Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Guimel (HaOreg) → Perek Yud-Dalet (Shemoneh Sheratzim)
שְׁמֹנָה שְׁרָצִים

Pássaro sob a asa da roupa; os três casos de "isento e permitido" de Shmuel; fim do Perek HaOreg; nova mishná e novo perek: os oito répteis da Torá

Shabbat 107a · continuação direta de 106b · Perek Yud-Guimel (HaOreg) até o hadran; a partir daí, Perek Yud-Dalet (Shemoneh Sheratzim)

Shabbat 107a abre continuando a guemará da última mishná de 106b, sobre sentar-se na entrada para bloqueá-la. Rav ensina que, se um pássaro entrou sob as dobras da roupa de alguém e não consegue sair, pode-se sentar e guardá-lo até escurecer, e então tomá-lo; Rav Nachman bar Yitzchak tenta objetar a partir da própria mishná, mas a objeção é refutada, e conclui-se (em duas versões do diálogo) que o caso é "isento e permitido" já de início, não apenas isento a posteriori. Shmuel generaliza: de todos os casos isentos do Shabat, que normalmente são "isento mas proibido", há apenas três exceções em que é "isento e permitido" — o cervo guardado pelo fechamento da casa, quem rompe um abscesso para tirar o pus (mas não para abrir uma boca permanente), e quem captura uma cobra apenas para não ser mordido (mas não para fins medicinais). Encerra-se aqui o Perek Yud-Guimel (HaOreg), com a fórmula do hadran. Abre-se então o Perek Yud-Dalet, chamado Shemoneh Sheratzim (Os Oito Répteis), com uma nova mishná: os oito répteis mencionados na Torá — quem os caça ou os fere está obrigado; os demais insetos e répteis — ferir isenta, caçar depende da necessidade; animal ou ave já em posse de alguém — caçar isenta, ferir obriga. A guemará infere da mishná que esses oito répteis têm pele própria, atribuindo o ensino a Rabi Yochanan ben Nuri, com a ressalva de Rabá bar Rav Huná de que os Sábios só discordam dele quanto à impureza, não quanto ao Shabat — questionamento que permanece em aberto ao final do daf, com uma baraita citada apenas parcialmente, cuja continuação (a posição dos Sábios sobre o que conta como "pele") segue em 107b.

Guemará (continuação): um pássaro sob a asa da roupa; a objeção de Rav Nachman bar Yitzchak · נִכְנְסָה לוֹ צִפּוֹר תַּחַת כְּנָפָיו

459Rav: pássaro sob a asa da roupa — senta-se e o guarda até escurecer. Objeção de Rav Nachman bar Yitzchak a partir da mishná; refutada: isento e permitido, como se infere da última cláusula (o cervo guardado)
Rabi Abá em nome de Rav Chiyá bar Ashí em nome de Rav; Rav Nachman bar Yitzchak
גְּמָ׳ אָמַר רַבִּי אַבָּא אָמַר רַב חִיָּיא בַּר אָשֵׁי אָמַר רַב: נִכְנְסָה לוֹ צִפּוֹר תַּחַת כְּנָפָיו — יוֹשֵׁב וּמְשַׁמְּרָהּ עַד שֶׁתֶּחְשַׁךְ. מֵתִיב רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: יָשַׁב הָרִאשׁוֹן עַל הַפֶּתַח וּמִלְּאָהוּ, וּבָא הַשֵּׁנִי וְיָשַׁב בְּצִדּוֹ, אַף עַל פִּי שֶׁעָמַד הָרִאשׁוֹן וְהָלַךְ לוֹ — הָרִאשׁוֹן חַיָּיב וְהַשֵּׁנִי פָּטוּר. מַאי לָאו, פָּטוּר אֲבָל אָסוּר? לָא, פָּטוּר וּמוּתָּר. הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא, מִדְּקָתָנֵי סֵיפָא: לְמָה זֶה דּוֹמֶה — לְנוֹעֵל אֶת בֵּיתוֹ לְשׁוֹמְרוֹ וְנִמְצָא צְבִי שָׁמוּר בְּתוֹכוֹ, מִכְּלָל דְּפָטוּר וּמוּתָּר! שְׁמַע מִינַּהּ.

GUEMARÁ. Disse Rabi Abá, disse Rav Chiyá bar Ashí, disse Rav: se um pássaro entrou sob as dobras (asas) de sua roupa (e não consegue sair) — senta-se e o guarda até escurecer (e então o toma). Rav Nachman bar Yitzchak objetou, (com base) na mishná: sentou-se o primeiro na entrada e a preencheu, e veio o segundo e sentou-se ao seu lado; ainda que o primeiro se tenha levantado e ido embora — o primeiro está obrigado, e o segundo está isento. Isso não significa, acaso, isento mas proibido (a fazê-lo de início)? Não, isento e permitido. Assim também é razoável, pois foi ensinado na última cláusula: a que isto se assemelha? A quem fecha sua casa para guardá-la, e se constata que há um cervo guardado dentro dela — por inferência, isento e permitido! Aprenda disso (que é assim).

Nota

A guemará retoma exatamente de onde 106b parou, aprofundando a última mishná daquele daf. Rav ensina um caso análogo ao do cervo guardado dentro da casa fechada: se um pássaro voou para dentro das dobras da roupa de alguém e ficou preso ali sem conseguir escapar, o homem pode simplesmente sentar-se e mantê-lo preso (sem apertar as mãos sobre ele, o que seria uma captura ativa) até escurecer, quando o Shabat termina, e só então tomá-lo definitivamente — pois, enquanto isso, não está realizando a melachá de caçar, apenas evitando que o pássaro escape. Rav Nachman bar Yitzchak tenta objetar a partir da própria mishná (a mesma sobre sentar-se na entrada): talvez, quando a mishná diz que o segundo é "isento", isso signifique apenas isento a posteriori, mas proibido a se fazer de início — o que contradiria a permissão de Rav de agir assim desde o início com o pássaro. A guemará rejeita a objeção: não, o "isento" da mishná significa isento e permitido mesmo de início, como se infere da própria continuação da mishná, que compara o caso ao de alguém que tranca sua casa por outro motivo e por acaso encontra um cervo preso lá dentro — uma ação plenamente permitida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "tachat knafav", "yoshev umeshamrah" e "lenoel et beito"
גמ' תחת כנפיו - תחת כנפי כסותו ואין יכול לצאת שננעל בפניו מאליו: יושב ומשמרו - כן ואינו צריך לפתוח לו חלון דאינו אלא שומר: לנועל את ביתו - דכל אדם עושין כן:

"'GUEMARÁ: sob suas asas'" — sob as dobras de sua roupa, e não consegue sair, pois (a abertura) se fechou diante dele por si mesma. "'Senta-se e o guarda'" — assim (mesmo), e não precisa abrir-lhe uma janela (para libertá-lo), pois é apenas um guardião. "'A quem fecha sua casa'" — pois todo homem faz assim.

460Outra versão: Rav Nachman bar Yitzchak apresenta a mesma mishná como prova (não objeção); mesma conclusão — isento e permitido, a partir da última cláusula
Rav Nachman bar Yitzchak (outra versão)
אִיכָּא דְּאָמְרִי, אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: אַף אֲנַן נָמֵי תְּנֵינָא: אַף עַל פִּי שֶׁעָמַד הָרִאשׁוֹן וְהָלַךְ לוֹ — הָרִאשׁוֹן חַיָּיב וְהַשֵּׁנִי פָּטוּר, מַאי לָאו פָּטוּר וּמוּתָּר? לָא, פָּטוּר אֲבָל אָסוּר. הָא מִדְּקָתָנֵי סֵיפָא: הָא לְמָה זֶה דּוֹמֶה — לְנוֹעֵל אֶת בֵּיתוֹ לְשׁוֹמְרוֹ, וְנִמְצָא צְבִי שָׁמוּר בְּתוֹכוֹ, מִכְּלָל דְּפָטוּר וּמוּתָּר. שְׁמַע מִינַּהּ.

Há quem diga (outra versão deste diálogo). Disse Rav Nachman bar Yitzchak: nós também aprendemos isto (como apoio ao ensinamento de Rav): ainda que o primeiro se tenha levantado e ido embora — o primeiro está obrigado, e o segundo está isento. Isso não significa, acaso, isento e permitido? Não, isento mas proibido. Mas, pois foi ensinado na última cláusula: a que isto se assemelha? A quem fecha sua casa para guardá-la, e se constata que há um cervo guardado dentro dela — por inferência, isento e permitido. Aprenda disso (que é assim).

Nota

A guemará registra uma segunda versão do mesmo diálogo, com papéis ligeiramente diferentes: nesta versão, é o próprio Rav Nachman bar Yitzchak quem traz a mishná como apoio direto ao ensinamento de Rav, não como objeção. O percurso argumentativo, porém, é idêntico: primeiro se sugere que o "isento" da mishná poderia significar apenas isento mas proibido de início, e depois essa leitura é descartada com base na continuação da mishná (a comparação com quem tranca a casa por outro motivo), concluindo-se, mais uma vez, que se trata de isento e permitido desde o início — confirmando, assim, por dois caminhos diferentes, o ensinamento de Rav sobre o pássaro preso na roupa.

461Shmuel: todos os isentos do Shabat são "isento mas proibido", exceto três — o cervo guardado, quem rompe abscesso para tirar o pus, e quem captura cobra para não ser mordido
Shmuel
אָמַר שְׁמוּאֵל: כֹּל פְּטוּרֵי דְשַׁבָּת פָּטוּר אֲבָל אָסוּר, לְבַר מֵהָנֵי תְּלָת דְּפָטוּר וּמוּתָּר: חֲדָא הָא, וּמִמַּאי דְּפָטוּר וּמוּתָּר? — דְּקָתָנֵי סֵיפָא לְמָה זֶה דּוֹמֶה — לְנוֹעֵל אֶת בֵּיתוֹ לְשׁוֹמְרוֹ, וְנִמְצָא צְבִי שָׁמוּר בְּתוֹכוֹ. וְאִידַּךְ: הַמֵּפִיס מוּרְסָא בְּשַׁבָּת, אִם לַעֲשׂוֹת לָהּ פֶּה — חַיָּיב, אִם לְהוֹצִיא מִמֶּנָּה לֵחָה — פָּטוּר. וּמִמַּאי דְּפָטוּר וּמוּתָּר? דִּתְנַן: מַחַט שֶׁל יָד — לִיטּוֹל בָּהּ אֶת הַקּוֹץ. וְאִידַּךְ: הַצָּד נָחָשׁ בְּשַׁבָּת, אִם מִתְעַסֵּק בּוֹ שֶׁלֹּא יִשְּׁכֶנּוּ — פָּטוּר, אִם לִרְפוּאָה — חַיָּיב, וּמִמַּאי דְּפָטוּר וּמוּתָּר? — דִּתְנַן: כּוֹפִין קְעָרָה עַל הַנֵּר בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא תֶּאֱחוֹז בַּקּוֹרָה, וְעַל צוֹאָה שֶׁל קָטָן, וְעַל עַקְרָב שֶׁלֹּא תִּישֹּׁךְ.

Disse Shmuel: todos os isentos do Shabat (são) isento mas proibido, exceto estes três, (que são) isento e permitido. Um é este (caso do cervo guardado); e de onde (se sabe) que é isento e permitido? Do que foi ensinado na última cláusula: a que isto se assemelha? A quem fecha sua casa para guardá-la, e se constata que há um cervo guardado dentro dela. E outro: quem rompe um abscesso no Shabat — se (o faz) para lhe fazer uma abertura, está obrigado; se (o faz) para tirar dele o pus, está isento. E de onde (se sabe) que é isento e permitido? Pois ensinamos: uma agulha de mão — (é permitido usá-la) para tirar com ela o espinho. E outro: quem caça uma cobra no Shabat — se se ocupa dela para que não o morda, está isento; se (o faz) para fins medicinais, está obrigado. E de onde (se sabe) que é isento e permitido? Pois ensinamos: viram-se uma tigela sobre a lâmpada para que (o fogo) não se agarre à viga, e sobre o excremento de uma criança, e sobre um escorpião, para que não morda.

Nota

Shmuel generaliza o princípio que acaba de ser estabelecido: como regra geral, todo caso "isento" no Shabat é isento apenas a posteriori, mas proibido de início pelos Sábios (para não banalizar a proibição) — com apenas três exceções conhecidas, em que a própria ação é plenamente permitida desde o início. A primeira é o caso do cervo (e, por extensão, do pássaro na roupa), já discutido. A segunda é romper um abscesso: se a intenção é criar uma abertura permanente (que dura), há a melachá de "construir uma abertura" ou "consertar um utensílio" (o corpo tratado como algo a reparar), e há obrigação; mas se a intenção é apenas aliviar a dor drenando o pus, sem se importar se o furo se fechar logo depois, não há reparo permanente, e a permissão vem por analogia com a agulha de costura, que a mishná (Kelim) permite mover especificamente para retirar um espinho da pele — mostrando que aliviar uma dor imediata é uma ação permitida de início. A terceira é capturar uma cobra: se o propósito é apenas se defender de uma mordida (sem interesse na cobra em si), é como espantar um perigo, não uma verdadeira "caça"; mas se o propósito é usá-la para fins medicinais, há interesse no animal capturado, e a ação conta como caça plena. A permissão nesse caso é comparada à mishná que permite virar uma tigela sobre uma lâmpada acesa (para que o fogo não alcance uma viga), sobre o excremento de uma criança (para evitar que se suje) ou sobre um escorpião (para que não morda) — todas ações protetivas permitidas de início, ainda que, como efeito colateral, "prendam" algo por baixo da tigela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hameffis", "im la'asot lah peh", "chayav", "im lehotzi lecha", "patur", "umachat shel yad", "litol bah et hakotz", "ke'ará", "kofin" e "al akrav shelo tishoch"
המפיס - מבקע מורסא קויטור"א: אם לעשות לה פה - בתוספתא תני הכי אם לקולפה ולעשות לה פה כדרך שרופאים של עכשיו עושין דמתקן לה פתח: חייב - משום בונה פתח או משום מתקן כלי מה לי לתקן מכה מה לי לתקן כלי: ואם להוציא לחה - של עכשיו ואינו חושש אם תחזור ותסתום מיד: פטור - ומותר דאין כאן תיקון ורבנן נמי לא גזור בה שבות משום צערא: ומחט של יד - ניטלת בשבת: ליטול בה את הקוץ - והיינו דומיא דלחה דמצער ליה ואינו חושש אם יסתם מיד וקאמר ניטלת לכתחילה מחט של יד היא מחט שתופרין בה בגדים ומשום דקתני בהדה ושל שק לפתוח בה את הדלת קרי לה להאי מחט של יד: קערה - של חרס: כופין - לכתחילה ולא שיכבה את הנר ואשמעינן דכלי ניטל להצלת דבר שאינו ניטל בשבת: על עקרב שלא תשוך - ואע"ג דממילא מתציד:

"'Quem rompe'" — quem racha um abscesso (kviturá). "'Se (o faz) para lhe fazer uma abertura'" — na Tosefta ensina-se assim: se (o faz) para descascá-lo e lhe fazer uma abertura, do modo como os médicos de agora fazem, pois (com isso) conserta-lhe uma abertura. "'Está obrigado'" — por (a melachá de) construir uma abertura, ou por (a melachá de) consertar um utensílio; que diferença faz consertar uma ferida ou consertar um utensílio? "'E se (o faz) para tirar o pus'" — o de agora, e não se importa se voltar a fechar-se logo. "'Isento'" — e permitido, pois não há aqui reparo, e os Sábios também não decretaram proibição rabínica nisso, por causa da dor. "'E uma agulha de mão'" — pode-se movê-la no Shabat. "'Para tirar com ela o espinho'" — e isto é semelhante ao pus, que lhe causa dor, e não se importa se se fechar logo; e diz-se que se pode mover de início uma agulha de mão — é a agulha com que se costuram roupas, e, por ser ensinada junto com a (agulha) de saco, (usada) para abrir com ela a porta, chama-se a esta de agulha "de mão". "'Tigela'" — de barro. "'Viram-se'" — de início, e não para apagar a lâmpada; e isto nos ensina que um utensílio pode ser movido para salvar algo que (em si) não pode ser movido no Shabat. "'Sobre um escorpião, para que não morda'" — ainda que, por si só, (o escorpião) acabe capturado.

הַדְרָן עֲלָךְ הָאוֹרֵג
Voltaremos a ti, HaOreg — encerra-se aqui o Perek Yud-Guimel, começado em 105a

Novo perek, nova mishná: os oito répteis mencionados na Torá · שְׁמֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִים בַּתּוֹרָה

462Mishná: os oito répteis da Torá — caçar ou ferir obriga. Demais insetos e répteis — ferir isenta; caçar obriga se por necessidade, isenta se sem necessidade. Animal ou ave em posse de alguém — caçar isenta, ferir obriga
Mishná — abertura do Perek Yud-Dalet, Shemoneh Sheratzim
מַתְנִי׳ שְׁמֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִים בַּתּוֹרָה, הַצָּדָן וְהַחוֹבֵל בָּהֶן חַיָּיב, וּשְׁאָר שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים, הַחוֹבֵל בָּהֶן פָּטוּר, הַצָּדָן לְצוֹרֶךְ — חַיָּיב, שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ — פָּטוּר. חַיָּה וָעוֹף שֶׁבִּרְשׁוּתוֹ, הַצָּדָן — פָּטוּר, וְהַחוֹבֵל בָּהֶן — חַיָּיב.

MISHNÁ. Os oito répteis mencionados na Torá — quem os caça ou os fere está obrigado. E os demais insetos (impuros) e répteis (rastejantes) — quem os fere está isento; quem os caça por necessidade está obrigado; sem necessidade está isento. Um animal ou uma ave que estão em posse de alguém — quem os caça está isento, e quem os fere está obrigado.

Nota — novo perek e nova mishná

Confirmado via Sefaria: com esta mishná encerra-se o Perek Yud-Guimel (HaOreg) — marcado pela fórmula do hadran, imediatamente antes, na mesma folha — e abre-se o Perek Yud-Dalet, chamado Shemoneh Sheratzim ("os oito répteis"), por suas palavras iniciais. Os "oito répteis mencionados na Torá" são a doninha, o rato, o sapo (ou variedade de lagarto), a lagartixa, o crocodilo-de-terra, o lagarto, o lesma-lagarto e o camaleão (Levítico 11:29–30) — a única categoria de pequenos animais rastejantes que a Torá considera transmissores de impureza tanto pela carne quanto, segundo uma opinião, pela pele. Por isso, tanto caçá-los quanto feri-los (produzindo sangramento sob a pele) obriga plenamente. Os demais insetos e répteis (vermes, cobras, escorpiões etc.) não têm essa pele diferenciada da carne, de modo que feri-los não produz a "ferida que não se refaz" (chaburá) exigida para a obrigação; caçá-los só obriga quando há um uso ou necessidade típica da espécie (como alimento ou remédio) — do contrário, é uma melachá "não necessária para si mesma", isenta segundo Rabi Shimon. Já um animal ou ave que já estão sob domínio humano (domesticados) já são considerados "capturados e parados" antes mesmo de serem apanhados — por isso caçá-los (pegá-los de fato) isenta —, mas feri-los ainda obriga plenamente, pois a ferida em si é a mesma melachá, independente do domínio sobre o animal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shemonah sheratzim", "hatzadan", "vehachovel bahen chayav", "ushe'ar shekatzim", "hachovel bahen patur", "shelo letzorech patur", "chaya va'of shebirshuto" e "vehachovel bahen chayav"
מתני' שמנה שרצים - החולד והעכבר וגו' (ויקרא יא): הצדן - חייב שבמינו ניצוד: והחובל בהן חייב - דיש להן עור כדמפרש בגמרא והויא ליה חבורה שאינה חוזרת והויא ליה תולדה דשוחט. לוי"ה. ל"א כיון דיש להן עור נצבע העור בדם הנצרר בו דחייב משום צובע: ושאר שקצים ורמשים - כגון תולעת ונחשים ועקרבים: החובל בהן פטור - דאין להם עור: שלא לצורך פטור - דאין במינו ניצוד והויא מלאכה שאינה צריכה לגופה ור' שמעון היא כדמוקי לה בגמ': חיה ועוף שברשותו - פטור אם צדן שהרי ניצודין ועומדין: והחובל בהן חייב - דיש להן עור:

"'MISHNÁ: os oito répteis'" — a doninha, o rato etc. (Levítico 11). "'Quem os caça'" — está obrigado, pois sua espécie costuma ser caçada. "'E quem os fere está obrigado'" — pois têm pele, como se explica na guemará, e é para ele uma ferida que não se refaz, e é para ele um derivado (toldá) de degolar — Levy; outra versão: já que têm pele, a pele se tinge com o sangue que se acumula nela, de modo que está obrigado por (a melachá de) tingir. "'E os demais insetos (impuros) e répteis'" — como vermes, cobras e escorpiões. "'Quem os fere está isento'" — pois não têm pele. "'Sem necessidade está isento'" — pois sua espécie não costuma ser caçada, e é uma melachá que não é necessária para si mesma, e é (segundo) Rabi Shimon, como se estabelece na guemará. "'Um animal ou ave que estão em posse de alguém'" — está isento se os caça, pois já estão capturados e parados. "'E quem os fere está obrigado'" — pois têm pele.

Guemará: as peles dos oito répteis — Rabi Yochanan ben Nuri e os Sábios · מִכְּלָל דְּאִית לְהוּ עוֹר

463Da mishná se infere que os oito répteis têm pele — de quem é este ensino? Shmuel: Rabi Yochanan ben Nuri. Rabá bar Rav Huná em nome de Rav: mesmo pelos Sábios — só discordam quanto à impureza, não quanto ao Shabat
Shmuel; Rabá bar Rav Huná em nome de Rav
גְּמָ׳ מִדְּקָתָנֵי ״הַחוֹבֵל בָּהֶן חַיָּיב״ מִכְּלָל דְּאִית לְהוּ עוֹר. מַאן תַּנָּא? אָמַר שְׁמוּאֵל: רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי הִיא, דִּתְנַן, רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי אוֹמֵר: שְׁמֹנָה שְׁרָצִים יֵשׁ לָהֶן עוֹרוֹת. רַבָּה בַּר רַב הוּנָא אָמַר רַב: אֲפִילּוּ תֵּימָא רַבָּנַן, עַד כָּאן לָא פְּלִיגִי רַבָּנַן עֲלֵיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי אֶלָּא לְעִנְיַן טוּמְאָה, דִּכְתִיב: ״אֵלֶּה הַטְּמֵאִים לָכֶם״, לְרַבּוֹת שֶׁעוֹרוֹתֵיהֶן כִּבְשָׂרָן, אֲבָל לְעִנְיַן שַׁבָּת — אֲפִילּוּ רַבָּנַן מוֹדוּ.

GUEMARÁ. Do fato de que foi ensinado "e quem os fere está obrigado" — por inferência, têm pele. Quem é o tanaíta (que ensina isto)? Disse Shmuel: é Rabi Yochanan ben Nuri, pois ensinamos: Rabi Yochanan ben Nuri diz: os oito répteis têm peles. Rabá bar Rav Huná disse, disse Rav: ainda que digas (que a mishná segue) os Sábios, até aqui os Sábios não discordam de Rabi Yochanan ben Nuri senão quanto à questão da impureza, pois está escrito: "estes são os impuros para vós", para incluir que suas peles são como sua carne; mas quanto à questão do Shabat — até os Sábios concordam.

Nota

A guemará observa que a própria formulação da mishná pressupõe que os oito répteis têm pele distinta da carne — pois só se é responsável por "ferir" quando há sangramento sob uma pele intacta (a chaburá). Shmuel identifica a fonte dessa mishná com a opinião individual de Rabi Yochanan ben Nuri, citada alhures (Massechet Chulin), que sustenta explicitamente que os oito répteis têm peles próprias — em contraste com a opinião dos Sábios, que, segundo se supunha, discordariam dele. Rabá bar Rav Huná, em nome de Rav, restringe o alcance dessa disputa: mesmo que se atribua a mishná aos Sábios (e não apenas a Rabi Yochanan ben Nuri), isso não é problema, pois a disputa entre eles e Rabi Yochanan ben Nuri, registrada em outro contexto, refere-se apenas à lei de impureza ritual — se a pele desses répteis transmite impureza como a carne (derivação do termo bíblico excedente "estes são os impuros") —, mas, quanto ao Shabat, todos concordam que essa pele existe fisicamente como camada distinta, e portanto, quanto à obrigação de ferir, não há disputa alguma.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shemonah sheratzim yesh lahen orot", "eleh hatmeim" e "afilu Rabanan modu"
גמ' שמונה שרצים יש להן עורות - ופליג אדרבנן דאמרי בהעור והרוטב האנקה הכח והלטאה והחומט עורותיהן מטמאין בכעדשה כבשרן אלמא הני ארבעה לית להו עור: אלה הטמאים - בתר והאנקה והכח כתיב ודרשינן ה' יתירה דהטמאים לרבות שעורותיהן כבשרן וכתיב אלה למעוטי הנך דקרא קמא החולד והעכבר והצב: אפילו רבנן מודו - דיש להן עור:

"'GUEMARÁ: os oito répteis têm peles'" — e discorda dos Sábios, que dizem, no (capítulo) "HaOr VeHarotev", (que) a doninha (anaká), o camaleão (koach), o lagarto (letaá) e o caracol (chomet) — suas peles (também) transmitem impureza, do tamanho de uma lentilha, como sua carne; logo, estes quatro não têm pele (própria, distinta da carne). "'Estes são os impuros'" — está escrito depois de "e a anaká e o koach", e interpretamos o "hê" excedente de "hatmeim" para incluir que suas peles são como sua carne; e está escrito "estes" para excluir aqueles (mencionados) no primeiro versículo — a doninha, o rato e a tartaruga (tzav). "'Até os Sábios concordam'" — que (esses quatro) têm pele.

464A guemará objeta: mas também quanto ao Shabat há uma baraita em que discordam! Uma baraita é citada (Rabi Yochanan ben Nuri obriga; os Sábios: pele só...) — texto interrompido, continua em 107b
A Guemará (baraita citada, incompleta)
וּלְעִנְיַן שַׁבָּת לָא פְּלִיגִי?! וְהָתַנְיָא: הַצָּד אֶחָד מִשְּׁמֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִים בַּתּוֹרָה, הַחוֹבֵל בָּהֶן — חַיָּיב, דִּבְרֵי רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: אֵין עוֹר אֶלָּא

E quanto à questão do Shabat, (dizes que) não discordam?! Mas não foi ensinado (numa baraita): quem caça um dos oito répteis mencionados na Torá, ou quem os fere — está obrigado; palavras de Rabi Yochanan ben Nuri. E os Sábios dizem: não há pele senão (...)

Nota — o daf termina em meio à baraita

Confirmado via Sefaria: o texto de 107a termina exatamente aqui, em meio à citação da baraita, sem Rashi próprio para este trecho (o comentário de Rashi sobre esta baraita, no manuscrito de Vilna, começa apenas em 107b). A guemará havia acabado de concluir, na peça anterior, que a disputa entre Rabi Yochanan ben Nuri e os Sábios se restringe à impureza, e que, quanto ao Shabat, ambos concordam que os oito répteis têm pele. Aqui, porém, ela traz uma objeção: existe uma baraita explícita que parece mostrar disputa também quanto ao Shabat — a baraita ensina que Rabi Yochanan ben Nuri obriga por ferir qualquer um dos oito répteis, "e os Sábios dizem: não há pele senão..." — e o texto é interrompido precisamente no ponto em que os Sábios especificariam para qual(is) dos oito répteis eles reconhecem a existência de pele diferenciada (presumivelmente, distinguindo entre os quatro primeiros e os quatro últimos da lista bíblica, de modo similar à disputa sobre impureza). A continuação dessa baraita — a posição exata dos Sábios sobre quais répteis têm pele para efeitos de Shabat, e a resolução final da aparente contradição com o ensinamento de Rabá bar Rav Huná — é o ponto de partida de Shabbat 107b.