Sétima e última halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg. A Mishná ensina que, se um se sentou à entrada e não a encheu, e o segundo se sentou e a encheu, o segundo é culpado; e que, se o primeiro se sentou à entrada e a encheu, e o segundo veio sentar-se ao seu lado, ainda que o primeiro se levante e vá embora, o primeiro é culpado e o segundo é isento, como quem tranca a sua casa para guardá-la e acha um cervo guardado dentro dela. A guemará traz três perguntas de Rabi Shamai: se se podem pôr alimentos diante dos animais presos, e a resposta vem da Mishná das abelhas e das pombas do pombal; se se pode emborcar sobre ele um recipiente, e a resposta vem da disputa sobre o ovo posto no yom tov, entre Rabi Shimon beRabi Yanai e Shmuel; e se se pode amarrá-lo com uma corda, e a resposta vem de Rabi Shimon ben Elazar, que permite usar os lados do animal no Shabat. Com ela se encerra o Perek Yud-Guimel, HaOreg; o tratado continua no Perek Yud-Dalet, Shemoneh Sheratzim. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 107a.
Mishná: Se um sentou-se à entrada da casa em que entrou o tzvi (cervo) e não a encheu inteira, e o segundo sentou-se e a encheu, o segundo é culpado de caçar. Se o primeiro sentou-se à entrada e a encheu, e veio o segundo e sentou-se ao seu lado, ainda que o primeiro se tenha levantado e ido embora, o primeiro é culpado e o segundo é isento. A que isto se assemelha? O segundo é como quem tranca a sua casa para guardá-la, e acha-se um cervo guardado dentro dela.
Rabi Shamai perguntou: qual é a regra quanto a pôr alimentos diante deles, dos animais que ficaram presos? Venha a resposta como aquilo que ensinamos lá, na Mishná: “Não se põe água diante das abelhas nem diante das pombas que estão no pombal”, porque não se faz provisão para algo que não é do muchan (o que foi preparado de antemão para o Shabat). E aqui é assim.
Rabi Shamai perguntou: qual é a regra quanto a emborcar sobre ele um recipiente? Venha a resposta como aquilo que disse Rabi Shimon beRabi Yanai: eu não o ouvi diretamente do meu pai; minha irmã me disse em nome dele: um ovo que foi posto num yom tov (dia de festa), encosta-se a ele um recipiente de lado para que não role, mas não se emborca sobre ele um recipiente. Shmuel disse: até se emborca sobre ele um recipiente.
Rabi Shamai perguntou: qual é a regra quanto a amarrá-lo, ao cervo que ficou preso, com uma corda? Venha a resposta como aquilo que disse Rabi Shimon ben Elazar: é permitido usar os lados do animal no Shabat. A regra dos lados do animal é a mesma dos lados da árvore. Em todo caso em que é permitido usar os lados do animal, é permitido amarrá-lo; em todo caso em que é proibido usar os lados do animal, é proibido amarrá-lo.
Esta é a sétima e última halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 13:7 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “sentou-se um à entrada e não a encheu” até “e acha-se um cervo guardado dentro dela”, e que é também a última Mishná do capítulo: a Mishná avulsa tem sete mishnayot no Perek Yud-Guimel, e o Yerushalmi, sete halachot. No Bavli, a nossa Mishná está no fim de Shabbat 106b, e a sua guemará, em 107a, onde termina o capítulo HaOreg. Há diferenças de redação: o Yerushalmi escreve יָשַׁב אֶחָד, “sentou-se um”, onde a Mishná avulsa e a do Bavli escrevem יָשַׁב הָאֶחָד; escreve וְיָשַׁב הַשֵּׁנִי, com vav, onde elas escrevem יָשַׁב הַשֵּׁנִי; escreve וְיָשַׁב לוֹ בְצִידּוֹ, com um לוֹ que não se traduz em português, onde elas escrevem וְיָשַׁב בְּצִדּוֹ; escreve לְמַה זֶּה דוֹמֶה, onde elas escrevem הָא לְמַה זֶּה דוֹמֶה; e escreve לְשׁוֹמְרוֹ e מִילְאָהוּ, onde a Mishná avulsa escreve לְשָׁמְרוֹ e מִלְּאָהוּ; o sentido é o mesmo. O texto do Sefaria tem um sinal de vocalização duplicado em אֵֶת, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, o segundo é a guemará da seção 01, e o terceiro é a guemará da seção 02, que aparece em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; conservamos o marcador “ז׳.”, que indica que a guemará trata da sétima Mishná do capítulo. Tiramos também a marca de folha da edição de Vilna, 74a, que no Sefaria é só uma indicação de página. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses.
Referências conferidas. A Mishná citada na seção 01 é a Mishná Shabbat 24:3, que diz por inteiro que não se põe água diante das abelhas nem diante das pombas que estão no pombal, mas põe-se diante dos gansos, das galinhas e das pombas herodianas. Sobre dar alimentos a animais presos, a Mishná Beitzá 3:1 ensina que não se caçam peixes dos viveiros no Yom Tov nem se lhes põem alimentos, mas caçam-se o animal selvagem e a ave dos viveiros e põem-se alimentos diante deles; o Bavli traz essa Mishná em Beitzá 23b e a discute em 24a, onde a confronta com uma baraita; e o Yerushalmi a discute em Beitzá 3:1. O Bavli, em Shabbat 106b, abre a guemará da Mishná anterior com essa mesma Mishná de Beitzá. A palavra de Rabi Shimon beRabi Yanai sobre o ovo está também no Yerushalmi, Shabbat 4:2, onde o nome aparece só como “Rabi Shimon beRabi”, e no Yerushalmi, Beitzá 5:1, com o nome inteiro; em ambos os lugares, Rabi Mana acrescenta que o recipiente não deve tocar no ovo. No Bavli, em Shabbat 43a, Rabi Yitzchak diz que, assim como não se põe um recipiente debaixo da galinha para receber o ovo, também não se emborca sobre ele um recipiente para que não se quebre. A palavra de Rabi Shimon ben Elazar sobre os lados do animal e os lados da árvore está também no Yerushalmi, Shabbat 5:2, e no Yerushalmi, Eruvin 3:3; o Bavli discute os lados em Shabbat 154b e conclui em 155a que os lados são proibidos e os lados dos lados são permitidos. Em Shabbat 107a, o Bavli traz a palavra de Rav, por Rabi Abba e Rav Chiya bar Ashi: se uma ave entrou debaixo das abas da sua roupa, ele se senta e a guarda até que escureça; Rav Nachman bar Yitzchak objeta com a nossa Mishná, e a guemará conclui, pelo fim da Mishná, “quem tranca a sua casa para guardá-la”, que o segundo é isento e a ação é permitida; e Shmuel diz que todas as isenções do Shabat são “isento, mas proibido”, exceto três, que são “isento e permitido”, e a primeira delas é a nossa Mishná. Na Tosefta Shabbat 12:6–7, na numeração Lieberman (13:6 na outra numeração do Sefaria), ensina-se que, se dois se sentaram à entrada, ambos são isentos, porque não se sabe qual deles foi primeiro; se um se sentou primeiro e o outro depois, o primeiro é culpado e o segundo isento; e, se um se sentou à entrada e achou-se um cervo dentro, ainda que tenha a intenção de ficar sentado até que escureça, é isento, porque a caça precedeu a intenção.
Observações de leitura. As três perguntas de Rabi Shamai não dizem de quem se fala: “diante deles”, “sobre ele” e “amarrá-lo”. Segundo o Penei Moshe, a primeira trata do cervo da Mishná, que agora está no domínio da pessoa, e a resposta é que não se lhe dão alimentos, porque ele não estava preparado desde a véspera; o Korban HaEdá diz que trata do cervo que entrou na casa no Shabat e também das aves, que não são do muchan, porque foram caçados no Shabat. Sobre a segunda, o Korban HaEdá explica que se trata de emborcar um recipiente sobre a ave que entrou na torre, para que não saia do lugar; o Penei Moshe, de emborcá-lo sobre o que já foi apanhado, para que não se mova de um lado para outro; o Penei Moshe diz que a resposta depende da disputa dos amoraim sobre o ovo, e o Korban HaEdá explica que quem proíbe entende que não se move um recipiente por causa do que não se pode mover, e Shmuel entende que um recipiente se move até por causa do que não se pode mover. Sobre a terceira, ambos explicam que se trata do cervo já apanhado, que está na casa, e que amarrá-lo com uma corda é usar os seus lados; por isso a regra segue a de quem permite ou proíbe usar os lados do animal. O Korban HaEdá traz outra leitura da baraita, “é permitido usar os lados da árvore” e “os lados da árvore são como os lados do animal”; seguimos o hebraico do Sefaria. Na Mishná, segundo o Penei Moshe e o Korban HaEdá, o primeiro se sentou para que o cervo não saísse, e o segundo não fez nada, só guarda o que já foi caçado; por isso o segundo é isento, e a ação é permitida, como a de quem tranca a sua casa para guardá-la e não para caçar. No fim da halachá, o Korban HaEdá escreve “terminou o capítulo HaOreg”, e o Penei Moshe chama o capítulo pelas suas primeiras palavras, “o capítulo Rabi Eliezer”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer segue a interpretação de Saul Lieberman, segundo a qual as três perguntas de Rabi Shamai se referem às três palavras de Rabi Yossi beRabi Bun em nome de Rav Huna na halachá 13:6: a primeira, a dar de comer ao animal apanhado legalmente no Shabat; a segunda, a cobrir as moedas de ouro achadas sob os escombros; a terceira, a amarrar o cervo que ficou trancado na casa. Ele traduz “an egg which was laid on the Sabbath”; o hebraico diz בְיוֹם טוֹב, “num yom tov”, e assim traduzimos. Ele escreve “Rebbi Shammai”, “Rebbi Simeon ben Rebbi Yannai”, “Samuel” e “Rebbi Simeon ben Eleazar”; mantivemos “Rabi Shamai”, “Rabi Shimon beRabi Yanai”, “Shmuel” e “Rabi Shimon ben Elazar”, como nas halachot anteriores deste tratado. Para o ovo, ele remete ao capítulo 4 e observa que a formulação paralela do Bavli, que situa em 42b, não se aplica a esta pergunta; a palavra de Rabi Yitzchak sobre o ovo, que conferimos, está no Bavli 43a.
A Mishná seguinte, Shabbat 14:1, abre o Perek Yud-Dalet, Shemoneh Sheratzim: “שְׁמוֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִין בַּתּוֹרָה הַצָּדָן וְהַחוֹבֵל בָּהֶן חַיָיב…”, “os oito répteis mencionados na Torá: quem os caça e quem os fere é culpado; e os demais seres abomináveis e rastejantes: quem os fere é isento, quem os caça por necessidade é culpado, e sem necessidade é isento; o animal selvagem e a ave que estão no seu domínio: quem os caça é isento, e quem os fere é culpado”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 107a, na mesma folha em que termina o capítulo HaOreg.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg (הָאוֹרֵג).