Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Dalet (Shemoneh Sheratzim)
מֵי מֶלַח מְרוּבִּין וּמוּעָטִין

Conclusão da mishná sobre a salmoura; a disputa se Rabi Yossei proíbe ou permite; água salgada forte e o rabanete salgado; ninguém se afoga no Mar de Sodoma; colírios no Shabat; a lista de Rabi Muná sobre a mão que toca cada parte do corpo

Shabbat 108b · continuação direta de 108a · Perek Yud-Dalet (Shemoneh Sheratzim)

Shabbat 108b abre completando a mishná interrompida no final de 108a: depois de proibir a salmoura (helmei), a mishná esclarece que se pode fazer água salgada comum, para molhar o pão ou temperar o guisado — ao que Rabi Yossei objeta que não há diferença essencial entre "muita" e "pouca" água salgada, e define como permitida apenas aquela em que se põe azeite antes da água ou do sal. A guemará abre perguntando o que a mishná quer dizer, e Rav Yehudá, em nome de Shmuel, explica que a distinção é entre grande e pequena quantidade. Segue-se uma dúvida sobre se a objeção de Rabi Yossei vem para proibir ou para permitir, resolvida por Rabá e Rabi Yochanan a favor da proibição total, e confirmada por uma baraita paralela sobre a salmoura das conservas guardadas num caco de barro (gistera), com o argumento de Rabi Yossei de que não se deve associar quantidade de trabalho a permissão no Shabat. Um mnemônico ("fortes, rabanete e etrog") introduz três halachot: a água salgada forte — na qual um ovo flutua, composta de dois terços de sal para um terço de água, usada para preparar molho de peixe (muryesa); a proibição de salgar rabanete e ovo no Shabat, com a experiência pessoal de Rav Nachman sobre não mais salgar o rabanete depois de saber que em Eretz Yisrael salgam-no em grande quantidade durante a semana; e o ensinamento de que o etrog, o rabanete e o ovo, sem sua casca externa, jamais sairiam dos intestinos. A guemará narra então que ninguém jamais se afogou no Mar de Sodoma — afirmação corrigida por Rav Yossef e esclarecida por Abaié no estilo "não é necessário dizer" — com a aplicação prática na pergunta de Ravin a Rabi Yirmeya sobre lavar-se com essas águas no Shabat (permitido), e a dúvida adicional sobre fechar e abrir os olhos dentro delas, resolvida por analogia com o vinho posto no olho (proibido dentro, permitido por fora) e a saliva insípida (sempre proibida), tradições atribuídas ao pai de Shmuel e a Levi sem se saber qual pertence a qual. A guemará relata a seguir a história de Mar Ukva aplicando os colírios de Shmuel diante de Bar Leva'ei, o pedido de Rabi Yanai por esses mesmos colírios, e a resposta de Shmuel de que uma gota de água fria pela manhã e a lavagem de mãos e pés com água quente à noite valem mais do que todos os colírios do mundo — ensinamento confirmado por uma baraita em nome de Rabi Muná. O daf termina com a lista de Rabi Muná sobre a mão que deveria ser cortada por tocar o olho, o nariz, a boca, o ouvido, a ferida, o membro e a abertura do ânus — texto interrompido no meio da lista, com a continuação em 109a.

Conclusão da mishná: as águas salgadas permitidas · וְאֵלּוּ הֵן מֵי מֶלַח הַמּוּתָּרִין

490Conclusão da mishná: pode-se fazer água salgada comum, para o pão e o guisado; objeção de Rabi Yossei; definição das águas salgadas permitidas — azeite posto antes, na água ou no sal
Mishná — conclusão
(מסיום 108a) אֲבָל עוֹשֶׂה הוּא אֶת מֵי הַמֶּלַח, וְטוֹבֵל בָּהֶן פִּתּוֹ, וְנוֹתֵן לְתוֹךְ הַתַּבְשִׁיל. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי: וַהֲלֹא הוּא הֵילְמֵי, בֵּין מְרוּבֶּה וּבֵין מוּעָט! וְאֵלּוּ הֵן מֵי מֶלַח הַמּוּתָּרִין — נוֹתֵן שֶׁמֶן לְכַתְּחִלָּה לְתוֹךְ הַמַּיִם אוֹ לְתוֹךְ הַמֶּלַח.

(Continuação de 108a) Mas faz-se a água salgada, e molha-se nela o pão, e põe-se dentro do guisado. Disse Rabi Yossei: mas não é isto salmoura (helmei), seja muita, seja pouca?! E estas são as águas salgadas permitidas: quem põe azeite desde o início dentro da água, ou dentro do sal.

Nota

Este beat completa a mishná que 108a deixou interrompida logo em sua abertura. Depois de proibir a "helmei" (salmoura concentrada, usada para conservar alimentos), a mishná esclarece que uma água salgada comum, de uso culinário imediato — para molhar o pão ou temperar um guisado — é permitida. Rabi Yossei então desafia essa distinção: do ponto de vista da halachá, não há diferença de categoria entre uma salmoura "grande" e uma "pequena"; ambas são, em essência, a mesma "helmei". A mishná fecha definindo, então, qual água salgada é realmente permitida: apenas aquela preparada de modo não convencional, em que se põe primeiro o azeite — dentro da água ou dentro do sal — antes de misturar os dois ingredientes principais.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "aval oseh", "vehalo hu helmei" e "ve'elu hen hamutarin"
אבל עושה כו' - מפרש בגמ': והלא הוא הילמי בין רב בין מעט - ואם המרובים אסורים אף המועטים אסורים ואם אלו מותרים אף אלו מותרין ובגמרא מפרש דלחומרא א"ר יוסי דכולן לאיסור מפני שהוא כמעבד מתקן את האוכל הנתון לתוכו כדי שיתקיים: ואלו הן המותרין נותן שמן לתוך מים בתחלה - קודם שיתן המלח נותן שמן לתוך המלח בתחלה קודם שיתן המים דהשמן מעכב שאין המלח מתערב יפה עם המים ומתיש את כחו מהיות מי מלח עזין אבל לא יתן מים ומלח תחילה אפילו נותן שמן לבסוף דבשעה שנותן מים ומלח יחד הוא נראה כמעבד:

"'Mas faz-se'" etc. — é explicado na guemará. "'Mas não é isto salmoura, seja muita, seja pouca'" — e se as (águas) em grande quantidade são proibidas, também as em pequena quantidade são proibidas; e se estas são permitidas, também aquelas são permitidas; e na guemará se explica que, para a estringência, Rabi Yossei disse que todas são proibidas, porque isto é como curtir (me'abed) — aperfeiçoa o alimento colocado nela, para que se conserve. "'E estas são as (águas) permitidas: quem põe azeite dentro da água desde o início'" — antes de pôr o sal; (ou) põe azeite dentro do sal desde o início, antes de pôr a água — pois o azeite impede que o sal se misture bem com a água, e enfraquece sua força de se tornar água salgada forte; mas não deve pôr água e sal primeiro, mesmo que ponha azeite por último, pois no momento em que põe água e sal juntos, isto parece curtir (me'abed).

Guemará: água salgada em grande e pequena quantidade · מֵי מֶלַח מְרוּבִּין אֲבָל עוֹשֶׂה מוּעָטִין

491A guemará pergunta o que a mishná quer dizer; Rav Yehudá, em nome de Shmuel: a distinção é entre água salgada em grande e em pequena quantidade
Rav Yehudá; Shmuel
גְּמָ׳ מַאי קָאָמַר? אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל, הָכִי קָאָמַר: אֵין עוֹשִׂין מֵי מֶלַח מְרוּבִּין, אֲבָל עוֹשֶׂה הוּא מֵי מֶלַח מוּעָטִין.

GEMARÁ. O que ele está dizendo? Disse Rav Yehudá, disse Shmuel: assim ele está dizendo: não se faz água salgada em grande quantidade, mas faz-se água salgada em pequena quantidade.

Nota

A guemará abre notando que a formulação da mishná — proibir "helmei" mas permitir "mei melach" (água salgada) — não é imediatamente clara quanto ao critério exato da distinção. Rav Yehudá, em nome de Shmuel, esclarece que o critério é a quantidade: a "helmei" proibida é a água salgada preparada em grande volume (como para conservar vegetais por muito tempo), enquanto a água salgada permitida é a preparada em pequena quantidade, para uso imediato à mesa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "gemara mai kaamar"
גמ' מאי קאמר - מאי הילמי ומאי מי מלח:

"'GEMARÁ: o que ele está dizendo'" — o que é "helmei" e o que é "água salgada" (mei melach).

492Dúvida sobre a intenção de Rabi Yossei: Rav Yehudá diz que é para permitir; Rabá objeta a partir da cláusula final da mishná; Rabá e Rabi Yochanan concluem que é para proibir
Rav Yehudá; Rabá; Rabi Yochanan
אָמַר רַבִּי יוֹסֵי: וַהֲלֹא הוּא הֵילְמֵי, בֵּין מְרוּבִּין בֵּין מוּעָטִין. אִיבַּעְיָא לְהוּ: רַבִּי יוֹסֵי לֶאֱסוֹר אוֹ לְהַתִּיר? אָמַר רַב יְהוּדָה: לְהַתִּיר. מִדְּלָא קָתָנֵי ״רַבִּי יוֹסֵי אוֹסֵר״. אֲמַר לֵיהּ רַבָּה: הָא מִדְּקָתָנֵי סֵיפָא וְאֵלּוּ הֵן מֵי מֶלַח הַמּוּתָּרִין, מִכְּלָל דְּרַבִּי יוֹסֵי לֶאֱסוֹר. אֶלָּא אָמַר רַבָּה: לֶאֱסוֹר. וְכֵן אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: לֶאֱסוֹר.

Disse Rabi Yossei: mas não é isto salmoura, seja muita, seja pouca? Foi levantada uma dúvida perante eles: (a intenção de) Rabi Yossei é proibir ou permitir? Disse Rav Yehudá: permitir — visto que não se ensina "Rabi Yossei proíbe". Disse-lhe Rabá: mas, do fato de se ensinar na cláusula final "e estas são as águas salgadas permitidas", infere-se que Rabi Yossei (vem) proibir. Mas disse Rabá: proibir. E também disse Rabi Yochanan: proibir.

Nota

A guemará volta à objeção de Rabi Yossei citada na mishná e investiga sua intenção exata: será que ele quer permitir toda água salgada (já que não há diferença essencial entre muita e pouca), ou proibir toda ela? Rav Yehudá argumenta que a mishná, ao não registrar explicitamente "Rabi Yossei proíbe" (como faz em outros lugares quando um sábio discorda em sentido restritivo), sugere que sua posição é permissiva. Rabá refuta esse argumento: a própria mishná, na sua cláusula seguinte, define "estas são as águas salgadas permitidas" — uma definição estreita e específica que só faz sentido se Rabi Yossei estivesse, de fato, restringindo a permissão original da mishná, e não a ampliando. Rabá e, independentemente, Rabi Yochanan concluem que a posição de Rabi Yossei é proibir toda água salgada, exceto aquela preparada da forma especial descrita ao final da mishná.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "le'esor o lehatir"
לאסור או להתיר - האי דקאמר שניהן שוין לאיסור או להיתר:

"'Proibir ou permitir'" — isto que ele diz, que os dois (tipos, muita e pouca) são iguais, é para o proibido ou para o permitido.

493Baraita paralela: não se faz água salgada em grande quantidade para as conservas no gistera; argumento de Rabi Yossei — "trabalho grande é proibido, trabalho pequeno é permitido"; conclusão: ambas proibidas, salvo a preparação com azeite primeiro
Os Sábios (baraita); Rabi Yossei
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: אֵין עוֹשִׂין מֵי מֶלַח מְרוּבִּין לָתֵת לְתוֹךְ הַכְּבָשִׁין שֶׁבְּתוֹךְ גִּיסְטְרָא. אֲבָל עוֹשֶׂה הוּא מֵי מֶלַח מוּעָטִין, וְאוֹכֵל בָּהֶן פִּתּוֹ, וְנוֹתֵן לְתוֹךְ הַתַּבְשִׁיל. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי: וְכִי מִפְּנֵי שֶׁהַלָּלוּ מְרוּבִּין וְהַלָּלוּ מוּעָטִין הַלָּלוּ אֲסוּרִין וְהַלָּלוּ מוּתָּרִין? יֹאמְרוּ: מְלָאכָה מְרוּבָּה — אֲסוּרָה, מְלָאכָה מוּעֶטֶת — מוּתֶּרֶת! אֶלָּא אֵלּוּ וָאֵלּוּ אֲסוּרִין הֵן. וְאֵלּוּ הֵן מֵי מֶלַח הַמּוּתָּרִין — נוֹתֵן שֶׁמֶן וּמֶלַח אוֹ שֶׁמֶן וּמַיִם, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתֵּן מַיִם וּמֶלַח לְכַתְּחִלָּה.

Também foi ensinado assim (numa baraita): não se faz água salgada em grande quantidade para pôr dentro das conservas que estão dentro de um caco de barro (gistera). Mas faz-se água salgada em pequena quantidade, e come-se nela o pão, e põe-se dentro do guisado. Disse Rabi Yossei: e será que, porque estas são muitas e aquelas são poucas, estas são proibidas e aquelas são permitidas? Diriam: trabalho grande — proibido; trabalho pequeno — permitido! Mas tanto estas quanto aquelas são proibidas. E estas são as águas salgadas permitidas: quem põe azeite e sal, ou azeite e água, contanto que não ponha água e sal desde o início.

Nota

A guemará traz uma baraita que confirma a posição de Rabá e Rabi Yochanan, formulada de modo mais explícito. A baraita distingue diretamente entre a água salgada em grande quantidade — destinada a conservar vegetais dentro de um gistera (caco de barro reaproveitado para esse fim) — e a de pequena quantidade, para consumo imediato. Rabi Yossei argumenta que essa distinção baseada apenas em quantidade é perigosa: se se permitisse a versão pequena por ser "pouco trabalho", as pessoas concluiriam erroneamente que a halachá do Shabat em geral distingue entre melachá "grande" (proibida) e "pequena" (permitida) — um princípio falso, pois o Shabat proíbe qualquer quantidade de uma melachá, por menor que seja. Por isso, Rabi Yossei insiste que ambas as quantidades são proibidas, e a única forma verdadeiramente permitida de preparar água salgada é através do método alternativo — azeite misturado primeiro com o sal ou com a água, adiando a combinação direta de água e sal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "kevashin" e "gistera"
כבשין - ירק שכובש להתקיים: גיסטרא - כלי שבור של חרס ואינו ראוי לכל תשמיש כשלם ומקצין אותו לכך:

"'Conservas (kevashim)'" — verdura que se conserva em salmoura para se manter. "'Gistera'" — um recipiente quebrado de barro, que não serve para todo uso como quando inteiro, e o destinam para isto.

Guemará: água salgada forte, o rabanete e o ovo salgados · מַאי מֵי מֶלַח עַזִּין

494Mnemônico: "fortes, rabanete e etrog"; água salgada forte é aquela em que o ovo flutua — dois terços de sal e um terço de água
Rabi Yehudá bar Chaviva; Rabá; Rav Yossef bar Abá; Abaié
עַזִּין צְנוֹן וְאֶתְרוֹג סִימָן. תָּנֵי רַבִּי יְהוּדָה בַּר חֲבִיבָא: אֵין עוֹשִׂין מֵי מֶלַח עַזִּין. מַאי מֵי מֶלַח עַזִּין? רַבָּה וְרַב יוֹסֵף בַּר אַבָּא דְאָמְרִי תַּרְוַויְיהוּ: כֹּל שֶׁהַבֵּיצָה צָפָה בָּהֶן. וְכַמָּה? אָמַר אַבָּיֵי: תְּרֵי תִּילְתֵי מִילְחָא וְתִילְתָּא מַיָּא.

"Fortes", "rabanete" e "etrog" — sinal (mnemônico para as próximas halachot). Ensinou Rabi Yehudá bar Chaviva: não se faz água salgada forte (azin). O que é água salgada forte? Rabá e Rav Yossef bar Abá, ambos disseram: toda (água) na qual o ovo flutua. E quanto (de sal há nela)? Disse Abaié: dois terços de sal e um terço de água.

Nota

A guemará introduz um mnemônico de três palavras — "azin" (fortes), "tzenon" (rabanete) e "etrog" — para organizar uma série de halachot relacionadas ensinadas por Rabi Yehuda bar Chaviva. A primeira delas proíbe preparar "água salgada forte" no Shabat, uma categoria ainda mais concentrada do que a "helmei" já discutida. Rabá e Rav Yossef bar Abá definem essa força por um teste prático e visual: água salgada suficientemente concentrada para que um ovo flutue nela (em vez de afundar, como faria em água comum). Abaié quantifica essa concentração numa proporção precisa: dois terços de sal para um terço de água.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "sheveitza tzafa bahem"
שהביצה צפה בהם - כח המלח מעכבת מלשקוע:

"'Na qual o ovo flutua'" — a força do sal impede que ele afunde.

495Para que serve a água salgada forte: molho de peixe; proibição de salgar rabanete e ovo; Rav Chizquiyá distingue entre os dois; a experiência pessoal de Rav Nachman sobre não mais salgar o rabanete
Rabi Abahu; Rabi Yehudá bar Chaviva; Rav Chizquiyá; Abaié; Rav Nachman; Shmuel; Ulá
לְמַאי עָבְדִי לַהּ? אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ: לְמוּרְיְיסָא. תָּנֵי רַבִּי יְהוּדָה בַּר חֲבִיבָא: אֵין מוֹלְחִין צְנוֹן וּבֵיצָה בְּשַׁבָּת. רַב חִזְקִיָּה מִשְּׁמֵיהּ דְּאַבָּיֵי אָמַר: צְנוֹן — אָסוּר, וּבֵיצָה — מוּתֶּרֶת. אָמַר רַב נַחְמָן: מֵרֵישׁ הֲוָה מָלַחְנָא פּוּגְלָא, אָמֵינָא: אַפְסוֹדֵי קָא מַפְסֵידְנָא לֵיהּ, דַּאֲמַר שְׁמוּאֵל: פּוּגְלָא חוּרְפֵּיהּ מְעַלֵּי. כֵּיוָן דִּשְׁמַעְנָא לְהָא, דְּכִי אֲתָא עוּלָּא וְאָמַר בְּמַעְרְבָא מָלְחִי כִּישְׁרֵי כִּישְׁרֵי, מִמְלָח לָא מָלַחְנָא, טַבּוֹלֵי וַדַּאי מְטַבֵּילְנָא.

Para que se faz isto (a água salgada forte)? Disse Rabi Abahu: para molho de peixe (muryesa). Ensinou Rabi Yehudá bar Chaviva: não se sala rabanete e ovo no Shabat. Rav Chizquiyá, em nome de Abaié, disse: rabanete — proibido; e ovo — permitido. Disse Rav Nachman: no início eu salgava o rabanete, (e) diria: eu o estraguei, pois disse Shmuel: o picante do rabanete é bom (para ele). Desde que ouvi isto — que, quando veio Ulá, disse que no Ocidente (Eretz Yisrael) salgam pilhas e pilhas (de rabanetes) — não mais o salgo, mas certamente o mergulho (no sal, ao comer).

Nota

A guemará explica a finalidade prática da água salgada forte: prepará-la serve para fazer molho de peixe (muryesa), um condimento de sabor forte comum na época. Em seguida, a guemará traz outro ensinamento de Rabi Yehuda bar Chaviva: não se deve salgar rabanete e ovo no Shabat, pois o sal os "cura" (mearar) e endurece, constituindo um aperfeiçoamento proibido. Rav Chizquiyá, em nome de Abaié, refina essa proibição: aplica-se apenas ao rabanete, cuja textura muda significativamente com o sal; o ovo, cuja clara não é afetada da mesma forma, pode ser salgado. Rav Nachman relata sua própria evolução prática: no início, salgava o rabanete às sextas-feiras achando que, segundo Shmuel, isso na verdade prejudicava seu sabor picante característico; mas, ao saber que em Eretz Yisrael o salgam em grandes quantidades durante a semana (prova de que o sal não o prejudica, mas sim o aperfeiçoa), Rav Nachman parou de salgá-lo previamente — halachicamente relevante, pois confirma que a salga é de fato um aperfeiçoamento (e, portanto, proibida no Shabat) — ainda que continue temperando-o com sal no momento de comer, o que não constitui um aperfeiçoamento duradouro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lemuraisa", "ein molchin", "merish", "pugla", "kishrei", "mimlach lo malchana" e "tavolei"
למורייסא - של דגים: אין מולחין צנון וביצה - ג' וד' חתיכות יחד שהמלח מעבדן ונעשין קשין והוי תיקון: מריש הוה מלחנא פוגלא - בשבתא: פוגלא - צנון: כשרי - תילין גבוהים עיגול על עיגול: מימלח לא מלחנא - שתים יחד: טבולי - בשעת אכילה מטבילנא ואכילנא:

"'Para molho'" — de peixes. "'Não se sala rabanete e ovo'" — três e quatro pedaços juntos, pois o sal os curte e ficam duros, e isto é um aperfeiçoamento (tikun). "'No início eu salgava o rabanete'" — no Shabat. "'Pugla'" — rabanete. "'Kishrei'" — pilhas altas, um monte sobre outro. "'Não mais salgo'" — dois (pedaços) juntos. "'Mergulho'" — no momento de comer, eu mergulho e como.

496Ensinamento de Rabi Yehudá bar Chaviva: etrog, rabanete e ovo — sem sua casca externa, jamais sairiam dos intestinos
Rabi Yehudá bar Chaviva
תָּנֵי רַבִּי יְהוּדָה בַּר חֲבִיבָא: אֶתְרוֹג צְנוֹן וּבֵיצָה, אִילְמָלֵא קְלִיפָּתָן הַחִיצוֹנָה אֵינָן יוֹצְאִין מִבְּנֵי מֵעַיִים לְעוֹלָם.

Ensinou Rabi Yehudá bar Chaviva: etrog, rabanete e ovo — se não fosse sua casca externa, jamais sairiam dos intestinos.

Nota

Completando o mnemônico "fortes, rabanete e etrog", a guemará cita um terceiro ensinamento de Rabi Yehuda bar Chaviva, de caráter mais médico do que legal: o etrog, o rabanete e o ovo (no caso deste último, referindo-se à clara, tratada aqui pela mesma linguagem de "casca" por associação com os outros dois itens da lista) são alimentos extremamente difíceis de digerir; apenas sua camada externa — que retém alguma elasticidade e permite a passagem pelo trato digestivo — evita que fiquem permanentemente retidos no corpo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "klipa chitzona" e "ein yotzin mibnei mei'ayim"
קליפה חיצונה - דביצה היא החלבון אלא איידי דתני בהדי אתרוג וצנון קליפה נקט בה נמי לשון קליפה: אין יוצאין מבני מעים - שמתקשרין ומתקשין ונעצרין:

"'Casca externa'" — no caso do ovo é a clara, mas, já que se ensina junto com o etrog e o rabanete, usa-se também para ele a expressão "casca". "'Não saem dos intestinos'" — pois se enrijecem, endurecem e ficam retidos.

Guemará: o Mar de Sodoma e as curas permitidas no Shabat · מֵעוֹלָם לָא טְבַע גַּבְרָא בְּיַמָּא דִסְדוֹם

497Rav Dimi: ninguém jamais se afogou no Mar de Sodoma; correção de Rav Yossef; explicação de Abaié no estilo "não é necessário dizer"; a pergunta prática de Ravin a Rabi Yirmeya sobre lavar-se com essas águas no Shabat
Rav Dimi; Rav Yossef; Abaié; Ravin; Rabi Yirmeyá
כִּי אֲתָא רַב דִּימִי אֲמַר: מֵעוֹלָם לָא טְבַע גַּבְרָא בְּיַמָּא דִסְדוֹם. אֲמַר רַב יוֹסֵף: הֲפִיכָא סְדוֹם, וַהֲפִיכָאן מִילַּהָא. גַּבְרָא הוּא דְּלָא טָבַע, כְּשׁוּרָא טָבַע?! אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי, לָא מִיבַּעְיָא קָאָמַר: לָא מִבַּעְיָא כְּשׁוּרָא דַּאֲפִילּוּ בְּכׇל מֵימוֹת שֶׁבָּעוֹלָם לָא טָבַע, אֶלָּא אֲפִילּוּ גַּבְרָא דְּטָבַע בְּכׇל מֵימוֹת שֶׁבָּעוֹלָם, בְּיַמָּא דִסְדוֹם לָא טָבַע. לְמַאי נָפְקָא מִינַּהּ? כִּי הָא דְּרָבִין הֲוָה שָׁקֵיל וְאָזֵיל אֲחוֹרֵיהּ דְּרַבִּי יִרְמְיָה אַגּוּדָּא דְּיַמָּא דִסְדוֹם. אֲמַר לֵיהּ: מַהוּ לְמִימְשֵׁי מֵהָנֵי מַיָּא בְּשַׁבְּתָא. אֲמַר לֵיהּ: שַׁפִּיר דָּמֵי.

Quando veio Rav Dimi, disse: nunca um homem se afogou no Mar de Sodoma. Disse Rav Yossef: Sodoma está invertida, e a sua palavra está invertida! É o homem que não se afoga, (mas) a viga se afoga?! Disse-lhe Abaié: ele fala no estilo de "não é necessário (dizer)": não é necessário dizer que a viga, que nem em todas as águas do mundo se afoga, (não se afoga ali); mas até o homem, que se afoga em todas as águas do mundo, não se afoga no Mar de Sodoma. Qual é a consequência prática disto? Como aquilo (que se segue): Ravin ia caminhando atrás de Rabi Yirmeyá, na margem do Mar de Sodoma. Disse-lhe: qual é a lei quanto a lavar-se com estas águas no Shabat? Disse-lhe: (isso) está bem.

Nota

A guemará muda de tema, ainda dentro do assunto da água salgada, para discutir o Mar de Sodoma (o Mar Morto), cuja densidade salina é notória. Rav Dimi, ao chegar da Babilônia, relata que ninguém jamais se afogou nele. Rav Yossef inicialmente entende essa afirmação de modo invertido e a critica: se o objetivo é dizer algo notável sobre a força da água, seria mais impressionante dizer que nem uma viga de madeira pesada afunda ali — comentar que um homem não se afoga pareceria, por comparação, uma afirmação mais fraca. Abaié explica que a formulação de Rav Dimi segue o estilo retórico "não é necessário dizer": o ponto óbvio (a viga, que já não afunda em nenhuma água do mundo) é mencionado primeiro apenas implicitamente, para depois destacar o ponto realmente surpreendente — que até um homem, que naturalmente afundaria em qualquer outra água, não se afoga nas águas densas do Mar de Sodoma. A guemará então busca a relevância prática dessa halachá: ela é ilustrada pelo caso de Ravin, que, caminhando com Rabi Yirmeyá à margem do Mar de Sodoma, pergunta se é permitido lavar-se com aquelas águas no Shabat — pois, sendo conhecidas por suas propriedades curativas, poderia haver preocupação com a proibição rabínica de curas no Shabat. Rabi Yirmeyá responde que é permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lo tava gavra", "vehahafucha mila", "keshura tava", "mahu lemimshei" e "shapir dami"
לא טבע גברא בימא דסדום - מפני שהמים מלוחין וכח מליחתן מעכבו מלטבוע: והפוכה מילה - דברים האמורים בה הפוכין: כשורא טבע - בתמיה: מהו למימשי מהני מיא גרסינן - מי אסור משום רפואה דגזור רבנן בכל רפואות בשבת משום שחיקת סממנין ואלו מרפאות את העין: שפיר דמי - דלאו מוכחא מילתא דלרפואה עביד אף על פי שמרפאין שרי דטעמא דרפואה דאסירא ליתא אלא גזירה שמא ישחוק סממנין דדמי לטחינה שהוא אב מלאכה:

"'Não se afoga um homem no Mar de Sodoma'" — porque as águas são salgadas, e a força de sua salinidade o impede de afundar. "'E está invertida a palavra'" — as coisas ditas a respeito dela estão invertidas. "'A viga se afoga'" — em tom de espanto. "'Qual é a lei quanto a lavar-se com estas águas'" — lemos assim: acaso é proibido por causa da cura, pois os Sábios decretaram (proibição) sobre todas as curas no Shabat, por causa de (que se venha a) triturar ingredientes — e estas (águas) curam o olho? "'Está bem'" — pois não é evidente que ele o faz para se curar; e mesmo que curem, é permitido, pois o motivo pelo qual a cura é proibida não existe aqui, mas é apenas um decreto, para que não se triture ingredientes, o que se assemelha a moer, que é uma melachá principal (av melachá).

498Ravin pergunta se pode fechar e abrir os olhos na água; Rabi Yirmeyá não sabe, mas cita caso semelhante: vinho no olho (proibido dentro, permitido por fora) e saliva insípida (sempre proibida), em nome do pai de Shmuel e de Levi
Ravin; Rabi Yirmeyá; Rabi Zeirá; Rav Matná; Mar Ukva
מַהוּ לְמִימַּץ וּלְמִיפְתַּח? אֲמַר לֵיהּ: זוֹ לֹא שָׁמַעְתִּי, כַּיּוֹצֵא בָּהּ שָׁמַעְתִּי. דְּאָמַר רַבִּי זֵירָא, זִימְנִין אָמַר לַהּ מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב מַתְנָה וְזִימְנִין אָמַר לַהּ מִשְּׁמֵיהּ דְּמָר עוּקְבָא, וְתַרְוַויְיהוּ מִשְּׁמֵיהּ דַּאֲבוּהּ דִּשְׁמוּאֵל וְלֵוִי אָמְרִין, חַד אָמַר: יַיִן, בְּתוֹךְ הָעַיִן — אָסוּר, עַל גַּב הָעַיִן — מוּתָּר. וְחַד אָמַר: רוֹק תָּפֵל [אֲפִילּוּ] עַל גַּב הָעַיִן — אָסוּר.

Qual é a lei quanto a fechar e abrir (os olhos dentro da água)? Disse-lhe: isto eu não ouvi; algo semelhante a isto eu ouvi. Pois disse Rabi Zeirá — às vezes ele o disse em nome de Rav Matná, e às vezes ele o disse em nome de Mar Ukva, e ambos (o disseram) em nome do pai de Shmuel — e Levi (também) disseram: um disse: vinho dentro do olho é proibido, sobre o olho (por fora) é permitido. E um disse: saliva insípida (rok tafel), mesmo sobre o olho, é proibida.

Nota

Ravin faz uma segunda pergunta a Rabi Yirmeyá: dado que é permitido lavar-se nas águas do Mar de Sodoma, seria também permitido fechar e abrir os olhos propositalmente dentro dessa água, para que ela penetre e chegue ao olho — um gesto que tornaria mais evidente a intenção curativa? Rabi Yirmeyá admite não ter uma tradição direta sobre este caso específico, mas cita um caso análogo transmitido por Rabi Zeirá (que, por sua vez, o recebeu ora em nome de Rav Matná, ora em nome de Mar Ukva, mas em ambos os casos remontando ao pai de Shmuel e a Levi): há duas opiniões sobre substâncias aplicadas ao olho no Shabat — uma diz que vinho colocado dentro do olho é proibido (por parecer claramente medicinal), mas por fora do olho é permitido (podendo passar por simples lavagem); a outra diz que a saliva insípida (de alguém que ainda não comeu nada desde acordar, conhecida por suas propriedades curativas) é proibida mesmo por fora do olho, pois não há outra explicação plausível para seu uso além da cura.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mahu lemimatz ulmiftach", "kiyotzei bo shamati", "chad amar" e "rok tafel"
מהו למימץ ולמפתח - לשון אין מעמצין את המת (לקמן שבת דף קנא:) עוצם עיניו כשהוא רוחץ מהן בשבת מהו שיסגיר ויפתח עיניו כדי שיכנס מהן לעין: כיוצא בו שמעתי - דהיכא דמוכחא מילתא דלרפואה עביד אסור ומימץ ומפתח נמי מוכחא מילתא והא אסהדותא דרב דימי דאמר לא טבע גברא בימא דסדום נפקא לן מינה הא כיון דמליחי טובא. מסו ואסר למימץ ולמפתח: זימנין א"ל וכו' - שקבל משניהם: ותרוייהו - רב מתנה ומר עוקבא: משמיה דאבוה דשמואל ולוי אמרי - תרתי מילי אמור חדא משמיה דאבוה דשמואל וחדא משמיה דלוי: חד אמר - או אבוה דשמואל או לוי: יין בתוך העין - דעמיץ ופתח אסור דמוכחא מילתא: על גב העין מותר - דאמרי לרחיצה בעלמא עבדי: רוק תפל - שלא טעם כלום משניעור משנתו: אפילו על גב עין אסור - דמוכחא מילתא דלרפואה דאילו לרחיצה מאיס להכי נקט רוק תפל לפי שהוא חזק ומרפא:

"'Qual é a lei quanto a fechar e abrir'" — expressão como em "não se fecham os olhos do morto" (adiante, Shabat 151b); fecha os olhos quando se lava com elas no Shabat — qual é a lei quanto a fechar e abrir os olhos, para que (a água) entre neles até o olho? "'Algo semelhante a isto eu ouvi'" — pois onde é evidente que se faz por causa da cura, é proibido; e fechar e abrir também é evidente; e este testemunho de Rav Dimi, que disse que não se afoga um homem no Mar de Sodoma, dele aprendemos que, já que (as águas) são muito salgadas, curam — e por isso é proibido fechar e abrir. "'Às vezes disse-lhe'" etc. — pois recebeu (a tradição) de ambos. "'E ambos'" — Rav Matná e Mar Ukva. "'Em nome do pai de Shmuel e (em nome de) Levi disseram'" — duas coisas foram ditas: uma em nome do pai de Shmuel, e uma em nome de Levi. "'Um disse'" — ou o pai de Shmuel, ou Levi. "'Vinho dentro do olho'" — pois fechar e abrir é proibido, porque é evidente (que é para curar). "'Sobre o olho é permitido'" — pois se diz que o fazem para simples lavagem. "'Saliva insípida'" — que não provou nada desde que despertou do sono. "'Mesmo sobre o olho é proibido'" — pois é evidente que é para a cura, já que para lavagem (a saliva) é repugnante; por isso mencionou saliva insípida, porque ela é forte e cura.

499A guemará conclui que a permissão do vinho por fora do olho vem do pai de Shmuel, a partir de outra afirmação de Shmuel; mas então a proibição da saliva insípida, de quem viria? Conclusão: uma tradição de cada um, sem se saber qual é qual
A guemará
תִּסְתַּיֵּים דַּאֲבוּהּ דִּשְׁמוּאֵל הוּא דְּאָמַר יַיִן בְּתוֹךְ הָעַיִן — אָסוּר, עַל גַּב הָעַיִן — מוּתָּר, מִדְּאָמַר שְׁמוּאֵל: שׁוֹרֶה אָדָם פִּיתּוֹ בְּיַיִן וְנוֹתְנוֹ עַל גַּב הָעַיִן בְּשַׁבָּת. דִּשְׁמִיעָא לֵיהּ מִמַּאן — לָאו דִּשְׁמִיעָא לֵיהּ מֵאֲבוּהּ? וְלִיטַעְמָיךְ, הָא דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: רוֹק תָּפֵל אֲפִילּוּ עַל גַּבֵּי הָעַיִן אָסוּר, דִּשְׁמִיעָא לֵיהּ מִמַּאן? אִילֵּימָא דִּשְׁמִיעָא לֵיהּ מֵאֲבוּהּ, אֶלָּא לֵוִי — וְלָא חֲדָא אָמַר?! אֶלָּא: חֲדָא שְׁמִיעָא לֵיהּ מֵאֲבוּהּ וַחֲדָא שְׁמִיעָא לֵיהּ מִלֵּוִי, וְלָא יָדְעִינַן הֵי מֵאֲבוּהּ הֵי מִלֵּוִי.

Conclui-se que foi o pai de Shmuel quem disse que vinho dentro do olho é proibido, (e) sobre o olho é permitido — do fato de que Shmuel disse: um homem pode molhar seu pão em vinho e colocá-lo sobre o olho no Shabat. De quem ele ouviu isto? Não foi de seu pai que ele ouviu? Mas, segundo teu raciocínio, aquilo que Shmuel disse — saliva insípida, mesmo sobre o olho, é proibida — de quem ele ouviu isto? Se dizes que ele ouviu de seu pai, então Levi não disse sequer uma (halachá)?! Mas: uma (halachá) ele ouviu de seu pai, e uma (halachá) ele ouviu de Levi, e não sabemos qual (foi ouvida) de seu pai, (e) qual de Levi.

Nota

A guemará tenta identificar qual das duas opiniões anteriores pertence ao pai de Shmuel e qual pertence a Levi, usando uma afirmação independente de Shmuel: ele próprio ensinou que se pode molhar pão em vinho e colocá-lo sobre o olho (por fora) no Shabat — o que corresponde exatamente à opinião permissiva sobre "vinho por fora do olho". Já que Shmuel certamente aprendeu suas halachot de seu pai, conclui-se que essa opinião é a do pai de Shmuel. Mas a guemará então levanta uma dificuldade com esse próprio raciocínio: Shmuel também ensinou, em outro contexto, que a saliva insípida é proibida mesmo por fora do olho — e, pelo mesmo raciocínio, isso também deveria vir do pai de Shmuel; mas então Levi não teria contribuído com nenhuma das duas tradições, o que contradiz a citação original que atribui uma delas a ele. A guemará resolve concluindo que, de fato, Shmuel recebeu uma halachá de seu pai e outra de Levi — mas não é possível determinar, apenas pelas citações disponíveis, qual delas veio de qual fonte.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "velit'amach"
וליטעמיך כו' - א"כ לוי ולא חדא אמר בתמיה והא חדא משמיה אתמר כדאמרן:

"'Mas segundo teu raciocínio'" etc. — se assim é, (então) Levi não disse sequer uma (halachá)?, em tom de espanto — mas uma (halachá) foi dita em seu nome, como dissemos.

500Mar Ukva aplica os colírios de Shmuel diante de Bar Leva'ei; Rabi Yanai pede os mesmos colírios; resposta de Shmuel: uma gota de água fria pela manhã e a lavagem de mãos e pés à noite valem mais que todos os colírios do mundo
Mar Ukva; Shmuel; Bar Leva'ei; Rabi Yanai; Rabi Muná; Rabi Yehudá
אָמַר מָר עוּקְבָא אָמַר שְׁמוּאֵל: שׁוֹרֶה אָדָם קִילוֹרִין מֵעֶרֶב שַׁבָּת וְנוֹתֵן עַל גַּב עֵינָיו בְּשַׁבָּת, וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ. בַּר לֵוַאי הֲוָה קָאֵי קַמֵּיהּ דְּמָר עוּקְבָא. חַזְיֵיהּ דַּהֲוָה עָמֵיץ וּפָתַח. אֲמַר לֵיהּ: כּוּלֵּי הַאי וַדַּאי לָא שְׁרָא מָר שְׁמוּאֵל. שְׁלַח לֵיהּ רַבִּי יַנַּאי לְמָר עוּקְבָא: לִישַׁדַּר לַן מָר מֵהָנָךְ קִילוֹרִין דְּמָר שְׁמוּאֵל. שְׁלַח לֵיהּ: שַׁדּוֹרֵי מְשַׁדַּרְנָא לָךְ, דְּלָא תֵּימָא צַר עַיִן אֲנָא, אֶלָּא הָכִי אָמַר שְׁמוּאֵל: טוֹבָה טִיפַּת צוֹנֵן שַׁחֲרִית וּרְחִיצַת יָדַיִם וְרַגְלַיִם בְּחַמִּין עַרְבִית מִכׇּל קִילוֹרִין שֶׁבָּעוֹלָם. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי, אָמַר רַבִּי מוּנָא מִשּׁוּם רַבִּי יְהוּדָה: טוֹבָה טִיפַּת צוֹנֵן שַׁחֲרִית וּרְחִיצַת יָדַיִם וְרַגְלַיִם עַרְבִית מִכׇּל קִילוֹרִין שֶׁבָּעוֹלָם.

Disse Mar Ukva, disse Shmuel: um homem pode molhar colírios (kilorin) na véspera do Shabat, e colocá-los sobre seus olhos no Shabat, e não precisa se preocupar. Bar Leva'ei estava de pé diante de Mar Ukva; viu-o fechando e abrindo (os olhos). Disse-lhe: certamente Mestre Shmuel não permitiu tudo isto! Rabi Yanai enviou (mensagem) a Mar Ukva: que o mestre nos envie um pouco desses colírios de Mestre Shmuel. Enviou-lhe (a resposta): eu certamente te enviarei, para que não digas que sou mesquinho; mas assim disse Shmuel: melhor uma gota de água fria pela manhã, e a lavagem das mãos e dos pés com água quente à noite, do que todos os colírios do mundo. Também foi ensinado assim (numa baraita): disse Rabi Muná em nome de Rabi Yehudá: melhor uma gota de água fria pela manhã, e a lavagem das mãos e dos pés à noite, do que todos os colírios do mundo.

Nota

A guemará traz uma tradição adicional de Shmuel, agora sobre colírios propriamente ditos (kilorin, preparados por imersão): pode-se molhá-los na véspera do Shabat e aplicá-los sobre os olhos durante o Shabat sem preocupação com a proibição de curar — pois, tendo sido preparados antecipadamente, seu uso não é evidentemente uma ação médica realizada no próprio Shabat. A guemará narra então um episódio: Bar Leva'ei observa Mar Ukva aplicando esses colírios de um modo demasiado cuidadoso (fechando e abrindo os olhos repetidamente), e o repreende, afirmando que tal comportamento excessivo certamente ultrapassa o que Shmuel permitiu — pois se tornaria evidente que o propósito é curativo. Em seguida, Rabi Yanai pede a Mar Ukva uma amostra desses colírios de Shmuel; Mar Ukva promete enviá-los, mas aproveita para transmitir um ensinamento mais valioso de Shmuel: o verdadeiro segredo para a saúde ocular não está em colírios, mas em hábitos simples — uma gota de água fria aplicada pela manhã e a lavagem das mãos e dos pés com água quente à noite, prática confirmada de modo quase idêntico por uma baraita independente, em nome de Rabi Muná, citando Rabi Yehudá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shorah", "kilorin", "venoten al gav einav", "kulei hai vadai lo shara", Mar Ukva, "tipat tzonen" e a lavagem de mãos e pés
שורה - במים: קילורין - לוזי"א בלע"ז: ונותן ע"ג עיניו - דלדידיה כיון דאצרכוה לשרותה מע"ש איכא היכרא וליכא למיגזר ומאן דחזינהו סבר דרחיצה בעלמא היא דכסבר שהוא יין: כולי האי ודאי לא שרא - דמוכחא מילתא: מר עוקבא הוה שכיח גבי מר שמואל ואב ב"ד היה בימיו כדאמרינן לעיל (שבת דף נה. ובמועד קטן דף טז.): טיפת צונן - לתת בעיניו: ורחיצת ידים ורגלים בחמין ערבית - נמי מאירה העינים:

"'Molha'" — na água. "'Kilorin'" — "lozia" em francês antigo (colírio). "'E coloca sobre seus olhos'" — pois, para ele, já que exigiram que se molhasse na véspera do Shabat, há um sinal distintivo, e não há razão para decretar (proibição); e quem os vê pensa que é uma simples lavagem, pois pensa que é vinho. "'Certamente não permitiu tudo isto'" — pois é evidente (que é para curar). Mar Ukva costumava frequentar Mestre Shmuel, e foi chefe do tribunal (av beit din) em seus dias, como dissemos acima (Shabat 55a e Moed Katan 16b). "'Gota fria'" — para pôr nos olhos. "'E a lavagem das mãos e dos pés com água quente à noite'" — também ilumina os olhos.

Baraita: a mão que toca cada parte do corpo deveria ser cortada · יָד לָעַיִן תִּיקָּצֵץ

501Rabi Muná costumava dizer: a mão que toca o olho, o nariz, a boca, o ouvido, a ferida, o membro ou o ânus deveria ser cortada — a lista continua, mas o texto é interrompido aqui
Rabi Muná
הוּא הָיָה אוֹמֵר: יָד לָעַיִן — תִּיקָּצֵץ. יָד לַחוֹטֶם — תִּיקָּצֵץ. יָד לַפֶּה — תִּיקָּצֵץ. יָד לָאוֹזֶן — תִּיקָּצֵץ. יָד לַחֲסוּדָה — תִּיקָּצֵץ. יָד לָאַמָּה — תִּיקָּצֵץ. יָד לְפִי טַבַּעַת — תִּיקָּצֵץ. יָד...

Ele (Rabi Muná) costumava dizer: a mão (que toca) o olho — que seja cortada. A mão (que toca) o nariz — que seja cortada. A mão (que toca) a boca — que seja cortada. A mão (que toca) o ouvido — que seja cortada. A mão (que toca) a ferida (chassudá) — que seja cortada. A mão (que toca) o membro (amá) — que seja cortada. A mão (que toca) a abertura do ânus (pi tabaat) — que seja cortada. A mão... (o texto é interrompido aqui, no meio da lista).

Nota — texto interrompido, continuação em 109a

Apropriadamente ligado ao ensinamento anterior sobre os cuidados com os olhos, a guemará cita mais uma tradição de Rabi Muná (a mesma fonte da baraita sobre a água fria e a lavagem de mãos e pés): uma lista de advertências sobre o perigo de tocar certas partes do corpo com as mãos sem elas terem sido lavadas — especialmente antes da netilat yadayim (lavagem ritual) da manhã, quando se acredita que um espírito de impureza (ruach ra'á) repousa sobre as mãos durante o sono. Tocar o olho, o nariz, a boca, o ouvido, uma ferida, o órgão reprodutor ou o ânus com mãos ainda não lavadas pode causar dano — daí a expressão de que "a mão deveria ser cortada", uma hipérbole retórica para enfatizar a gravidade do risco, e não uma pena literal. Confirmado via Sefaria: o texto do daf 108b termina precisamente no meio desta lista, após a sétima cláusula ("a mão que toca a abertura do ânus — que seja cortada"), com a palavra "יָד" (a mão) iniciando uma oitava cláusula que fica interrompida. A continuação dessa lista, com o restante das partes do corpo mencionadas por Rabi Muná, é o ponto de partida de Shabbat 109a.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hu haya omer", "yad la'ayin", "tikatzetz", "lachasuda" e "lefi taba'at"
הוא היה אומר - ר' מונא: יד לעין - שחרית קודם שיטול ידיו: תיקצץ - נוח לו שתקצץ שרוח רעה שורה על היד ומסמתו וכן כולן: לחסודה - ריבדא דכוסילתא פלימא"ה בלע"ז: לפי טבעת - נקב הרעי שעגול כטבעת: תיקצץ - ולא תגע שוב בעין או באוזן קודם נטילה:

"'Ele costumava dizer'" — Rabi Muná. "'A mão ao olho'" — pela manhã, antes de lavar as mãos. "'Que seja cortada'" — melhor que seja cortada, pois um espírito impuro (ruach ra'á) repousa sobre a mão e o cega; e assim todas (as demais). "'Chassudá'" — a marca da sangria (ribda dechusilta), "plaimá" em francês antigo (o local da sangria). "'A abertura do ânus'" — o orifício da evacuação, que é redondo como um anel (tabaat). "'Que seja cortada'" — e não toque novamente no olho ou no ouvido antes de lavar as mãos.

O daf termina aqui, no meio da lista de Rabi Muná sobre as partes do corpo que a mão não deve tocar antes da lavagem ritual — a última cláusula completa é "יָד לְפִי טַבַּעַת תִּיקָּצֵץ" ("a mão que toca a abertura do ânus — que seja cortada"), seguida apenas da palavra "יָד" ("a mão..."), com o texto interrompido. A continuação dessa lista, e o restante do daf, são o ponto de partida de Shabbat 109a.