto”; o sentido é o mesmo. As demais são de grafia: הַתְּפִילִּין e מְפוּלָּשׁ, onde a avulsa escreve הַתְּפִלִּין e מְפֻלָּשׁ. Na seção 02, a guemará cita a Mishná com בְּתוֹכוֹ, “dentro dele”, no singular, onde a Mishná do Yerushalmi tem בְּתוֹכָן, “dentro deles”; e, na seção 03, cita לִמְפוּלָּשׁ, sem artigo. Na seção 01, a guemará escreve תִּיק תְּפִילִּין, sem artigo, onde a Mishná diz תִּיק הַתְּפִילִּין. Na seção 03, o mesmo mestre aparece como רִבִּי יְהוּדָה na fala da guemará e como רַבִּי יוּדָה na Mishná citada, e traduzimos “Rabi Yehudá” e “Rabi Yudá”, seguindo o hebraico. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 03 é o quarto. Os segmentos das seções 01 e 03 aparecem em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; aqui, ao contrário de outras halachot, não há depois dele marcador numérico, e não inventamos nenhum. Nesta halachá, o Sefaria não traz marcadores de folha das edições de Vilna ou de Veneza, e não houve nenhum a retirar. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico. O Nome divino aparece abreviado, יְי, como no Sefaria, e o traduzimos “o Eterno”.

Referências conferidas. O primeiro versículo de Rabi Chagai é Tehilim 34:8, citado no Yerushalmi com a grafia לִירֵיאָיו; o segundo é Daniel 3:21, sobre Chananyá, Mishael e Azaryá, lançados à fornalha com os seus mantos, e Daniel 3:27 conta que, ao saírem, os seus mantos não tinham mudado. No Bavli, Shabbat 116b traz a nossa Mishná, e Shabbat 117a discute as moedas dentro do estojo, à luz da regra da base para coisa permitida e para coisa proibida, e define o beco aberto e o não aberto: Rav Chisda fala de três paredes, com dois postes ou com um, segundo Rabi Eliezer; e Rabbah, de duas paredes, com dois postes ou com um, segundo Rabi Yehudá, que permite a quem tem duas casas dos dois lados do domínio público fazer um poste ou uma viga de cada lado e carregar no meio. O ensinamento de Rabi Hoshaya tem paralelo no Bavli, Shabbat 142b, onde Rabi Oshaya diz que quem esqueceu a bolsa no pátio põe sobre ela um pão ou uma criança e a movimenta. A Mishná que a guemará cita na seção 03, “lá dizes: quem lança está isento”, é a Mishná Shabbat 11:1, em que os sábios isentam quem lança de um domínio privado a outro com o domínio público no meio, e Rabi Akiva o declara culpado. A Mishná das pontes abertas é a Mishná Eruvin 9:4, na numeração do Sefaria, que continua: “e disse ainda Rabi Yehudá: faz-se eruv para o beco aberto, e os sábios proíbem”.

Observações de leitura. Na seção 01, a guemará restringe a Mishná ao estojo solto, porque o estojo preso ao livro é parte dele e se salva com ele de qualquer modo; e pergunta pelo estojo dos tefilin porque, segundo Guggenheimer, tirar os tefilin do estojo leva só um instante, e o estojo não é parte deles, já que o dono os tira todos os dias para pô-los. A resposta de Rabi Chagai entende, segundo Guggenheimer, que, assim como o que está ao redor de quem teme a Deus é protegido, assim o que envolve os objetos sagrados se salva com eles; e o versículo de Daniel mostra que os mantos dos três companheiros foram salvos com eles. Na seção 02, a disikiya, do grego, é literalmente um saco duplo; o alforje com moedas não se movimenta no Shabat, mas, posto sobre ele um pão, torna-se base para coisa permitida e pode ser movimentado; do mesmo modo, as moedas no estojo não impedem que ele seja salvo com o livro. Lemos חִינְנָא קַרְתִיגֵנָאָה como “Chinena de Cartago”, como o site escreve “Rabi Aba de Cartago”; Guggenheimer escreve “Cartagena”, e a identificação da cidade é incerta. Na seção 03, a guemará estranha que se proíba levar os livros a um beco aberto, pois quem passa por ele andando sem parar não deposita nada ali e, em geral, quem anda não é como quem deposita; responde que se trata de quem lança os livros, e então objeta que, na Mishná Shabbat 11:1, quem lança de um domínio privado a outro passando sobre o público está isento. Segundo Guggenheimer, a resposta de Rabi Chizkiyá em nome de Rabi Achá é que se trata de um beco em que não se fez eruv; e Ben Betera, que permite o beco aberto, segue Rabi Yehudá, para quem um espaço cercado de dois lados pode ser tratado como domínio privado, sob as pontes e no beco aberto com eruv. O texto é conciso, e o encadeamento das perguntas e respostas é a nossa leitura, apoiada em Guggenheimer. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 03, Guggenheimer traduz תַּמָּן na primeira objeção como “Everywhere”, e a segunda frase, וָכָא אַתְּ אָמַר. הַמְהַלֵּךְ כְּמַנִּיחַ, como “one who is walking is not like one who is putting down”, repetindo a negação; o hebraico diz “em todo lugar” na primeira objeção e “lá” na segunda, e, na segunda frase, “quem anda é como quem deposita”, e assim traduzimos. Ele traduz דִּיסִיקִיָּא por “saddle bag”, e nós por “alforje”, e מָבוֹי por “side street”, e nós por “beco”. Ele remete a Mishná das pontes à Mishná Eruvin 9:5; na numeração do Sefaria é a 9:4, e assim a citamos. Ele escreve “Rebbi Ḥaggai”, “Rebbi Zeˋira”, “Rebbi Jacob bar Aḥa”, “Ḥinena from Cartagena”, “Rebbi Hoshaia”, “Rebbi Ḥizqiah”, “Rebbi Aḥa”, “Ben Bathyra” e “Rebbi Jehudah”; mantivemos “Rabi Chagai”, “Rabi Zeira”, “Rabi Yaakov bar Achá”, “Chinena de Cartago”, “Rabi Hoshaya”, “Rabi Chizkiyá”, “Rabi Achá”, “Ben Betera”, “Rabi Yehudá” e “Rabi Yudá”, como nas halachot anteriores deste tratado.