Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Dalet · Halachá 2
שַׁבָּת

O hilmei e a água salgada: o sal que se dissolve e o ovo que afunda

Perek Yud-Dalet, Shemoneh Sheratzim, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Yud-Dalet de Massechet Shabbat, Shemoneh Sheratzim. A Mishná ensina que não se faz hilmei (salmoura) no Shabat, mas se faz água salgada, para molhar nela o pão e pô-la no cozido; Rabi Yossi pergunta se isso não é hilmei, seja muita ou pouca, e diz que a água salgada permitida é aquela em que se põe primeiro o azeite. A guemará distingue o hilmei, que precisa de artesão, da água salgada, que não precisa, com a medida de Rav Huna, o sal que se dissolve, e a de Rabi Abahu, o ovo que afunda. Traz as palavras de Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan sobre o yeinomelin (vinho misturado com mel e especiarias), sobre o misturar e o moer, e explica que o hilmei é diferente por ser conclusão de trabalho; e termina com o alho moído na véspera e com a disputa de Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre terminar, depois que escurece, o que se esmagou enquanto era dia. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 108b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

אֵין עוֹשִׂין הִילְמִי בַּשַּׁבָּת אֲבָל עוֹשֶׂה הוּא מֵי מֶלַח וְטוֹבֵל בָּהֶן פִּיתּוֹ וְנוֹתֵן הוּא לְתוֹךְ הַתַּבְשִׁיל. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי וַהֲלוֹא הוּא הִילְמִי בֵּין מְרוּבֶּה וּבֵין מוּעֶטֶת. וְאֵילוּ הֵן מֵי מֶלַח הַמּוֹתָּרִין נוֹתֵן שֶׁמֶן בַּתְּחִילָּה לְתוֹךְ הַמַּיִם אוֹ לְתוֹךְ הַמֶּלַח:

Mishná: Não se faz hilmei (salmoura) no Shabat; mas ele faz água salgada, e molha nela o seu pão, e a põe dentro do cozido. Disse Rabi Yossi: e não é isso hilmei, quer seja muita, quer seja pouca? E esta é a água salgada que é permitida: põe o azeite primeiro dentro da água ou dentro do sal, e só depois junta o outro.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Hilmei e água salgada: o sal que se dissolve e o ovo que afunda
Yerushalmi · Shabbat 14:2
ב׳. אֵין עוֹשִׂין הִילְמִי בַּשַּׁבָּת. מַה בֵין הִילְמִי וּמַה בֵין מֵי מֶלַח. הִילְמִי צְרִיכָה אוּמָן. מֵי מֶלַח אֵין צְרִיכָה אוּמָן. רַב חוּנָא אָמַר. כָּל שֶׁנּוֹתְנִין לְתוֹכָהּ מֶלַח וְהִיא נִשְׁרִית זוֹ הִיא מֵי מֶלַח. וְשֶׁאֵינָהּ נִשְׁרִית זוֹ הִיא הִילְמִי. אָמַר רִבִּי אַבָּהוֹ. כָּל שֶׁנּוֹתְנִים לְתוֹכָהּ בֵּיצָה וְהִיא שׁוֹקַעַת זוֹ הִיא מֵי מֶלַח. וְשֶׁאֵינָהּ שׁוֹקַעַת זוֹ הִיא הִילְמִי.

“Não se faz hilmei no Shabat.” Qual é a diferença entre hilmei e água salgada, que é permitida? O hilmei precisa de um artesão para fazê-lo; a água salgada não precisa de artesão. Rav Huna disse: toda água em que se põe sal e ele se dissolve, esta é água salgada; e aquela em que ele não se dissolve, esta é hilmei. Disse Rabi Abahu: toda água em que se põe um ovo e ele afunda, esta é água salgada; e aquela em que ele não afunda, esta é hilmei.

02O yeinomelin; misturar e moer; o alho e o que se esmagou de dia
Yerushalmi · Shabbat 14:2
עוֹשִׂין יֵינוֹמֵילִין בַּשַּׁבָּת. רִבִּי יָסָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. יַיִן וּדְבַשׁ וְפִילְפְּלִין. רִבִּי יָסָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. מוּתָּר לְעָרֵב וְאָסוּר לִשְׁחוֹק. רִבִּי יָסָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. אֶת שֶׁהוּא מִשּׁוּם תַּעֲרוֹבֶת מוּתָּר. מִשּׁוּם שְׁחִיקָה אָסוּר. וְהָכָא. לֹא מִשּׁוּם תַּעֲרוֹבֶת אֲנָן קַיָימִין. רִבִּי יְהוּדָה בֶּן טִיטֻס רִבִּי יְהוּדָה בֶּן פָּזִי שִׁמָעוֹן בַּרַ בָּא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. שַׁנְיָיא הִיא הָכָא שֶׁהִיא גְמַר מְלָאכָה.

“Faz-se yeinomelin (vinho misturado com mel e especiarias) no Shabat.” Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: é vinho, mel e pimenta. Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: é permitido misturar os ingredientes, e é proibido moer a pimenta. Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: o que é feito por causa de mistura é permitido; o que é feito por causa de moagem é proibido. E aqui, no hilmei, não é de mistura que estamos tratando? Rabi Yehudá ben Titus, Rabi Yehudá ben Pazi, Shimon bar Ba em nome de Rabi Yochanan: aqui é diferente, porque é a conclusão de um trabalho.

רִבִּי אַבָּהוֹ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. מוּתָּר לְשַׁבֵּר וְאָסוּר לְקַבֵּץ. רִבִּי אַבָּהוֹ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. שׁוּם שֶׁשְּׁחָקוֹ. אִם הָיָה מְחוּסַּר שְׁחִיקָה אָסוּר. וְאִם לְעָרֵב אֶת שׁוּמְנָן מוּתָּר.

Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: é permitido partir a pimenta, e é proibido juntar. Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: alho que alguém moeu na véspera do Shabat: se ainda lhe faltava moagem, é proibido moê-lo no Shabat; e se o mexe só para misturar a sua gordura, é permitido.

תַּמָּן תַּנִּינָן. הַשּׁוּם וְהַבּוֹסֶר וְהַמְּלִילוֹת שֶׁרִיסְּקָן מִבְּעוֹד יוֹם. שֶׁהָיָה רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר. יִגְמוֹר מִשֶּׁתֶּחְשַׁךְ. וְרַבִּי עֲקִיבָה אוֹמֵר. לֹא יִגְמוֹר. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא רִבִּי שִׁמָעוֹן בַּרַ אָבָּא בְשֵׁם רִבִּי חֲנִינָא. לֹא נֶחְלְקוּ אֶלָּא בְחוּלִין. הַכֹּהֲנִים נָהֲגוּ בִתְרוּמַה כְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל.

Lá ensinamos: “O alho, as uvas verdes e as espigas tenras que alguém esmagou enquanto ainda era dia: pois Rabi Yishmael dizia: termine o trabalho depois que escurecer; e Rabi Akiva diz: não termine.” Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Shimon bar Aba em nome de Rabi Chanina: Rabi Yishmael e Rabi Akiva não divergiram senão quanto aos chulin (alimentos comuns, não consagrados); os cohanim costumavam proceder, quanto à terumá (a porção do sacerdote), conforme Rabi Yishmael.

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Yud-Dalet de Massechet Shabbat, Shemoneh Sheratzim, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 14:2 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “não se faz salmoura no Shabat” até “dentro da água ou dentro do sal”, como antecipou a nota da halachá 14:1. A Mishná seguinte, Shabbat 14:3, que começa com “não se come hissopo grego no Shabat” (אֵין אוֹכְלִין אֵזוֹב יוֹן בְּשַׁבָּת), é a da halachá 14:3. No Bavli, a nossa Mishná começa no fim de Shabbat 108a, e a sua guemará está em 108b. Há diferenças de leitura: o Yerushalmi diz עוֹשֶׂה הוּא מֵי מֶלַח, onde a avulsa diz עוֹשֶׂה הוּא אֶת מֵי הַמֶּלַח; diz וְנוֹתֵן הוּא, onde a avulsa diz וְנוֹתֵן; e diz בֵּין מְרוּבֶּה וּבֵין מוּעֶטֶת, com o segundo adjetivo no feminino, onde a avulsa diz בֵּין מְרֻבֶּה וּבֵין מֻעָט; o sentido é o mesmo. As demais diferenças são de grafia: o Yerushalmi escreve בַּשַּׁבָּת, פִּיתּוֹ, וַהֲלוֹא, וְאֵילוּ, הַמּוֹתָּרִין e בַּתְּחִילָּה, onde a avulsa escreve בְשַׁבָּת, פִּתּוֹ, וַהֲלֹא, וְאֵלוּ, הַמֻּתָּרִין e בַּתְּחִלָּה. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro. O terceiro segmento aparece em três pares de hebraico e português dentro da mesma seção 02; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; conservamos o marcador “ב׳.”, que indica que a guemará trata da segunda Mishná do capítulo. O Sefaria marca também, no primeiro par da seção 02, o início da folha 75a da edição de Vilna, e tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses. O Sefaria escreve שִׁמָעוֹן בַּרַ בָּא e שִׁמָעוֹן בַּרַ אָבָּא com uma vocalização incomum, e conservamos o hebraico como está.

Os termos gregos. Hilmei (הִילְמִי) é, segundo Guggenheimer, o grego halmē, a salmoura; ele observa que o nome se reserva à salmoura preparada por profissional. Escrevemos “hilmei”, como nas páginas do Bavli deste site, com a glosa “salmoura”, embora a vocalização do Sefaria aqui seja hilmi. Yeinomelin (יֵינוֹמֵילִין) é o grego oinomeli, vinho com mel, como diz Guggenheimer; a própria guemará o define como vinho, mel e pimenta, e por isso a glosa diz “vinho misturado com mel e especiarias”, como na halachá 11:1 de Terumot deste site, onde a palavra está escrita “ieinomelin”. A Mishná e o Bavli escrevem אנומלין.

Referências conferidas. No Bavli, Shabbat 108b, Rav Yehudá diz em nome de Shmuel que a Mishná quer dizer que não se faz água salgada em grande quantidade, e se faz em pequena quantidade; a guemará pergunta se Rabi Yossi vem para proibir ou para permitir, e Rabba, e assim também Rabi Yochanan, dizem que vem para proibir; uma baraita diz que não se faz água salgada em grande quantidade para pôr nas conservas, e traz a palavra de Rabi Yossi: “e porque estas são muitas e aquelas são poucas, estas são proibidas e aquelas permitidas? Dirão: o trabalho grande é proibido, e o trabalho pequeno é permitido”; e a água salgada permitida é a de azeite e sal, ou de azeite e água, contanto que não ponha primeiro água e sal. Ali mesmo, Rabi Yehudá bar Chaviva ensina que não se faz água salgada forte, e Rabba e Rav Yosef bar Aba dizem que é toda aquela em que o ovo flutua; Abaye dá a medida de dois terços de sal e um terço de água. O yeinomelin está na Mishná Shabbat 20:2, “e faz-se anomelin no Shabat”, e o Yerushalmi Shabbat 20:2, segmento 4 na numeração do Sefaria, repete a primeira palavra de Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan, “vinho, mel e pimenta”; no Bavli, Shabbat 140a, uma baraita ensina que se faz anomelin no Shabat, e não se faz aluntit, e define o anomelin como vinho, mel e pimenta. Ali mesmo, em 140a, o Bavli ensina que o alho esmagado na véspera do Shabat, no dia seguinte se lhe põem favas e grãos moídos, e não se mói, mas se mistura. A Mishná que a seção 02 cita, “lá ensinamos”, é a Mishná Eduyot 2:6, uma das três coisas que disse Rabi Yishmael e com que Rabi Akiva não concordou; a avulsa escreve שֶׁרַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, onde o Yerushalmi escreve שֶׁהָיָה רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר. A Tosefta Eduyot 1:7, na numeração do Sefaria (Guggenheimer a cita como 1:9), traz a mesma disputa e acrescenta: “mas os cohanim procederam conforme Rabi Yishmael”, sem a palavra “terumá”. No Bavli, Shabbat 19a, a mesma Mishná é citada como fonte da opinião de Rabi Yishmael de que o que acontece por si mesmo é permitido. Não encontramos paralelo desta halachá na Tosefta Shabbat, nem na numeração Lieberman nem na do Sefaria.

Observações de leitura. Na Mishná, o Penei Moshe e o Korban HaEdá explicam o hilmei como água salgada em grande quantidade, que precisa de artesão para saber quanto sal pôr, e por isso parece um trabalho de cozinha; Rabi Yossi proíbe tanto a muita como a pouca, e permite só a feita com uma mudança, pondo primeiro o azeite, que, segundo o Korban HaEdá, impede o sal de se misturar bem e enfraquece a água; o Penei Moshe diz que a halachá não é como Rabi Yossi. Na seção 01, segundo o Penei Moshe, Rav Huna não discorda da razão do artesão, mas a explica: a água salgada é aquela em que o sal se dissolve logo, e o hilmei, aquela em que o sal, por ser muito, só se dissolve depois de um tempo; e a água em que o ovo não afunda é forte, por causa do muito sal, como no Bavli, onde o ovo flutua na água salgada forte. Na seção 02, segundo o Penei Moshe, Rabi Yochanan permite misturar no vinho a pimenta já moída, e proíbe moê-la; e a pergunta “e aqui, não é de mistura que estamos tratando?” vai contra a nossa Mishná, porque o hilmei é só mistura de sal com água, e mesmo assim a Mishná o proíbe; a resposta é que fazer o hilmei é conclusão de trabalho, isto é, o acabamento de um preparo de cozinha. Assim lê também o Korban HaEdá, e assim traduzimos, com as palavras em itálico. “Partir” é, segundo o Penei Moshe, quebrar a pimenta ou o sal grosso; “juntar” é moê-los a ponto de os grãos se juntarem e se colarem uns aos outros. Sobre o alho, o Penei Moshe diz que, se ainda faltava moagem desde a véspera, é proibido terminar no Shabat; e, se já estava moído, e só o mexe com a colher para misturar a gordura que sai dele, é permitido. O Korban HaEdá propõe ler שׁוּם שֶׁרִיסְּקוֹ, “alho que esmagou”, como no Bavli, e não mudamos o hebraico. Na Mishná de Eduyot, segundo o Penei Moshe, Rabi Yishmael permite terminar, porque o que falta já não é senão a moagem; segundo o Korban HaEdá, trata-se de pôr o esmagado sob um peso, para que o líquido saia por si. Sobre a terumá, o Penei Moshe diz que nela todos concordam que se termina, para não perder a terumá, e assim procediam os cohanim; o Korban HaEdá traz também outra explicação. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer traduz בֵּין מְרוּבֶּה וּבֵין מוּעֶטֶת por “whether strong or mild”; o hebraico diz “quer seja muita, quer seja pouca”, e assim traduzimos, como lê também o Bavli. Na seção 02, ele traduz a última atribuição por “in the name of Rebbi Joḥanan”; o hebraico diz בְשֵׁם רִבִּי חֲנִינָא, “em nome de Rabi Chanina”, e assim traduzimos. Ele escreve “Simeon bar Abba” para שִׁמָעוֹן בַּרַ בָּא; o hebraico diz “bar Ba”, sem o título “Rabi”, e assim traduzimos, como nas halachot anteriores deste tratado. Ele escreve também “Rebbi Yose”, “Rav Huna”, “Rebbi Abbahu”, “Rebbi Yasa”, “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Jehudah ben Titus”, “Rebbi Jehudah ben Pazi”, “Rebbi Ismael”, “Rebbi Aqiba”, “Rebbi Jacob bar Aḥa” e “Rebbi Simeon bar Abba”; mantivemos “Rabi Yossi”, “Rav Huna”, “Rabi Abahu”, “Rabi Yassa”, “Rabi Yochanan”, “Rabi Yehudá ben Titus”, “Rabi Yehudá ben Pazi”, “Rabi Yishmael”, “Rabi Akiva”, “Rabi Yaakov bar Achá” e “Rabi Shimon bar Aba”, como nas outras halachot deste site.