Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
מַצִּילִין מָזוֹן

Rav Ashi resolve a dificuldade do beco; nova Mishná: salvam-se mantimentos de três refeições de um incêndio em Shabat

Shabbat 117b · continua diretamente de 117a · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 117b abre em pleno debate deixado interrompido no fim de 117a: Abaie repetira contra Rabá a mesma objeção que fizera antes contra Rav Chisda — se ambas as formulações do beco aberto e do não aberto seguem a posição lenient de Rabi Yehuda, então, segundo os Sábios, dever-se-ia também salvar ali comida e bebida. Mas disse Rav Ashi, resolvendo definitivamente a questão: três paredes e uma travessa — isto é um beco não aberto; três paredes sem travessa alguma — isto é um beco aberto; e mesmo segundo Rabi Eliezer, que exige duas travessas para um beco comum, isso vale apenas para alimentos e bebidas, mas para o rolo da Torá uma só travessa basta — de modo que o beco de três paredes e uma travessa, sendo "fechado" apenas por essa leniência especial do rolo, nunca chega a valer também para comida e bebida. Segue-se então uma nova Mishná: salvam-se mantimentos de três refeições de um incêndio em Shabat — o que é próprio para o homem, para o homem, o que é próprio para o animal, para o animal —, com a quantidade decrescendo conforme o horário em que caiu o incêndio (três refeições se foi na noite de Shabat, duas se foi pela manhã, uma se foi à tarde), e Rabi Yosei discordando: sempre se salvam mantimentos de três refeições. A Guemará pergunta: já que a pessoa se esforça de modo permitido (pois os mantimentos são aptos ao transporte), por que não salvar mais? Rava responde com um decreto: por estar atordoado com seu dinheiro, se lhe permitirmos salvar sem limite, virá a apagar o fogo. Abaie objeta a partir da baraita do barril de vinho quebrado no topo do telhado, onde se permite trazer um recipiente para recebê-lo, mas não outro para recolher o que verte pelo ar, nem outro para juntá-lo ao correr pelo telhado; a Guemará explica que ali vale o mesmo decreto, por medo de que, procurando muitos recipientes, se acabe trazendo um pelo domínio público. Cita-se então essa baraita por completo, com as regras adicionais para hóspedes inesperados e a proibição de usar artifício para convidá-los sem necessidade — disputa atribuída a Rabi Yosei bar Yehuda. A Guemará tenta relacionar essa disputa à de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre um animal e seu filho caídos num poço em Yom Tov (não podendo ambos ser abatidos no mesmo dia), mas rejeita a comparação: cada opinião pode se dever a fatores próprios de cada caso, não a um princípio comum. Seguem-se baraitot sobre as leis do que se salva — pão fino não permite depois salvar pão grosseiro, mas o inverso sim; salva-se de Yom Kipur para Shabat, mas não o inverso — e sobre o pão esquecido no forno quando entra Shabat, que se salva mas se retira com faca, não com a pá de padeiro, reclassificando o ato como habilidade e não trabalho, com a ressalva de que sempre que possível se busca essa via alternativa. Rav Chisda ensina que se deve providenciar cedo os gastos de Shabat, a partir do versículo sobre a colheita do maná; Rabi Aba ensina o dever de partir o pão sobre dois pães (lechem mishnê) em Shabat, seguido pelos costumes de Rav Kahana (segurar dois pães mas partir um só), Rabi Zeira (partir um pedaço grande na primeira refeição), e Rabi Ami e Rabi Asi (começar a comer pelo pão do eiruv, para que sirva a duas mitzvot). O daf termina interrompido numa baraita que registra a disputa entre os Sábios e Rabi Chidka sobre três ou quatro refeições obrigatórias em Shabat, ambos derivando do mesmo versículo sobre o maná — a continuar diretamente em Shabbat 118a, ainda não publicado, onde a Guemará prosseguirá examinando a própria Mishná à luz dessa disputa.

Rav Ashi resolve: a definição final do beco aberto e do fechado · מָבוֹי הַמְּפוּלָּשׁ

660Rav Ashi: três paredes e uma travessa — não aberto; três paredes sem travessa — aberto; mesmo para Rabi Eliezer, isso (duas travessas) vale só para comida e bebida, não para o rolo
Rav Ashi
אֶלָּא אָמַר רַב אָשֵׁי: שָׁלֹשׁ מְחִיצּוֹת וְלֶחִי אֶחָד — זֶה מָבוֹי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ. שָׁלֹשׁ מְחִיצּוֹת בְּלֹא לֶחִי — זֶהוּ מָבוֹי הַמְפוּלָּשׁ. וַאֲפִילּוּ לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר דְּאָמַר בָּעֵינַן לְחָיַיִם, הָנֵי מִילֵּי לָאוֹכָלִין וּמַשְׁקִין, אֲבָל לְסֵפֶר תּוֹרָה — בְּחַד לֶחִי סַגִּי.

Mas disse Rav Ashi: três paredes e uma travessa — isto é um beco não aberto. Três paredes sem travessa — isto é um beco aberto. E mesmo segundo Rabi Eliezer, que diz que precisamos de duas travessas, isso vale para alimentos e bebidas; mas para o rolo da Torá, uma só travessa basta.

Nota

Rav Ashi abandona as duas formulações anteriores (a de Rav Chisda, com três paredes, e a de Rabá, com duas) e propõe uma terceira, que finalmente resolve a dificuldade repetida de Abaie. Um beco fechado em três dos seus lados e munido de uma só travessa na abertura restante já é considerado "não aberto" em geral — para tudo, inclusive comida e bebida —, seguindo a posição comum, que se contenta com uma travessa (ao contrário de Rabi Eliezer, que exige duas). Mas mesmo segundo Rabi Eliezer, que normalmente exige duas travessas para qualquer efeito, essa exigência vale apenas para permitir ali comida e bebida; quanto ao rolo da Torá, ele próprio concorda que uma só travessa já basta, por causa da honra do objeto sagrado. Assim, o beco de três paredes e uma travessa nunca chega a ser, para os Sábios, apenas "quase fechado" a ponto de também servir para comida e bebida: ou ele já é plenamente fechado (segundo a posição comum), ou é fechado apenas por uma leniência especial exclusiva do rolo (segundo Rabi Eliezer) — respondendo de vez à pergunta de Abaie.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ela amar Rav Ashi" e "bechad lechi sagi lei"
אלא אמר רב אשי כו' - בין רבנן ובין בן בתירא כר' אליעזר סבירא להו דבעי ג' מחיצות וב' לחיים בעלמא והכא לגבי ספר אמרי רבנן מודה ר' אליעזר בלחי אחד ובן בתירא אמר דמודה ר' אליעזר אף בלא לחי: בחד לחי סגי ליה - מילתא דרבנן קא מפרשי:

"Mas disse Rav Ashi etc." — tanto os Sábios quanto Ben Beteira entendem, como Rabi Eliezer, que se precisa de três paredes e duas travessas em geral; e aqui, quanto ao rolo, os Sábios dizem que Rabi Eliezer concorda com uma só travessa, e Ben Beteira diz que Rabi Eliezer concorda mesmo sem travessa alguma. "Uma só travessa lhe basta" — estão explicando a opinião dos Sábios.

Nova Mishná: salvam-se mantimentos de três refeições · מַצִּילִין מָזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת

Mishná
מַצִּילִין מָזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת. הָרָאוּי לָאָדָם — לָאָדָם, הָרָאוּי לַבְּהֵמָה — לַבְּהֵמָה. כֵּיצַד? נָפְלָה דְּלֵיקָה בְּלֵילֵי שַׁבָּת — מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת. בַּשַּׁחֲרִית — מַצִּילִין מְזוֹן שְׁתֵּי סְעוּדוֹת. בַּמִּנְחָה — מְזוֹן סְעוּדָה אַחַת. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: לְעוֹלָם מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת.

Salvam-se mantimentos de três refeições. O que é próprio para o homem — para o homem; o que é próprio para o animal — para o animal. Como assim? Caiu um incêndio na noite de Shabat — salvam-se mantimentos de três refeições. Pela manhã — salvam-se mantimentos de duas refeições. À tarde (minchá) — mantimento de uma refeição. Rabi Yosei diz: sempre se salvam mantimentos de três refeições.

Nota — nova Mishná

Encerrado o debate sobre o estojo do rolo e do tefilin, a Guemará passa a uma nova cláusula da Mishná do perek: em caso de incêndio em Shabat, permite-se salvar mantimentos — mas não em quantidade ilimitada, e sim apenas o que baste para o número de refeições ainda restantes até o fim de Shabat, contando-se três refeições como a obrigação padrão. O que serve apenas para consumo humano se salva como alimento humano, e o que serve apenas para animais, como ração animal. A Mishná explica com casos concretos: se o incêndio caiu logo na noite de Shabat, antes de qualquer refeição, salvam-se as três; se caiu pela manhã, depois já ter comido a primeira, salvam-se apenas duas; se caiu à tarde, depois de duas refeições, salva-se apenas uma. Rabi Yosei discorda dessa gradação e permite sempre salvar mantimentos de três refeições, independentemente da hora.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "nafla delekah beleilei Shabbat", "shacharit" e "le'olam hu matzil"
מתני' נפלה דליקה בלילי שבת - קודם אכילה: שחרית - קודם סעודה: לעולם הוא מציל - הואיל ויומא בר הכי הוא ובהיתרא טרח דהא בני טלטול נינהו ולחצר המעורבת ואפי' טובא הוה שרי ליה אי לאו משום גזירה וכדמפרש בגמרא:

Mishná: "caiu um incêndio na noite de Shabat" — antes da refeição. "Pela manhã" — antes da refeição. "Sempre se salva" — já que o próprio dia comporta isso, e ele se esforça de modo permitido, pois os mantimentos são aptos ao transporte, e para um quintal unido por eiruv até se lhe permitiria bem mais do que isso, se não fosse por causa de um decreto, como se explica na Guemará.

Por que não salvar mais? O decreto de Rava; o barril quebrado no telhado · בְּהֶיתֵּרָא קָטָרַח

661Afinal, ele se esforça de modo permitido — que salvemos mais? Rava: por estar atordoado, viria a apagar; Abaie: e o barril quebrado no telhado? Mesmo decreto: não vá trazer um recipiente pelo domínio público
A Guemará; Rava; Abaie
מִכְּדֵי בְּהֶיתֵּרָא קָטָרַח, נַצֵּיל טְפֵי? אָמַר רָבָא: מִתּוֹךְ שֶׁאָדָם בָּהוּל עַל מָמוֹנוֹ, אִי שָׁרֵית לֵיהּ — אָתֵי לְכַבּוֹיֵי. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי, אֶלָּא הָא דְּתַנְיָא: נִשְׁבְּרָה לוֹ חָבִית בְּרֹאשׁ גַּגּוֹ — מֵבִיא כְּלִי וּמַנִּיחַ תַּחְתֶּיהָ, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יָבִיא כְּלִי אַחֵר וְיִקְלוֹט, כְּלִי אַחֵר וִיצָרֵף. הָתָם, מַאי גְּזֵירָה אִיכָּא? הָכָא נָמֵי, גְּזֵירָה שֶׁמָּא יָבִיא כְּלִי דֶּרֶךְ רְשׁוּת הָרַבִּים.

Afinal, ele se esforça de modo permitido — então que salvemos mais? Disse Rava: por estar a pessoa atordoada com seu dinheiro, se lhe permitirmos ilimitadamente, virá a apagar o fogo. Disse-lhe Abaie: mas isto que se ensina: quebrou-se-lhe um barril no topo do telhado — traz um recipiente e o coloca debaixo dele, contanto que não traga outro recipiente para recolher, nem outro recipiente para juntar. Ali, que decreto há? Aqui também, é decreto: não vá trazer um recipiente pelo caminho do domínio público.

Nota

A Guemará questiona o próprio limite imposto pela Mishná: já que salvar mantimentos em Shabat é, em si, um ato permitido (os alimentos são aptos ao transporte e poderiam, em tese, ser levados a um quintal unido por eiruv), por que restringir a quantidade ao número de refeições restantes? Rava responde com um decreto preventivo: se se permitisse salvar sem limite, a pessoa, atordoada com a perda iminente de seus bens, esqueceria as leis de Shabat e acabaria apagando o fogo — proibição muito mais grave. Abaie objeta a partir de uma baraita já conhecida (o barril de vinho que se quebra no topo do telhado): ali se permite trazer um único recipiente para recolher o vinho que verte, mas não outro recipiente adicional para pegar o que ainda escorre pelo ar, nem outro para juntá-lo ao correr pelo telhado — apesar de essas ações também serem, em si, permitidas. Se não há ali nenhum decreto contra apagar o fogo (pois não se trata de incêndio), por que a limitação? A Guemará responde que o mesmo tipo de decreto se aplica: com muitos recipientes à disposição, o receio é que a pessoa, procurando mais e mais, acabe trazendo um de fora, pelo domínio público.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "michdi beheytera katrach", "ve'i sharit lei", "veyiklot", "vetzaref", "hatam mai gezeira ika" e "shema yavi kli"
גמ' מכדי בהיתרא קטרח - חזו לטלטול ולחצר המעורבת: ואי שרית ליה - לאתחולי בהצלה כולי האי מתוך שהוא בהול מינשי ליה שבת ואתי נמי לכבויי: ויקלוט - קילוח הנופל מן האויר: ויצרף - סמוך לגג כעין שאיבה אלא שאינו ראוי לשאוב שהגג חלק והיין אינו בגומא מצרף כלי לגג שיזוב מן הגג לכלי והוא אוחז הכלי בידו: התם מאי גזירה איכא - כיון דמידי דהתירא הוא אמאי לא יקלוט ויצרף: שמא יביא כלי כו' - מתוך שהוא מחזר על כלים הרבה ישכח ויביא:

Guemará: "afinal, ele se esforça de modo permitido" — os mantimentos são aptos ao transporte e a um quintal unido por eiruv. "E se lhe permitirmos" — começar a salvar tanto assim, por estar atordoado, esquecerá o Shabat e virá também a apagar o fogo. "E recolher" — o jorro que cai do ar. "E juntar" — junto ao telhado, como uma espécie de extração, exceto que não é próprio para extrair, pois o telhado é liso e o vinho não está numa cavidade; ele junta um recipiente ao telhado, para que escorra do telhado ao recipiente, segurando o recipiente na mão. "Ali, que decreto há" — já que se trata de algo permitido, por que não recolheria e juntaria? "Não vá trazer um recipiente etc." — por estar procurando muitos recipientes, esquecerá e trará um pelo domínio público.

662A própria coisa: o barril quebrado no telhado; para hóspedes inesperados, outro recipiente; convidar antes de recolher; não se usa artifício, exceto segundo Rabi Yosei bar Yehuda
A baraita; Rabi Yosei bar Yehuda
גּוּפָא: נִשְׁבְּרָה לוֹ חָבִית בְּרֹאשׁ גַּגּוֹ — מֵבִיא כְּלִי וּמַנִּיחַ תַּחְתֶּיהָ, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יָבִיא כְּלִי אַחֵר וְיִקְלוֹט, כְּלִי אַחֵר וִיצָרֵף. נִזְדַּמְּנוּ לוֹ אוֹרְחִין — מֵבִיא כְּלִי אַחֵר וְקוֹלֵט, כְּלִי אַחֵר וּמְצָרֵף. וְלֹא יִקְלוֹט וְאַחַר כָּךְ יַזְמִין, אֶלָּא יַזְמִין וְאַחַר כָּךְ יִקְלוֹט. וְאֵין מַעֲרִימִין בְּכָךְ, מִשּׁוּם רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אָמְרוּ: מַעֲרִימִין.

A própria coisa: quebrou-se-lhe um barril no topo do telhado — traz um recipiente e o coloca debaixo dele, contanto que não traga outro recipiente para recolher, nem outro recipiente para juntar. Surgiram-lhe hóspedes inesperados — traz outro recipiente e recolhe, outro recipiente e junta. E não recolha primeiro para depois convidar, mas convide e depois recolha. E não se usa artifício para isso; em nome de Rabi Yosei bar Yehuda disseram: usa-se artifício.

Nota

A Guemará cita por completo a baraita que Abaie já havia trazido em parte. Além da regra básica (um só recipiente permitido, para o vinho que efetivamente cai sobre o local onde já está o recipiente), ensina-se uma exceção: se, depois de já ter começado a salvar o vinho, surgirem hóspedes inesperados que precisarão de mais vinho para beber, permite-se então trazer recipientes adicionais para recolher o que escorre pelo ar e para juntá-lo ao correr pelo telhado — pois agora esse esforço extra também serve a uma necessidade real e imediata. Mas a ordem importa: não se deve primeiro recolher o excedente e só depois convidar os hóspedes (o que pareceria um pretexto criado depois do fato), mas convidá-los primeiro e só então recolher o vinho adicional em função deles. E não se pode fingir convidar hóspedes que na verdade não precisam da comida, apenas como artifício para salvar mais — embora, em nome de Rabi Yosei bar Yehuda, se transmita uma posição mais lenient, permitindo esse tipo de artifício.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "velo yiklot ve'achar kach yazmin" e "ein ma'arimin bechach"
ולא יקלוט ואח"כ יזמין - אורחים דבשעת קליטה לא מיבעיא ליה: אין מערימין בכך - לזמן אורחים שאינן צריכין לאכול ויותירו:

"E não recolha e depois convide" — hóspedes, pois, no momento de recolher, ele ainda não precisava deles. "Não se usa artifício para isso" — convidar hóspedes que não precisam comer, apenas para que sobre vinho salvo.

Ele e seu filho caídos num poço: a comparação é rejeitada · אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ שֶׁנָּפְלוּ לְבוֹר

663Diremos que é a disputa de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre o animal e seu filho caídos num poço? Rabi Eliezer: sustento para o segundo; Rabi Yehoshua: artifício e abate-se qualquer um
A Guemará; Rabi Eliezer; Rabi Yehoshua (baraita)
לֵימָא בִּפְלוּגְתָּא דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ קָמִיפַּלְגִי? דְּתַנְיָא: אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ שֶׁנָּפְלוּ לְבוֹר? — רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: מַעֲלֶה אֶת הָרִאשׁוֹן עַל מְנָת לְשׁוֹחְטוֹ, וְהַשֵּׁנִי עוֹשֶׂה לוֹ פַּרְנָסָה בִּמְקוֹמוֹ בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יָמוּת. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: מַעֲלֶה אֶת הָרִאשׁוֹן עַל מְנָת לְשׁוֹחְטוֹ וְאֵינוֹ שׁוֹחֲטוֹ, וּמַעֲרִים וּמַעֲלֶה אֶת הַשֵּׁנִי — רָצָה זֶה שׁוֹחֵט, רָצָה זֶה שׁוֹחֵט.

Diremos que essa disputa é a de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua? Como se ensina: ele e seu filho que caíram num poço em Yom Tov, sem que ambos possam ser abatidos no mesmo dia — Rabi Eliezer diz: tira-se o primeiro com a intenção de abatê-lo, e para o segundo se faz sustento no seu lugar, para que não morra. Rabi Yehoshua diz: tira-se o primeiro com a intenção de abatê-lo, mas não o abate; e usa-se um artifício, e tira-se também o segundo — quer este, quer aquele, se abate.

Nota

A Guemará propõe relacionar a disputa recém-citada (sobre usar artifício para convidar hóspedes) a uma disputa mais conhecida, numa baraita distinta: um animal e sua cria que caíram num poço em Yom Tov não podem ambos ser abatidos no mesmo dia, por causa da proibição de "ele e seu filho" (Levítico 22:28). Rabi Eliezer permite tirar apenas o primeiro, com intenção de abatê-lo (o que justifica retirá-lo do poço em Yom Tov), deixando o segundo no poço, mas providenciando-lhe sustento ali mesmo para que não morra de fome. Rabi Yehoshua é mais lenient: tira-se o primeiro com a intenção declarada de abatê-lo, mas na prática não se abate; usa-se então um artifício para também tirar o segundo do poço, e depois se decide livremente qual dos dois efetivamente abater. A Guemará sugere que Rabi Eliezer, que rejeita o artifício, corresponderia à opinião anônima que proíbe convidar hóspedes por artifício, e Rabi Yehoshua, que o permite, corresponderia a Rabi Yosei bar Yehuda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shenaflu levor" e "ve'eino shochato"
שנפלו לבור - בי"ט ואין שניהם ראוים לשחיטה ביום אחד: ואינו שוחטו - שמוצא לו עלילה שמא חברו שמן ממנו:

"Que caíram num poço" — em Yom Tov, e nenhum dos dois é permitido para abate no mesmo dia. "Mas não o abate" — pois encontra um pretexto, dizendo que talvez seu companheiro seja mais gordo do que ele.

664De onde? Talvez Rabi Eliezer só o disse ali por ser possível o sustento; e Rabi Yehoshua, só por haver sofrimento dos animais — aqui não há nem um nem outro
A Guemará
מִמַּאי? דִּילְמָא עַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר הָתָם, דְּאֶפְשָׁר בְּפַרְנָסָה, אֲבָל הָכָא דְּלָא אֶפְשָׁר — לָא. וְעַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ הָתָם, מִשּׁוּם דְּאִיכָּא צַעַר בַּעֲלֵי חַיִּים, אֲבָל הָכָא דְּלֵיכָּא צַעַר בַּעֲלֵי חַיִּים — לָא.

De onde se sabe isso? Talvez Rabi Eliezer só tenha dito isso ali, porque é possível providenciar sustento; mas aqui, onde não é possível, não. E Rabi Yehoshua só disse isso ali por haver sofrimento dos animais; mas aqui, onde não há sofrimento dos animais, não.

Nota

A Guemará rejeita a comparação proposta. É possível que Rabi Eliezer proíba o artifício, no caso do poço, apenas porque ali existe uma alternativa razoável — providenciar sustento para o segundo animal —, mas no caso dos hóspedes, onde não há alternativa (a comida já está sendo salva ou perdida), ele concordaria em permitir o artifício. E, inversamente, é possível que Rabi Yehoshua permita o artifício, no caso do poço, apenas por causa do sofrimento dos animais — considerado grave o bastante para justificar a leniência —, mas no caso dos hóspedes, onde não há sofrimento de animais envolvido, ele concordaria em proibi-lo. Assim, cada posição pode depender de fatores específicos de cada caso, e não de um princípio único sobre o uso de artifícios em geral — de modo que a disputa sobre convidar hóspedes por artifício permanece uma questão à parte, atribuída a Rabi Yosei bar Yehuda e aos que discordam dele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ad kan lo kaamar Rabi Eliezer"
עד כאן לא קאמר ר' אליעזר - דאין מערימין:

"Rabi Eliezer só disse isso até aqui" — que não se usa artifício.

Pão fino e grosseiro; salvar de Yom Kipur para Shabat · פַּת נְקִיָּה

665Se salvou pão fino, não salva também o grosseiro; o inverso, sim; salva-se de Yom Kipur para Shabat, mas não o inverso — e menos ainda para Yom Tov ou outro Shabat
A baraita
תָּנוּ רַבָּנַן: הִצִּיל פַּת נְקִיָּה — אֵין מַצִּיל פַּת הַדְרָאָה, פַּת הַדְרָאָה — מַצִּיל פַּת נְקִיָּה. וּמַצִּילִין מִיּוֹם הַכִּפּוּרִים לַשַּׁבָּת, אֲבָל לֹא מִשַּׁבָּת לְיוֹם הַכִּפּוּרִים. וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר מִשַּׁבָּת לְיוֹם טוֹב, וְלֹא מִשַּׁבָּת לַשַּׁבָּת הַבָּאָה.

Ensinaram os Sábios: se salvou pão fino, não salva também pão grosseiro; se salvou pão grosseiro, salva também pão fino. E salva-se de Yom Kipur para Shabat, mas não de Shabat para Yom Kipur. E não é preciso dizer: de Shabat para Yom Tov, nem de Shabat para o Shabat seguinte.

Nota

Esta baraita fixa dois limites adicionais ao que se pode salvar de um incêndio. Primeiro, quanto à qualidade: quem já salvou pão fino (de farinha refinada) não pode, além disso, alegar que também precisa do pão grosseiro (de farelo) — pois não é um pretexto válido dizer que prefere o pão inferior; mas quem salvou primeiro o pão grosseiro pode ainda salvar o pão fino, pois é natural preferir a melhor qualidade quando disponível. Segundo, quanto ao tempo: pode-se salvar comida de véspera de um dia sagrado para outro que vem logo depois, como de Yom Kipur para o Shabat que o segue imediatamente (pois nesse Shabat ainda não houve chance de preparar nada, tendo-se jejuado no dia anterior), mas não o inverso — de Shabat para um Yom Kipur que viesse depois, pois há tempo de se preparar durante a própria noite anterior ao jejum. Com mais razão ainda, não se salva de Shabat para um Yom Tov ou outro Shabat futuro, quando há pleno tempo de preparo no próprio dia.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hitzil pat nekiyah", "lo yatzil pat hadara'ah", "aval lo miShabbat leYom haKipurim" e "ve'ein tzarich lomar miShabbat leYom Tov"
הציל פת נקיה - לשלש סעודות: לא יציל פת הדראה - פת קיבר שניטל הדרה לפי שאין ערמה כשרה לומר פת הדראה נוחה לי: אבל לא משבת ליום הכפורים - כגון אם חל יוה"כ באחד בשבת דהא לא אכיל עד לאורתא ולאורתא ליטרח ולייתי: ואין צריך לומר משבת לי"ט - דיכול להכין בו ביום:

"Se salvou pão fino" — para as três refeições. "Não salva pão grosseiro" — pão de farelo, do qual se tirou o esplendor habitual, pois não é válido o artifício de dizer "o pão grosseiro me convém mais". "Mas não de Shabat para Yom Kipur" — como, por exemplo, se Yom Kipur cai no domingo, pois nesse caso, no próprio Shabat, não se come até a noite seguinte, e à noite que se esforce e traga o que precisa. "E não é preciso dizer de Shabat para Yom Tov" — pois pode preparar tudo no próprio dia.

O pão esquecido no forno: retira-se com faca, não com a pá · שָׁכַח פַּת בַּתַּנּוּר

666Esqueceu pão no forno e o dia santificou-se: salvam-se três refeições, convidando outros a salvar para si; retira-se com faca, não com a pá — pois é possível modificar
A baraita; a escola de Rabi Yishmael
תָּנוּ רַבָּנַן: שָׁכַח פַּת בַּתַּנּוּר וְקִידֵּשׁ עָלָיו הַיּוֹם — מַצִּילִין מְזוֹן שָׁלֹשׁ סְעוּדוֹת, וְאוֹמֵר לַאֲחֵרִים: בּוֹאוּ וְהַצִּילוּ לָכֶם. וּכְשֶׁהוּא רוֹדֶה, לֹא יִרְדֶּה בְּמַרְדֶּה, אֶלָּא בְּסַכִּין. אִינִי?! וְהָא תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: ״לֹא תַעֲשֶׂה כׇל מְלָאכָה״, יָצָא תְּקִיעַת שׁוֹפָר וּרְדִיַּית הַפַּת שֶׁהִיא חָכְמָה וְאֵינָהּ מְלָאכָה? כַּמָּה דְּאֶפְשָׁר לְשַׁנּוֹיֵי מְשַׁנֵּינַן.

Ensinaram os Sábios: esqueceu pão no forno, e o dia se santificou sobre ele — salvam-se mantimentos de três refeições, e diz a outros: venham e salvem também para vocês. E quando o retira, não o retire com a pá de padeiro, mas com uma faca. Mas é assim?! E não ensinou a escola de Rabi Yishmael: "não farás nenhum trabalho" — excluiu-se o toque do shofar e a retirada do pão, que é habilidade e não trabalho? Ainda assim, sempre que é possível modificar, modificamos.

Nota

Uma nova baraita trata do pão que ficou esquecido dentro do forno quando entra Shabat, antes de ser retirado. Permite-se salvá-lo — até o limite de três refeições, como no caso do incêndio —, e o dono pode inclusive chamar outras pessoas para que salvem porções para si mesmas, já que o pão continuará assando e se estragando enquanto ali permanecer. Mas, ao retirá-lo, não deve usar a pá de padeiro (o instrumento próprio, de uso profissional, que descolaria o pão da parede do forno), e sim uma faca, um utensílio menos especializado. A Guemará questiona essa exigência: não haveria já uma regra, transmitida pela escola de Rabi Yishmael, de que retirar o pão do forno (como o toque do shofar) é considerado mera habilidade, não um trabalho proibido em si — de modo que nem seria necessário evitar a pá? A Guemará responde que, mesmo quando um ato não constitui tecnicamente um trabalho proibido pela Torá, os Sábios ainda preferem, sempre que possível, que se faça de uma forma modificada em relação ao dia comum, para preservar o caráter distinto de Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "marde"
מרדה - כלי שרודין בו הפת ומפרידין אותו מכותל התנור שנדבק בה לא ירדה אותו במרדה שהוא דרך חול:

"Pá de padeiro" — o utensílio com que se retira o pão, separando-o da parede do forno, à qual gruda; não o retire com a pá, pois esse é o modo próprio de fazê-lo em dia comum.

Levantar-se cedo para os gastos de Shabat; o pão duplo · לֶחֶם מִשְׁנֶה

667Rav Chisda: levante-se cedo a pessoa para os gastos de Shabat, a partir do maná; Rabi Aba: é obrigatório partir o pão sobre dois pães, o pão duplo
Rav Chisda; Rabi Aba
אָמַר רַב חִסְדָּא: לְעוֹלָם יַשְׁכִּים אָדָם לְהוֹצָאַת שַׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי וְהֵכִינוּ אֵת אֲשֶׁר יָבִיאוּ״, לְאַלְתַּר. אָמַר רַבִּי אַבָּא: בְּשַׁבָּת חַיָּיב אָדָם לִבְצוֹעַ עַל שְׁתֵּי כִכָּרוֹת, דִּכְתִיב: ״לֶחֶם מִשְׁנֶה״.

Disse Rav Chisda: sempre se levante a pessoa cedo para os gastos de Shabat, pois se diz: "e será, no sexto dia, e prepararão o que trouxerem" — logo, imediatamente. Disse Rabi Aba: em Shabat, a pessoa é obrigada a partir o pão sobre dois pães, pois está escrito: "pão duplo" (lechem mishnê).

Nota

Rav Chisda ensina, a partir do versículo sobre a colheita do maná no sexto dia (Êxodo 16:5), que a pessoa deve se apressar em providenciar, já pela manhã da véspera, tudo o que precisará para Shabat — sem deixar os preparativos para a última hora. Rabi Aba, a partir do mesmo episódio do maná — em que se recebia porção dupla na véspera de Shabat (Êxodo 16:22) —, ensina que, em Shabat, é obrigatório partir o pão sobre dois pães inteiros (lechem mishnê), em memória dessa porção dupla, e não sobre um só.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "yaschim adam", "vehechinu et asher yavi'u le'alter" e "livtzoa"
ישכים אדם - בע"ש לטרוח ולזמן הוצאת שבת: והכינו את אשר יביאו לאלתר - בשעת הבאה הכנה והבאה בהשכמה היא דכתיב וילקטו אותו בבקר בבקר (שמות ט״ז:כ״א): לבצוע - ברכת המוציא:

"Levante-se cedo a pessoa" — na véspera de Shabat, para se esforçar e providenciar os gastos de Shabat. "E prepararão o que trouxerem" — logo, imediatamente: no momento de trazer já deve haver preparo; e o trazer é de manhã cedo, pois está escrito: "e o colhiam manhã a manhã" (Êxodo 16:21). "Partir o pão" — a bênção do Hamotzi.

668Rav Kahana segurava dois e partia um; Rabi Zeira partia toda a primeira refeição; Rabi Ami e Rabi Asi começavam pelo pão do eiruv, para que sirva a duas mitzvot
Rav Ashi; Rav Kahana; Rabi Zeira; Ravina; Rabi Ami; Rabi Asi
אָמַר רַב אָשֵׁי: חֲזֵינָא לֵיהּ לְרַב כָּהֲנָא דְּנָקֵט תַּרְתֵּי וּבָצַע חֲדָא. אָמַר: ״לָקְטוּ״ כְּתִיב. רַבִּי זֵירָא הֲוָה בָּצַע אַכּוּלַּהּ שֵׁירוּתֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ רָבִינָא לְרַב אָשֵׁי: וְהָא מִיחְזֵי כְּרַעַבְתָנוּתָא? אֲמַר לֵיהּ: כֵּיוָן דְּכׇל יוֹמָא לָא עָבֵיד, וְהָאִידָּנָא הוּא דְּקָעָבֵיד — לָא מִיחְזֵי כְּרַעַבְתָנוּתָא. רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי כִּי מִיקְּלַע לְהוּ רִיפְתָּא דְעֵירוּבָא — שָׁרוּ עִילָּוֵיהּ, אָמְרִי: הוֹאִיל וְאִיתְעֲבִיד בַּהּ חֲדָא מִצְוָה — לִיתְעֲבִיד בַּהּ מִצְוָה אַחֲרִינָא.

Disse Rav Ashi: eu via Rav Kahana, que segurava dois pães e partia um. Dizia: "colheram" está escrito. Rabi Zeira partia o pão para toda a sua primeira refeição. Disse-lhe Ravina a Rav Ashi: mas não parece gula? Disse-lhe: já que em todos os outros dias não faz assim, e é agora que faz, não parece gula. Rabi Ami e Rabi Asi, quando lhes chegava o pão do eiruv, começavam a comer por ele, dizendo: já que se cumpriu com ele um mandamento, que se cumpra com ele outro mandamento.

Nota

A Guemará traz os costumes de vários Sábios quanto ao pão duplo. Rav Kahana segurava os dois pães nas mãos (em memória da porção dupla), mas efetivamente partia e comia apenas um deles — apoiando-se no fato de que o versículo fala em "colheram" (no plural, sugerindo apenas segurar dois), mas não exige expressamente partir os dois. Rabi Zeira, por outro lado, ia além do mínimo: partia uma fatia grande, suficiente para toda a sua primeira refeição, como sinal de apreço especial por Shabat. Ravina questiona a Rav Ashi se esse costume não pareceria gula aos olhos alheios; Rav Ashi responde que, por ser um comportamento reservado apenas a Shabat (e não praticado nos dias comuns), fica claro que se trata de honra ao dia, não de gula. Por fim, Rabi Ami e Rabi Asi, quando lhes chegava às mãos o pão que servira para constituir um eiruv (de techumin ou de chatzeirot), preferiam começar a refeição justamente por ele, para que aquele mesmo pão cumprisse duas mitzvot sucessivas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "nakit tartei", "lak'tu ketiv", "batza lechula sheiruteih", "ki mikla lehu" e "sharu ilaveih"
נקיט תרתי - אוחזן בידו: לקטו כתיב - דמשמע אחיזה אבל בציעה לא כתיב משנה: בצע לכוליה שירותיה - פרוסה גדולה ודי לו בה לאותה סעודה ולכבוד שבת ונראה כמחבב סעודת שבת להתחזק ולאכול הרבה: כי מקלע להו - פעמים שהעירוב בביתם ופעמים בבית אחד משאר בני אדם: שרו ביה - היינו ברכת המוציא שהיא התחלת אכילה. שרו מתחילין:

"Segurava dois" — segurava-os na mão. "'Colheram' está escrito" — o que sugere apenas segurar, mas quanto ao partir, não está escrito a palavra "duplo". "Partia para toda a sua primeira refeição" — uma fatia grande, que lhe bastava para aquela refeição, em honra de Shabat, e assim parece amar a refeição de Shabat, para se fortalecer e comer muito. "Quando lhes chegava" — às vezes o eiruv estava em suas próprias casas, às vezes na casa de outra pessoa. "Começavam por ele" — isto é, a bênção do Hamotzi, que é o início da refeição; "começavam" — iniciam.

Três refeições ou quatro? A disputa a partir do maná · כַּמָּה סְעוּדוֹת

669Retoma-se "caiu um incêndio": quantas refeições é obrigatório comer em Shabat? Três, dizem os Sábios; quatro, diz Rabi Chidka — ambos a partir do mesmo versículo sobre o maná
A Guemará; a baraita; os Sábios; Rabi Chidka; Rabi Yochanan
כֵּיצַד? נָפְלָה דְּלֵיקָה כּוּ׳. תָּנוּ רַבָּנַן: כַּמָּה סְעוּדוֹת חַיָּיב אָדָם לֶאֱכוֹל בַּשַּׁבָּת — שָׁלֹשׁ. רַבִּי חִידְקָא אוֹמֵר: אַרְבַּע. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן, וּשְׁנֵיהֶם מִקְרָא אֶחָד דָּרְשׁוּ: ״וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אִכְלוּהוּ הַיּוֹם כִּי שַׁבָּת הַיּוֹם לַה׳ הַיּוֹם לֹא תִמְצָאֻהוּ בַּשָּׂדֶה״. רַבִּי חִידְקָא סָבַר: הָנֵי תְּלָתָא ״הַיּוֹם״ לְבַר מֵאוּרְתָּא, וְרַבָּנַן סָבְרִי: בַּהֲדֵי דְּאוּרְתָּא. תְּנַן: נָפְלָה דְּלֵיקָה בְּלֵילֵי שַׁבָּת

"Como assim? Caiu um incêndio" etc. Ensinaram os Sábios: quantas refeições é a pessoa obrigada a comer em Shabat? Três. Rabi Chidka diz: quatro. Disse Rabi Yochanan: e ambos expuseram o mesmo versículo: "e disse Moshé: comei-o hoje, pois hoje é Shabat para o Eterno; hoje não o achareis no campo" (Êxodo 16:25). Rabi Chidka entende: esses três "hoje" somam-se além da refeição da noite; e os Sábios entendem: o terceiro "hoje" está junto com o da noite. Ensinamos: "caiu um incêndio na noite de Shabat"

Nota

A Guemará retoma a cláusula inicial da Mishná deste daf ("como assim? caiu um incêndio na noite de Shabat...") para trazer uma baraita sobre o número exato de refeições obrigatórias em Shabat — questão da qual depende toda a gradação da Mishná (três, duas, ou uma refeição, conforme o horário do incêndio). Os Sábios, na baraita, fixam três refeições como a obrigação padrão; Rabi Chidka exige quatro. Rabi Yochanan explica que ambas as opiniões se apoiam no mesmo versículo, em que Moshé, referindo-se ao maná do sexto dia, usa a palavra "hoje" três vezes: "comei-o hoje... hoje é Shabat... hoje não o achareis no campo". Rabi Chidka conta essas três repetições de "hoje" como referindo-se a três refeições em pleno dia de Shabat, além da refeição já comida na noite anterior — totalizando quatro. Os Sábios entendem que uma dessas três repetições já inclui, ou se refere também, à refeição da noite — totalizando apenas três. O daf termina aqui, retomando a citação da Mishná ("caiu um incêndio na noite de Shabat") para continuar a análise dessa disputa diretamente em Shabbat 118a, ainda não publicado, onde a Guemará examinará se a própria redação da Mishná já decide a favor dos Sábios ou de Rabi Chidka.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "telata hayom"
תלתא היום - למנין שלש סעודות בא:

"Três 'hoje'" — vieram para ensinar o número de três refeições.

O daf termina aqui, em plena baraita sobre a disputa entre os Sábios e Rabi Chidka a respeito de três ou quatro refeições obrigatórias em Shabat, com a citação retomada da Mishná ("caiu um incêndio na noite de Shabat") apontando para a continuação da análise — a discussão prossegue diretamente, sem qualquer marca de encerramento de perek, em Shabbat 118a, ainda não publicado.