Shabbat 108b abre completando a mishná interrompida no final de 108a: depois de proibir a salmoura (helmei), a mishná esclarece que se pode fazer água salgada comum, para molhar o pão ou temperar o guisado — ao que Rabi Yossei objeta que não há diferença essencial entre "muita" e "pouca" água salgada, e define como permitida apenas aquela em que se põe azeite antes da água ou do sal. A guemará abre perguntando o que a mishná quer dizer, e Rav Yehudá, em nome de Shmuel, explica que a distinção é entre grande e pequena quantidade. Segue-se uma dúvida sobre se a objeção de Rabi Yossei vem para proibir ou para permitir, resolvida por Rabá e Rabi Yochanan a favor da proibição total, e confirmada por uma baraita paralela sobre a salmoura das conservas guardadas num caco de barro (gistera), com o argumento de Rabi Yossei de que não se deve associar quantidade de trabalho a permissão no Shabat. Um mnemônico ("fortes, rabanete e etrog") introduz três halachot: a água salgada forte — na qual um ovo flutua, composta de dois terços de sal para um terço de água, usada para preparar molho de peixe (muryesa); a proibição de salgar rabanete e ovo no Shabat, com a experiência pessoal de Rav Nachman sobre não mais salgar o rabanete depois de saber que em Eretz Yisrael salgam-no em grande quantidade durante a semana; e o ensinamento de que o etrog, o rabanete e o ovo, sem sua casca externa, jamais sairiam dos intestinos. A guemará narra então que ninguém jamais se afogou no Mar de Sodoma — afirmação corrigida por Rav Yossef e esclarecida por Abaié no estilo "não é necessário dizer" — com a aplicação prática na pergunta de Ravin a Rabi Yirmeya sobre lavar-se com essas águas no Shabat (permitido), e a dúvida adicional sobre fechar e abrir os olhos dentro delas, resolvida por analogia com o vinho posto no olho (proibido dentro, permitido por fora) e a saliva insípida (sempre proibida), tradições atribuídas ao pai de Shmuel e a Levi sem se saber qual pertence a qual. A guemará relata a seguir a história de Mar Ukva aplicando os colírios de Shmuel diante de Bar Leva'ei, o pedido de Rabi Yanai por esses mesmos colírios, e a resposta de Shmuel de que uma gota de água fria pela manhã e a lavagem de mãos e pés com água quente à noite valem mais do que todos os colírios do mundo — ensinamento confirmado por uma baraita em nome de Rabi Muná. O daf termina com a lista de Rabi Muná sobre a mão que deveria ser cortada por tocar o olho, o nariz, a boca, o ouvido, a ferida, o membro e a abertura do ânus — texto interrompido no meio da lista, com a continuação em 109a.
(Continuação de 108a) Mas faz-se a água salgada, e molha-se nela o pão, e põe-se dentro do guisado. Disse Rabi Yossei: mas não é isto salmoura (helmei), seja muita, seja pouca?! E estas são as águas salgadas permitidas: quem põe azeite desde o início dentro da água, ou dentro do sal.
Este beat completa a mishná que 108a deixou interrompida logo em sua abertura. Depois de proibir a "helmei" (salmoura concentrada, usada para conservar alimentos), a mishná esclarece que uma água salgada comum, de uso culinário imediato — para molhar o pão ou temperar um guisado — é permitida. Rabi Yossei então desafia essa distinção: do ponto de vista da halachá, não há diferença de categoria entre uma salmoura "grande" e uma "pequena"; ambas são, em essência, a mesma "helmei". A mishná fecha definindo, então, qual água salgada é realmente permitida: apenas aquela preparada de modo não convencional, em que se põe primeiro o azeite — dentro da água ou dentro do sal — antes de misturar os dois ingredientes principais.
"'Mas faz-se'" etc. — é explicado na guemará. "'Mas não é isto salmoura, seja muita, seja pouca'" — e se as (águas) em grande quantidade são proibidas, também as em pequena quantidade são proibidas; e se estas são permitidas, também aquelas são permitidas; e na guemará se explica que, para a estringência, Rabi Yossei disse que todas são proibidas, porque isto é como curtir (me'abed) — aperfeiçoa o alimento colocado nela, para que se conserve. "'E estas são as (águas) permitidas: quem põe azeite dentro da água desde o início'" — antes de pôr o sal; (ou) põe azeite dentro do sal desde o início, antes de pôr a água — pois o azeite impede que o sal se misture bem com a água, e enfraquece sua força de se tornar água salgada forte; mas não deve pôr água e sal primeiro, mesmo que ponha azeite por último, pois no momento em que põe água e sal juntos, isto parece curtir (me'abed).
GEMARÁ. O que ele está dizendo? Disse Rav Yehudá, disse Shmuel: assim ele está dizendo: não se faz água salgada em grande quantidade, mas faz-se água salgada em pequena quantidade.
A guemará abre notando que a formulação da mishná — proibir "helmei" mas permitir "mei melach" (água salgada) — não é imediatamente clara quanto ao critério exato da distinção. Rav Yehudá, em nome de Shmuel, esclarece que o critério é a quantidade: a "helmei" proibida é a água salgada preparada em grande volume (como para conservar vegetais por muito tempo), enquanto a água salgada permitida é a preparada em pequena quantidade, para uso imediato à mesa.
"'GEMARÁ: o que ele está dizendo'" — o que é "helmei" e o que é "água salgada" (mei melach).
Disse Rabi Yossei: mas não é isto salmoura, seja muita, seja pouca? Foi levantada uma dúvida perante eles: (a intenção de) Rabi Yossei é proibir ou permitir? Disse Rav Yehudá: permitir — visto que não se ensina "Rabi Yossei proíbe". Disse-lhe Rabá: mas, do fato de se ensinar na cláusula final "e estas são as águas salgadas permitidas", infere-se que Rabi Yossei (vem) proibir. Mas disse Rabá: proibir. E também disse Rabi Yochanan: proibir.
A guemará volta à objeção de Rabi Yossei citada na mishná e investiga sua intenção exata: será que ele quer permitir toda água salgada (já que não há diferença essencial entre muita e pouca), ou proibir toda ela? Rav Yehudá argumenta que a mishná, ao não registrar explicitamente "Rabi Yossei proíbe" (como faz em outros lugares quando um sábio discorda em sentido restritivo), sugere que sua posição é permissiva. Rabá refuta esse argumento: a própria mishná, na sua cláusula seguinte, define "estas são as águas salgadas permitidas" — uma definição estreita e específica que só faz sentido se Rabi Yossei estivesse, de fato, restringindo a permissão original da mishná, e não a ampliando. Rabá e, independentemente, Rabi Yochanan concluem que a posição de Rabi Yossei é proibir toda água salgada, exceto aquela preparada da forma especial descrita ao final da mishná.
"'Proibir ou permitir'" — isto que ele diz, que os dois (tipos, muita e pouca) são iguais, é para o proibido ou para o permitido.
Também foi ensinado assim (numa baraita): não se faz água salgada em grande quantidade para pôr dentro das conservas que estão dentro de um caco de barro (gistera). Mas faz-se água salgada em pequena quantidade, e come-se nela o pão, e põe-se dentro do guisado. Disse Rabi Yossei: e será que, porque estas são muitas e aquelas são poucas, estas são proibidas e aquelas são permitidas? Diriam: trabalho grande — proibido; trabalho pequeno — permitido! Mas tanto estas quanto aquelas são proibidas. E estas são as águas salgadas permitidas: quem põe azeite e sal, ou azeite e água, contanto que não ponha água e sal desde o início.
A guemará traz uma baraita que confirma a posição de Rabá e Rabi Yochanan, formulada de modo mais explícito. A baraita distingue diretamente entre a água salgada em grande quantidade — destinada a conservar vegetais dentro de um gistera (caco de barro reaproveitado para esse fim) — e a de pequena quantidade, para consumo imediato. Rabi Yossei argumenta que essa distinção baseada apenas em quantidade é perigosa: se se permitisse a versão pequena por ser "pouco trabalho", as pessoas concluiriam erroneamente que a halachá do Shabat em geral distingue entre melachá "grande" (proibida) e "pequena" (permitida) — um princípio falso, pois o Shabat proíbe qualquer quantidade de uma melachá, por menor que seja. Por isso, Rabi Yossei insiste que ambas as quantidades são proibidas, e a única forma verdadeiramente permitida de preparar água salgada é através do método alternativo — azeite misturado primeiro com o sal ou com a água, adiando a combinação direta de água e sal.
"'Conservas (kevashim)'" — verdura que se conserva em salmoura para se manter. "'Gistera'" — um recipiente quebrado de barro, que não serve para todo uso como quando inteiro, e o destinam para isto.
"Fortes", "rabanete" e "etrog" — sinal (mnemônico para as próximas halachot). Ensinou Rabi Yehudá bar Chaviva: não se faz água salgada forte (azin). O que é água salgada forte? Rabá e Rav Yossef bar Abá, ambos disseram: toda (água) na qual o ovo flutua. E quanto (de sal há nela)? Disse Abaié: dois terços de sal e um terço de água.
A guemará introduz um mnemônico de três palavras — "azin" (fortes), "tzenon" (rabanete) e "etrog" — para organizar uma série de halachot relacionadas ensinadas por Rabi Yehuda bar Chaviva. A primeira delas proíbe preparar "água salgada forte" no Shabat, uma categoria ainda mais concentrada do que a "helmei" já discutida. Rabá e Rav Yossef bar Abá definem essa força por um teste prático e visual: água salgada suficientemente concentrada para que um ovo flutue nela (em vez de afundar, como faria em água comum). Abaié quantifica essa concentração numa proporção precisa: dois terços de sal para um terço de água.
"'Na qual o ovo flutua'" — a força do sal impede que ele afunde.
Para que se faz isto (a água salgada forte)? Disse Rabi Abahu: para molho de peixe (muryesa). Ensinou Rabi Yehudá bar Chaviva: não se sala rabanete e ovo no Shabat. Rav Chizquiyá, em nome de Abaié, disse: rabanete — proibido; e ovo — permitido. Disse Rav Nachman: no início eu salgava o rabanete, (e) diria: eu o estraguei, pois disse Shmuel: o picante do rabanete é bom (para ele). Desde que ouvi isto — que, quando veio Ulá, disse que no Ocidente (Eretz Yisrael) salgam pilhas e pilhas (de rabanetes) — não mais o salgo, mas certamente o mergulho (no sal, ao comer).
A guemará explica a finalidade prática da água salgada forte: prepará-la serve para fazer molho de peixe (muryesa), um condimento de sabor forte comum na época. Em seguida, a guemará traz outro ensinamento de Rabi Yehuda bar Chaviva: não se deve salgar rabanete e ovo no Shabat, pois o sal os "cura" (mearar) e endurece, constituindo um aperfeiçoamento proibido. Rav Chizquiyá, em nome de Abaié, refina essa proibição: aplica-se apenas ao rabanete, cuja textura muda significativamente com o sal; o ovo, cuja clara não é afetada da mesma forma, pode ser salgado. Rav Nachman relata sua própria evolução prática: no início, salgava o rabanete às sextas-feiras achando que, segundo Shmuel, isso na verdade prejudicava seu sabor picante característico; mas, ao saber que em Eretz Yisrael o salgam em grandes quantidades durante a semana (prova de que o sal não o prejudica, mas sim o aperfeiçoa), Rav Nachman parou de salgá-lo previamente — halachicamente relevante, pois confirma que a salga é de fato um aperfeiçoamento (e, portanto, proibida no Shabat) — ainda que continue temperando-o com sal no momento de comer, o que não constitui um aperfeiçoamento duradouro.
"'Para molho'" — de peixes. "'Não se sala rabanete e ovo'" — três e quatro pedaços juntos, pois o sal os curte e ficam duros, e isto é um aperfeiçoamento (tikun). "'No início eu salgava o rabanete'" — no Shabat. "'Pugla'" — rabanete. "'Kishrei'" — pilhas altas, um monte sobre outro. "'Não mais salgo'" — dois (pedaços) juntos. "'Mergulho'" — no momento de comer, eu mergulho e como.
Ensinou Rabi Yehudá bar Chaviva: etrog, rabanete e ovo — se não fosse sua casca externa, jamais sairiam dos intestinos.
Completando o mnemônico "fortes, rabanete e etrog", a guemará cita um terceiro ensinamento de Rabi Yehuda bar Chaviva, de caráter mais médico do que legal: o etrog, o rabanete e o ovo (no caso deste último, referindo-se à clara, tratada aqui pela mesma linguagem de "casca" por associação com os outros dois itens da lista) são alimentos extremamente difíceis de digerir; apenas sua camada externa — que retém alguma elasticidade e permite a passagem pelo trato digestivo — evita que fiquem permanentemente retidos no corpo.
"'Casca externa'" — no caso do ovo é a clara, mas, já que se ensina junto com o etrog e o rabanete, usa-se também para ele a expressão "casca". "'Não saem dos intestinos'" — pois se enrijecem, endurecem e ficam retidos.
Quando veio Rav Dimi, disse: nunca um homem se afogou no Mar de Sodoma. Disse Rav Yossef: Sodoma está invertida, e a sua palavra está invertida! É o homem que não se afoga, (mas) a viga se afoga?! Disse-lhe Abaié: ele fala no estilo de "não é necessário (dizer)": não é necessário dizer que a viga, que nem em todas as águas do mundo se afoga, (não se afoga ali); mas até o homem, que se afoga em todas as águas do mundo, não se afoga no Mar de Sodoma. Qual é a consequência prática disto? Como aquilo (que se segue): Ravin ia caminhando atrás de Rabi Yirmeyá, na margem do Mar de Sodoma. Disse-lhe: qual é a lei quanto a lavar-se com estas águas no Shabat? Disse-lhe: (isso) está bem.
A guemará muda de tema, ainda dentro do assunto da água salgada, para discutir o Mar de Sodoma (o Mar Morto), cuja densidade salina é notória. Rav Dimi, ao chegar da Babilônia, relata que ninguém jamais se afogou nele. Rav Yossef inicialmente entende essa afirmação de modo invertido e a critica: se o objetivo é dizer algo notável sobre a força da água, seria mais impressionante dizer que nem uma viga de madeira pesada afunda ali — comentar que um homem não se afoga pareceria, por comparação, uma afirmação mais fraca. Abaié explica que a formulação de Rav Dimi segue o estilo retórico "não é necessário dizer": o ponto óbvio (a viga, que já não afunda em nenhuma água do mundo) é mencionado primeiro apenas implicitamente, para depois destacar o ponto realmente surpreendente — que até um homem, que naturalmente afundaria em qualquer outra água, não se afoga nas águas densas do Mar de Sodoma. A guemará então busca a relevância prática dessa halachá: ela é ilustrada pelo caso de Ravin, que, caminhando com Rabi Yirmeyá à margem do Mar de Sodoma, pergunta se é permitido lavar-se com aquelas águas no Shabat — pois, sendo conhecidas por suas propriedades curativas, poderia haver preocupação com a proibição rabínica de curas no Shabat. Rabi Yirmeyá responde que é permitido.
"'Não se afoga um homem no Mar de Sodoma'" — porque as águas são salgadas, e a força de sua salinidade o impede de afundar. "'E está invertida a palavra'" — as coisas ditas a respeito dela estão invertidas. "'A viga se afoga'" — em tom de espanto. "'Qual é a lei quanto a lavar-se com estas águas'" — lemos assim: acaso é proibido por causa da cura, pois os Sábios decretaram (proibição) sobre todas as curas no Shabat, por causa de (que se venha a) triturar ingredientes — e estas (águas) curam o olho? "'Está bem'" — pois não é evidente que ele o faz para se curar; e mesmo que curem, é permitido, pois o motivo pelo qual a cura é proibida não existe aqui, mas é apenas um decreto, para que não se triture ingredientes, o que se assemelha a moer, que é uma melachá principal (av melachá).
Qual é a lei quanto a fechar e abrir (os olhos dentro da água)? Disse-lhe: isto eu não ouvi; algo semelhante a isto eu ouvi. Pois disse Rabi Zeirá — às vezes ele o disse em nome de Rav Matná, e às vezes ele o disse em nome de Mar Ukva, e ambos (o disseram) em nome do pai de Shmuel — e Levi (também) disseram: um disse: vinho dentro do olho é proibido, sobre o olho (por fora) é permitido. E um disse: saliva insípida (rok tafel), mesmo sobre o olho, é proibida.
Ravin faz uma segunda pergunta a Rabi Yirmeyá: dado que é permitido lavar-se nas águas do Mar de Sodoma, seria também permitido fechar e abrir os olhos propositalmente dentro dessa água, para que ela penetre e chegue ao olho — um gesto que tornaria mais evidente a intenção curativa? Rabi Yirmeyá admite não ter uma tradição direta sobre este caso específico, mas cita um caso análogo transmitido por Rabi Zeirá (que, por sua vez, o recebeu ora em nome de Rav Matná, ora em nome de Mar Ukva, mas em ambos os casos remontando ao pai de Shmuel e a Levi): há duas opiniões sobre substâncias aplicadas ao olho no Shabat — uma diz que vinho colocado dentro do olho é proibido (por parecer claramente medicinal), mas por fora do olho é permitido (podendo passar por simples lavagem); a outra diz que a saliva insípida (de alguém que ainda não comeu nada desde acordar, conhecida por suas propriedades curativas) é proibida mesmo por fora do olho, pois não há outra explicação plausível para seu uso além da cura.
"'Qual é a lei quanto a fechar e abrir'" — expressão como em "não se fecham os olhos do morto" (adiante, Shabat 151b); fecha os olhos quando se lava com elas no Shabat — qual é a lei quanto a fechar e abrir os olhos, para que (a água) entre neles até o olho? "'Algo semelhante a isto eu ouvi'" — pois onde é evidente que se faz por causa da cura, é proibido; e fechar e abrir também é evidente; e este testemunho de Rav Dimi, que disse que não se afoga um homem no Mar de Sodoma, dele aprendemos que, já que (as águas) são muito salgadas, curam — e por isso é proibido fechar e abrir. "'Às vezes disse-lhe'" etc. — pois recebeu (a tradição) de ambos. "'E ambos'" — Rav Matná e Mar Ukva. "'Em nome do pai de Shmuel e (em nome de) Levi disseram'" — duas coisas foram ditas: uma em nome do pai de Shmuel, e uma em nome de Levi. "'Um disse'" — ou o pai de Shmuel, ou Levi. "'Vinho dentro do olho'" — pois fechar e abrir é proibido, porque é evidente (que é para curar). "'Sobre o olho é permitido'" — pois se diz que o fazem para simples lavagem. "'Saliva insípida'" — que não provou nada desde que despertou do sono. "'Mesmo sobre o olho é proibido'" — pois é evidente que é para a cura, já que para lavagem (a saliva) é repugnante; por isso mencionou saliva insípida, porque ela é forte e cura.
Conclui-se que foi o pai de Shmuel quem disse que vinho dentro do olho é proibido, (e) sobre o olho é permitido — do fato de que Shmuel disse: um homem pode molhar seu pão em vinho e colocá-lo sobre o olho no Shabat. De quem ele ouviu isto? Não foi de seu pai que ele ouviu? Mas, segundo teu raciocínio, aquilo que Shmuel disse — saliva insípida, mesmo sobre o olho, é proibida — de quem ele ouviu isto? Se dizes que ele ouviu de seu pai, então Levi não disse sequer uma (halachá)?! Mas: uma (halachá) ele ouviu de seu pai, e uma (halachá) ele ouviu de Levi, e não sabemos qual (foi ouvida) de seu pai, (e) qual de Levi.
A guemará tenta identificar qual das duas opiniões anteriores pertence ao pai de Shmuel e qual pertence a Levi, usando uma afirmação independente de Shmuel: ele próprio ensinou que se pode molhar pão em vinho e colocá-lo sobre o olho (por fora) no Shabat — o que corresponde exatamente à opinião permissiva sobre "vinho por fora do olho". Já que Shmuel certamente aprendeu suas halachot de seu pai, conclui-se que essa opinião é a do pai de Shmuel. Mas a guemará então levanta uma dificuldade com esse próprio raciocínio: Shmuel também ensinou, em outro contexto, que a saliva insípida é proibida mesmo por fora do olho — e, pelo mesmo raciocínio, isso também deveria vir do pai de Shmuel; mas então Levi não teria contribuído com nenhuma das duas tradições, o que contradiz a citação original que atribui uma delas a ele. A guemará resolve concluindo que, de fato, Shmuel recebeu uma halachá de seu pai e outra de Levi — mas não é possível determinar, apenas pelas citações disponíveis, qual delas veio de qual fonte.
"'Mas segundo teu raciocínio'" etc. — se assim é, (então) Levi não disse sequer uma (halachá)?, em tom de espanto — mas uma (halachá) foi dita em seu nome, como dissemos.
Disse Mar Ukva, disse Shmuel: um homem pode molhar colírios (kilorin) na véspera do Shabat, e colocá-los sobre seus olhos no Shabat, e não precisa se preocupar. Bar Leva'ei estava de pé diante de Mar Ukva; viu-o fechando e abrindo (os olhos). Disse-lhe: certamente Mestre Shmuel não permitiu tudo isto! Rabi Yanai enviou (mensagem) a Mar Ukva: que o mestre nos envie um pouco desses colírios de Mestre Shmuel. Enviou-lhe (a resposta): eu certamente te enviarei, para que não digas que sou mesquinho; mas assim disse Shmuel: melhor uma gota de água fria pela manhã, e a lavagem das mãos e dos pés com água quente à noite, do que todos os colírios do mundo. Também foi ensinado assim (numa baraita): disse Rabi Muná em nome de Rabi Yehudá: melhor uma gota de água fria pela manhã, e a lavagem das mãos e dos pés à noite, do que todos os colírios do mundo.
A guemará traz uma tradição adicional de Shmuel, agora sobre colírios propriamente ditos (kilorin, preparados por imersão): pode-se molhá-los na véspera do Shabat e aplicá-los sobre os olhos durante o Shabat sem preocupação com a proibição de curar — pois, tendo sido preparados antecipadamente, seu uso não é evidentemente uma ação médica realizada no próprio Shabat. A guemará narra então um episódio: Bar Leva'ei observa Mar Ukva aplicando esses colírios de um modo demasiado cuidadoso (fechando e abrindo os olhos repetidamente), e o repreende, afirmando que tal comportamento excessivo certamente ultrapassa o que Shmuel permitiu — pois se tornaria evidente que o propósito é curativo. Em seguida, Rabi Yanai pede a Mar Ukva uma amostra desses colírios de Shmuel; Mar Ukva promete enviá-los, mas aproveita para transmitir um ensinamento mais valioso de Shmuel: o verdadeiro segredo para a saúde ocular não está em colírios, mas em hábitos simples — uma gota de água fria aplicada pela manhã e a lavagem das mãos e dos pés com água quente à noite, prática confirmada de modo quase idêntico por uma baraita independente, em nome de Rabi Muná, citando Rabi Yehudá.
"'Molha'" — na água. "'Kilorin'" — "lozia" em francês antigo (colírio). "'E coloca sobre seus olhos'" — pois, para ele, já que exigiram que se molhasse na véspera do Shabat, há um sinal distintivo, e não há razão para decretar (proibição); e quem os vê pensa que é uma simples lavagem, pois pensa que é vinho. "'Certamente não permitiu tudo isto'" — pois é evidente (que é para curar). Mar Ukva costumava frequentar Mestre Shmuel, e foi chefe do tribunal (av beit din) em seus dias, como dissemos acima (Shabat 55a e Moed Katan 16b). "'Gota fria'" — para pôr nos olhos. "'E a lavagem das mãos e dos pés com água quente à noite'" — também ilumina os olhos.
Ele (Rabi Muná) costumava dizer: a mão (que toca) o olho — que seja cortada. A mão (que toca) o nariz — que seja cortada. A mão (que toca) a boca — que seja cortada. A mão (que toca) o ouvido — que seja cortada. A mão (que toca) a ferida (chassudá) — que seja cortada. A mão (que toca) o membro (amá) — que seja cortada. A mão (que toca) a abertura do ânus (pi tabaat) — que seja cortada. A mão... (o texto é interrompido aqui, no meio da lista).
Apropriadamente ligado ao ensinamento anterior sobre os cuidados com os olhos, a guemará cita mais uma tradição de Rabi Muná (a mesma fonte da baraita sobre a água fria e a lavagem de mãos e pés): uma lista de advertências sobre o perigo de tocar certas partes do corpo com as mãos sem elas terem sido lavadas — especialmente antes da netilat yadayim (lavagem ritual) da manhã, quando se acredita que um espírito de impureza (ruach ra'á) repousa sobre as mãos durante o sono. Tocar o olho, o nariz, a boca, o ouvido, uma ferida, o órgão reprodutor ou o ânus com mãos ainda não lavadas pode causar dano — daí a expressão de que "a mão deveria ser cortada", uma hipérbole retórica para enfatizar a gravidade do risco, e não uma pena literal. Confirmado via Sefaria: o texto do daf 108b termina precisamente no meio desta lista, após a sétima cláusula ("a mão que toca a abertura do ânus — que seja cortada"), com a palavra "יָד" (a mão) iniciando uma oitava cláusula que fica interrompida. A continuação dessa lista, com o restante das partes do corpo mencionadas por Rabi Muná, é o ponto de partida de Shabbat 109a.
"'Ele costumava dizer'" — Rabi Muná. "'A mão ao olho'" — pela manhã, antes de lavar as mãos. "'Que seja cortada'" — melhor que seja cortada, pois um espírito impuro (ruach ra'á) repousa sobre a mão e o cega; e assim todas (as demais). "'Chassudá'" — a marca da sangria (ribda dechusilta), "plaimá" em francês antigo (o local da sangria). "'A abertura do ânus'" — o orifício da evacuação, que é redondo como um anel (tabaat). "'Que seja cortada'" — e não toque novamente no olho ou no ouvido antes de lavar as mãos.