Shabbat 107a abre continuando a guemará da última mishná de 106b, sobre sentar-se na entrada para bloqueá-la. Rav ensina que, se um pássaro entrou sob as dobras da roupa de alguém e não consegue sair, pode-se sentar e guardá-lo até escurecer, e então tomá-lo; Rav Nachman bar Yitzchak tenta objetar a partir da própria mishná, mas a objeção é refutada, e conclui-se (em duas versões do diálogo) que o caso é "isento e permitido" já de início, não apenas isento a posteriori. Shmuel generaliza: de todos os casos isentos do Shabat, que normalmente são "isento mas proibido", há apenas três exceções em que é "isento e permitido" — o cervo guardado pelo fechamento da casa, quem rompe um abscesso para tirar o pus (mas não para abrir uma boca permanente), e quem captura uma cobra apenas para não ser mordido (mas não para fins medicinais). Encerra-se aqui o Perek Yud-Guimel (HaOreg), com a fórmula do hadran. Abre-se então o Perek Yud-Dalet, chamado Shemoneh Sheratzim (Os Oito Répteis), com uma nova mishná: os oito répteis mencionados na Torá — quem os caça ou os fere está obrigado; os demais insetos e répteis — ferir isenta, caçar depende da necessidade; animal ou ave já em posse de alguém — caçar isenta, ferir obriga. A guemará infere da mishná que esses oito répteis têm pele própria, atribuindo o ensino a Rabi Yochanan ben Nuri, com a ressalva de Rabá bar Rav Huná de que os Sábios só discordam dele quanto à impureza, não quanto ao Shabat — questionamento que permanece em aberto ao final do daf, com uma baraita citada apenas parcialmente, cuja continuação (a posição dos Sábios sobre o que conta como "pele") segue em 107b.
GUEMARÁ. Disse Rabi Abá, disse Rav Chiyá bar Ashí, disse Rav: se um pássaro entrou sob as dobras (asas) de sua roupa (e não consegue sair) — senta-se e o guarda até escurecer (e então o toma). Rav Nachman bar Yitzchak objetou, (com base) na mishná: sentou-se o primeiro na entrada e a preencheu, e veio o segundo e sentou-se ao seu lado; ainda que o primeiro se tenha levantado e ido embora — o primeiro está obrigado, e o segundo está isento. Isso não significa, acaso, isento mas proibido (a fazê-lo de início)? Não, isento e permitido. Assim também é razoável, pois foi ensinado na última cláusula: a que isto se assemelha? A quem fecha sua casa para guardá-la, e se constata que há um cervo guardado dentro dela — por inferência, isento e permitido! Aprenda disso (que é assim).
A guemará retoma exatamente de onde 106b parou, aprofundando a última mishná daquele daf. Rav ensina um caso análogo ao do cervo guardado dentro da casa fechada: se um pássaro voou para dentro das dobras da roupa de alguém e ficou preso ali sem conseguir escapar, o homem pode simplesmente sentar-se e mantê-lo preso (sem apertar as mãos sobre ele, o que seria uma captura ativa) até escurecer, quando o Shabat termina, e só então tomá-lo definitivamente — pois, enquanto isso, não está realizando a melachá de caçar, apenas evitando que o pássaro escape. Rav Nachman bar Yitzchak tenta objetar a partir da própria mishná (a mesma sobre sentar-se na entrada): talvez, quando a mishná diz que o segundo é "isento", isso signifique apenas isento a posteriori, mas proibido a se fazer de início — o que contradiria a permissão de Rav de agir assim desde o início com o pássaro. A guemará rejeita a objeção: não, o "isento" da mishná significa isento e permitido mesmo de início, como se infere da própria continuação da mishná, que compara o caso ao de alguém que tranca sua casa por outro motivo e por acaso encontra um cervo preso lá dentro — uma ação plenamente permitida.
"'GUEMARÁ: sob suas asas'" — sob as dobras de sua roupa, e não consegue sair, pois (a abertura) se fechou diante dele por si mesma. "'Senta-se e o guarda'" — assim (mesmo), e não precisa abrir-lhe uma janela (para libertá-lo), pois é apenas um guardião. "'A quem fecha sua casa'" — pois todo homem faz assim.
Há quem diga (outra versão deste diálogo). Disse Rav Nachman bar Yitzchak: nós também aprendemos isto (como apoio ao ensinamento de Rav): ainda que o primeiro se tenha levantado e ido embora — o primeiro está obrigado, e o segundo está isento. Isso não significa, acaso, isento e permitido? Não, isento mas proibido. Mas, pois foi ensinado na última cláusula: a que isto se assemelha? A quem fecha sua casa para guardá-la, e se constata que há um cervo guardado dentro dela — por inferência, isento e permitido. Aprenda disso (que é assim).
A guemará registra uma segunda versão do mesmo diálogo, com papéis ligeiramente diferentes: nesta versão, é o próprio Rav Nachman bar Yitzchak quem traz a mishná como apoio direto ao ensinamento de Rav, não como objeção. O percurso argumentativo, porém, é idêntico: primeiro se sugere que o "isento" da mishná poderia significar apenas isento mas proibido de início, e depois essa leitura é descartada com base na continuação da mishná (a comparação com quem tranca a casa por outro motivo), concluindo-se, mais uma vez, que se trata de isento e permitido desde o início — confirmando, assim, por dois caminhos diferentes, o ensinamento de Rav sobre o pássaro preso na roupa.
Disse Shmuel: todos os isentos do Shabat (são) isento mas proibido, exceto estes três, (que são) isento e permitido. Um é este (caso do cervo guardado); e de onde (se sabe) que é isento e permitido? Do que foi ensinado na última cláusula: a que isto se assemelha? A quem fecha sua casa para guardá-la, e se constata que há um cervo guardado dentro dela. E outro: quem rompe um abscesso no Shabat — se (o faz) para lhe fazer uma abertura, está obrigado; se (o faz) para tirar dele o pus, está isento. E de onde (se sabe) que é isento e permitido? Pois ensinamos: uma agulha de mão — (é permitido usá-la) para tirar com ela o espinho. E outro: quem caça uma cobra no Shabat — se se ocupa dela para que não o morda, está isento; se (o faz) para fins medicinais, está obrigado. E de onde (se sabe) que é isento e permitido? Pois ensinamos: viram-se uma tigela sobre a lâmpada para que (o fogo) não se agarre à viga, e sobre o excremento de uma criança, e sobre um escorpião, para que não morda.
Shmuel generaliza o princípio que acaba de ser estabelecido: como regra geral, todo caso "isento" no Shabat é isento apenas a posteriori, mas proibido de início pelos Sábios (para não banalizar a proibição) — com apenas três exceções conhecidas, em que a própria ação é plenamente permitida desde o início. A primeira é o caso do cervo (e, por extensão, do pássaro na roupa), já discutido. A segunda é romper um abscesso: se a intenção é criar uma abertura permanente (que dura), há a melachá de "construir uma abertura" ou "consertar um utensílio" (o corpo tratado como algo a reparar), e há obrigação; mas se a intenção é apenas aliviar a dor drenando o pus, sem se importar se o furo se fechar logo depois, não há reparo permanente, e a permissão vem por analogia com a agulha de costura, que a mishná (Kelim) permite mover especificamente para retirar um espinho da pele — mostrando que aliviar uma dor imediata é uma ação permitida de início. A terceira é capturar uma cobra: se o propósito é apenas se defender de uma mordida (sem interesse na cobra em si), é como espantar um perigo, não uma verdadeira "caça"; mas se o propósito é usá-la para fins medicinais, há interesse no animal capturado, e a ação conta como caça plena. A permissão nesse caso é comparada à mishná que permite virar uma tigela sobre uma lâmpada acesa (para que o fogo não alcance uma viga), sobre o excremento de uma criança (para evitar que se suje) ou sobre um escorpião (para que não morda) — todas ações protetivas permitidas de início, ainda que, como efeito colateral, "prendam" algo por baixo da tigela.
"'Quem rompe'" — quem racha um abscesso (kviturá). "'Se (o faz) para lhe fazer uma abertura'" — na Tosefta ensina-se assim: se (o faz) para descascá-lo e lhe fazer uma abertura, do modo como os médicos de agora fazem, pois (com isso) conserta-lhe uma abertura. "'Está obrigado'" — por (a melachá de) construir uma abertura, ou por (a melachá de) consertar um utensílio; que diferença faz consertar uma ferida ou consertar um utensílio? "'E se (o faz) para tirar o pus'" — o de agora, e não se importa se voltar a fechar-se logo. "'Isento'" — e permitido, pois não há aqui reparo, e os Sábios também não decretaram proibição rabínica nisso, por causa da dor. "'E uma agulha de mão'" — pode-se movê-la no Shabat. "'Para tirar com ela o espinho'" — e isto é semelhante ao pus, que lhe causa dor, e não se importa se se fechar logo; e diz-se que se pode mover de início uma agulha de mão — é a agulha com que se costuram roupas, e, por ser ensinada junto com a (agulha) de saco, (usada) para abrir com ela a porta, chama-se a esta de agulha "de mão". "'Tigela'" — de barro. "'Viram-se'" — de início, e não para apagar a lâmpada; e isto nos ensina que um utensílio pode ser movido para salvar algo que (em si) não pode ser movido no Shabat. "'Sobre um escorpião, para que não morda'" — ainda que, por si só, (o escorpião) acabe capturado.
MISHNÁ. Os oito répteis mencionados na Torá — quem os caça ou os fere está obrigado. E os demais insetos (impuros) e répteis (rastejantes) — quem os fere está isento; quem os caça por necessidade está obrigado; sem necessidade está isento. Um animal ou uma ave que estão em posse de alguém — quem os caça está isento, e quem os fere está obrigado.
Confirmado via Sefaria: com esta mishná encerra-se o Perek Yud-Guimel (HaOreg) — marcado pela fórmula do hadran, imediatamente antes, na mesma folha — e abre-se o Perek Yud-Dalet, chamado Shemoneh Sheratzim ("os oito répteis"), por suas palavras iniciais. Os "oito répteis mencionados na Torá" são a doninha, o rato, o sapo (ou variedade de lagarto), a lagartixa, o crocodilo-de-terra, o lagarto, o lesma-lagarto e o camaleão (Levítico 11:29–30) — a única categoria de pequenos animais rastejantes que a Torá considera transmissores de impureza tanto pela carne quanto, segundo uma opinião, pela pele. Por isso, tanto caçá-los quanto feri-los (produzindo sangramento sob a pele) obriga plenamente. Os demais insetos e répteis (vermes, cobras, escorpiões etc.) não têm essa pele diferenciada da carne, de modo que feri-los não produz a "ferida que não se refaz" (chaburá) exigida para a obrigação; caçá-los só obriga quando há um uso ou necessidade típica da espécie (como alimento ou remédio) — do contrário, é uma melachá "não necessária para si mesma", isenta segundo Rabi Shimon. Já um animal ou ave que já estão sob domínio humano (domesticados) já são considerados "capturados e parados" antes mesmo de serem apanhados — por isso caçá-los (pegá-los de fato) isenta —, mas feri-los ainda obriga plenamente, pois a ferida em si é a mesma melachá, independente do domínio sobre o animal.
"'MISHNÁ: os oito répteis'" — a doninha, o rato etc. (Levítico 11). "'Quem os caça'" — está obrigado, pois sua espécie costuma ser caçada. "'E quem os fere está obrigado'" — pois têm pele, como se explica na guemará, e é para ele uma ferida que não se refaz, e é para ele um derivado (toldá) de degolar — Levy; outra versão: já que têm pele, a pele se tinge com o sangue que se acumula nela, de modo que está obrigado por (a melachá de) tingir. "'E os demais insetos (impuros) e répteis'" — como vermes, cobras e escorpiões. "'Quem os fere está isento'" — pois não têm pele. "'Sem necessidade está isento'" — pois sua espécie não costuma ser caçada, e é uma melachá que não é necessária para si mesma, e é (segundo) Rabi Shimon, como se estabelece na guemará. "'Um animal ou ave que estão em posse de alguém'" — está isento se os caça, pois já estão capturados e parados. "'E quem os fere está obrigado'" — pois têm pele.
GUEMARÁ. Do fato de que foi ensinado "e quem os fere está obrigado" — por inferência, têm pele. Quem é o tanaíta (que ensina isto)? Disse Shmuel: é Rabi Yochanan ben Nuri, pois ensinamos: Rabi Yochanan ben Nuri diz: os oito répteis têm peles. Rabá bar Rav Huná disse, disse Rav: ainda que digas (que a mishná segue) os Sábios, até aqui os Sábios não discordam de Rabi Yochanan ben Nuri senão quanto à questão da impureza, pois está escrito: "estes são os impuros para vós", para incluir que suas peles são como sua carne; mas quanto à questão do Shabat — até os Sábios concordam.
A guemará observa que a própria formulação da mishná pressupõe que os oito répteis têm pele distinta da carne — pois só se é responsável por "ferir" quando há sangramento sob uma pele intacta (a chaburá). Shmuel identifica a fonte dessa mishná com a opinião individual de Rabi Yochanan ben Nuri, citada alhures (Massechet Chulin), que sustenta explicitamente que os oito répteis têm peles próprias — em contraste com a opinião dos Sábios, que, segundo se supunha, discordariam dele. Rabá bar Rav Huná, em nome de Rav, restringe o alcance dessa disputa: mesmo que se atribua a mishná aos Sábios (e não apenas a Rabi Yochanan ben Nuri), isso não é problema, pois a disputa entre eles e Rabi Yochanan ben Nuri, registrada em outro contexto, refere-se apenas à lei de impureza ritual — se a pele desses répteis transmite impureza como a carne (derivação do termo bíblico excedente "estes são os impuros") —, mas, quanto ao Shabat, todos concordam que essa pele existe fisicamente como camada distinta, e portanto, quanto à obrigação de ferir, não há disputa alguma.
"'GUEMARÁ: os oito répteis têm peles'" — e discorda dos Sábios, que dizem, no (capítulo) "HaOr VeHarotev", (que) a doninha (anaká), o camaleão (koach), o lagarto (letaá) e o caracol (chomet) — suas peles (também) transmitem impureza, do tamanho de uma lentilha, como sua carne; logo, estes quatro não têm pele (própria, distinta da carne). "'Estes são os impuros'" — está escrito depois de "e a anaká e o koach", e interpretamos o "hê" excedente de "hatmeim" para incluir que suas peles são como sua carne; e está escrito "estes" para excluir aqueles (mencionados) no primeiro versículo — a doninha, o rato e a tartaruga (tzav). "'Até os Sábios concordam'" — que (esses quatro) têm pele.
E quanto à questão do Shabat, (dizes que) não discordam?! Mas não foi ensinado (numa baraita): quem caça um dos oito répteis mencionados na Torá, ou quem os fere — está obrigado; palavras de Rabi Yochanan ben Nuri. E os Sábios dizem: não há pele senão (...)
Confirmado via Sefaria: o texto de 107a termina exatamente aqui, em meio à citação da baraita, sem Rashi próprio para este trecho (o comentário de Rashi sobre esta baraita, no manuscrito de Vilna, começa apenas em 107b). A guemará havia acabado de concluir, na peça anterior, que a disputa entre Rabi Yochanan ben Nuri e os Sábios se restringe à impureza, e que, quanto ao Shabat, ambos concordam que os oito répteis têm pele. Aqui, porém, ela traz uma objeção: existe uma baraita explícita que parece mostrar disputa também quanto ao Shabat — a baraita ensina que Rabi Yochanan ben Nuri obriga por ferir qualquer um dos oito répteis, "e os Sábios dizem: não há pele senão..." — e o texto é interrompido precisamente no ponto em que os Sábios especificariam para qual(is) dos oito répteis eles reconhecem a existência de pele diferenciada (presumivelmente, distinguindo entre os quatro primeiros e os quatro últimos da lista bíblica, de modo similar à disputa sobre impureza). A continuação dessa baraita — a posição exata dos Sábios sobre quais répteis têm pele para efeitos de Shabat, e a resolução final da aparente contradição com o ensinamento de Rabá bar Rav Huná — é o ponto de partida de Shabbat 107b.