Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
בְּמָקוֹם בְּרָא

Conclui-se o relato de Ima Shalom e o filósofo; retoma-se a dúvida sobre ler os Ketuvim em Shabat; a Mishná sobre salvar o estojo do rolo; a baraita sobre esfolar o cordeiro pascal quando o catorze de Nissan cai em Shabat

Shabbat 116b · continua diretamente de 116a · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 116b abre concluindo o relato que 116a deixara interrompido logo no início: Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer e irmã de Rabban Gamliel, e o filósofo de sua vizinhança, que tinha fama de não aceitar suborno das partes que vinham perante ele, mas o recebia em segredo. Para expô-lo, Ima Shalom e Rabban Gamliel armam um estratagema: ela lhe traz uma lâmpada de ouro, e juntos apresentam-lhe uma disputa — ela reivindica uma parte nos bens da casa paterna. O filósofo julga a favor dela, respondendo a Rabban Gamliel, que citara a regra de que, havendo filho, a filha não herda, com um versículo do "Avon Gilyon" segundo o qual filho e filha herdam igualmente. No dia seguinte, Rabban Gamliel lhe traz, por sua vez, um burro líbio; o filósofo reverte o julgamento, citando agora, do mesmo texto, que não veio para diminuir nem para acrescentar à Torá de Moshe — e portanto a regra original permanece. Ima Shalom ironiza: "que tua luz brilhe como a lâmpada"; e Rabban Gamliel remata: "veio o burro e derrubou a lâmpada". A Guemará retorna então a um ponto anterior do perek, a dúvida sobre por que não se lê nos Ketuvim (Hagiógrafos) em Shabat — cláusula já citada na Mishná de abertura do perek. Rav ensina que a proibição vale apenas no tempo do bet hamidrash (havendo, fora dele, permissão de leitura), mas objeta-se a partir do costume de Neharde'a — terra de Shmuel — de concluir ali o ciclo dos Ketuvim justamente na Minchá de Shabat; reformula-se então a opinião de Rav para falar do lugar do bet hamidrash, não do tempo. Shmuel, por sua vez, proíbe em todo tempo e lugar de estudo, e seu próprio costume em Neharde'a de ler na Minchá confirma que, para ele, a proibição só vale no tempo do bet hamidrash. Rav Ashi conclui que a primeira formulação (sobre o lugar) está correta, e que Shmuel segue a opinião de Rabi Nechemia numa baraita: ainda que se tenha dito que não se lê nos escritos sagrados, estuda-se e expõe-se neles, e busca-se um versículo quando necessário; a razão de não se ler é para que se conclua, por kal vachomer, que também documentos comuns não se leem por mero entretenimento. Repete-se então, para nova discussão, a Mishná: salvam-se do incêndio o estojo do rolo da Torá junto com o rolo, e o estojo dos tefilin junto com os tefilin, mesmo havendo dinheiro dentro deles — levando-os a um beco que não é passante; Ben Beteira permite levá-los também a um beco passante. Sobre essa Mishná, a Guemará traz uma baraita: quando o catorze de Nissan cai em Shabat, esfola-se o cordeiro pascal apenas até o peito — segundo Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka —, o suficiente para retirar as partes destinadas à queima, cuja urgência (necessidade do Alto) afasta o Shabat; os Sábios dizem que se esfola o cordeiro por inteiro, citando o versículo "tudo o que o Eterno fez, fez para Si mesmo" (Provérbios 16:4) — Rav Yosef explica que é para que não cheire mal, e Rava, para que as coisas sagradas do Céu não fiquem jogadas como uma carcaça. Explora-se a diferença prática entre as duas opiniões — o caso de o cordeiro estar sobre uma mesa de ouro, ou num dia de vento fresco — e o uso que Rabi Yishmael faz do mesmo versículo: que não se retirem os eimurim antes de esfolar o couro, por causa dos fios de lã que neles se prendem. Por fim, Rav Chisda, em nome de Mar Ukva, pergunta o que os colegas responderam a Rabi Yishmael a partir da própria Mishná sobre o estojo do rolo — e Rav Ashi refina a resposta, distinguindo entre a questão do transporte (tiltul) e a do trabalho (melachá). O daf termina em pleno debate sobre essa distinção, a continuar diretamente em Shabbat 117a.

Conclui-se o relato: Ima Shalom, o filósofo e a lâmpada de ouro · בְּמָקוֹם בְּרָא, בְּרַתָּא לָא תֵּירוֹת

645O filósofo tinha fama de não aceitar suborno, mas o recebia em segredo; Ima Shalom lhe traz uma lâmpada de ouro; a disputa sobre a herança; ele julga a favor dela citando o Avon Gilyon
A Guemará; Ima Shalom; Rabban Gamliel; o filósofo
דַּהֲוָה שָׁקִיל שְׁמָא דְּלָא מְקַבֵּל שׁוּחְדָּא. בְּעוֹ לְאַחוֹכֵי בֵּיהּ. עַיַּילָא לֵיהּ שְׁרָגָא דְּדַהֲבָא, וַאֲזוּל לְקַמֵּיהּ. אֲמַרָה לֵיהּ: בָּעֵינָא דְּנִיפְלְגוּ לִי בְּנִכְסֵי דְּבֵי נָשַׁי. אֲמַר לְהוּ: פְּלוּגוּ. אֲמַר לֵיהּ, כְּתִיב לַן: בִּמְקוֹם בְּרָא, בְּרַתָּא לָא תֵּירוֹת. אֲמַר לֵיהּ: מִן יוֹמָא דִּגְלִיתוּן מֵאַרְעֲכוֹן, אִיתְנְטִילַת אוֹרָיְיתָא דְּמֹשֶׁה וְאִיתִיְהִיבַת עֲווֹן גִּלְיוֹן, וּכְתִיב בֵּיהּ: בְּרָא וּבְרַתָּא כַּחֲדָא יִרְתוּן.

— que tinha fama de não aceitar suborno. Quiseram expô-lo ao ridículo. Ela (Ima Shalom) lhe trouxe uma lâmpada de ouro, e foram perante ele. Ela lhe disse: quero que me deem uma parte nos bens da casa de meu pai. Ele lhes disse: dividam com ela. Ele (Rabban Gamliel) lhe disse: está escrito para nós: no lugar de um filho, a filha não herda. Ele (o filósofo) lhe disse: desde o dia em que fostes exilados de vossa terra, foi tirada a Torá de Moshe e foi dado o Avon Gilyon, e está escrito nele: filho e filha herdam igualmente.

Nota

116a terminara interrompido bem no início da apresentação das personagens deste relato. Aqui se revela o enredo: o filósofo — identificado por Rashi, em 116a, como um herege (min) — tinha fama de não aceitar suborno das partes que vinham perante ele para julgamento, mas na verdade o recebia em segredo. Ima Shalom e seu irmão Rabban Gamliel decidem expô-lo: ela lhe entrega secretamente uma lâmpada de ouro, e então os dois lhe apresentam uma disputa fictícia sobre a herança paterna, ela reivindicando uma parte dos bens ao lado de seu irmão. O filósofo julga a seu favor, e quando Rabban Gamliel objeta citando a lei da Torá (Números 27:8) segundo a qual, havendo filho, a filha não herda, ele responde citando o "Avon Gilyon" — texto que Rabi Meir e Rabi Yochanan, em 116a, chamavam pejorativamente de "Aven Gilyon" e "Avon Gilyon" — segundo o qual filho e filha herdariam igualmente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "dahava shakil shema" e "amar leih"
דהוה שקיל שמא דלא מקבל שוחדא - היה מוציא עליו שם שאינו מקבל שוחד מבעלי דינין הבאין לפניו והיה מקבלו בסתר: א"ל - פילוסופא לר"ג מיומא דגליתון כו':

"Que tinha fama de não aceitar suborno" — divulgava sobre si a fama de não aceitar suborno das partes litigantes que vinham perante ele, mas o recebia em segredo. "Disse-lhe" — o filósofo a Rabban Gamliel: "desde o dia em que fostes exilados" etc.

646No dia seguinte, o burro líbio; o filósofo reverte seu juízo citando o mesmo texto contra si; "que tua luz brilhe como a lâmpada"; "veio o burro e derrubou a lâmpada"
Rabban Gamliel; o filósofo; Ima Shalom
לְמָחָר הֲדַר עַיֵּיל לֵיהּ אִיהוּ חֲמָרָא לוּבָא. אֲמַר לְהוּ: שְׁפִילִית לְסֵיפֵיהּ דַּעֲווֹן גִּלְיוֹן, וּכְתִיב בֵּיהּ: אֲנָא לָא לְמִיפְחַת מִן אוֹרָיְיתָא דְּמֹשֶׁה אֲתֵיתִי [וְלָא] לְאוֹסֹפֵי עַל אוֹרָיְיתָא דְמֹשֶׁה אֲתֵיתִי, וּכְתִיב בֵּיהּ: בִּמְקוֹם בְּרָא — בְּרַתָּא לָא תֵּירוֹת. אֲמַרָה לֵיהּ: נְהוֹר נְהוֹרָיךְ כִּשְׁרָגָא. אֲמַר לֵיהּ רַבָּן גַּמְלִיאֵל: אֲתָא חַמְרָא וּבְטַשׁ לִשְׁרָגָא.

No dia seguinte, ele (Rabban Gamliel), por sua vez, lhe trouxe um burro líbio. Ele (o filósofo) lhes disse: desci até o fim do Avon Gilyon, e está escrito nele: eu não vim para diminuir da Torá de Moshe, [e não] vim para acrescentar à Torá de Moshe, e está escrito nele: no lugar de um filho — a filha não herda. Ela lhe disse: que tua luz brilhe como a lâmpada. Disse-lhe Rabban Gamliel: veio o burro e derrubou a lâmpada.

Nota

Rabban Gamliel replica com um segundo suborno — um burro líbio, presumivelmente mais valioso que a lâmpada de ouro. O filósofo, então, reverte seu próprio julgamento anterior, citando agora, do mesmo "Avon Gilyon", uma passagem em sentido oposto: que esse texto não veio para diminuir nem para acrescentar à lei da Torá de Moshe, e portanto a regra original — de que, havendo filho, a filha não herda — permanece válida. Ima Shalom então o ironiza, dizendo "que tua luz brilhe como a lâmpada", expondo publicamente que ele mudara de opinião por causa do suborno, e não por argumento genuíno. Rabban Gamliel remata com a mesma imagem: o burro (o segundo suborno, mais valioso) "veio e derrubou" — superou em peso — a lâmpada (o primeiro suborno). O relato termina aqui, expondo a hipocrisia do filósofo que tinha fama de incorruptível.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shefilit", "nehor nehorach kishraga" e "amar lo Rabban Gamliel atah chamra uvtasha"
שפילית - כל סוף הדבר הוא תחתית שלו ושייך למימר שפילית לסיפיה: נהור נהורך כשרגא - הנהר אורך כשרגא רמזה שנתנה לו מנורה בשוחד: אמר לו ר"ג אתא חמרא ובטשא - דחפתו לארץ כלומר אני נצחתי בשוחד [והכל כדי שישמעו המתאספים שם נבלותו ומי הוא]:

"Desci" — todo fim de uma coisa é sua parte inferior, e por isso é apropriado dizer "desci até seu fim". "Que tua luz brilhe como a lâmpada" — "que tua luz ilumine como a lâmpada"; ela insinuou que lhe dera uma lâmpada como suborno. "Disse-lhe Rabban Gamliel: veio o burro e o derrubou" — empurrou-o ao chão, ou seja: eu venci com o suborno. E tudo isso para que os que ali se reuniam ouvissem sua vileza e soubessem quem ele era.

Retomada: por que não se lê nos Ketuvim em Shabat · בִּזְמַן בֵּית הַמִּדְרָשׁ

647Rav: só se aplica no tempo do bet hamidrash; Shmuel: mesmo fora dele, não se lê; objeção do costume de Neharde'a; reformula-se: Rav fala do lugar, não do tempo
Rav; Shmuel; a Guemará
וּמִפְּנֵי מָה אֵין קוֹרִין כּוּ׳. אָמַר רַב: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא בִּזְמַן בֵּית הַמִּדְרָשׁ, אֲבָל שֶׁלֹּא בִּזְמַן בֵּית הַמִּדְרָשׁ — קוֹרִין. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: אֲפִילּוּ שֶׁלֹּא בִּזְמַן בֵּית הַמִּדְרָשׁ אֵין קוֹרִין. אִינִי?! וְהָא נְהַרְדְּעָא אַתְרֵיהּ דִּשְׁמוּאֵל הֲוָה, וּבִנְהַרְדְּעָא פָּסְקִי סִידְרָא בִּכְתוּבִים בְּמִנְחֲתָא דְשַׁבְּתָא. אֶלָּא אִי אִיתְּמַר, הָכִי אִיתְּמַר — אָמַר רַב: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא בִּמְקוֹם בֵּית הַמִּדְרָשׁ. אֲבָל שֶׁלֹּא בִּמְקוֹם בֵּית הַמִּדְרָשׁ — קוֹרִין.

"E por que não se lê" etc. Disse Rav: não ensinaram isso senão a respeito do tempo do bet hamidrash, mas fora do tempo do bet hamidrash — lê-se. E Shmuel disse: mesmo fora do tempo do bet hamidrash, não se lê. Assim é? Mas Neharde'a era o lugar de Shmuel, e em Neharde'a concluíam a leitura do ciclo dos Ketuvim na (oração de) Minchá de Shabat! Mas, se foi dito, assim foi dito — disse Rav: não ensinaram isso senão a respeito do lugar do bet hamidrash. Mas fora do lugar do bet hamidrash — lê-se.

Nota

A Guemará retorna a um ponto anterior do perek: a Mishná de abertura (Shabat 16:1) já dissera que não se lê nos escritos sagrados (Ketuvim) em Shabat, "por causa da anulação do bet hamidrash" (do estudo público). Aqui se examina o alcance exato dessa proibição. Rav a limita ao tempo em que o bet hamidrash está em sessão — fora desse tempo, permite-se a leitura recreativa dos Ketuvim. Shmuel proíbe em qualquer tempo. A Guemará objeta a partir do costume conhecido de Neharde'a — a própria cidade de Shmuel — de concluir publicamente, na oração de Minchá de Shabat, o ciclo semanal de leitura dos Ketuvim; se Shmuel proibisse em qualquer tempo, como se explicaria essa prática em seu próprio lugar? Resolve-se reformulando a posição de Rav: ele não fala do tempo do bet hamidrash, mas do lugar do bet hamidrash — proibido apenas ali, permitido em qualquer outro lugar, a qualquer hora.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bizman beit hamidrash", "shelo bizman beit hamidrash", "piski sidra bichtuvim" e "bimkom beit hamidrash"
בזמן בית המדרש - קודם אכילה היו דורשים: שלא בזמן בית המדרש - לאחר אכילה לא דרשו משום שכרות: פסקי סדרא בכתובים - [היו רגילים לקרא בבהמ"ד פרשה בכתובים]: במקום בבהמ"ד - שהחכם דורש דהיינו בבהמ"ד אבל בעלמא קורין:

"No tempo do bet hamidrash" — antes da refeição costumavam expor a lição. "Fora do tempo do bet hamidrash" — depois da refeição não expunham, por causa da embriaguez. "Concluíam o ciclo nos Ketuvim" — costumavam ler no bet hamidrash uma porção dos Ketuvim. "No lugar do bet hamidrash" — onde o sábio expõe, isto é, no próprio bet hamidrash; mas fora dali, lê-se.

648Shmuel: seja no lugar ou fora dele, no tempo do bet hamidrash não se lê, fora do tempo lê-se — condizente com o costume de Neharde'a
Shmuel
וּשְׁמוּאֵל אָמַר: בֵּין בִּמְקוֹם בֵּית הַמִּדְרָשׁ בֵּין שֶׁלֹּא בִּמְקוֹם בֵּית הַמִּדְרָשׁ, בִּזְמַן בֵּית הַמִּדְרָשׁ — אֵין קוֹרִין, שֶׁלֹּא בִּזְמַן בֵּית הַמִּדְרָשׁ — קוֹרִין. וְאַזְדָּא שְׁמוּאֵל לְטַעְמֵיהּ, דְּבִנְהַרְדְּעָא פָּסְקִי סִידְרָא דִכְתוּבִים בְּמִנְחֲתָא דְשַׁבְּתָא.

E Shmuel disse: seja no lugar do bet hamidrash, seja fora do lugar do bet hamidrash, no tempo do bet hamidrash — não se lê; fora do tempo do bet hamidrash — lê-se. E Shmuel segue seu próprio raciocínio, pois em Neharde'a concluíam a leitura do ciclo dos Ketuvim na Minchá de Shabat.

Nota

Reformula-se também a posição de Shmuel: para ele, o que importa não é o lugar (bet hamidrash ou não), mas o tempo — durante a sessão de estudo, não se lê os Ketuvim em lugar nenhum, mas fora desse tempo, lê-se em qualquer lugar. Essa reformulação concorda perfeitamente com o costume de Neharde'a, terra de Shmuel: a leitura pública do ciclo dos Ketuvim ocorria na Minchá de Shabat — fora do tempo de sessão do bet hamidrash —, o que já não contradiz sua proibição.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bein bimkom beit hamidrash"
בין במקום בהמ"ד כו' בזמן בהמ"ד אין קורין - לפי שמבטלו מלילך אצל הדורש אבל שלא בזמן בהמ"ד כגון לאחר אכילה קורין:

"Seja no lugar do bet hamidrash etc., no tempo do bet hamidrash não se lê" — porque isso o afastaria de ir ouvir quem expõe; mas fora do tempo do bet hamidrash, como depois da refeição, lê-se.

649Rav Ashi: a primeira formulação (sobre o lugar) é a correta; Shmuel segue Rabi Nechemia — a proibição visa ensinar, por kal vachomer, que nem documentos comuns se leem por entretenimento
Rav Ashi; Rabi Nechemia (baraita)
רַב אָשֵׁי אָמַר: לְעוֹלָם כְּדַאֲמַרַן מֵעִיקָּרָא, וּשְׁמוּאֵל כְּרַבִּי נְחֶמְיָה. דְּתַנְיָא: אַף עַל פִּי שֶׁאָמְרוּ כִּתְבֵי הַקֹּדֶשׁ אֵין קוֹרִין בָּהֶן — אֲבָל שׁוֹנִין בָּהֶן וְדוֹרְשִׁין בָּהֶן. נִצְרָךְ לְפָסוּק — מֵבִיא וְרוֹאֶה בּוֹ. אָמַר רַבִּי נְחֶמְיָה: מִפְּנֵי מָה אָמְרוּ כִּתְבֵי הַקֹּדֶשׁ אֵין קוֹרִין בָּהֶן — כְּדֵי שֶׁיֹּאמְרוּ: בְּכִתְבֵי הַקֹּדֶשׁ אֵין קוֹרִין, וְכׇל שֶׁכֵּן בְּשִׁטְרֵי הֶדְיוֹטוֹת.

Rav Ashi disse: na verdade, é como dissemos no início; e Shmuel concorda com Rabi Nechemia. Como se ensina: ainda que tenham dito que não se lê nos escritos sagrados, porém estuda-se neles e expõe-se neles; e se precisar de um versículo, traz o rolo e olha nele. Disse Rabi Nechemia: por que disseram que não se lê nos escritos sagrados? Para que se diga: nos próprios escritos sagrados não se lê por entretenimento, quanto mais nos documentos comuns.

Nota

Rav Ashi rejeita a reformulação anterior e restabelece a primeira versão: Rav fala do tempo do bet hamidrash (não do lugar), e Shmuel proíbe em qualquer tempo — mas isso, explica, porque Shmuel segue a opinião de Rabi Nechemia numa baraita distinta. Segundo essa baraita, mesmo quando se diz que "não se lê" nos escritos sagrados, isso não impede estudá-los e expor sobre eles com seriedade, nem consultar um versículo específico quando necessário — o que é proibido é apenas a leitura casual, por entretenimento. Rabi Nechemia explica o propósito dessa proibição: trata-se de um argumento a fortiori pedagógico — se até os próprios escritos sagrados não se leem por mero entretenimento, quanto mais os documentos comuns (contratos, cartas) não devem ser lidos dessa forma em Shabat. Sendo essa a razão (pedagógica, não de anulação do estudo), Shmuel a aplica em todo tempo e lugar, sem as distinções que a Guemará tentara antes.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ushmuel", "kerabi Nechemia", "shonin bahen" e "shtar hedyotot"
ושמואל - דאמר לעיל אפילו לאחר אכילה אין קורין: כר' נחמיה - אמרה למילתיה דלית ליה טעמא דאין קורין משום בטול אלא כדי שיאמרו קל וחומר לשטרי הדיוטות ומיהו שמואל הנהיג במקומו כדברי חכמים דמתני' דאמרי טעמא (דמתני') משום ביטול תורה הלכך לאחר אכילה דליכא דרשה קורין: שונין בהן - כגון מדרש שה"ש וקהלת: שטר הדיוטות - כגון של חשבונות או איגרות השלוחות למצא חפץ:

"E Shmuel" — que disse acima que, mesmo depois da refeição, não se lê. "Como Rabi Nechemia" — que disse sua opinião de que a razão de não se ler não é por causa da anulação do estudo, mas para que se diga um kal vachomer quanto aos documentos comuns; porém Shmuel conduzia em seu lugar conforme as palavras dos Sábios da Mishná, que dizem que o motivo da Mishná é por causa da anulação do estudo da Torá; por isso, depois da refeição, quando não há exposição, lê-se. "Estuda-se neles" — como o midrash do Cântico dos Cânticos e de Eclesiastes. "Documentos comuns" — como os de contas, ou cartas enviadas para encontrar um objeto perdido.

Retoma-se a Mishná: salvam-se o estojo do rolo e o estojo dos tefilin · תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר

Mishná
מַצִּילִין תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר, וְתִיק הַתְּפִילִּין עִם הַתְּפִילִּין, וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בְּתוֹכָן מָעוֹת. וּלְהֵיכָן מַצִּילִין אוֹתָן — לְמָבוֹי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ. בֶּן בְּתֵירָא אוֹמֵר: אַף לִמְפוּלָּשׁ.

Salvam-se o estojo do rolo da Torá junto com o rolo, e o estojo dos tefilin junto com os tefilin, ainda que haja dinheiro dentro deles. E para onde se salvam? Para um beco que não é passante. Ben Beteira diz: também para um passante.

Nota — retomada da Mishná

Esta cláusula já fazia parte da Mishná de abertura do perek (Shabat 16:1), citada na íntegra em 115a. A Guemará agora a repete para dela extrair uma nova discussão: o estojo que envolve o rolo da Torá, ou o dos tefilin, salva-se do incêndio junto com o objeto sagrado, mesmo contendo dinheiro — que, por si só, não teria esse privilégio —, porque a honra do objeto sagrado se estende ao seu estojo. Quanto ao destino desse salvamento em Shabat (quando não se pode transportar para fora do domínio em que já estava), a Mishná permite levá-lo a um beco fechado numa das extremidades (mavoi she'eino mefulash), equiparável a um domínio privado; Ben Beteira permite também um beco aberto nas duas pontas.

A baraita sobre o cordeiro pascal quando o catorze de Nissan cai em Shabat · מַפְשִׁיטִין אֶת הַפֶּסַח

650Baraita: esfola-se o cordeiro até o peito (Rabi Yishmael b. Yochanan b. Beroka) ou por inteiro (Sábios); "tudo o que o Eterno fez, fez para Si mesmo" — para que não cheire mal, ou não fique como carcaça
Baraita; Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka; os Sábios; Rabá bar bar Chaná; Rabi Yochanan; Rav Yosef; Rava
תָּנוּ רַבָּנַן: אַרְבָּעָה עָשָׂר שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, מַפְשִׁיטִין אֶת הַפֶּסַח עַד הֶחָזֶה — דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן בְּרוֹקָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: מַפְשִׁיטִין אֶת כּוּלּוֹ. בִּשְׁלָמָא לְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן בְּרוֹקָה, דְּהָא אִיתְעֲבִיד לֵיהּ צוֹרֶךְ גָּבוֹהַּ. אֶלָּא לְרַבָּנַן מַאי טַעְמָא? אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר קְרָא: ״כֹּל פָּעַל ה׳ לַמַּעֲנֵהוּ״. וְהָכָא, מַאי ״לְמַעֲנֵהוּ״ אִיכָּא? רַב יוֹסֵף אָמַר: שֶׁלֹּא יַסְרִיחַ. רָבָא אָמַר: שֶׁלֹּא יְהוּ קׇדְשֵׁי שָׁמַיִם מוּטָלִין כִּנְבֵלָה.

Ensinaram os Sábios: o catorze de Nissan que calhar de cair em Shabat, esfola-se o cordeiro pascal até o peito — palavras de Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka. E os Sábios dizem: esfola-se por inteiro. Está bem segundo Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka, pois isso já se fez por necessidade do Alto , e o resto não. Mas segundo os Sábios, qual é o motivo de esfolar por inteiro? Disse Rabá bar bar Chaná, disse Rabi Yochanan: pois o versículo diz: "tudo o que o Eterno fez, fez para Si mesmo" (Provérbios 16:4). E aqui, que "para Si mesmo" há? Rav Yosef disse: para que não cheire mal. Rava disse: para que as coisas sagradas do Céu não fiquem jogadas como uma carcaça.

Nota

A discussão sobre a Mishná do estojo do rolo leva a Guemará a uma baraita sobre outro caso de trabalho em Shabat por necessidade sagrada: quando o dia 14 de Nissan (véspera de Pessach, quando se abate o cordeiro pascal) cai em Shabat. Esfolar um animal é uma das categorias principais de trabalho proibido, mas parte disso é permitido pela necessidade de oferecer os "eimurim" — as partes gordurosas destinadas à queima no altar —, cuja urgência ritual afasta a proibição do Shabat. Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka, limita a permissão ao estritamente necessário: esfolar até o peito, o suficiente para extrair os eimurim; o resto da esfola, sendo necessidade "comum" (não sagrada), espera até a noite. Os Sábios permitem esfolar o animal por inteiro, mesmo em Shabat, e a Guemará busca a base bíblica dessa posição: o versículo de Provérbios "tudo o que o Eterno fez, fez para Si mesmo" (verificado: Provérbios 16:4), entendido aqui como exigindo que tudo relacionado ao serviço divino seja tratado com dignidade. Rav Yosef entende isso como higiênico — evitar o mau cheiro da pele não removida —, e Rava, como uma questão de honra — evitar que a carne sagrada do sacrifício fique estendida como um cadáver comum em decomposição.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ad hechazeh", "lema'anehu" e "shelo yasriach"
עד החזה - מתחיל מרגליו האחרונים עד החזה שיוכל להוציא אימורים שהקטר חלביו דוחין שבת ותו לא מפשיט מידי עד אורתא דצורך הדיוט הוא: למענהו - לכבודו: שלא יסריח - שהעור מחממו ומסריחו ואין זה כבודו להיות פרס אוכלי שולחנו מגואל:

"Até o peito" — começa pelas patas traseiras até o peito, para poder retirar os eimurim, cuja queima das gorduras afasta a proibição de Shabat; e não esfola mais nada até a noite, pois o resto é necessidade comum. "Para Si mesmo" — para Sua honra. "Para que não cheire mal" — pois a pele o aquece e o faz cheirar mal, e não é digno de Sua honra que a porção dos que comem à Sua mesa fique suja.

651Qual a diferença entre as opiniões: a mesa de ouro, ou o dia de vento fresco; o uso que Rabi Yishmael faz do mesmo versículo — não retirar os eimurim antes de esfolar, por causa dos fios de lã
A Guemará; Rav Huna, filho de Rav Natan
מַאי בֵּינַיְיהוּ? אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ דְּמַנַּח אַפָּתוּרָא דְּדַהֲבָא, אִי נָמֵי יוֹמָא דְּאִסְתָּנָא. וְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן בְּרוֹקָה, הַאי ״פָּעַל ה׳ לַמַּעֲנֵהוּ״ מַאי עָבֵיד לֵיהּ? שֶׁלֹּא יוֹצִיא אֶת הָאֵימוּרִין קוֹדֶם הַפְשָׁטַת הָעוֹר. מַאי טַעְמָא? אָמַר רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב נָתָן: מִשּׁוּם נִימִין.

Qual é a diferença entre eles? Há diferença entre eles quando o cordeiro está posto sobre uma mesa de ouro, ou também num dia de vento fresco. E Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka, esse versículo "o Eterno fez para Si mesmo", o que faz com ele? Ensina que não se retirem os eimurim antes de esfolar o couro. Qual é o motivo? Disse Rav Huna, filho de Rav Natan: por causa dos fios de lã.

Nota

A Guemará busca a diferença prática entre as duas opiniões: se, de qualquer forma, ambas concordam em esfolar ao menos até o peito, quando se manifestaria a discordância sobre esfolar o resto? Responde-se: quando o cordeiro está sobre uma mesa de ouro (onde não há desonra visível, mas ainda há risco de mau cheiro, segundo Rav Yosef) ou num dia de vento fresco do norte (nem quente nem frio, quando Rava não teme o mau cheiro, mas ainda há a preocupação de honra segundo Rava). A Guemará então pergunta o que Rabi Yishmael faz com o mesmo versículo "para Si mesmo", já que ele não o usa para justificar esfolar por inteiro: ele o aplica para ensinar que não se devem retirar os eimurim antes de esfolar completamente o couro, mesmo dentro da porção permitida até o peito — porque os fios de lã do couro, se aderidos aos eimurim, prejudicariam sua qualidade ao serem oferecidos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "apaturei dedahava", "yoma de'istana", "kodem hafshatat ha'or", "mai ta'ama" e "mishum nimin"
אפתורי דדהבא - שאינו מוטל בבזיון אבל לשמא יסריח חייש רב יוסף ורבא לא חייש עד אורתא: יומא דאסתנא - רוח צפונית שהיא בינונית לא חמה ולא צנה כדאמרינן ביבמות בפרק הערל (יבמות דף עב.) ואיזו רוח המסרחת רוח מזרחית בשעת החום כדאמרינן בגיטין (דף לא:) אפילו שכבת זרע שבמעי אשה מסרחת בו דכתיב (הושע י"ג:ט"ו) יבא קדים רוח ה' ממדבר עולה וגו' יש מפרשין יומא דאסתנא רוח דרומית שהיא צוננת אמת שרוח דרומית צוננת אבל אסתנא על כרחיך צפונית היא ונוחה כדאמר בעלמא (עירוביץ ד' סה.) צריכא שמעתא צילותא כיומא דאסתנא ורוח דרומית היא בלשון ארמי יומא דשותא: קודם הפשטת העור - עד החזה: מ"ט - עור לאימורין מאי קא עביד: משום נימין - של צמר הנדבקין באימורין:

"Sobre uma mesa de ouro" — pois não fica em desonra; mas quanto ao receio de que cheire mal, Rav Yosef se preocupa, e Rava não se preocupa até a noite. "Dia de vento fresco" — vento norte, que é moderado, nem quente nem frio, como dizemos em Yevamot, no capítulo "HeArel" (72a); e qual é o vento que faz apodrecer? O vento leste, em época de calor, como dizemos em Guitin (31b): até o sêmen no ventre de uma mulher apodrece por causa dele, pois está escrito (Oseias 13:15): "virá o vento leste, o vento do Eterno subindo do deserto" etc. Há quem explique que "dia de vento fresco" é o vento sul, que é frio — é verdade que o vento sul é frio, mas "vento fresco" é necessariamente o vento norte, e agradável, como se diz noutro lugar (Eruvin 65a): "um ensinamento precisa de clareza como um dia de vento fresco"; e o vento sul, em aramaico, se chama "dia de shuta". "Antes de esfolar o couro" — até o peito. "Qual é o motivo" — o que a pele faz aos eimurim para que se cuide da ordem? "Por causa dos fios" — de lã que grudam nos eimurim.

652Rav Chisda, em nome de Mar Ukva: o que os colegas responderam a Rabi Yishmael a partir do estojo do rolo; a objeção tiltul-vs-melachá; Rav Ashi: discordam em dois pontos — mover a pele por causa da carne
Rav Chisda; Mar Ukva; os colegas; Rav Ashi
אָמַר רַב חִסְדָּא אָמַר מָר עוּקְבָא: מַאי אַהְדַּרוּ לֵיהּ חַבְרַיָּיא לְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן בְּרוֹקָה? הָכִי קָאָמְרִי לֵיהּ: אִם מַצִּילִין תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר, לֹא נַפְשִׁיט אֶת הַפֶּסַח מֵעוֹרוֹ? מִי דָּמֵי?! הָתָם — טִלְטוּל, הָכָא — מְלָאכָה! אָמַר רַב אָשֵׁי: בְּתַרְתֵּי פְּלִיגִי, פְּלִיגִי בְּטִלְטוּל וּפְלִיגִי בִּמְלָאכָה, וְהָכִי קָאָמְרִי לֵיהּ: אִם מַצִּילִין תִּיק הַסֵּפֶר עִם הַסֵּפֶר, לֹא נְטַלְטֵל עוֹר אַגַּב בָּשָׂר?!

Disse Rav Chisda, disse Mar Ukva: o que responderam os colegas a Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka? Assim lhe disseram: se salvam o estojo do rolo junto com o rolo, não esfolaremos o cordeiro pascal de sua pele por inteiro? É comparável? Ali — é transporte (tiltul), aqui — é trabalho (melachá)! Disse Rav Ashi: discordam em dois pontos: discordam quanto ao transporte e discordam quanto ao trabalho, e assim lhe disseram: se salvam o estojo do rolo junto com o rolo, não moveremos a pele por causa da carne junto com ela?!

Nota

Retomando a Mishná sobre o estojo do rolo, Rav Chisda, em nome de Mar Ukva, reconstrói o argumento que os colegas de Rabi Yishmael lhe teriam dirigido: assim como se permite salvar o estojo (algo em si sem santidade) junto com o rolo por causa da honra deste, também se deveria permitir esfolar o cordeiro por inteiro, além do estritamente necessário, por causa da honra do sacrifício. A própria Guemará objeta: essa comparação não se sustenta, pois salvar o estojo é mero transporte (tiltul) de um objeto já permitido, enquanto esfolar é trabalho proibido (melachá) em sentido pleno — uma categoria mais grave, que não se resolve pela mesma lógica de honra. Rav Ashi refina a resposta: a disputa entre Rabi Yishmael e os Sábios, na verdade, abrange dois pontos distintos — o transporte da pele (se pode movê-la depois de esfolada) e o trabalho de esfolar. A formulação correta do argumento dos colegas, então, não compara diretamente esfolar com transportar o estojo, mas sim compara o transporte do estojo (permitido por causa do rolo) com o transporte da pele já esfolada (que deveria ser permitido por causa da carne sagrada ainda ligada a ela) — um paralelo mais preciso, que evita a objeção anterior. O daf termina em pleno debate sobre essa distinção entre tiltul e melachá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "chaverya", "im matzilin", "tik im hasefer", "sham", "hacha", "betartei pligi", "vehachi kaamrei leih" e "lo netaltel or agav basar"
חברייא - בני מחלוקתו: אם מצילין - בשבת: תיק עם הספר - ואע"פ שיש בתוכו מעות ומשום כבוד הספר שהוא צורך גבוה עבדינן בהדיה הצלת מעות שהן צורך הדיוט: לא נפשיט את הפסח - בתמיה משום צורך גבוה לא שרי צורך הדיוט בהדיה: התם - תיק ומעות דקמייתי ראיה מיניה . טלטול בעלמא הוא: הכא - גבי פלוגתייהו דפסח דאיירי בה השתא מלאכה גמורה דהפשטה מאבות מלאכות היא: בתרתי פליגי - גבי פסח פליגי בטלטולו דאסר רבי ישמעאל לטלטל [הפסח] אחר שהוציא אימוריו אפי' מחמה לצל משום עור דלאו בר טלטול הוא ולא דמי לשלחין דאמרן בבמה טומנין (לעיל שבת מט.) שמטלטלין אותן דהתם עור בהמה גסה דחזי למישטחיה ולמיזגא עליה: והכי קאמרי ליה - תשובה לענין טלטול: לא נטלטל עור אגב בשר - דהוי נמי כבוד שמים דבשר דומיא דספר ומותר לטלטלו מחמה לצל ואגב בשר יטלטלו עור המחובר בו:

"Os colegas" — seus interlocutores na disputa. "Se salvam" — em Shabat. "O estojo com o rolo" — ainda que haja dinheiro dentro dele; e por causa da honra do rolo, que é necessidade do Alto, fazemos juntamente com ele o salvamento do dinheiro, que é necessidade comum. "Não esfolaremos o cordeiro pascal" — em tom de espanto: por causa da necessidade do Alto, não se permitiria a necessidade comum junto com ela? "Ali" — o estojo e o dinheiro, de onde se trazia a prova, é mero transporte. "Aqui" — quanto à disputa sobre o cordeiro pascal, de que se trata agora, é trabalho pleno, pois esfolar é uma das categorias principais de trabalho. "Discordam em dois pontos" — quanto ao cordeiro pascal, discordam quanto ao seu transporte, pois Rabi Yishmael proíbe transportar o cordeiro depois de retirados os eimurim, mesmo do sol para a sombra, por causa da pele, que não é apta para transporte; e isso não se compara às peles de que falamos em "Bameh Tomnin" (Shabat 49a), que se transportam, pois ali é pele de gado grosso, apta para se estender e se deitar sobre ela. "E assim lhe disseram" — resposta quanto à questão do transporte. "Não moveremos a pele por causa da carne" — pois isso também é honra do Céu, sendo a carne semelhante ao rolo, e é permitido transportá-la do sol para a sombra; e, por causa da carne, transporta-se também a pele que está ligada a ela.

O daf termina aqui, em pleno debate sobre a distinção entre transporte (tiltul) e trabalho (melachá) na resposta que os colegas deram a Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka — a discussão prossegue diretamente, sem qualquer marca de encerramento de perek, em Shabbat 117a.