Shabbat 105a abre concluindo a baraita interrompida no fim de 104b: quem teve a intenção de escrever uma única letra, mas saíram-lhe duas — está obrigado; a guemará resolve a aparente contradição com a mishná distinguindo entre letras que ainda precisam de coroas (isento) e letras que não precisam (obrigado). Em seguida, a guemará retorna à última cláusula da mishná anterior, sobre a abreviação por notarikon, e traz o ensinamento de Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei ben Zimrá: a linguagem de notarikon já é empregada na própria Torá, a partir do nome "Avraham", contraído da expressão "pai de multidão de nações". Seguem-se vários outros exemplos de notarikon trazidos por diferentes sábios: a palavra "anochi", que abre os Dez Mandamentos, segundo Rabi Yochanan e segundo os Sábios, inclusive lida de trás para frente; o caminho que "se desviou" diante do burro de Bilam; a palavra "carmel"; e a maldição de Shimi ben Gera contra o rei David, lida como cinco acusações. Rav Nachman bar Yitzchak acrescenta a resposta de Yehudá a Yossef como último exemplo. Uma nova mishná — a última do Perek Yud-Bet, HaBoneh — trata de quem escreve duas letras em dois lapsos de consciência distintos, um de manhã e um à tarde: Rabán Gamliel considera obrigado, e os Sábios isentam; a guemará explica que a disputa depende de se há, ou não, efeito de conhecimento para metade da medida de um trabalho proibido. Encerra-se então o Perek Yud-Bet com a fórmula do hadran. Abre-se, na mesma folha, o Perek Yud-Gimel, HaOreg ("o que tece"), com uma nova mishná sobre a medida mínima de tecer no Shabat: Rabi Eliezer exige três fios no início de um tecido novo, ou um fio sobre um tecido já existente; os Sábios exigem dois fios em ambos os casos. A mishná trata também de quem faz duas malhas de urdidura, e de quem costura ou rasga para costurar dois pontos. A guemará traz a tradição de Rabi Yitzchak sobre a medida de dois fios, resolvida pela distinção entre fios grossos e finos; duas baraitot sobre a medida especial para orlas e bainhas, comparadas a um pequeno cíngulo; a explicação de Abaie sobre os nirin e de Rav sobre o keirós; e a pergunta sobre por que a mishná repete a lei de quem costura e quem rasga, já ensinada entre as categorias primárias de trabalho. O daf termina no meio de uma pergunta sobre onde se encontra o caso de rasgar a fim de costurar dois pontos — sem resposta, que continuará em 105b.
(Continuação da baraita iniciada em 104b: "foi ensinado — teve a intenção de escrever uma única letra") e saíram-lhe duas em sua mão — está obrigado. Mas não aprendemos (na mishná) que está isento?! Não é difícil: este (caso, isento) é onde (as letras) precisam de coroas; este (caso, obrigado) é onde não precisam de coroas.
Confirmado via Sefaria: este é exatamente o fim da baraita que 104b deixou interrompida ("foi ensinado: teve a intenção de escrever uma única letra..."). O caso completo é o de alguém que pretendia escrever apenas uma letra, mas, por acidente ou destreza, sua pena produziu duas letras — está obrigado. A guemará levanta uma dificuldade imediata: a própria mishná (em 104b) já ensinou o caso análogo de quem teve a intenção de escrever um chet e, por a pena ter escorregado, escreveu dois zayin — e ali a mishná isenta! A resposta distingue os dois casos pelo estágio de acabamento das letras: quando as duas letras resultantes ainda carecem de suas coroas (as pequenas serifas ornamentais no topo de certas letras, como o zayin), elas não são consideradas letras completas e válidas — daí a isenção da mishná. Mas quando as duas letras já têm suas coroas, ou não precisam delas para serem consideradas válidas, o resultado é escrita completa de duas letras — e por isso a baraita obriga. Rashi explica que o caso da baraita é justamente o mesmo caso da mishná (chet virando dois zayin), mas em que as coroas já estavam presentes desde o início e alguém as separou fisicamente — o que equivale a escrever duas letras completas.
"'E saíram-lhe duas em sua mão'" — isto é também (o caso de) quem teve a intenção de escrever um chet e escreveu dois zayin. "'Este'" — (o caso) onde a mishná ensinou que está isento. "'Onde precisam de coroas'" — porque as pontas dos zayin ainda precisam ser coroadas com suas coroas, pois os zayin precisam de três coroas — direita, esquerda e em cima —, conforme dizemos em Menachot (29b).
Escreveu uma letra por notarikon — Rabi Yehoshua ben Betirá o considera obrigado, e os Sábios o isentam. Disse Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yosei ben Zimrá: de onde (se deriva) a linguagem de notarikon a partir da Torá? Pois foi dito: "porque pai de multidão de nações te fiz" (Bereshit 17:5) — pai te fiz às nações, escolhido te fiz entre as nações, multidão amada te fiz entre as nações, rei te fiz às nações, veterano te fiz entre as nações, confiável te fiz às nações.
A guemará retoma a última cláusula da mishná anterior (já citada por completo em 104b), sobre quem escreve uma única letra como abreviação (notarikon) de uma palavra inteira — disputa entre Rabi Yehoshua ben Betirá, que obriga, e os Sábios, que isentam. Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yosei ben Zimrá, busca a origem dessa técnica interpretativa na própria Torá: quando D'us muda o nome de Avram para Avraham, o versículo explica a mudança dizendo "porque pai de multidão de nações (av hamon goyim) te fiz" — e as próprias letras de "av hamon" (contraídas) formam "Avraham". A guemará então trata as palavras "av hamon" como um notarikon dentro do próprio notarikon: cada uma de suas letras é lida como abreviação de uma palavra inteira, gerando a lista de seis atributos com que D'us descreve Avraham diante das nações — pai, escolhido, amado pela multidão, rei, veterano (ou distinto) e confiável.
"'Rei te fiz'" — (como está escrito) "príncipe de D'us és tu" (Bereshit 23:6).
Rabi Yochanan, ele mesmo, disse: "anochi" (que abre os Dez Mandamentos) é notarikon (para): "eu mesmo escrevi e dei" (aná nafshi ketivat yehavit). Os Sábios disseram: "uma declaração agradável, escrita e dada" (amirá ne'imá ketivá yehivá). Há quem diga: "anochi", lido de trás para frente: "dada, escrita, confiáveis são suas palavras" (yehivá ketivá ne'emanin amareha).
Depois do exemplo do nome Avraham, a guemará traz mais casos de notarikon na Torá, começando pela própria primeira palavra dos Dez Mandamentos: "Anochi" ("Eu sou"). Rabi Yochanan interpreta essa palavra em aramaico como abreviação de uma frase que enfatiza que D'us mesmo, pessoalmente, escreveu e entregou as Tábuas — "eu mesmo escrevi e dei". Os Sábios propõem uma leitura diferente, enfatizando a qualidade da entrega: "uma declaração agradável, escrita e dada". Uma terceira tradição lê as mesmas letras de trás para frente, produzindo uma frase que enfatiza a confiabilidade do conteúdo entregue: "dada, escrita, confiáveis são suas palavras" — todas as três leituras, notavelmente, giram em torno da mesma raiz de ideias (escrever, dar, confiar), variando apenas a ordem e a ênfase.
"'Anochi'" — pois não disse "aní" (a forma mais simples de "eu"). "'Aná nafshi'" — eu, eu mesmo. "'Amirá'" — que é agradável.
A escola de Rabi Natan dizia: "porque o caminho se desviou (yarat) diante de mim" (Bamidbar 22:32) — (é notarikon para) temeu (yar'á), viu (ra'atá), desviou-se (natetá). A escola de Rabi Yishmael ensinou: "carmel" (Vayikra 23:14) — (é notarikon para) espiga cheia (car maleh). Rav Achá bar Yaakov disse: "e ele me amaldiçoou com uma maldição grave (nimretzet)" (Melachim I 2:8) — é notarikon: ele é adúltero (no'ef hu), ele é moabita (Mo'aví hu), ele é assassino (rotzeach hu), ele é opressor (tzorer hu), ele é abominação (to'evá hu).
A guemará prossegue reunindo exemplos de notarikon espalhados pela Bíblia. A escola de Rabi Natan encontra um na fala do anjo a Bilam, sobre por que sua jumenta se desviou do caminho três vezes: a palavra "yarat" (desviou-se) é lida como abreviação de três verbos que narram, em sequência, a reação do animal ao ver o anjo — temeu, viu e desviou-se. A escola de Rabi Yishmael encontra outro na palavra "carmel", usada para descrever a oferenda do ômer: as letras se decompõem em "car maleh" ("um monte/espiga cheio"), descrevendo o grão ainda túrgido de umidade dentro de sua palha, como Rashi explica a propósito da oferenda do ômer, trazida ainda úmida. Rav Achá bar Yaakov encontra um terceiro exemplo na maldição que Shimi ben Gera lançou contra o rei David, chamada na Bíblia de "maldição grave" (kelalá nimretzet): a palavra "nimretzet" é lida como abreviação de cinco acusações graves — adúltero, moabita, assassino, opressor e abominação — todas as quais, segundo a tradição, Shimi de fato lançou contra David.
"'Carmel'" — a respeito da oferenda de farinha do ômer, está escrito "grão triturado, carmel" (Vayikra 2:14), pois a traz ainda úmida, enquanto o grão está túrgido, e o "colchão" da palha está cheio dele.
Rav Nachman bar Yitzchak disse: "que diremos, e como nos justificaremos (nitztadak)" (Bereshit 44:16) — (é notarikon para): retos somos, justos somos, puros somos, íntegros somos, santos somos.
Fechando a lista de exemplos de notarikon, Rav Nachman bar Yitzchak traz o momento em que Yehudá, diante de Yossef (ainda não reconhecido pelos irmãos como vice-rei do Egito), declara não ter como se defender depois que a taça de prata foi encontrada no saco de Binyamin: "que diremos, e como nos justificaremos". A palavra "nitztadak" (nos justificaremos) é lida como abreviação de cinco afirmações de integridade que os irmãos poderiam ter feito de si mesmos em outras circunstâncias — retos, justos, puros, íntegros e santos —, ironicamente inúteis diante da evidência que parecia incriminá-los. Com este último exemplo, encerra-se a sugya sobre notarikon, e a guemará retorna ao fio principal da mishná.
MISHNÁ. Quem escreve duas letras em dois lapsos de consciência, uma (letra) de manhã e uma (letra) à tarde — Rabán Gamliel o considera obrigado, e os Sábios o isentam.
Esta é a última mishná do Perek Yud-Bet, HaBoneh. O caso: alguém escreveu uma letra de manhã, esquecido de que era Shabat; depois se lembrou (tornando-se ciente novamente de que era Shabat); e, mais tarde nesse mesmo dia, esqueceu-se de novo e escreveu uma segunda letra à tarde — completando, ao todo, duas letras, a medida mínima de responsabilidade pela melachá de escrever, mas divididas por um lapso de consciência intermediário. Rabán Gamliel considera essa pessoa obrigada a uma única oferenda pelo pecado, como se as duas letras tivessem sido escritas num único ato contínuo de inconsciência; os Sábios a isentam, tratando cada letra isolada como insuficiente por si só, já que cada uma foi escrita num lapso de consciência distinto e independente.
"MISHNÁ: uma de manhã e uma à tarde" — já que houve, nesse intervalo, tempo suficiente para saber (que era Shabat), é como se fossem dois lapsos de consciência.
GUEMARÁ. Em que discordam? Rabán Gamliel entende: não há (efeito de) conhecimento para metade da medida. E os Sábios entendem: há (efeito de) conhecimento para metade da medida.
A guemará resume a disputa a um único princípio, já conhecido de outros contextos no Talmud: se um momento de consciência (conhecimento de que se está transgredindo o Shabat) tem, ou não, o poder de separar duas metades de uma mesma medida de trabalho proibido. Segundo Rabán Gamliel, não há esse efeito: a responsabilidade por uma oferenda pelo pecado se mede pelo resultado final (duas letras escritas, a medida mínima), e não importa se, no meio do processo, a pessoa teve um momento de lucidez — o lapso de consciência intermediário não "reinicia o relógio". Segundo os Sábios, há esse efeito: o momento de consciência entre as duas letras funciona como uma linha divisória real, de modo que cada letra escrita antes e depois desse momento é tratada como um ato inteiramente independente e, isoladamente, insuficiente para gerar responsabilidade.
"'GUEMARÁ: há conhecimento para metade da medida'" — para separar, de modo que a outra metade não se junte com ela.
Com a conclusão da disputa entre Rabán Gamliel e os Sábios sobre o efeito de um lapso de consciência intermediário, encerra-se todo o Perek Yud-Bet, HaBoneh ("o que constrói"), aberto em 102b com a mishná sobre a medida mínima de construção. Ao longo de mais de duas folhas e meia, o perek percorreu as categorias de quem constrói, talha, golpeia com martelo, fura, assenta pedras (com a disputa de Shmuel e os três tipos de construção), e a extensa mishná sobre a medida mínima de escrever — materiais válidos de escrita, os casos de duas paredes ou duas tábuas lidas em conjunto, escrever ou arranhar na própria carne (com a digressão sobre ben Stada), os casos de isenção, a identificação do tanna por trás de cada cláusula, o caso de completar um livro ou uma peça de roupa com uma única letra ou fio, o ensinamento de Rabi Ami sobre escrever em duas cidades distantes, a emenda de uma letra, e — nesta própria folha — a conclusão da baraita sobre a intenção de escrever uma letra, a extensa sugya sobre a origem bíblica do notarikon, e a última mishná do perek, sobre duas letras em dois lapsos de consciência. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula "Hadran Alach HaBoneh" ("Retornaremos a você, HaBoneh"), dita ao concluir o estudo de um capítulo.
MISHNÁ. Rabi Eliezer diz: quem tece três fios no início (de um tecido novo), ou um (fio) sobre o tecido (já existente) — está obrigado. E os Sábios dizem: tanto no início quanto no fim, sua medida é dois fios. Quem faz duas malhas de urdidura, nos nirin, no keirós, na peneira grande, na peneira pequena, e no cesto — está obrigado. E quem costura dois pontos, e quem rasga a fim de costurar dois pontos (está obrigado).
Confirmado via Sefaria: abre-se aqui, ainda no mesmo daf, o Perek Yud-Gimel, HaOreg ("o que tece"). A primeira mishná trata da medida mínima da melachá de tecer, já mencionada de passagem entre as trinta e nove categorias primárias de trabalho (Shabat 73a) como "dois fios". Aqui a mishná refina essa medida: Rabi Eliezer distingue entre começar um tecido novo (três fios) e acrescentar a um tecido já existente (um fio, que se soma ao que já havia); os Sábios, por outro lado, exigem a mesma medida de dois fios em ambos os casos. A mishná acrescenta ainda outras medidas mínimas de trabalhos relacionados à tecelagem: fazer duas malhas de urdidura (o processo de montar os fios verticais no tear, seja num tear comum — nirin ou keirós —, seja em uma peneira, crivo ou cesto, que também podem ser "tecidos" com fios entrelaçados), costurar dois pontos, e rasgar uma peça de roupa com a intenção de, depois, costurá-la de volta com dois pontos.
"'MISHNÁ: Rabi Eliezer'" — veio explicar a medida de tecer, que já enumeramos entre as categorias primárias de trabalho (acima, Shabat 73a), onde ali aprendemos "dois fios". "'No início'" — se este é o começo do tecido de uma peça de roupa. "'Ou um sobre o tecido'" — se ele acrescenta a um tecido já existente, sua medida é um (fio), pois se junta com o restante. "'Malhas de urdidura'" — que colocou dois fios da urdidura na malha, que se chama "litzish". "'Nos nirin e no keirós'" — a Guemará explicará. "'Na peneira grande e na peneira pequena'" — estas não são malhas propriamente ditas, mas ele encadeia e monta um fio (da trama) na urdidura, dois embaixo e um em cima, e assim mantém a urdidura firme, em sua ordem correta.
GUEMARÁ. Quando Rabi Yitzchak veio (da Terra de Israel para a Babilônia), ensinou: "dois". Mas não aprendemos (na mishná): "três"?! Não é difícil: este (caso) é com (fios) grossos; este (caso) é com (fios) finos. Dizem-no de um lado, e dizem-no de outro lado. Dizem-no de um lado: (fios) grossos — três não se desfazem, dois se desfazem; (fios) finos — dois também não se desfazem. E dizem-no de outro lado: (fios) finos — três são perceptíveis, dois não são perceptíveis; (fios) grossos — dois também são perceptíveis.
A guemará traz uma tradição de Rabi Yitzchak, ao vir da Terra de Israel para a Babilônia, segundo a qual Rabi Eliezer exigiria apenas dois fios (não três) para o início de um tecido — aparentemente contradizendo o texto da mishná, que exige três. A resolução distingue entre fios grossos e finos, mas de duas formas opostas, conforme quem a transmite: segundo uma versão, fios grossos precisam de três (porque dois fios grossos, por sua espessura, não se colam bem um ao outro e o tecido se desfaz facilmente), enquanto fios finos já ficam firmes com dois; segundo a versão oposta, fios finos precisam de três (para serem visualmente perceptíveis como tecido, já que dois fios finos são quase invisíveis), enquanto fios grossos já são perceptíveis com apenas dois. Ambas as explicações preservam a regra de que a mishná (que fala em três) refere-se ao tipo de fio mais exigente, e a tradição de Rabi Yitzchak (que fala em dois) refere-se ao tipo de fio menos exigente — apenas invertendo qual critério (firmeza ou visibilidade) determina a exigência.
"'GUEMARÁ: quando Rabi Yitzchak veio, ensinou'" — assim a mishná: Rabi Eliezer diz que quem tece dois fios no início (já) é obrigado, e Rabi Eliezer não discorda dos Sábios senão quanto a um (fio) sobre o tecido (já existente). "'De um lado'" — (fios) grossos, (a medida é) três, e não dois, porque dois se desfazem, já que, por sua espessura, não se colam bem um ao outro; e com (fios) finos, com dois já está obrigado. "'E dizem-no de outro lado'" — (fios) grossos, com dois já está obrigado. "'São perceptíveis'" — é algo visível; mas com (fios) finos, com dois está isento.
Foi ensinado (numa baraita): quem tece três fios no início, ou um (fio) sobre o tecido (já existente) — está obrigado. E os Sábios dizem: tanto no início quanto no fim, sua medida é dois fios. E, na orla — dois fios na largura de três malhas. A que isto se assemelha? A quem tece um pequeno cíngulo: dois fios na largura de três malhas. E (a baraita) "quem tece três fios no início, ou um sobre o tecido, está obrigado" é anônima, conforme (a opinião de) Rabi Eliezer.
A guemará traz uma baraita que confirma o texto da mishná (três fios no início, um sobre o tecido existente, segundo Rabi Eliezer; dois em ambos os casos, segundo os Sábios), e acrescenta uma medida especial para quando se tece uma orla — uma faixa de fio diferente ao longo da borda de uma peça de roupa: nesse caso, mesmo tecendo apenas dois fios, já se está obrigado, desde que esses dois fios cubram a largura de três malhas de urdidura. A razão é que uma orla é, por natureza, uma peça estreita e curta, comparável a um pequeno cíngulo (cinto fino); por isso a medida de responsabilidade se ajusta à largura menor típica desse tipo de trabalho, e não à largura completa normalmente exigida (equivalente à distância entre o polegar e o indicador). A guemará conclui, por fim, que como esta baraita não atribui a opinião de três fios a nenhum sábio nomeado, ela é anônima — e a regra hermenêutica padrão é que uma baraita anônima que corresponde à opinião de um sábio nomeado em outro lugar (aqui, Rabi Eliezer) reflete a visão da halachá segundo esse sábio.
"'E na orla, dois fios na largura de três malhas'" — há quem teça, ao redor (da peça de roupa), uma orla ao longo de toda a peça, de outro tipo (de fio de urdidura), com largura equivalente à medida de três malhas; e quem tece nela dois fios está obrigado. "'A que isto se assemelha'" — isto é, por isso obrigam por um tecido tão curto como este, e não dizem (que a medida é) a largura completa do "sit" (a distância entre o polegar e o indicador), como medimos na mishná para quem tece no meio da peça de roupa. "'Assemelha-se a quem tece um pequeno cíngulo'" — um cinto curto, que não é mais largo do que três malhas.
Foi ensinada outra (baraita): quem tece dois fios sobre um tecido grosso, ou sobre a bainha — está obrigado. Rabi Eliezer diz: mesmo (com) um (fio, já está obrigado). E, na orla, dois fios na largura de três malhas — está obrigado. A que isto se assemelha? A quem tece um pequeno cíngulo: dois fios na largura de três malhas. E (a baraita) "quem tece dois fios sobre um tecido grosso, ou sobre a bainha, está obrigado" é anônima, conforme (a opinião) dos Sábios.
Uma segunda baraita traz um caso semelhante, mas com números diferentes, o que permite à guemará atribuí-la à opinião oposta. Aqui, tecer sobre um tecido já grosso (denso) ou sobre a bainha inicial de uma peça requer dois fios para gerar responsabilidade — e Rabi Eliezer, consistente com sua posição de que acrescentar a algo já existente é mais fácil de obrigar, diz que basta até um único fio. A mesma medida especial da orla (dois fios em três malhas, comparada a um pequeno cíngulo) se repete aqui. Como esta baraita atribui a medida mais branda (dois fios, e não três) à posição anônima, e reserva a Rabi Eliezer apenas a posição ainda mais branda (um fio), a guemará conclui que esta baraita anônima reflete a opinião dos Sábios, que exigem dois fios tanto no início quanto no acréscimo — completando, assim, a demonstração de que as duas baraitot juntas confirmam plenamente o texto da mishná.
"'Sobre o (tecido) grosso'" — um tecido abundante (denso). "'Sobre a bainha'" — o começo da peça de roupa, no qual se tece uma trama de outro tipo, para a bainha. "'E na orla'" — fazem-na ao longo de toda a urdidura.
"Quem faz duas malhas de urdidura" etc. O que significa "nos nirin"? Disse Abaie: duas na bat-nirá (a malha principal) e uma na nirá (a malha secundária). "No keirós." O que é "keirós"? Disse Rav: a mtzovita (a lâmina móvel do tear).
A guemará volta à mishná para esclarecer os termos técnicos do tear que ela empregou sem explicação: "nirin" e "keirós". Sobre "nirin", Abaie explica que o processo de montar duas malhas de urdidura consiste em amarrar o fio duas vezes na malha principal (bat-nirá) e uma vez na malha secundária ou auxiliar (nirá) — um procedimento técnico de tecelagem que fixa o fio da urdidura de modo estável no tear. Sobre "keirós", Rav identifica a peça como a "mtzovita", explicada por Rashi como a lâmina ou vara móvel do tear de pedal, equivalente à haste que sobe e desce nos teares operados por mulheres — a peça que separa e organiza os fios da urdidura durante o processo de tecelagem.
"'Duas na bat-nirá e uma na nirá'" — duas vezes monta o fio da urdidura na bat-nirá, que é o que se chama "litza". "'E uma na nirá'" — e uma terceira vez o monta sobre o fio da nirá, que se chama "litza", montado sobre a haste. "'Mtzovita'" — na tapeçaria dos tecelões que tecem com o pé, chama-se "limaish", e ocupa o lugar da haste que sobe e desce na tapeçaria tecida por mulheres, que se chama "prisha".
"E quem costura dois pontos." Mas não aprendemos isso já entre as categorias primárias de trabalho: "e quem costura dois pontos"?! Porque (a mishná) quis ensinar, na cláusula final: "e quem rasga a fim de costurar dois pontos", ensinou também "quem costura". "E quem rasga" — não aprendemos isso também entre as categorias primárias de trabalho?! Antes, porque quis ensinar, na cláusula final, "quem rasga em sua ira, ou por seu morto", por isso ensinou (também) "quem costura dois pontos".
A guemará observa que as leis de "quem costura dois pontos" e "quem rasga" já foram ensinadas na lista original das trinta e nove categorias primárias de trabalho (Shabat 73a), e pergunta por que a mishná as repete aqui, no meio de uma discussão sobre tecer. A resposta, em dois passos: a mishná precisava, de qualquer forma, ensinar aqui a nova cláusula "e quem rasga a fim de costurar dois pontos" (o caso de alguém que rasga uma peça de roupa com a intenção de repará-la depois) — e, para introduzir essa cláusula de forma compreensível, precisou primeiro relembrar a lei básica de "quem costura". Da mesma forma, a repetição de "quem rasga" (já ensinada entre as categorias primárias) se explica porque a mishná, mais adiante (não citada ainda neste daf), ensinará uma cláusula adicional sobre quem rasga suas próprias roupas por raiva ou em luto por um parente falecido — e, para chegar a essa cláusula nova, precisou repetir primeiro a lei geral de "quem costura dois pontos".
"'Mas não aprendemos isso entre as categorias primárias de trabalho'" — e por que eu precisaria repeti-lo e ensiná-lo aqui, já que não veio explicar nada nele? Está bem quanto a "quem tece", por causa da disputa (entre Rabi Eliezer e os Sábios); e quanto às duas malhas de urdidura, para nos ensinar sobre os nirin, o keirós, a peneira grande, a peneira pequena e o cesto, que não foram ensinados ali.
"E quem rasga a fim de costurar dois pontos." Onde se encontra isso (um caso assim)?
Confirmado via Sefaria: o daf 105a termina exatamente aqui, com uma pergunta ainda sem resposta: por que alguém rasgaria deliberadamente uma peça de roupa apenas para depois costurá-la de volta com dois pontos? A pergunta pressupõe que se trata de um comportamento incomum — normalmente não se rasga algo de propósito só para consertá-lo em seguida —, e por isso a guemará busca um cenário plausível em que esse ato faça sentido. A resposta a essa pergunta, e a continuação da sugya, ficam para o início do daf 105b.