Primeira halachá do Perek Tet-Vav de Massechet Shabbat, que abre o décimo quinto capítulo, Ve'elu Kesharim (e estes são os nós). A Mishná ensina que o nó dos cameleiros e o nó dos marinheiros são os nós pelos quais se é culpado no Shabat, e que, assim como se é culpado por atá-los, assim se é culpado por desatá-los; Rabi Meir diz que, por todo nó que se pode desatar com uma só mão, não se é culpado. A guemará pergunta que amarração havia no Mishkan (o Tabernáculo), já que as cordas das tendas eram amarradas e desamarradas a cada viagem; Rabi Yossi e Rabi Yossi beRabi Bun discutem se essa amarração era para sempre ou passageira, e Rabi Pinchas e Rabi Yossi ben Chanina aprendem o amarrar e o desatar dos que costuravam e dos que teciam as cortinas, com as objeções de Rabi Chizkiyá e de Rabi Tanchuma. A halachá termina com a baraita de Rabi Hoshaya sobre o cesto de tâmaras, que se rasga e se desata, mas não se amarra. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 111b.
Mishná: Estes são os kesharim (nós) pelos quais se é culpado no Shabat: o nó dos cameleiros e o nó dos marinheiros. E, assim como se é culpado por atá-los, assim também se é culpado por desatá-los. Rabi Meir diz: todo nó que a pessoa pode desatar com uma só mão, não se é culpado por ele ao atá-lo.
“Estes são os nós” etc. Que amarração havia no Mishkan? Que amarravam as cordas das tendas. E não era uma amarração passageira? Disse Rabi Yossi: uma vez que partiam e acampavam conforme a palavra divina, a amarração é como se fosse para sempre. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: uma vez que o Makom (o Onipresente) lhes prometeu que os faria entrar na Terra de Israel, ela é como algo passageiro.
Disse Rabi Pinchas: dos que costuravam as yeriot (as cortinas do Mishkan) aprenderam o amarrar e o desatar: se o fio se rompia, amarrava-o; se se rompia de novo, fazer deles nós sobre nós é impossível; mas volta e desata o primeiro nó. Disse Rabi Chizkiyá: aquele alfaiate especialista embute as suas duas pontas no tecido.
E qual tradição diz isto? A que disse Rabi Yossi ben Chanina: dos tecelões das cortinas o aprenderam. Qual é a razão deles? “O comprimento da cortina, uma” (Shemot 26:2): para que toda ela seja uma só peça. Se o fio se rompia, amarrava-o; quando chegava ao tecido, desatava-o e o fazia entrar nele. Rabi Tanchuma disse em nome de Rav Huna: mesmo na sua trama não havia nem nó nem tiyamet (emenda).
Ensinou Rabi Hoshaya: um chotel (cesto) de tâmaras e uma patelayá (travessa de folhas) de tâmaras, rasga a amarra e desata, contanto que não amarre.
Esta é a primeira halachá do Perek Tet-Vav de Massechet Shabbat, Ve'elu Kesharim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 15:1 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “estes são os nós pelos quais se é culpado” até “não se é culpado por ele”, como antecipou a nota final da halachá 14:4. A Mishná seguinte, Shabbat 15:2, que começa com “há nós pelos quais não se é culpado como pelo nó dos cameleiros” (יֵשׁ לְךָ קְשָׁרִים שֶׁאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶן), é a da halachá 15:2, onde o Yerushalmi a traz inteira, com o balde amarrado com um cinto e a regra de Rabi Yehudá. No Bavli, a nossa Mishná está em Shabbat 111b, e a sua guemará ocupa só essa folha, onde começa também a Mishná seguinte. O Bavli começa a Mishná com וְאֵלּוּ, com vav, de onde vem o nome do capítulo, Ve'elu Kesharim; o Yerushalmi escreve אֵילּוּ, e a Mishná avulsa, אֵלּוּ, ambos sem vav. Há uma diferença de redação: o Yerushalmi diz בְיָדוֹ אַחַת, “com a sua mão, uma”, onde a avulsa e o Bavli dizem בְאַחַת מִיָּדָיו, “com uma das suas mãos”; o sentido é o mesmo. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização: o Yerushalmi escreve הַסַּפָּנִים, חַיָיבִין, חַיָיב, קִשֻּׁרָן e הֶתֵּירָן, onde a avulsa escreve הַסַּפָּנִין, חַיָּבִין, חַיָּב, קִשּׁוּרָן e הֶתֵּרָן. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro. O segundo segmento aparece em três pares de hebraico e português dentro da mesma seção 01; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos, e marca, no primeiro par da seção 01, o início da folha 77b da edição de Vilna; tiramos também esse marcador, que não faz parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses. O Sefaria escreve חַיַיב, na Mishná, שֶׂבָּהּ, com ponto de sin, na seção 01, e רִבּי, sem hiriq, e וְפַּטֶילַּיָיא, com dagesh depois do vav, na seção 02, com uma vocalização incomum, e conservamos o hebraico como está.
Referências conferidas. Toda a guemará desta halachá está também no Yerushalmi, em Shabbat 7:2, nas seções 45 e 46 da nossa tradução, às quais Guggenheimer remete aqui; ali, a guemará comenta a Mishná das trinta e nove melachot (trabalhos proibidos), a Mishná Shabbat 7:2, que inclui “o que amarra e o que desata”. Há diferenças: ali, as duas respostas dizem “como algo passageiro”, e a segunda é de “Rabi Yossi” e diz הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, “o Santo, bendito seja”, onde aqui a primeira diz “como se fosse para sempre”, a segunda é de Rabi Yossi beRabi Bun e diz הַמָּקוֹם; ali “acampavam e partiam”, aqui “partiam e acampavam”; ali רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי חֲנִינָא, רַב חוּנָה e רִבִּי הוֹשַׁעְיָה, aqui רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָא, רַב חוּנָא e רִבּי הוֹשַׁעְיָא. A seção 56 da halachá 7:2, sobre o construir, tem a mesma forma de pergunta e respostas que a primeira parte da nossa seção 01. O versículo da seção 01 é Shemot 26:2: “o comprimento da cortina, uma, vinte e oito côvados”. No Bavli, Shabbat 74b, sobre a mesma Mishná dos trabalhos, Rava diz que amarravam as tendas às estacas, e a guemará objeta que é nó para desatar; Abaye diz que os tecelões das cortinas, quando se rompia um fio, o amarravam; Rava objeta que isso explica o amarrar, mas não o desatar, e que desatar um nó e deixar outro, quando caem dois nós juntos, não se faz diante de um rei de carne e sangue, quanto mais diante do Rei dos reis; e conclui, ou Rabi Ilai, que os caçadores do chilazon (o molusco da tinta azul) amarram e desatam. A guemará do Bavli, Shabbat 111b, sobre a nossa Mishná, explica que o nó dos cameleiros e o dos marinheiros não são o nó com que se amarra a corda à argola do nariz do camelo ou à argola do navio, que é passageiro, mas o nó da própria argola; e Rav Achadvoi, irmão de Mar Achá, pergunta se o laço, segundo Rabi Meir, é como o nó que se desata com uma mão, e a pergunta fica sem resposta. A baraita da seção 02 tem paralelo na Tosefta Shabbat 12:15, na numeração Lieberman (13:16 na edição de Vilna, no Sefaria): “o chotel de tâmara e a patelia de figos secos, rasga e come, contanto que não amarre”; ali segue a regra de que não se é culpado senão por nó permanente que não se pode desatar com uma só mão. No Bavli, Shabbat 146a, duas baraitot dizem dos chotalot de figos secos e de tâmaras, uma, que se desata, se arranca e se corta, e outra, que se desata, mas não se arranca nem se corta, e a guemará atribui a segunda a Rabi Nechemia.
Observações de leitura. Na Mishná, segundo o Korban HaEdá, o nó dos cameleiros é o da argola de correia que se põe no nariz do camelo e que fica ali para sempre, e o dos marinheiros, o da argola de palmeira ou de correia no furo da proa; e o Penei Moshe diz que se é culpado só pelo nó que é permanente e obra de artesão; que, se falta uma das duas condições, se é isento, mas é proibido; e que a halachá não segue Rabi Meir. Na seção 01, a nossa leitura é a seguinte: a guemará procura no Mishkan a origem do trabalho de amarrar e pergunta se as cordas das tendas não eram amarradas só por um tempo, já que se desmontava tudo a cada viagem. Para Rabi Yossi, como as viagens dependiam da palavra divina, e não se sabia quanto duraria cada parada, a amarração conta como permanente; para Rabi Yossi beRabi Bun, como já havia a promessa da entrada na Terra, tudo ali era passageiro, e por isso se buscam outras fontes. Rabi Pinchas a encontra nos que costuravam as cortinas, que desatavam o primeiro nó para não deixar dois nós; Rabi Chizkiyá objeta que um bom alfaiate embute as pontas e não precisa de nós; e a guemará pergunta qual tradição sustenta, mesmo assim, o desatar, e responde com a de Rabi Yossi ben Chanina, sobre os tecelões, que desatavam o nó ao chegar ao tecido, para que a cortina fosse uma só peça. A palavra de Rabi Tanchuma em nome de Rav Huna parece dizer que nem na trama havia nó ou emenda, e o texto não diz como isso se concilia com o que vem antes. O hebraico diz עָרֶב, a trama, em oposição a שְׁתִי, o urdume, como os distingue o Penei Moshe na Mishná 7:2; Guggenheimer traduz “warp”, urdume, e assim se traduziu na halachá 7:2; aqui seguimos o hebraico. A tiyamet é a emenda de dois fios; Guggenheimer traduz “connection”. Na seção 02, a identificação do chotel e da patelayá é incerta; seguimos Guggenheimer, que traduz “basket of palm leaves” e “plate of palm leaves”; o que se rasga e se desata é a amarra ou a cobertura que fecha o cesto, e a Tosefta diz “rasga e come”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer traduz a resposta de Rabi Yossi como pergunta, “was it not permanent?”; o hebraico diz כְּמִי שֶׁהִיא לְעוֹלָם, e traduzimos como afirmação. Ele traduz הַמָּקוֹם por “the Holy One, praise to Him”, como no paralelo de 7:2; o hebraico daqui diz הַמָּקוֹם, o Onipresente, e assim traduzimos. Ele chama as cortinas de “gobelins” e diz “if [a thread] broke”, com colchetes; o hebraico diz יְרִיעוֹת, cortinas, e só נִפְסַק, “se rompia”, e o fio vai em itálico. Ele escreve “Rebbi Meїr”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun”, “Rebbi Phineas”, “Rebbi Ḥizqiah”, “Rebbi Yose ben Ḥanina”, “Rebbi Tanḥuma”, “Rav Ḥuna” e “Rebbi Hoshaia”; mantivemos “Rabi Meir”, “Rabi Yossi”, “Rabi Yossi beRabi Bun”, “Rabi Pinchas”, “Rabi Chizkiyá”, “Rabi Yossi ben Chanina”, “Rabi Tanchuma”, “Rav Huna” e “Rabi Hoshaya”, como nas halachot anteriores deste tratado; na halachá 7:2, o nome do mestre de Rabi Tanchuma, que ali se escreve חוּנָה, foi transcrito “Rav Chuna”.
Com esta halachá, abre-se o Perek Tet-Vav de Massechet Shabbat, Ve'elu Kesharim (וְאֵלּוּ קְשָׁרִים).