Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Vav (Ve'elu Kesharim)
וּמַאי נִיהוּ — קוֹשֶׁרֶת מִפְתְּחֵי חֲלוּקָהּ

Conclusão sobre os nós permitidos de antemão; contradição entre baraitot sobre as tiras de sapato e sandália; a sandália rompida e a disputa sobre impureza, Shabat e chalitzá

Shabbat 112a · continuação direta de 111b · Perek Tet-Vav (Ve'elu Kesharim)

Shabbat 112a continua diretamente de 111b, retomando a Guemará exatamente no meio da pergunta “e quais são eles”, com a qual a Guemará havia começado a reformular a cláusula inicial da segunda Mishná do capítulo Ve'elu Kesharim. A resposta completa esclarece a estrutura da Mishná: o nó que se ata na argola de metal fixada no nariz do camelo, e o nó que se ata no anel fixado à proa do navio — isto é, o nó da correia temporária de condução, e não o nó permanente da própria argola — não geram responsabilidade de trazer uma oferenda pelo pecado, mas ainda assim são proibidos por decreto rabínico; e há, distintos destes, nós que são permitidos mesmo de antemão, e quais são eles: o nó com que a mulher ata a abertura de seu vestido. A Guemará então explica, item por item, por que cada permissão da Mishná, embora pareça óbvia, precisou ser ensinada: quanto à abertura do vestido, porque o caso relevante é o de um vestido com duas aberturas (duas laçadas), onde se poderia pensar que uma delas seria deixada permanentemente atada, usando-se apenas a outra para vestir e despir — o que tornaria ambas proibidas, já que não se sabe qual é a anulada; a Mishná ensina que isso não ocorre. Quanto aos fios da rede de cabelo, porque o caso relevante é o de uma touca atada frouxamente, onde se poderia pensar que a mulher simplesmente a puxa da cabeça sem desatá-la, tornando o nó permanente; a Mishná ensina que a mulher é cuidadosa com seu cabelo e sempre a desata, para não arrancar os fios ao puxá-la com força — e o mesmo se aplicaria, por raciocínio semelhante, ao cinto largo (paskia), quanto ao qual se poderia pensar que ela o passa pela perna sem desatá-lo, mas na verdade não o faz, por pudor. Uma nova questão então se abre a respeito das tiras do sapato e da sandália, mencionadas na mesma Mishná: foi transmitida uma contradição entre três baraitot sobre a lei de quem desata essas tiras no Shabat — uma ensina que é responsável a trazer uma oferenda pelo pecado, outra que é isento por lei da Torá mas proibido por decreto rabínico, e uma terceira que é permitido mesmo de antemão — havendo contradição tanto entre as baraitot sobre o sapato quanto entre as que tratam da sandália. A Guemará resolve ambas as contradições distinguindo três tipos de nó em cada categoria: para o sapato, o nó fixo feito pelos sapateiros ao introduzir a tira (responsabilidade plena), o nó mais frouxo que os próprios sábios costumam atar (isento mas proibido), e o nó apertado dos habitantes de Mechoza, meticulosos com seu vestuário (permitido de antemão); para a sandália, o nó fixo que os sapateiros atam nas sandálias vendidas aos mercadores árabes (responsabilidade plena), o laço simples que as pessoas comuns atam por si mesmas (isento mas proibido), e o caso da sandália compartilhada por duas pessoas que se revezam em usá-la — like Rav Yehuda, irmão de Rav Sala Chassida, que tinha um par de sandálias usado ora por ele, ora por seu filho pequeno, e por isso desatava e atava as tiras todos os dias mesmo em dia de semana, tornando o nó permitido mesmo de antemão no Shabat, conforme esclarecido por Abaie depois de uma primeira resposta equivocada. Seguem-se dois episódios narrativos sobre a tira de sandália que se rompe no Shabat: Rabi Yirmeya, caminhando atrás de Rabi Abahu numa carmelit quando a tira de sua sandália se rompeu, foi instruído a amarrar um junco úmido (apto para alimento de animal, e portanto apto para ser manuseado) sobre o pé para prender a sandália; já Abaie, de pé diante de Rav Yosef quando sua própria tira se rompeu, foi instruído a simplesmente deixar a sandália cair, sem tocá-la — a diferença sendo que, na carmelit (um espaço aberto e não guardado), a sandália precisava de proteção imediata, ao passo que no pátio (um espaço guardado) não havia essa necessidade. Abaie então questiona: mas a sandália ainda é um utensílio, pois se ele quisesse poderia trocá-la do pé direito para o esquerdo e usá-la assim — ao que Rav Yosef responde que, pelo fato de Rabi Yochanan resolver a questão seguinte segundo a opinião de Rabi Yehuda, conclui-se que a lei prática segue Rabi Yehuda, que trata a sandália rompida na tira externa como não sendo mais um utensílio. A Guemará então cita a baraita em questão: uma sandália impura cujas duas orelhas, ou duas tiras (teresiyot), se romperam, ou cuja sola inteira foi removida, torna-se pura, pois deixa de ser utensílio; mas se apenas uma orelha, ou uma tira, ou a maior parte da sola se rompeu, permanece impura. Rabi Yehuda distingue: se a tira interna se rompeu, permanece impura (pois a externa ainda serve); se a externa se rompeu, torna-se pura. E disseram Ulá (ou, segundo outra versão, Rabá bar bar Chaná) em nome de Rabi Yochanan que, assim como há essa disputa quanto à impureza, há a mesma disputa quanto ao manuseio no Shabat — mas não quanto à chalitzá, o rito de descalçar o cunhado, em que não há disputa. A Guemará então examina segundo qual dos dois lados dessa disputa — os rabinos ou Rabi Yehuda — deve ser entendido o dito de Rabi Yochanan, testando cada hipótese contra a mishná conhecida de que, se a cunhada descalçou a sandália esquerda calçada no pé direito, sua chalitzá ainda assim é válida. Se o dito de Rabi Yochanan seguisse os rabinos (que sempre consideram a sandália rompida um utensílio), seria estranho que ele excetuasse a chalitzá, justamente onde a mishná mostra que mesmo uma sandália trocada de pé é válida; e se seguisse Rabi Yehuda (que despoja a sandália de tira externa rompida de sua condição de utensílio), seria estranho que ele reconhecesse validade para a chalitzá exatamente nesse caso. A resolução proposta é que se trata de Rabi Yehuda, e que sua ressalva sobre a chalitzá deve ser lida como um ensinamento adicional e não como uma exceção — mas a Guemará então objeta que a mishná da chalitzá com o pé trocado pressupõe que a sandália ainda serve normalmente como utensílio, ao passo que aqui, segundo Rabi Yehuda, ela já não serve para seu uso costumeiro. O daf termina interrompido exatamente no meio dessa réplica final, com a palavra “onde” (הֵיכָא), sem que a resposta seja dada; a continuação é o início de Shabat 112b.

Guemará: conclusão sobre os nós permitidos de antemão — abertura do vestido e fios da rede de cabelo · וְיֵשׁ שֶׁמּוּתָּרִין לְכַתְּחִילָּה

551Resposta completa: o nó da argola do nariz e do anel do navio não gera responsabilidade mas é proibido; os nós permitidos de antemão são outros — o da abertura do vestido
A guemará
קִיטְרָא דְּקָטְרִי בִּזְמָמָא וְקִיטְרָא דְּקָטְרִי בְּאִיסְטָרִידָא, חִיּוּבָא הוּא דְּלֵיכָּא, הָא אִיסּוּרָא — אִיכָּא. וְיֵשׁ שֶׁמּוּתָּרִין לְכַתְּחִילָּה, וּמַאי נִיהוּ — קוֹשֶׁרֶת מִפְתְּחֵי חֲלוּקָהּ.

(A resposta é:) o nó que se ata na argola do nariz (do camelo), e o nó que se ata no anel (fixado à proa) do navio — responsabilidade (de oferenda) é que não há, mas proibição (rabínica) há. E há (nós) que são permitidos mesmo de antemão, e quais são eles? (O nó com que) uma mulher ata a abertura de seu vestido.

Nota

A Guemará conclui a resposta iniciada no fim de Shabat 111b. A Mishná, corretamente entendida, distingue dois grupos de nós: primeiro, os nós que se atam na correia temporária de condução — presa à argola fixa do nariz do camelo, ou ao anel fixo da proa do navio — que não geram a responsabilidade grave de trazer uma oferenda pelo pecado (pois não são permanentes como o nó da própria argola), mas ainda assim são proibidos por decreto rabínico, por serem atados com a intenção de durar algum tempo. Segundo, distinto deste primeiro grupo, há nós que são permitidos mesmo de antemão, sem qualquer restrição — e o primeiro exemplo dado é o nó com que a mulher ata a abertura de seu vestido, retomando a lista da própria Mishná.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kitra dekatri bizmama"
גמ' זממא - מנקבין לנאקה בחוטמ' ונותנין בה טבעת של רצועה וקושרין אותה ועומדת שם לעולם וכשרוצה לקושרה לבהמה קושר רצועה ארוכה באותה טבעת וקושרין בה ופעמים שמתירה: קטרא דקטרי בזממא - זהו קשר הרצועות שקושרין בטבעת: איסטרידא - גם הוא כמין טבעת שעושין מן עקל או מן רצועה בנקב שבראש הספינה ואותו קשר מתקיים וכשרוצה להעמידו קושר רצועה באותה טבעת ומעמידה בה וכשרוצה להתיר מתיר הרצועה ונוטלה: קטרא דקטרי באסטרידא - קשר רצועה הארוכה:

“Guemará: argola do nariz (zemam)” — perfura-se o nariz da camela e coloca-se nela uma argola feita de correia, e a ata-se, e ela permanece ali para sempre; e quando quer atá-la ao animal (para conduzi-lo), ata uma correia longa àquela argola, e a atam nela, e por vezes a desata. “O nó que se ata na argola do nariz” — este é o nó das correias que se ata na argola (fixa). “Isterida” — também ela é como uma argola feita de corda trançada ou de correia, num furo na proa do navio, e aquele nó permanece; e quando quer prendê-lo (o navio), ata uma correia àquela argola e o prende com ela, e quando quer desatar, desata a correia e a retira. “O nó que se ata no isterida” — o nó da correia longa (temporária).

552Por que a abertura do vestido não é óbvia: caso de um vestido com duas aberturas, onde se poderia pensar que uma delas fica permanentemente atada
A guemará
מִפְתַּח חֲלוּקָהּ. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא, דְּאִית לֵיהּ תְּרֵי דַשֵּׁי. מַהוּ דְתֵימָא: חֲדָא מִינַּיְיהוּ בַּטּוֹלֵי מְבַטֵּיל לַהּ, קָא מַשְׁמַע לַן.

“A abertura de seu vestido” — é óbvio (que é permitido)! Não é necessário (dizer isso), exceto quando (o vestido) tem duas aberturas. Poderias pensar: uma delas ela anula (deixando-a permanentemente atada e usando apenas a outra) — por isso nos ensina (que não é assim).

Nota

A Guemará questiona por que seria necessário ensinar que se pode atar a abertura do vestido, já que o nó é feito para ser desfeito diariamente e por isso obviamente não é permanente. A resposta: o caso relevante é o de um vestido com duas aberturas (duas laçadas de fecho), onde se poderia supor que a mulher deixaria uma delas permanentemente atada, usando apenas a outra para vestir e despir a peça com dificuldade — o que tornaria essa laçada um nó permanente e, pior, como não se sabe qual das duas seria a anulada, ambas ficariam sob suspeita e proibidas. A Mishná ensina que isso não ocorre, e ambas permanecem plenamente permitidas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "tarei dashei" e "batolei mevatel la"
תרתי דשי - שתי פתחים היינו אותן לשונות והוויין זו למעלה וזו למטה זו לימין וזו לשמאל ואם אינה מתרת אלא האחד יכולה לפושטה וללובשה בדוחק: מהו דתימא חדא מינייהו בטולי מבטיל לה - ותיהוי קשר של קיימא וכיון דלא ידעי הי מינייהו תרווייהו ליתסרו קא משמע לן:

“Duas aberturas” — duas fendas, isto é, aquelas tiras (linguetas), uma em cima e outra embaixo, uma à direita e outra à esquerda; e se ela desata apenas uma, ainda pode despir e vestir (o vestido) com dificuldade. “Poderias pensar que uma delas ela anula” — e (assim) se tornaria um nó permanente; e já que não se sabe qual delas (é a anulada), ambas seriam proibidas — por isso nos ensina (que não é assim).

553Por que os fios da rede de cabelo não são óbvios: caso de touca frouxa, onde a mulher poderia puxá-la sem desatar; ensina-se que ela é cuidadosa com o cabelo
A guemará
וְחוּטֵי סְבָכָה. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא, דִּרְוִיחָא לַהּ. מַהוּ דְתֵימָא: מִישְׁלָף שָׁלְפָא לַהּ, קָא מַשְׁמַע לַן דְּאִשָּׁה חָסָה עַל שְׂעָרָהּ וּמִישְׁרָא שָׁרְיָא לַהּ.

“E os fios de sua rede de cabelo” — é óbvio! Não é necessário, exceto quando (a touca) está solta em sua cabeça. Poderias pensar: ela simplesmente a puxa (sem desatar) — por isso nos ensina que a mulher é cuidadosa com seu cabelo, e por isso ela sempre a desata.

Nota

Do mesmo modo, quanto aos fios da rede (touca) de cabelo, a permissão pareceria óbvia; a Guemará esclarece que o caso relevante é o de uma touca atada frouxamente à cabeça, onde se poderia supor que a mulher simplesmente a puxa da cabeça sem desatar o nó, deixando-o permanente. A Mishná ensina que, ao contrário, a mulher é cuidadosa com seu cabelo e por isso sempre desata a touca antes de retirá-la, para não arrancar os fios de cabelo ao puxá-la com força — e, por raciocínio semelhante, aplicar-se-ia também ao cinto largo (paskia): poderia-se pensar que ela o passa pela perna sem desatá-lo, mas na verdade não o faz, por pudor.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "peshita", "derevicha la", "mishlaf shalfa la" e "chayessa al sa'ara"
פשיטא - דהא כל יומי שריא לה: דרויחא - לא דחקתו בראשה אלא קושרתו בריוח שיכולה לחולצה מראשה כשהיא קשורה: מהו דתימא מישלף שלפא לה - מראשה הכי והוה לה קשר של קיימא: חייסה על שערה - שמא תוציא בדוחק ותינתק שערה ודפסקיא נמי איכא לשנויי כה"ג מהו דתימא מחתא ליה דרך רגלה ויוצאה קמ"ל דלא עבדה הכי משום צניעותא:

“É óbvio” — pois todos os dias ela a desata. “Que está solta (nela)” — não a aperta em sua cabeça, mas a ata frouxamente, de modo que pode retirá-la da cabeça mesmo estando atada. “Poderias pensar que ela simplesmente a puxa” — de sua cabeça assim (sem desatar), e o nó se tornaria permanente. “É cuidadosa com seu cabelo” — para que, ao puxá-la com força, não se lhe arranque o cabelo; e também quanto ao cinto largo (paskia) haveria de responder de modo semelhante: poderias pensar que ela o passa por baixo, pelo caminho da perna, e sai (sem desatá-lo) — por isso nos ensina que ela não faz assim, por causa do pudor.

Guemará: contradição entre baraitot sobre desatar as tiras do sapato e da sandália · קַשְׁיָא מִנְעָל אַמִּנְעָל

554Nova questão: três baraitot contraditórias sobre quem desata as tiras do sapato ou da sandália — responsável, isento mas proibido, ou permitido de antemão
A guemará
וּרְצוּעוֹת מִנְעָל וְסַנְדָּל. אִיתְּמַר: הִתִּיר רְצוּעוֹת מִנְעָל וְסַנְדָּל, תָּנֵי חֲדָא: חַיָּיב חַטָּאת, וְתַנְיָא אִידַּךְ: פָּטוּר אֲבָל אָסוּר, וְתַנְיָא אִידַּךְ: מוּתָּר לְכַתְּחִילָּה. קַשְׁיָא מִנְעָל אַמִּנְעָל, קַשְׁיָא סַנְדָּל אַסַּנְדָּל.

“E as tiras do sapato e da sandália” — foi dito: (sobre) quem desata as tiras do sapato ou da sandália, ensina uma (baraita): é responsável (a trazer) uma oferenda pelo pecado; e ensina outra: é isento (por lei da Torá), mas proibido (por decreto rabínico); e ensina outra: é permitido mesmo de antemão. Há dificuldade entre (a baraita sobre) sapato e (outra sobre) sapato; há dificuldade entre (a baraita sobre) sandália e (outra sobre) sandália.

Nota

A Guemará passa ao próximo item da Mishná — as tiras do sapato e da sandália — e traz uma tradição transmitida separadamente sobre a lei de quem desata essas tiras no Shabat. Surpreendentemente, há três baraitot que parecem se contradizer: uma ensina responsabilidade plena (oferenda pelo pecado), como se o nó fosse permanente; outra ensina isenção pela Torá mas proibição rabínica, como se fosse um nó intermediário; e uma terceira ensina permissão total mesmo de antemão, como se não houvesse nó algum digno de nota. Como as três baraitot tratam do mesmo objeto — as tiras de sapato, de um lado, e de sandália, de outro —, cada conjunto apresenta uma contradição interna que precisa ser resolvida.

555Resolução da contradição sobre o sapato: três nós distintos — dos sapateiros, dos sábios, e dos habitantes de Mechoza
A guemará
מִנְעָל אַמִּנְעָל לָא קַשְׁיָא: הָא דְּקָתָנֵי חַיָּיב חַטָּאת — בִּדְאוּשְׁכָּפֵי. פָּטוּר אֲבָל אָסוּר — בְּדַרְבָּנַן. מוּתָּר לְכַתְּחִלָּה — בְּדִבְנֵי מָחוֹזָא.

(A dificuldade entre a baraita sobre) sapato e (outra sobre) sapato não é (verdadeira) dificuldade: aquela que ensina “é responsável a trazer uma oferenda pelo pecado” — refere-se (ao nó feito) pelos sapateiros. “É isento, mas proibido” — refere-se (ao nó feito) pelos sábios. “É permitido mesmo de antemão” — refere-se (ao nó feito) pelos habitantes de Mechoza.

Nota

A Guemará resolve a contradição entre as baraitot sobre o sapato distinguindo três tipos de nó, conforme quem o ata: o nó fixo que o próprio sapateiro faz ao introduzir a tira dentro do sapato — permanente, e portanto sujeito a responsabilidade plena; o nó mais frouxo que os sábios (rabinos) costumam atar ao redor do pé, que embora não seja permanente (podendo ser calçado e descalçado sem desatar), ainda assim é proibido por decreto rabínico, pois em certas ocasiões — como em tempo de lama — é apertado com força; e o nó apertado dos habitantes da cidade de Mechoza, meticulosos com seu vestuário, que atam com força e desatam toda noite — sendo, portanto, permitido mesmo de antemão, já que a intenção declarada é sempre desatá-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bidushkafei", "bederabanan" e "bidivnei Machoza"
בדאושכפי - בקשר שהאושכף עושה כשתוחב הרצועה במנעל קושר קשר מתוכו שלא תוכל לצאת והוא קיים לעולם: בדרבנן - כשקושרים סביב רגלים אין קושרין בדוחק שפעמים שחולצו כשהוא קשור ונועלו כשהוא קשור ומיהו קשר של קיימא לא הוי שבשעת הטיט מתירין אותו וקושרין אותו בדוחק שלא ידבק בטיט וישמט מרגליו: בדבני מחוזא - שהם רחבי לבב ומקפידים על לבושיהן ונעליהן להיות מכוונין וקושרין אותו בדוחק וצריך להתירו ערבית:

“(Refere-se ao nó feito) pelos sapateiros” — o nó que o sapateiro faz quando introduz a tira no sapato: ata um nó por dentro dela, para que não possa sair, e ele permanece para sempre. “(Refere-se ao nó feito) pelos sábios” — quando atam (a tira) ao redor dos pés, não a atam com força, pois às vezes a descalçam estando atada e a calçam estando atada; mas ainda assim não é um nó permanente, pois em tempo de lama a desatam e a atam com força, para que não se prenda na lama e escape do pé. “(Refere-se ao nó feito) pelos habitantes de Mechoza” — que são de coração generoso e cuidam de suas roupas e sapatos para estarem bem ajustados, e atam com força, e é preciso desatá-lo à noite.

556Resolução da contradição sobre a sandália: nó dos árabes, laço simples, e a sandália compartilhada — história de Rav Yehuda perante Abaie
A guemará
סַנְדָּל אַסַּנְדָּל לָא קַשְׁיָא: הָא דְּקָתָנֵי חַיָּיב חַטָּאת — בִּדְטַיָּיעֵי דְּקָטְרִי אוּשְׁכָּפֵי. פָּטוּר אֲבָל אָסוּר — בִּדְחוּמַרְתָּא דְּקָטְרִי אִינְהוּ. מוּתָּר לְכַתְּחִילָּה — בְּסַנְדָּל דְּנָפְקִי בֵּיהּ בֵּי תְרֵי, כִּדְרַב יְהוּדָה. דְּרַב יְהוּדָה אֲחוּהּ דְּרַב סַלָּא חֲסִידָא הֲוָה לֵיהּ הָהוּא זוּגָא דְּסַנְדָּלֵי, זִמְנִין דְּנָפֵיק בֵּיהּ אִיהוּ, זִימְנִין נָפֵיק בֵּיהּ יָנוֹקֵיהּ. אֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּאַבָּיֵי, אֲמַר לֵיהּ: כְּהַאי גַּוְנָא מַאי? אֲמַר לֵיהּ: חַיָּיב חַטָּאת.

(A dificuldade entre a baraita sobre) sandália e (outra sobre) sandália não é (verdadeira) dificuldade: aquela que ensina “é responsável a trazer uma oferenda pelo pecado” — refere-se (às sandálias) dos árabes, nas quais os sapateiros atam (o nó permanente). “É isento, mas proibido” — refere-se ao laço simples que eles próprios (os donos) atam. “É permitido mesmo de antemão” — refere-se à sandália que dois (usuários) usam alternadamente para sair, como (o caso) de Rav Yehuda. Pois Rav Yehuda, irmão de Rav Sala Chassida, tinha aquele par de sandálias: às vezes saía com elas ele mesmo, às vezes saía com elas seu filho pequeno. Veio perante Abaie, e disse-lhe: em um caso como este, qual é (a lei)? Disse-lhe: é responsável a trazer uma oferenda pelo pecado.

Nota

De modo semelhante, a Guemará resolve a contradição entre as baraitot sobre a sandália, distinguindo também aqui três tipos de nó: o nó fixo que os sapateiros atam nas sandálias vendidas aos mercadores árabes — sujeito a responsabilidade plena; o laço simples (chumarta) que as pessoas comuns atam por si mesmas, sem a intervenção de um artesão — isento mas proibido; e o caso especial de uma sandália compartilhada por duas pessoas que se revezam em usá-la, exemplificado pela história de Rav Yehuda, irmão de Rav Sala Chassida, que possuía um único par de sandálias usado ora por ele mesmo, ora por seu filho pequeno — cada um precisando reatá-la conforme o tamanho do próprio pé. Rav Yehuda trouxe o caso perante Abaie, perguntando qual seria a lei; a primeira resposta de Abaie, porém, foi que se tratava de responsabilidade plena — resposta que seria corrigida no beat seguinte.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bidtaya'ei dekatri ushkafei", "bidechumarta dekatri inhu", "denafki bei terei" e "keha'i gavna"
בדטייעי דקטרי אושכפי - בסנדלים של ישמעאלים סוחרים שהאושכפים קושרים בהן הרצועות בקשר קבוע: בדחומרתא דקטרי אינהו - אלו סנדלים של שאר אנשים שאין רצועות קבועות בהן ע"י אומן אלא הם עצמן קושרין אותם בחומרתא בעלמא וקושרין ומתירין ופעמים שמתקיים שבת או חדש: דנפקי בי תרי - וצריך כל אחד ואחד לקשור לפי רגלו הלכך בכל יום קושרו ומתירו: כה"ג - שאני מתירו עכשיו ונועל בני ושבת היתה:

“(Refere-se) aos árabes, nos quais os sapateiros atam” — nas sandálias dos mercadores ismaelitas, nas quais os sapateiros atam as tiras com um nó fixo. “(Refere-se) ao laço simples que eles próprios atam” — estas são as sandálias das demais pessoas, cujas tiras não são fixadas por um artesão, mas eles próprios as atam com um simples laço, e atam e desatam; e às vezes (o nó) permanece uma semana ou um mês. “Que dois (usuários) saem com ela” — e cada um precisa atá-la conforme seu próprio pé; portanto, todo dia a ata e a desata. “Um caso como este” — que agora eu a desato e meu filho a calça, e era Shabat.

557Rav Yehuda contesta a resposta; Abaie explica que o caso vale também em dia de semana e conclui: é permitido mesmo de antemão
Rav Yehuda; Abaie
אֲמַר לֵיהּ: הַשְׁתָּא פָּטוּר אֲבָל אָסוּר קָא קַשְׁיָא לִי, ״חַיָּיב חַטָּאת״ קָאָמְרַתְּ לִי?! מַאי טַעְמָא? אֲמַר לֵיהּ: מִשּׁוּם דִּבְחוֹל נָמֵי זִימְנִין נָפֵיקְנָא בֵּיהּ אֲנָא, זִימְנִין נָפֵיק בֵּיהּ יָנוֹקָא. אֲמַר לֵיהּ: אִי הָכִי, מוּתָּר לְכַתְּחִילָּה.

Disse-lhe (Rav Yehuda a Abaie): agora, (mesmo se dissesses) isento, mas proibido, já seria difícil para mim — e me dizes “é responsável a trazer uma oferenda pelo pecado”?! Qual é o motivo? Disse-lhe (Abaie): porque também em dia de semana, às vezes saio com ela eu, às vezes sai com ela o menino. Disse-lhe: se assim é, é permitido mesmo de antemão.

Nota

Rav Yehuda protesta contra a primeira resposta de Abaie: se já a resposta mais branda — isento mas proibido — lhe pareceria difícil de aceitar, como poderia Abaie dizer que há responsabilidade plena? Abaie então pergunta qual é o motivo da objeção, e Rav Yehuda explica o ponto decisivo que faltava mencionar: também em dias de semana comuns — não apenas no Shabat — ele alterna o uso da sandália com seu filho pequeno, reatando-a a cada troca. Esse detalhe muda tudo: como o nó é desfeito e refeito rotineiramente mesmo fora do Shabat, ele nunca poderia ser considerado permanente. Abaie reconhece o argumento e revisa sua opinião: se assim é, o nó é permitido mesmo de antemão no Shabat, confirmando a terceira baraita.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hashta patur aval assur have kashya li", "mai ta'ama", "mishum dechol nami" e "i hachi mutar lechatchila"
השתא פטור אבל אסור הוה קשיא לי - אמאי אסור: מ"ט - קשיא לך: א"ל משום דבחול נמי - אני מתירו בכל יום וקושרו התינוק לפי רגלו: אי הכי מותר לכתחילה - ומעיקרא סבר דלא רגיל למעבד הכי וקטרא דאושכפי הוה שרגיל להיות קבוע:

“Agora, (mesmo) isento mas proibido já seria difícil para mim” — (Rav Yehuda quer dizer:) por que seria proibido? “Qual é o motivo” — que te é difícil? “Disse-lhe: porque também em dia de semana” — eu o desato todo dia, e a criança o ata conforme seu pé. “Se assim é, é permitido mesmo de antemão” — pois antes (Abaie) pensava que não era costume fazer assim, e (que) era o nó dos sapateiros, que costuma ser fixo.

558Duas histórias: a tira de sandália rompida no Shabat — Rabi Yirmeya perante Rabi Abahu, e Abaie perante Rav Yosef; a sandália ainda é um utensílio?
Rabi Yirmeya; Rabi Abahu; Abaie; Rav Yosef
רַבִּי יִרְמְיָה הֲוָה קָאָזֵיל בָּתְרֵיהּ דְּרַבִּי אֲבָהוּ בְּכַרְמְלִית. אִיפְּסִיק רְצוּעָה דְּסַנְדָּלֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: מַאי אֶעֱבֵיד לֵיהּ? אֲמַר לֵיהּ: שְׁקוֹל גֶּמִי לַח דַּחֲזֵי לְמַאֲכַל בְּהֵמָה, וּכְרוֹךְ עִילָּוֵיהּ. אַבָּיֵי הֲוָה קָאֵי קַמֵּיהּ דְּרַב יוֹסֵף. אִיפְּסִיק לֵיהּ רְצוּעָה. אֲמַר לֵיהּ: מַאי אֶיעֱבֵיד לֵיהּ? אֲמַר לֵיהּ: שִׁבְקֵיהּ. מַאי שְׁנָא מִדְּרַבִּי יִרְמְיָה? הָתָם לָא מִינְּטַר, הָכָא מִינְּטַר. וְהָא מָנָא הוּא, דְּאִי בָּעֵינָא הָפֵיכְנָא לֵיהּ מִיָּמִין לִשְׂמֹאל? אֲמַר לֵיהּ: מִדְּקָמְתָרֵץ רַבִּי יוֹחָנָן אַלִּיבָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה, שְׁמַע מִינַּהּ הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rabi Yirmeya ia atrás de Rabi Abahu numa carmelit. Rompeu-se a tira de sua sandália. Disse-lhe: o que devo fazer a ela? Disse-lhe (Rabi Abahu): toma um junco úmido, próprio para alimento de animal, e enrola-o sobre ela. Abaie estava de pé diante de Rav Yosef. Rompeu-se-lhe a tira. Disse-lhe: o que devo fazer a ela? Disse-lhe (Rav Yosef): deixa-a. Em que é diferente do caso de Rabi Yirmeya? Ali ela não estava guardada; aqui ela está guardada. Mas não é ela um utensílio, de modo que, se eu quiser, posso trocá-la do (pé) direito para o esquerdo? Disse-lhe: pelo fato de que Rabi Yochanan resolve (a questão a seguir) segundo a opinião de Rabi Yehuda, aprende-se disso que a lei é como Rabi Yehuda.

Nota

A Guemará traz dois episódios paralelos sobre o que fazer quando a tira de uma sandália se rompe no Shabat. No primeiro, Rabi Yirmeya, caminhando atrás de seu mestre Rabi Abahu numa carmelit (um espaço público de estatuto intermediário), teve a tira de sua sandália rompida, e foi instruído a amarrar sobre o pé um junco úmido — apto para alimento de animal e, por isso, apto para ser manuseado no Shabat — a fim de prender a sandália e continuar a andar. No segundo, Abaie, de pé diante de seu mestre Rav Yosef num pátio, teve o mesmo infortúnio, mas foi instruído simplesmente a deixar a sandália cair no chão, sem tocá-la. Abaie questiona a diferença: no caso de Rabi Yirmeya, a sandália estava num lugar não guardado (um espaço aberto), de modo que precisava de proteção imediata contra perda ou dano; no caso de Abaie, o pátio já era um lugar guardado, sem essa necessidade. Abaie ainda objeta que a sandália rompida continua sendo um utensílio válido, pois poderia trocá-la de pé (do direito para o esquerdo) e usá-la assim — mas Rav Yosef responde que, pelo modo como Rabi Yochanan resolverá a questão adiante (segundo a opinião de Rabi Yehuda), conclui-se que a lei segue Rabi Yehuda, que não considera mais utensílio a sandália cuja tira externa se rompeu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ifsik retzua desandalei", "shekol gemi lach", "vichroch", "abaye hava ka'i kamei derav Yossef", "shivkei", "uma shena miderabi Yirmeya", "hatam", "veha mana hu" e "de'i ba'ina hafichna leih miyamin lismol"
איפסיק רצועה דסנדליה - ונפל הסנדל מרגלו שע"י הרצועה הוא עומד שהסנדל פתוח מעל גביו וצדדיו של עץ או של עור שלוק וקשה והרצועות נקשרות על גב הרגל ומעמידות אותו: שקול גמי לח דחזי למאכל בהמה - דראוי לטלטול: וכרוך - במקום הרצועה ונועלו עד שתכנס: אביי הוה קאי קמיה דרב יוסף - בחצר: שבקיה - במקום שנפל מרגלך ולא תטלנו בידך להצניעו: ומ"ש מדר' ירמיה - דשרא ליה ר' אבהו לנועלו ע"י גמי: התם - בכרמלית כגון בקעה לא הוה מינטר: והא מנא הוא - ואמאי אסור לטלטלו והא עדיין תורת מנעל עליו: דאי בעינא הפיכנא מימין לשמאל - שהסנדל יש לו שתי תרסיות והן של עור מקום קביעות הרצועות אחת מבחוץ ואחת מבפנים לבין שני רגלים כעין שיש למנעלים שלנו וכשנפסק הפנימי ראוי הוא לתקנו ואע"ג שתיקונו ניכר וגנאי הוא מיהו לצד פנים לא מיתחזי וכשנפסקה חיצונה אינו הגון שוב לתקנו והך דאביי חיצונה איפסיק משום הכי אסריה רב יוסף אפילו לטלטלו וא"ל אביי והא אכתי מנא הוא דהפיכנא ליה לרגל האחרת ונמצאת החיצונה פנימית: א"ל מדקא מתרץ רבי יוחנן - למילתיה דר"י לקמן ומפרש לה: ש"מ הלכה כר"י - דאמר משנפסקה החיצונה לאו מנא הוא:

“Rompeu-se a tira de sua sandália” — e a sandália caiu de seu pé, pois é pela tira que ela se mantém, já que a sandália é aberta por cima e nas laterais, feita de madeira ou de couro curtido e rígido, e as tiras se atam sobre o dorso do pé e a sustentam. “Toma um junco úmido, próprio para alimento de animal” — pois (sendo apto para esse uso) é apto para ser manuseado. “E enrola(-o)” — no lugar da tira, e calça-a até que (o pé) entre. “Abaie estava de pé diante de Rav Yosef” — num pátio. “Deixa-a” — no lugar onde caiu de teu pé, e não a tomes com a mão para guardá-la. “E em que é diferente do caso de Rabi Yirmeya” — a quem Rabi Abahu permitiu calçá-la por meio de um junco? “Ali” — numa carmelit, como um campo aberto, não estava guardada. “Mas não é ela um utensílio” — e por que seria proibido movê-la, se ainda tem sobre si a condição de calçado? “Pois se eu quiser, posso trocá-la do direito para o esquerdo” — pois a sandália tem duas tiras (guerões), de couro, o lugar onde se fixam as correias, uma por fora e outra por dentro, entre os dois pés, semelhante ao que têm nossos sapatos; e quando se rompe a (tira) interna, é apta para ser consertada, e ainda que o conserto seja visível e feio, ao menos não aparece do lado de dentro; mas quando se rompe a (tira) externa, não é conveniente consertá-la de novo. E no caso de Abaie, foi a (tira) externa que se rompeu; por isso Rav Yosef a proibiu até mesmo para movê-la. E Abaie lhe disse: mas ainda é um utensílio, pois posso trocá-la para o outro pé, e a (tira) externa se tornaria interna. “Disse-lhe: pelo fato de que Rabi Yochanan resolve” — o dito de Rabi Yehuda, adiante, e o explica. “Aprende-se disso que a lei é como Rabi Yehuda” — que disse que, quando se rompe a (tira) externa, não é (mais considerada) utensílio.

Guemará: a baraita sobre a sandália rompida — impureza, Shabat e chalitzá; a discussão interrompida · סַנְדָּל שֶׁנִּפְסְקוּ שְׁתֵּי אׇזְנָיו

559A baraita citada: sandália cujas orelhas ou tiras se romperam, quanto à impureza; Rabi Yehuda distingue tira interna de externa; Ulá (ou Rabá bar bar Chaná) em nome de Rabi Yochanan estende a disputa ao Shabat, mas não à chalitzá
A guemará (baraita citada); Rabi Yehuda; Ulá; Rabá bar bar Chaná; Rabi Yochanan
מַאי הִיא? דְּתַנְיָא: סַנְדָּל שֶׁנִּפְסְקוּ שְׁתֵּי אׇזְנָיו, אוֹ שְׁתֵּי תְרֵסִיּוֹתָיו, אוֹ שֶׁנִּיטַּל כׇּל הַכַּף שֶׁלּוֹ — טָהוֹר. אַחַת מֵאׇזְנָיו, אוֹ אַחַת מִתְּרֵסִיּוֹתָיו, אוֹ שֶׁנִּיטַּל רוֹב הַכַּף שֶׁלּוֹ — טָמֵא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: נִפְסְקָה פְּנִימִית — טָמֵא. הַחִיצוֹנָה — טָהוֹר. וְאָמַר עוּלָּא, וְאִיתֵּימָא רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כְּמַחֲלוֹקֶת לְעִנְיַן טוּמְאָה כָּךְ מַחֲלוֹקֶת לְעִנְיַן שַׁבָּת, אֲבָל לֹא לְעִנְיַן חֲלִיצָה.

Qual é ela (a opinião de Rabi Yehuda)? Como se ensina: uma sandália cujas duas orelhas se romperam, ou cujas duas tiras se romperam, ou da qual se removeu toda a sola — está pura. (Se se rompeu) uma de suas orelhas, ou uma de suas tiras, ou se removeu a maior parte de sua sola — está impura. Rabi Yehuda diz: se se rompeu a (tira) interna — está impura; a externa — está pura. E disse Ulá, e alguns dizem Rabá bar bar Chaná, que disse Rabi Yochanan: assim como (há) disputa quanto à impureza, assim (há) disputa quanto ao Shabat, mas não quanto à chalitzá.

Nota

A Guemará cita a baraita completa a partir da qual se conhece a opinião de Rabi Yehuda mencionada no beat anterior. Uma sandália que era ritualmente impura (por ter contato prévio com uma fonte de impureza) deixa de ser considerada um utensílio, e portanto se torna pura, quando perde completamente sua função — isto é, quando ambas as orelhas (as alças que a seguram ao pé) se rompem, ou ambas as tiras (teresiyot, o local de fixação das correias) se rompem, ou toda a sola é removida. Se apenas um desses elementos se rompe (mantendo a sandália parcialmente funcional), ela permanece impura. Rabi Yehuda refina esse critério distinguindo a tira interna da externa: se a interna se rompe, a sandália permanece impura (pois a externa sozinha ainda basta para segurá-la); mas se a externa se rompe, torna-se pura, pois a interna sozinha não é suficiente. Ulá (segundo uma versão) ou Rabá bar bar Chaná (segundo outra) trazem, em nome de Rabi Yochanan, uma extensão importante: a mesma disputa entre os sábios e Rabi Yehuda sobre a impureza aplica-se igualmente à questão de mover a sandália rompida no Shabat — mas não à chalitzá, o rito bíblico de descalçar o cunhado para dissolver a obrigação do levirato, quanto ao qual não há disputa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "oznav", "tersiyotav", "hakaf", "tahor", "tamei" e "ve'amar Ula"
אזניו - שכלפי גב הרגל שאוחזו בהן כשנועלו: תרסיותיו - מקום קביעות הרצועות: הכף - שול"א בלע"ז שתחת פרסות הרגל: טהור - דתו לא מתקני ליה וא"נ מתקני ליה חדוש הוא והשתא מיהא בטיל ליה: טמא - לא פרחה טומאה מעליו דאכתי מנא הוא ואפילו נפסקה החיצונה דאי בעי מפיך ליה מימין לשמאל ונמצאת חיצונה נעשית פנימית: ואמר עולא גרסי':

“Suas orelhas” — as que ficam voltadas para o dorso do pé, pelas quais se segura (a sandália) ao calçá-la. “Suas tiras” — o lugar onde se fixam as correias. “A sola” — “sola” em língua estrangeira, a que fica sob a planta do pé. “Está pura” — pois já não a consertam mais; e mesmo que a consertem, seria (como) uma renovação, e por ora, de todo modo, ela está anulada (como utensílio). “Está impura” — pois a impureza não se afastou dela, porque ainda é um utensílio; e mesmo quando se rompe a (tira) externa, pois se quiser pode trocá-la do direito para o esquerdo, e a (tira) externa se torna interna. “E disse Ulá” — assim é a versão (do texto).

560A Guemará pergunta: segundo quem é o dito de Rabi Yochanan? Testa-se a hipótese dos rabinos e a de Rabi Yehuda, ambas contra a mishná da chalitzá com o pé trocado
A guemará
וְהָוֵינַן בַּהּ: רַבִּי יוֹחָנָן אַלִּיבָּא דְּמַאן? אִילֵימָא אַלִּיבָּא דְּרַבָּנַן: מִדִּלְעִנְיַן טוּמְאָה מָנָא הָוֵי — לְעִנְיַן שַׁבָּת נָמֵי מָנָא הָוֵי, אֲבָל לֹא לַחֲלִיצָה — דְּלָאו מָנָא הוּא, וְהָתְנַן: חָלְצָה שֶׁל שְׂמֹאל בַּיָּמִין חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה. וְאֶלָּא אַלִּיבָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה: מִדִּלְעִנְיַן טוּמְאָה לָאו מָנָא הוּא — לְעִנְיַן שַׁבָּת נָמֵי לָאו מָנָא הוּא, אֲבָל לֹא לַחֲלִיצָה דְּמָנָא הוּא.

E discutimos isto: segundo a opinião de quem é (o dito de) Rabi Yochanan? Se dissermos que é segundo a opinião dos rabinos: pelo fato de que, quanto à impureza, é (considerada) utensílio — quanto ao Shabat também é utensílio, mas não (assim) quanto à chalitzá — pois (nesse caso) não é utensílio; mas não aprendemos: se ela descalçou (a sandália) do (pé) esquerdo no (pé) direito, sua chalitzá é válida? Mas então, segundo a opinião de Rabi Yehuda: pelo fato de que, quanto à impureza, não é utensílio — quanto ao Shabat também não é utensílio, mas não (assim) quanto à chalitzá, pois (ali) é utensílio.

Nota

A Guemará examina qual dos dois lados da disputa — os sábios (rabanan) ou Rabi Yehuda — fundamenta o dito de Rabi Yochanan, testando cada possibilidade contra uma mishná conhecida sobre a chalitzá. Primeira hipótese: se Rabi Yochanan seguisse os rabinos (que sempre tratam a sandália rompida como utensílio pleno para fins de impureza), o paralelo seria que ela também seria utensílio para o Shabat, mas Rabi Yochanan excetua a chalitzá, como se ali ela não fosse utensílio — mas isso contradiz uma mishná explícita que ensina que, se a cunhada descalçou a sandália esquerda calçada por engano no pé direito, sua chalitzá ainda assim é válida, o que mostra que mesmo uma sandália "errada" continua servindo para o rito. Segunda hipótese: se Rabi Yochanan seguisse Rabi Yehuda (que despoja a sandália de tira externa rompida da condição de utensílio), o paralelo seria que ela também não seria utensílio para o Shabat, mas Rabi Yochanan excetua a chalitzá, como se ali ela fosse utensílio — o que parece, à primeira vista, igualmente estranho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "aliba deman", "ilema lerabanan" e "ela aliba deRabi Yehuda"
אליבא דמאן - מהני תנאי א"ר יוחנן דמאי דסבירא ליה לענין טומאה ס"ל לענין טלטול שבת אבל לענין חליצה מודה לבר פלוגתיה: אילימא לרבנן - אשמעינן רבי יוחנן דכי היכי דלענין טומאה משוי ליה מנא לענין שבת נמי מנא הוא אבל לחליצה לאו מנא הוא ואינו כשר לחליצה והא אנן תנן חלצה בסנדל של שמאל בימין שהחליצה ברגל ימיני ואם נעל בו סנדל שמאל וחלצה כשר ואי נפסקה חיצונה דסנדל של שמאל אמאי לא הוה כשר לחלוץ הואיל ובעלמא סנדל הוא משום דחזי להפוכי ה"נ חזי להפוכי: אלא אליבא דר"י - אמרה ר' יוחנן למילתיה ולאשמעינן דבחליצה מודה ר"י דמנא הוא כגון שנפסקה חיצונה של שמאל הופכו לימין וחולץ וכדתנן של שמאל בימין חליצתה כשירה:

“Segundo a opinião de quem” — entre estes tannaim (disse) Rabi Yochanan? Aquilo que ele sustenta quanto à impureza, também sustenta quanto ao manuseio no Shabat; mas quanto à chalitzá, concorda com seu oponente na disputa. “Se dissermos que é segundo os rabinos” — Rabi Yochanan nos ensina que, assim como quanto à impureza a consideram utensílio, também quanto ao Shabat é utensílio, mas quanto à chalitzá não é utensílio e não é válida para a chalitzá. Mas não aprendemos: se ela descalçou com a sandália esquerda no (pé) direito — pois a chalitzá se faz no pé direito, e se calçou nele a sandália esquerda e descalçou, é válida? E se se rompeu a (tira) externa da sandália esquerda, por que não seria válida para descalçar, já que de resto é uma sandália (comum)? Porque é apta para ser invertida, também aqui é apta para ser invertida. “Mas sim, segundo Rabi Yehuda” — disse Rabi Yochanan seu dito, para nos ensinar que, quanto à chalitzá, Rabi Yehuda concorda que é utensílio; por exemplo, se se rompeu a (tira) externa da (sandália) esquerda, inverte-a para o direito e descalça (com ela), conforme se ensina: (se descalçou) a esquerda no direito, sua chalitzá é válida.

561Réplica final: onde a sandália ainda serve para seu próprio pé é que a chalitzá com o pé trocado vale — mas aqui, segundo Rabi Yehuda, ela já não serve; texto interrompido
A guemará
אֵימַר דְּאָמְרִינַן חָלְצָה שֶׁל שְׂמֹאל בַּיָּמִין חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה — הִיכָא דִּלְמִילְּתֵיהּ מָנָא הוּא, הָכָא לְמִילְּתֵיהּ לָאו מָנָא הוּא, דְּהָא אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: נִפְסְקָה הַחִיצוֹנָה טָהוֹר — אַלְמָא לָאו מָנָא הוּא! לְעוֹלָם אַלִּיבָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה. אֵימָא: וְכֵן לַחֲלִיצָה. וְהָא קָמַשְׁמַע לַן: דְּכִי אָמְרִינַן חָלְצָה שֶׁל שְׂמֹאל בְּשֶׁל יָמִין חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה — הֵיכָא

Diz-se que dissemos “se ela descalçou (a sandália) do esquerdo no direito, sua chalitzá é válida” — (isso é) onde, para seu próprio uso, é utensílio; (mas) aqui, para seu próprio uso, não é utensílio, pois disse Rabi Yehuda: se se rompeu a (tira) externa — está pura; logo, não é utensílio! Na verdade, é segundo a opinião de Rabi Yehuda; mas dize (a emenda): e também para a chalitzá. E isto nos ensina: que quando dizemos “ela descalçou (a sandália) do esquerdo no direito, sua chalitzá é válida” — (isso é) onde...

Nota

A Guemará contesta a segunda hipótese: dizer que a mishná da chalitzá com a sandália trocada de pé prova que Rabi Yehuda considera essa sandália um utensílio só seria válido onde a sandália ainda serve normalmente, no pé para o qual foi feita, como utensílio; mas aqui, no caso da tira externa rompida, ela já não serve nem mesmo para seu próprio pé — pois o próprio Rabi Yehuda ensinou que, quando a tira externa se rompe, a sandália se torna pura, o que mostra que ele não a considera mais um utensílio de forma alguma. A resposta proposta é que, de fato, trata-se da opinião de Rabi Yehuda, mas deve-se emendar a leitura de seu dito: em vez de "mas não quanto à chalitzá", leia-se "e também quanto à chalitzá" — ou seja, Rabi Yehuda concorda que a mesma regra da chalitzá com o pé trocado se aplica igualmente a este caso. A Guemará começa então a explicar essa emenda, retomando a própria mishná da chalitzá com o pé trocado para mostrar exatamente onde essa regra vale — mas o daf termina interrompido exatamente nesse ponto, na palavra "onde" (הֵיכָא), sem que a explicação seja concluída.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "eimar de'amrinan chalitzah kesheirah", "delimilteih", "hacha lemilteih lav mana hu" e "eima vechen lachalitzah"
אימר דאמרינן חליצה כשירה - היכא דלא נפסקו תרסיותיו: דלמילתיה - ברגל העשוי לו מנא הוא: הכא למילתיה לאו מנא הוא - דהא ר"י לענין טומאה ושבת לאו מנא משוי ליה: אימא וכן לחליצה - כדמפרש ואזיל ואשמעינן דכי אמרינן חלצה כו' ואליבא דרבנן לא מצינן לאוקמיה לדרבי יוחנן ולמימר וכן לחליצה ולאשמעינן דמנא הוא דא"כ מאי אתא לאשמעי' ר' יוחנן כיון דלמילתיה מנא הוא בהדיא תנן לה מתניתין ומשום דאפכי לא מיפסל דתנן חלצה בשל שמאל בימין חליצתה כשרה והיינו דאמר לעיל דמתרץ רבי יוחנן אליביה דר' יהודה:

“Diz-se que dizemos que a chalitzá é válida” — onde não se romperam suas tiras. “Pois, para seu próprio uso” — no pé para o qual foi feita, é utensílio. “Aqui, para seu próprio uso, não é utensílio” — pois Rabi Yehuda, quanto à impureza e ao Shabat, não a considera utensílio. “Dize: e também para a chalitzá” — como se explica adiante, e nos ensina que, quando dizemos “ela descalçou...” etc., não podemos interpretar (o dito) de Rabi Yochanan segundo os rabinos e dizer “e também para a chalitzá”, ensinando que é utensílio; pois, se assim fosse, o que viria Rabi Yochanan nos ensinar, já que, para seu próprio uso, é utensílio — isso já está explícito na própria mishná, e por ser invertida não se torna inválida, como se ensina: “descalçou a esquerda no direito, sua chalitzá é válida”. E é isso que se disse acima, que Rabi Yochanan resolve (a questão) segundo a opinião de Rabi Yehuda.

O daf termina aqui, no meio da réplica final da Guemará, na palavra “onde” (הֵיכָא), enquanto explica exatamente em que caso vale a regra de que a chalitzá com a sandália trocada de pé é válida, segundo Rabi Yehuda. A continuação — o restante dessa explicação — é o ponto de partida de Shabat 112b.