Segunda halachá do Perek Tet-Vav de Massechet Shabbat, Ve'elu Kesharim. A Mishná ensina que há nós pelos quais não se é culpado como pelo nó dos cameleiros e pelo nó dos marinheiros: a mulher amarra as aberturas da sua túnica, os fios da rede de cabelo e os da cinta, as correias do sapato e da sandália, os odres de vinho e de azeite e a panela de carne; Rabi Eliezer ben Yaakov permite amarrar uma corda diante do animal, para que não saia; amarra-se o balde com a cinta, mas não com a corda, e Rabi Yehudá permite, e dá a regra de que não se é culpado por nó que não é permanente. A guemará traz Rabi Chizkiyá e Rabi Yossi sobre a abertura da túnica, a correia que se soltou e o nariz da sandália, sobre o qual os tanaim divergem; pergunta se os sábios discordam de Rabi Eliezer ben Yaakov e responde com a baraita dos lacres no chão; e termina com a corda deslizada de Rabi Ba e com a leitura da regra de Rabi Yehudá que Rabi Shmuel traz em nome de Rabi Zeira. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 112a.
Mishná: E há kesharim (nós) pelos quais não se é culpado no Shabat como pelo kesher hagamalin (o nó dos cameleiros) e pelo kesher hasapanin (o nó dos marinheiros). A mulher amarra as aberturas da sua túnica, e os fios da sevachá (rede de cabelo), e os da pesikiya (cinta), e as correias do sapato e da sandália, e os odres de vinho e de azeite, e a panela de carne. Rabi Eliezer ben Yaakov diz: amarra-se uma corda diante do animal, para que não saia. Amarra-se o delí (balde) com a pesikiya, mas não com a corda; e Rabi Yehudá permite. Uma regra disse Rabi Yehudá: todo nó que não é permanente, não se é culpado por ele ao atá-lo.
Disse Rabi Chizkiyá: a Mishná fala da abertura de uma imrá (orla) que a pessoa prende à túnica. Disse Rabi Yossi: fala da abertura de uma túnica que é feita como uma espécie de duas folhas. Se as correias do sapato e da sandália se soltaram, a pessoa as tira e as recoloca, contanto que não as amarre.
Se o seu chotem (nariz) se soltou, há tanaim (recitadores de baraitot) que ensinam: é permitido recolocá-lo; e há tanaim que ensinam: é proibido recolocá-lo. Queriam dizer: quem diz que é permitido fala do caso em que há nele um furo; quem diz que é proibido, do caso em que há nela dois furos. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: tanto um como o outro falam conforme quem diz: quando há nele dois furos. Como é, então? Quem diz que é permitido fala de quando estão folgados; quem diz que é proibido, de quando estão apertados.
Discordam os sábios de Rabi Eliezer ben Yaakov? Pelo que se ensina: “Concordam os sábios com Rabi Meir, quanto aos chotamot (lacres) que estão no chão, que no Yom Tov se afrouxam, e se arrancam, e se desatam, e se cortam. No Shabat, afrouxam-se, mas não se arrancam, nem se desatam, nem se cortam. Nos utensílios, desatar no Shabat é permitido, e não é preciso dizer que o é no Yom Tov.” Isto diz: não discordam de Rabi Eliezer ben Yaakov. Disse Rabi Ba: a Mishná fala de uma corda shachul (deslizada), uma corda que já está deslizada.
“Com a pesikiya, mas não com a corda; Rabi Yehudá permite.” Se Rabi Yehudá permite, então os rabinos não permitem? Mas, porque ensinamos a cláusula anterior em nome de Rabi Yehudá, ensinamos também esta regra em nome de Rabi Yehudá: “Uma regra disse Rabi Yehudá: todo nó que não é permanente, não se é culpado por ele ao atá-lo.” Rabi Shmuel disse em nome de Rabi Zeira: assim é a Mishná: todo nó que não é permanente e é passageiro, não se é culpado por ele ao atá-lo.
Esta é a segunda halachá do Perek Tet-Vav de Massechet Shabbat, Ve'elu Kesharim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 15:2 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “há nós pelos quais não se é culpado” até “todo nó que não é permanente, não se é culpado por ele”, como antecipou a nota da halachá 15:1; a Mishná seguinte, Shabbat 15:3, que começa com “dobram-se as roupas” (מְקַפְּלִין אֶת הַכֵּלִים), é a da halachá 15:3. No Bavli, a mesma Mishná está dividida em duas: a primeira parte, até a palavra de Rabi Eliezer ben Yaakov, está em Shabbat 111b, com a guemará entre 111b e 113a; a segunda, do balde até a regra de Rabi Yehudá, é uma Mishná à parte, em Shabbat 113a. Há diferenças de redação entre o Yerushalmi e a avulsa: o Yerushalmi começa com וְיֵשׁ לְךָ, “e há”, onde a avulsa diz יֵשׁ לְךָ, sem vav; diz מַפְתְּחֵי חַלּוּקָהּ, “as aberturas da sua túnica”, no plural, onde a avulsa diz מִפְתַּח חֲלוּקָהּ, no singular (o Bavli, na guemará de 112a, também diz מפתחי); diz וְחוּטֵי סְבָכָה שֶׁל פַּסִיקְיָא, sem o vav antes de שֶׁל, onde a avulsa diz וְשֶׁל פְּסִיקְיָא, “e os da cinta”, e por isso o “e os” vai em itálico; diz לִפְנֵי בְהֵמָה, sem artigo, onde a avulsa diz לִפְנֵי הַבְּהֵמָה; e diz וְרִבִּי יְהוּדָה מַתִּיר, com vav. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização: חַיָיבִין, וּקְדֵירָה, בַּפַּסִיקְיָא, בַחֶבֶל e קַיָימָא no Yerushalmi, חַיָּבִין, וּקְדֵרָה, בִּפְסִיקְיָא, בְחֶבֶל e קְיָמָא na avulsa. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento, a seção 02 é o terceiro e a seção 03 é o quarto. O segundo segmento aparece em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção 01; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; conservamos o marcador “ב׳.”, que indica que a guemará trata da segunda Mishná do capítulo. O Sefaria marca também, na seção 02, o início da folha 78a da edição de Vilna, e tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses. O Sefaria escreve תַּנֵָּיי, com dois sinais de vogal sob a mesma letra, e בָּמִפְתַּח, na seção 01, e מַתְנִיתַא e שֶׁלְקַיָימָא, numa só palavra, na seção 03, com uma grafia incomum, e conservamos o hebraico como está.
Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 111b–112a, a guemará pergunta por que a Mishná precisa ensinar que a mulher amarra a abertura da túnica, se isso é óbvio, e responde que se trata de uma túnica com duas aberturas, e poder-se-ia pensar que uma delas a mulher deixa amarrada para sempre; e, quanto aos fios da rede de cabelo, quando ela está folgada na cabeça, poder-se-ia pensar que a mulher a tira sem desatá-la, e a Mishná ensina que ela a desata, porque cuida do seu cabelo. Ali mesmo, em 112a, três baraitot divergem sobre quem desata as correias do sapato e da sandália, se é culpado de oferenda, isento mas proibido, ou permitido desde o início, e a guemará distingue entre o nó dos sapateiros, o dos sábios e o dos moradores de Mechoza, e, na sandália, entre o nó dos árabes, o laço simples e a sandália que dois usam alternadamente. O Bavli não fala do nariz da sandália. Em Shabbat 112b–113a, sobre Rabi Eliezer ben Yaakov, o Bavli explica que se trata de um animal com duas cordas, uma das quais se poderia pensar que fica amarrada para sempre; Rav Yosef diz em nome de Rav Yehudá, em nome de Shmuel, que a halachá é como Rabi Eliezer ben Yaakov, e Abaye pergunta se, ao dizer “a halachá”, não se dá a entender que os sábios discordam dele, a mesma pergunta da nossa seção 02. Em Shabbat 113a, sobre a Mishná do balde, a guemará pergunta de que corda se trata e responde que é a corda do tecelão, que os rabinos proíbem por causa da corda comum, e Rabi Yehudá não; e traz a baraita da corda do balde que se rompeu, que não se amarra, mas se dá um laço, e Rabi Yehudá diz que se enrola nela uma punda ou uma pesikiya, contanto que não se dê o laço. Esta baraita tem paralelo na Tosefta Shabbat 12:16, na numeração Lieberman (13:18 na edição de Vilna, no Sefaria): “a corda do balde que se rompeu, não se amarra, mas se dá um laço”; e a Tosefta Shabbat 12:15, na numeração Lieberman, ensina que a corda amarrada à vaca se amarra à manjedoura, e a amarrada à manjedoura se amarra à vaca. A baraita dos lacres da seção 02 está na Tosefta Beitzah 3:12, na numeração Lieberman, com outra redação: ali, no Yom Tov, “afrouxam-se, e se desatam, e se arrancam, mas não se cortam”, e, no Shabat, “afrouxam-se e se desatam, mas não se arrancam nem se cortam”; e “os dos utensílios, no Shabat, é permitido”. A mesma baraita, com a redação do nosso texto, está no Yerushalmi Beitzah 4:3, segmento 12 na numeração do Sefaria, junto à Mishná Beitzah 4:3, onde Rabi Meir diz que, numa casa cheia de frutos, fechada e que se abriu, se pode até abrir desde o início e tirar.
Observações de leitura. Na Mishná, segundo o Penei Moshe, os nós do cameleiro e do marinheiro são permanentes e obra de artesão, e por eles se é culpado; há nós permanentes que não são obra de artesão, pelos quais não se é culpado, mas é proibido; e os da lista são permitidos desde o início, porque não se diz que a mulher deixa um deles amarrado para sempre. A pesikiya é, segundo o Penei Moshe e o Korban HaEdá, um cinto largo com fios pendentes para amarrá-lo; o Penei Moshe diz que a halachá é como Rabi Eliezer ben Yaakov, e não como Rabi Yehudá. Na seção 01, segundo o Penei Moshe, Rabi Chizkiyá explica que a Mishná não fala da abertura comum da túnica, que se amarra e desata todos os dias, mas da orla que se prende à túnica, e que se poderia deixar sem desatar; Rabi Yossi diz que fala da própria túnica, quando tem duas abas, uma de cada lado, e se poderia despi-la desatando só uma; o Korban HaEdá descreve as duas folhas como duas línguas, uma em cima e outra embaixo, ou uma à direita e outra à esquerda. A correia que se soltou se recoloca, mas não se amarra, porque, uma vez que se soltou, não se permitiu amarrá-la desde o início. O nariz da sandália é, segundo o Penei Moshe, o do sapato ou da sandália que se soltou, e, segundo o Korban HaEdá, a maior parte da sandália do lado de fora; Guggenheimer o explica como a tira do meio, por onde passam as correias; a identificação é incerta. Os folgados e os apertados são, segundo o Korban HaEdá, os furos largos, em que se recoloca a correia sem esforço, e os estreitos, em que entra com dificuldade, e se proíbe por receio de que se fixe; o Penei Moshe fala das próprias correias, folgadas ou apertadas. Na seção 02, segundo o Penei Moshe e o Korban HaEdá, a baraita trata das portas das covas e das grutas, fechadas com nós de corda: se até esses lacres se desatam no Yom Tov, e se nos utensílios tudo é permitido mesmo no Shabat, vê-se que um nó assim não é permanente para ninguém, e por isso os sábios não discordam de Rabi Eliezer ben Yaakov. A corda shachul de Rabi Ba é, segundo o Penei Moshe, a corda que deslizou da pesikiya e ainda está pendurada nela, como o שָׁחוּל da Mishná Bechorot 6:7, o animal cuja coxa se deslocou; o Korban HaEdá a explica como corda feita para puxar as coisas; Guggenheimer traduz “hanging down”. Na seção 03, segundo o Penei Moshe, a pergunta é com espanto: se a corda ainda está pendurada na pesikiya, por que os rabinos não permitem amarrar com ela? E a resposta explica por que a regra se ensina em nome de Rabi Yehudá; o Korban HaEdá lê a pergunta como dirigida à própria regra: e os rabinos não concordam que não se é culpado por nó que não é permanente? Rabi Zeira, segundo o Korban HaEdá, ensina que a regra fala do nó que é passageiro, como o laço, e que, se o fez para durar para sempre, é amarração mesmo que o nó não seja forte. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer traduz “the threads of the hair net, of the belt”, com vírgula; o hebraico diz וְחוּטֵי סְבָכָה שֶׁל פַּסִיקְיָא, sem vav, e completamos “e os” em itálico, como lê a avulsa. Na seção 01, ele traduz בְּמַפְתִּחַ אִימְרָא como verbo, “if one opens the hem”; lemos como substantivo, “a abertura da orla”, em paralelo com a frase de Rabi Yossi, como lê o Penei Moshe. Ele acrescenta, entre colchetes, a palavra “split”, que diz vir do fragmento da Guenizá editado por J. N. Epstein, e observa que esse fragmento diz “Rav Chisda disse” onde o nosso texto diz “queriam dizer”; seguimos o hebraico do Sefaria, sem essas variantes. Na seção 02, ele traduz חֶבֶל שָׁחוּל por “a rope hanging down”; seguimos o Penei Moshe, “corda deslizada”. Na seção 03, ele observa que a pergunta “então os rabinos não?” lhe parece incompreensível e propõe, com Nachmânides, ler a citação como sendo a regra de Rabi Yehudá; seguimos o hebraico como está. Ele escreve “Rebbi Ḥizqiah”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun”, “Rebbi Eliezer ben Jacob”, “Rebbi Meїr”, “Rebbi Abba”, “Rebbi Jehudah”, “Rebbi Samuel” e “Rebbi Zeˋira”; mantivemos “Rabi Chizkiyá”, “Rabi Yossi”, “Rabi Yossi beRabi Bun”, “Rabi Eliezer ben Yaakov”, “Rabi Meir”, “Rabi Ba”, “Rabi Yehudá”, “Rabi Shmuel” e “Rabi Zeira”, como nas halachot anteriores deste tratado; o hebraico diz רִבִּי בָּא, e assim transcrevemos.