Sexta halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg. A Mishná ensina que, se um cervo entrou na casa e um só trancou a porta diante dele, esse é culpado; se dois a trancaram, são isentos; e, se um só não podia trancá-la e dois a trancaram, são culpados, e Rabi Shimon os isenta. A guemará retoma, com as mesmas palavras da halachá 10:5, o “ao fazê-la”: o indivíduo que faz é culpado, e dois ou três que fazem são isentos. Rav Huna trata do são e do fraco que trancam juntos; e Rabi Yossi beRabi Bun, em nome de Rav Huna, permite trancar a porta para si quando o cervo também fica trancado, tirar do rio a criança junto com um cardume de peixes e tirar dos escombros o soterrado junto com uma bolsa de moedas de ouro. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 106b.
Mishná: Um tzvi (cervo) que entrou na casa, e um só trancou a porta diante dele: é culpado. Se dois trancaram, são isentos. Se um só não podia trancar, e dois trancaram, são culpados. E Rabi Shimon isenta.
“Ao fazê-la”: o indivíduo que a fez é culpado; dois ou três que a fizeram são isentos. Rav Huna disse: se havia um são e um tash (fraco), e o doente trancou a porta quanto lhe era preciso, e o são não trancou quanto lhe era preciso, o doente é culpado e o são é isento.
Rabi Yossi beRabi Bun disse em nome de Rav Huna: se um cervo corria segundo o seu costume, e alguém teve a intenção de trancar a porta atrás de si, e trancou atrás de si e atrás do cervo, é permitido. Rabi Yossi beRabi Bun disse em nome de Rav Huna: se alguém viu uma criança borbulhando no rio, e teve a intenção de tirá-la da água e de tirar com ela um nechil (cardume) de peixes, é permitido. Rabi Yossi beRabi Bun disse em nome de Rav Huna: se alguém estava desentulhando num gal (monte de escombros), e teve a intenção de tirá-lo, isto é, o soterrado, e de tirar com ele uma bolsa de moedas de ouro, é permitido.
Esta é a sexta halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 13:6 da Mishná avulsa, que vai de “um cervo que entrou na casa” até “e Rabi Shimon isenta”. A Mishná seguinte, Shabbat 13:7, que começa com “sentou-se um à entrada e não a encheu” (יָשַׁב אֶחָד עַל הַפֶּתַח), é a da halachá 13:7. No Bavli, a nossa Mishná está em Shabbat 106b, com a sua guemará, e a Mishná seguinte começa na mesma folha, com a guemará em 107a. Há diferenças de redação: o Yerushalmi escreve אִם נָעֲלוּ שְׁנַיִם, “se dois trancaram”, onde a Mishná avulsa e a do Bavli escrevem só נָעֲלוּ שְׁנַיִם, sem “se”; escreve לֹא יָכוֹל, com vav, onde a Mishná avulsa escreve לֹא יָכֹל; e escreve חַיָיב com dois yod, como de costume no Yerushalmi. O texto do Sefaria tem um sinal de vocalização duplicado em וְנָָעֲלוּ; o sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná e o segundo é a guemará inteira da seção 01, que aparece em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; conservamos o marcador “ו׳.”, que indica que a guemará trata da sexta Mishná do capítulo. Tiramos também a marca de coluna da edição de Veneza, que no Sefaria é só uma indicação de página. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses.
Referências conferidas. “Ao fazê-la” é Vayikra 4:27, בַּעֲשֹׂתָהּ, escrito no versículo sem vav. As três primeiras frases da guemará são, palavra por palavra, as que abrem a guemará da halachá 10:5, sobre o pão levado para fora por dois, onde o marcador é “ה׳.”; demos aqui a mesma tradução, e a nota daquela halachá explica a derivação. O Bavli traz a mesma derivação numa baraita em Shabbat 93a: Rabi Shimon diz que, mesmo quando um só não pode levar e dois levam, são isentos, “por isso se diz ‘ao fazê-la’: o indivíduo que a fez é culpado, dois que a fizeram são isentos”. Na Tosefta Shabbat 12:2, na numeração Lieberman (13:2 na outra numeração do Sefaria), ensina-se que dois que caçaram o cervo são ambos isentos, “pois dois não são culpados por um só trabalho”; e, na Tosefta Shabbat 12:3, na numeração Lieberman (13:3 na outra), que quem caça um cervo num pátio com duas entradas é isento; se o primeiro trancou uma entrada e o segundo trancou a outra, o segundo é culpado e o primeiro isento. O Bavli, em Shabbat 106b, depois da nossa Mishná, traz a palavra de Shmuel, por Rabi Yirmeyá bar Abba: quem caça um leão no Shabat não é culpado até que o faça entrar na sua jaula. Sobre a criança no rio, o Bavli, em Yoma 84b, traz a baraita: quem vê uma criança que caiu no mar estende a rede e a tira, e o diligente é louvado, ainda que com isso apanhe peixes; e em Menachot 64a está a disputa de Rabá e Rava sobre quem ouviu que uma criança se afogava e estendeu a rede para tirar peixes, e tirou peixes e a criança: Rabá isenta, olhando para o ato, e Rava obriga, olhando para a intenção. Na Tosefta Shabbat 15:11–12, na numeração Lieberman (16:10 na outra), ensina-se que se desce para tirar quem caiu no mar e quem caiu no poço, e que se quebram as portas da casa para tirar a criança que entrou e não pode sair, sem pedir licença ao tribunal.
Observações de leitura. Segundo o Penei Moshe e o Korban HaEdá, a palavra de Rav Huna trata do caso da Mishná em que dois trancam: um é são e pode trancar sozinho, e o outro é fraco, e nem com toda a sua força o faria sozinho. O Korban HaEdá explica que o doente é culpado porque é como “este não pode”, e o são é isento porque é como dois que fizeram juntos; o Penei Moshe acrescenta que não se olha para a força de cada um, mas para o que ele fez agora. A palavra תָּשׁ quer dizer fraco, sem forças, e o texto passa a chamá-lo de “o doente”; mantivemos as duas palavras. כָּל צוֹרְכוֹ, literalmente “toda a sua necessidade”, traduzimos “quanto lhe era preciso”. Sobre o cervo, o Korban HaEdá cita duas explicações: segundo o Ramban, a intenção era trancar a porta para si, isto é, para guardar a casa, ainda que ele soubesse que o cervo ficaria trancado; segundo o Rashba, ele tinha intenção também pelo cervo, mas, como precisava de qualquer modo trancar a casa, é isento; o texto diz “permitido”. O Korban HaEdá explica מְבַעְבֵּעַ como “que vagueia no rio”; traduzimos “borbulhando”, que é o sentido literal do verbo. Explica נְחִיל como “colmeia de peixes”, isto é, um cardume, e diz que a bolsa de moedas de ouro está debaixo do monte de escombros; e observa que estes casos foram trazidos aqui porque neles um trabalho proibido se faz junto com um trabalho permitido, como o cervo que fica trancado quando se tranca a casa. Na terceira palavra de Rabi Yossi beRabi Bun, o hebraico escreve רַב חוּנָה, com heh, e nas duas primeiras רַב חוּנָא, com álef; é o mesmo nome, e escrevemos sempre Rav Huna, como nas halachot anteriores. O pronome em “tirá-lo” não tem antecedente no hebraico; entendemos que é a pessoa soterrada sob os escombros, como lê Guggenheimer. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer remete o primeiro parágrafo à sua nota sobre o capítulo 10 e entende o caso de Rav Huna de outro modo: o são fechou a porta sem trancá-la, e o doente a trancou; por isso o doente é culpado, ainda que sozinho não pudesse fechá-la. Seguimos a letra do hebraico, que só diz que um trancou “quanto lhe era preciso” e o outro não. Ele escreve “Rebbi Yose ben Rebbi Abun” e “Rav Ḥuna”; mantivemos “Rabi Yossi beRabi Bun” e “Rav Huna”, como nas halachot anteriores deste tratado. Sobre o cervo, ele explica que, se o cervo não foi perseguido e a pessoa não tinha intenção de caçá-lo, a captura foi sem intenção; sobre a criança, que salvá-la é obrigação, e tudo o que se faz para salvá-la é permitido. Ele traduz גַּל como “pile”, o monte de entulho de uma casa que desabou, e צְרוֹר שֶׁלְזְהוּבִים como “a hoard of gold coins”.