Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Guimel · Halachá 2
שַׁבָּת

Os liços, as peneiras e a costura de dois pontos

Perek Yud-Guimel, HaOreg, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg. A Mishná ensina que quem faz dois liços, nos fios do liço, no keiros, na peneira fina, na peneira grossa ou no cesto, é culpado, e também quem costura dois pontos e quem rasga a fim de costurar dois pontos. A guemará, muito breve, explica as palavras nirin e keiros com os seus nomes aramaico e grego, e traz a palavra de Rabi Ba, Rav Yirmeyá em nome de Rav: quem estica os lados da costura no Shabat é culpado por causa de “o que costura”, com a pergunta, trazida da halachá 7:2, por que não também por causa de “o que amarra”. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 105a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הָעוֹשֶׂה שְׁנֵי בָתֵּי נִירִין בַּנִּירִין וּבַקֵּירוֹס וּבַנָּפָה וּבַכְּבָרָה וּבַסַּל חַיָיב. הַתּוֹפֵר שְׁתֵּי תְפִירוֹת וְהַקּוֹרֵעַ עַל מְנָת לִתְפּוֹר שְׁתֵּי תְפִירוֹת:

Mishná: Quem faz dois batei nirin (liços; literalmente, as casas dos nirin) nos nirin (os fios que formam o liço), e no keiros (palavra de sentido incerto, talvez grega), e na nafá (peneira fina), e na kevará (peneira grossa), e no sal (cesto), é culpado. Quem costura dois pontos, e quem rasga a fim de costurar dois pontos, também é culpado.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Nirin e keiros; quem estica os lados da costura
Yerushalmi · Shabbat 13:2
ב׳. בַּנִּירִין. נִירַיָּא. בַּקֵּירוֹס. קַירוֹמָה. רִבִּי בָּא רַב יִרְמְיָה בְשֵׁם רַב. הַמְמַתֵּחַ צְדָדָיו בַּשַּׁבָּת חַיָיב מִשּׁוּם תּוֹפֵר. נֵימַר. מִשּׁוּם תּוֹפֵר וּמִשּׁוּם קוֹשֵׁר.

“Nos nirin”: são os niraya (a mesma palavra, em aramaico). “No keiros”: é o kayroma (o arranjo dos fios, em grego). Rabi Ba, Rav Yirmeyá em nome de Rav: quem estica os lados da costura no Shabat é culpado por causa de “o que costura”. Que se diga então: por causa de “o que costura” e por causa de “o que amarra”!

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 13:2 da Mishná avulsa, que vai de “quem faz dois liços” até “a fim de costurar dois pontos”, como antecipou a nota da halachá 13:1. A Mishná seguinte, Shabbat 13:3, que começa com “quem rasga na sua ira e pelo seu morto” (הַקּוֹרֵעַ בַּחֲמָתוֹ וְעַל מֵתוֹ), é a da halachá 13:3. Há diferenças de leitura: o Yerushalmi liga os cinco lugares com “e” (וּבַקֵּירוֹס וּבַנָּפָה וּבַכְּבָרָה), onde a Mishná avulsa os enumera sem “e” até o último (בַּקֵּרוֹס, בַּנָּפָה, בַּכְּבָרָה וּבַסַּל); e o Yerushalmi começa a segunda frase com “quem costura” (הַתּוֹפֵר), onde a avulsa diz “e quem costura” (וְהַתּוֹפֵר); o sentido é o mesmo. A Mishná do Bavli, em Shabbat 105a, diz “nos nirim” (בנירים), com mem final. As demais diferenças são de grafia: o Yerushalmi escreve קֵּירוֹס com yod, חַיָיב e לִתְפּוֹר, onde a avulsa escreve קֵּרוֹס, חַיָּב e לִתְפֹּר. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é a guemará, que corresponde à seção 01. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; conservamos o marcador “ב׳.”, que indica que a guemará trata da segunda Mishná do capítulo. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses, nem marcadores de folha das edições de Veneza e de Vilna.

Referências conferidas. Os mesmos ofícios estão na lista das avot melachot da Mishná Shabbat 7:2: “o que faz dois liços”, “o que costura dois pontos” e “o que rasga a fim de costurar dois pontos”. A palavra de Rabi Ba, Rav Yirmeyá em nome de Rav, vem do Yerushalmi Shabbat 7:2, segmento 49 na numeração do Sefaria (a seção 48 da nossa halachá 7:2), onde está ligada à discussão sobre quantos pontos fazem costura: lá, Rabi Yona e Rabi Yossi dizem que o fio só é ligação quando está amarrado dos dois lados, e a guemará diz que “as palavras dos rabinos discordam”, trazendo a palavra de Rav; segundo o Penei Moshe, a pergunta é esta: se quem costura só é culpado quando amarrou as pontas do fio, Rav deveria dizer “por causa de ‘o que costura’ e por causa de ‘o que amarra’”. Lá o hebraico diz נֹאמַר, e aqui o aramaico נֵימַר, com o mesmo sentido. O Penei Moshe e o Korban HaEdá observam que a pergunta só tem lugar lá, e que aqui o trecho veio junto com a palavra de Rav, à maneira do Yerushalmi, que se apoia no que foi dito em outro lugar. No Bavli, Shabbat 75a, Rav Zutra bar Toviya diz em nome de Rav: “quem estica o fio da costura no Shabat é culpado de uma chatat”; Guggenheimer remete a “Babli 95a”, e o lugar é 75a, e corrigimos. Assim decide o Rambam, Hilchot Shabbat 10:9: quem costura dois pontos é culpado se amarrou as pontas do fio dos dois lados, e “quem estica o fio da costura no Shabat é culpado, porque isso é das necessidades da costura”. No Bavli, Shabbat 105a, sobre a nossa Mishná, Abaye explica “nos nirim”: “dois na casa do liço e um no liço”, e Rav explica “no keiros”: “é a metzuvita”. Não encontramos paralelo desta halachá na Tosefta Shabbat, nem na numeração Lieberman nem na do Sefaria.

Observações de leitura. O sentido exato das palavras do tear é incerto, e os comentaristas se dividem. Rashi, no Bavli, e o Korban HaEdá dizem que os batei nirin são os fios da urdidura passados pelo liço, que em francês antigo se chama lices: o fio é passado duas vezes pela casa do liço e uma terceira vez pelo fio do liço preso à vara; o keiros, para Rashi, é a peça que, no tear de pedal dos tecelões, faz o papel da vara que sobe e desce no tear das mulheres; e na peneira fina, na peneira grossa e no cesto não há liços de verdade, mas um fio da trama passado por baixo e por cima dos fios da urdidura. O Penei Moshe lê de outro modo: os batei nirin são malhas de um trançado, feitas como pequenas casas; uns as fazem de fios ou cordões, outros de keiros, que ele entende como uma fibra vegetal mole e úmida, e assim também na peneira e no cesto. Na guemará, niraya é a forma aramaica de nirin, como observa Guggenheimer, e o Penei Moshe só diz que tem o sentido simples, fios. Kayroma é, para Guggenheimer, o grego kairōma, o arranjo dos fios no tear, e keiros o grego kairos, a fileira dos fios; o Korban HaEdá repete aqui a explicação de Rashi e traz, em nome do Aruch, outra leitura, um utensílio tecido de fibra, que serve para coar. Não decidimos entre essas leituras, e por isso a glosa do keiros diz apenas que o sentido é incerto e que a palavra talvez seja grega, como pensa Guggenheimer; o Penei Moshe a aproxima de uma palavra aramaica para as plantas dos pântanos. “Quem estica os lados” é, para o Korban HaEdá, quem, quando os fios da costura se soltaram, puxa as pontas do pano para apertá-los; para o Penei Moshe, quem estica o fio que se encolheu na costura; os dois concordam que é culpado por “o que costura”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer traduz “two mashes”, “cross-pieces”, “thrums” e “for a fine or coarse sieve”; o hebraico diz “na peneira fina e na peneira grossa” (וּבַנָּפָה וּבַכְּבָרָה), e assim traduzimos, com as glosas acima. Na guemará, ele traduz o verbo por “straightens out” e נֵימַר por “he should have said”; o hebraico diz “estica” e “que se diga”, e assim traduzimos, como na halachá 7:2. Ele escreve “Rebbi Abba” e “Rav Jeremiah”; mantivemos “Rabi Ba” e “Rav Yirmeyá”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site, e em especial na halachá 7:2, onde a mesma palavra aparece.