Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Guimel · Halachá 3
שַׁבָּת

Quem rasga pelo seu morto e a matzá roubada

Perek Yud-Guimel, HaOreg, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Terceira halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg. A Mishná ensina que quem rasga na sua ira e pelo seu morto é isento, pois todos os que estragam são isentos, e que quem estraga a fim de consertar tem a medida de quem conserta. A guemará pergunta diante de Rabi Ba se quem rasga pelo seu morto no Shabat cumpre a obrigação da keriá, comparando-o com quem abate a sua chatat no Shabat, que expiou e traz outra; Rabi Yossi distingue a matzá gezulá, a matzá roubada, que é transgressão no seu próprio corpo, do ato que profana o Shabat; e a halachá termina com a baraita que proíbe abençoar sobre a matzá roubada e com a discussão de Rabi Yona, Rabi Yossi e Rabi Ila sobre a mitzvá que vem por meio de transgressão. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 105b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַקּוֹרֵעַ בַּחֲמָתוֹ וְעַל מֵתוֹ כָּל הַמְקַלְקְלִין פְּטוּרִין. וְהַמְקַלְקֵל עַל מְנָת לְתַקֵּן שִׁיעוּרוֹ כִּמְתַקֵּן:

Mishná: Quem rasga a roupa na sua ira, e quem rasga pelo seu morto, é isento, pois todos os mekalkelin (os que estragam, os que fazem um trabalho destrutivo) são isentos. E quem estraga a fim de consertar, a sua medida para ser culpado é como a de quem conserta.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01A chatat abatida no Shabat e o rasgar pelo morto
Yerushalmi · Shabbat 13:3
ג׳. בְּעוֹן קוֹמֵי רִבִּי בָּא. הֵיךְ מַה דְאַתְּ אֲמַר תַּמָּן. הַשּׁוֹחֵט חַטָּאתוֹ בַּשַּׁבָּת כִּיפֵּר וּמֵבִיא אֲחֶרֶת. וַאֲמַר אוּף הָכָא. לֹא יָצָא יְדֵי קִירְעוֹ. אֶלָּא כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן. דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן אָמַר. עַד שֶׁיְּהֵא לוֹ צוֹרֶךְ בְּגוּפוֹ שֶׁלְדָּבָר. אֲמַר לוֹן. תַּמָּן הוּא גָרַם לְעַצְמוֹ. בְּרַם הָכָא אַתְּ גָּרַמְתָּ לוֹ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי. וַאֲפִילוּ תַמָּן אַתְּ גָּרַמְתָּ לוֹ. שֶׁאִילוּלֵא שֶׁאָמַרְתָּ לוֹ שֶׁיָּבֹא הֵיאַךְ הָיָה מִתְכַּפֵּר לוֹ. הֲוֵי צוֹרֶךְ מֵימַר דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן הִיא.

Perguntaram diante de Rabi Ba: assim como dizes lá: “quem abate a sua chatat (oferenda de expiação) no Shabat expiou, e traz outra”, diz também aqui: não cumpriu a obrigação da sua keriá (o rasgar da roupa pelo morto)! Mas então a Mishná é segundo Rabi Shimon, pois Rabi Shimon disse: não é culpado até que tenha necessidade do corpo da coisa. Ele lhes disse: lá, ele o causou a si mesmo ao pecar; mas aqui, tu o causaste a ele. Disse Rabi Yossi: também lá tu o causaste a ele, pois, se não lhe tivesses dito que viesse com a oferenda, como ele seria expiado? Portanto, é preciso dizer que a Mishná é a de Rabi Shimon.

02A matzá roubada e a matzá levada para fora
Yerushalmi · Shabbat 13:3
חֲבֵרַיָיא בְעוֹן קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵה. לֹא כֵן אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן בְּשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹצָדָק. מַצָּה גְזוּלָה אֵינוֹ יוֹצֵא בָהּ יְדֵי חוֹבָתוֹ בַפֶּסַח. אֲמַר לוֹן. תַּמָּן גּוּפָהּ עֲבֵירָה. בְּרַם הָכָא הוּא עָבַר עֲבֵירָה. כָּךְ אָנוּ אוֹמְרִים. הוֹצִיא מַצָּה מֵרְשׁוּת הַיָּחִִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים אֵינוֹ יוֹצֵא בָהּ יְדֵי חוֹבָתוֹ בַפֶּסַח.

Os chaveraya (os companheiros, os estudiosos) perguntaram diante de Rabi Yossi: não disse assim Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yotzadak: a matzá gezulá (matzá roubada), não se cumpre com ela a obrigação no Pesach? Ele lhes disse: lá, o corpo dela mesmo é averá (transgressão); mas aqui, ele cometeu uma averá. Assim acaso diremos: se levou uma matzá do reshut hayachid (domínio privado) para o reshut harabim (domínio público), não cumpre com ela a sua obrigação no Pesach?

03Não se abençoa sobre a matzá roubada
Yerushalmi · Shabbat 13:3
תַּנֵּי. מַצָּה גְזוּלָה אָסוּר לְבָרֵךְ עָלֶיהָ. אָמַר רִבִּי הוֹשַׁעְיָה. עַל שֵׁם וּבוֹצֵעַ בֵּרֵךְ נִאֵץ יְי. אָמַר רִבִּי יוֹנָה. הָדָא דְאַתְּ אָמַר. בַּתְּחִילָּה. אֲבָל בַּסּוֹף לֹא דָמִים הוּא חַיָיב לוֹ. רִבִּי יוֹנָה אָמַר. אֵין עֲבֵירָה מִצְוָה. רִבִּי יוֹסֵה אָמַר. אֵין מִצְוָה עֲבֵירָה. אָמַר רִבִּי אִילָא. אֵלֶּה הַמִּצְוֹת. אִם עֲשִׂיתָן כְּמִצְווֹתָן הֵן מִצְוֹת. וְאִם לָאו אֵינָן מִצְוֹת.

Foi ensinado numa baraita: a matzá gezulá, é proibido abençoar sobre ela. Disse Rabi Hoshaya: por causa de “e o botzea (o que toma o lucro injusto) abençoa, blasfema contra o Eterno” (Tehilim 10:3). Disse Rabi Yona: isso que dizes vale no início; mas no fim, não é apenas dinheiro que ele lhe deve? Rabi Yona disse: averá não é mitzvá (mandamento cumprido). Rabi Yossi disse: mitzvá não é averá. Disse Rabi Ila: “Estas são as mitzvot” (Vayikra 27:34): se as fizeste conforme o seu mandamento, elas são mitzvot; e se não, elas não são mitzvot.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Yud-Guimel de Massechet Shabbat, HaOreg, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 13:3 da Mishná avulsa, que vai de “quem rasga na sua ira e pelo seu morto” até “a sua medida é como a de quem conserta”, como antecipou a nota da halachá 13:2. A Mishná seguinte, Shabbat 13:4, que começa com “a medida de quem alveja, de quem carda” (שִׁעוּר הַמְלַבֵּן וְהַמְנַפֵּץ), é a da halachá 13:4; no Bavli, em Shabbat 105b, as duas formam uma só Mishná. Há diferenças de leitura: o Yerushalmi diz “todos os que estragam são isentos” (כָּל הַמְקַלְקְלִין פְּטוּרִין), sem “e”, onde a Mishná avulsa e a do Bavli dizem “e todos os que estragam” (וְכָל הַמְקַלְקְלִין); sem o “e”, a frase se lê como a razão da isenção de quem rasga, e por isso completamos “é isento, pois”; com o “e”, a avulsa enumera quem rasga e os demais que estragam como casos paralelos, todos isentos. O Yerushalmi escreve שִׁיעוּרוֹ כִּמְתַקֵּן, como o Bavli, onde a avulsa escreve שִׁעוּרוֹ כַמְתַקֵּן; o sentido é o mesmo. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 03 é o quarto, e nenhum segmento foi dividido. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá”, que tiramos; conservamos o marcador “ג׳.”, que indica que a guemará trata da terceira Mishná do capítulo. O Sefaria marca, na seção 02, antes de “a matzá roubada”, o início da folha 72b da edição de Vilna; tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses; na palavra הַיָּחִִיד, na seção 02, o Sefaria traz dois sinais de vocalização iguais sobre a mesma letra, e conservamos o hebraico como está.

Referências conferidas. A frase “quem abate a sua chatat no Shabat expiou, e traz outra” é citada de uma baraita; o Korban HaEdá e Guggenheimer remetem à Tosefta Pesachim 5:7, na numeração Lieberman, onde se lê que quem abateu no Shabat a chatat ou a olá de um indivíduo em seu nome, e aspergiu o sangue não em seu nome, é culpado, “pois os donos foram aceitos”; algo semelhante está na Tosefta Menachot 5:2, na numeração do Sefaria (Guggenheimer escreve 5:3): quem as abateu no Shabat em seu nome e aspergiu o sangue em seu nome é culpado, “e valeram para os donos como cumprimento da obrigação”. No Bavli, Shabbat 105b, sobre a nossa Mishná, a guemará contrapõe uma baraita: “quem rasga na sua ira, no seu luto e pelo seu morto é culpado, e, embora profane o Shabat, cumpriu a obrigação da keriá”; responde que a Mishná trata de um morto pelo qual não há obrigação de rasgar, e que a contradição sobre quem rasga na ira se resolve como uma disputa entre Rabi Yehudá, para quem o trabalho que não é necessário por si mesmo torna culpado, e Rabi Shimon, para quem isenta; e a discussão segue em Shabbat 106a, onde a guemará diz que a nossa Mishná, “todos os que estragam são isentos”, é de Rabi Yehudá, e a baraita que exclui quem fere e quem acende, de Rabi Shimon. Essa baraita está na Tosefta Shabbat 8:4 na numeração Lieberman (9:3 na outra numeração do Sefaria): “todos os que estragam são isentos, exceto quem fere e quem acende no Shabat”. A regra de que a mitzvá que vem por meio de uma transgressão, a mitzvá habaá baaverá, não serve, está no Bavli, Sukká 29b–30a, onde Rabi Yochanan, em nome de Rabi Shimon ben Yochai, a aplica ao lulav roubado, a partir do versículo “e trouxestes o roubado” (Malachi 1:13); no Yerushalmi, a palavra sobre a matzá roubada é de Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yotzadak. A seção 03 está quase igual no Yerushalmi Challah 1:5, segmento 8 na numeração do Sefaria (Guggenheimer o numera 1:9; o Penei Moshe remete à halachá 8 do primeiro capítulo de Challah), com pequenas diferenças: lá se lê “isso que tu dizes” na forma הָדָא דְתֵימָר, e “Rabi Hila” (רִבִּי הִילָא) onde aqui está “Rabi Ila” (רִבִּי אִילָא). O Yerushalmi Sukká 3:1, sobre o lulav roubado, usa a mesma expressão de Rabi Yona, “ele lhe deve dinheiro” (דָּמִים הוּא חַיָיב לוֹ), para quem roubou o lulav e depois o aparou, mas não traz a passagem da matzá roubada. O versículo de Rabi Hoshaya é Tehilim 10:3; no Bavli, Bava Kama 94a, Rabi Eliezer ben Yaakov o aplica a quem roubou uma medida de trigo, moeu, amassou, assou e separou a chalá: “este não abençoa, mas blasfema”; no Bavli, Sanhedrin 6b, e no Yerushalmi Sanhedrin 1:1, o mesmo versículo é aplicado a quem faz um acordo em vez de julgar. O versículo de Rabi Ila é Vayikra 27:34.

Observações de leitura. Na seção 01, seguimos o Penei Moshe e o Korban HaEdá. Os estudiosos perguntam diante de Rabi Ba: como quem abate a sua chatat no Shabat expiou o seu pecado, mas traz outra chatat pela profanação do Shabat, assim também quem rasga pelo seu morto no Shabat deveria ter de rasgar outra vez depois do Shabat, pois profanou o Shabat; e, se a baraita diz que cumpriu a obrigação, a Mishná teria de seguir Rabi Shimon, para quem o trabalho que não é feito pela necessidade da própria coisa não é trabalho da Torá. Rabi Ba responde que não há comparação: lá, foi ele quem causou a obrigação, ao pecar; aqui, a obrigação de rasgar lhe veio de fora, do Céu, segundo o Korban HaEdá, ou pelo acaso de o morto ter morrido no Shabat, segundo o Penei Moshe, e por isso a Mishná pode ser também de Rabi Yehudá. Rabi Yossi rebate que também a chatat lhe foi imposta, pois sem a ordem de trazê-la ele não seria expiado; por isso é preciso dizer que a Mishná é de Rabi Shimon. Na seção 02, a pergunta, segundo o Penei Moshe, é: se a matzá roubada não serve porque vem por meio de uma transgressão, também a keriá feita no Shabat não deveria servir; e a resposta distingue a matzá roubada, que é transgressão no seu próprio corpo, do rasgar no Shabat, em que o pano não tem nada de proibido e só o ato profana o Shabat, como quem levou a matzá de um domínio a outro no Shabat e, sem dúvida, cumpre com ela a obrigação. Na seção 03, Rabi Hoshaya lê o versículo como dito de quem abençoa sobre o roubado. Segundo o Penei Moshe, “no início” é antes que o ladrão adquira a coisa roubada, e “no fim”, depois que a adquiriu pela desistência do dono e pela mudança, como quem roubou trigo e o moeu, e já só deve o seu valor; o Korban HaEdá entende “no fim” como depois de comer. A segunda frase de Rabi Yona é, para o Korban HaEdá, a explicação da sua própria opinião: não se abençoa nem no fim, porque é mitzvá que vem por meio de transgressão; Rabi Yossi diverge e diz que mesmo assim se cumpre a mitzvá; e Rabi Ila, segundo o Penei Moshe, apoia Rabi Yona. A glosa de botzea segue o sentido simples do versículo e a leitura do Penei Moshe, que o entende como o ladrão que abençoa; Guggenheimer o entende, nesta passagem, como “o que parte o pão”. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer traduz “any who spoil are not liable” sem ligar a frase à anterior; o hebraico não tem “e”, e completamos “é isento, pois”. Na seção 01, ele traduz הֲוֵי צוֹרֶךְ מֵימַר como pergunta, “is there need to say that it follows Rebbi Simeon?”; seguimos o Penei Moshe e o Korban HaEdá, que leem “portanto, é preciso dizer”. Na seção 02, ele traduz כָּךְ אָנוּ אוֹמְרִים como “would we say”, e assim também entendemos, como pergunta. Ele escreve “Rebbi Abba”, “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Simeon ben Joṣadaq”, “Rebbi Hoshaia”, “Rebbi Jonah” e “Rebbi Ila”; mantivemos “Rabi Ba”, “Rabi Yochanan”, “Rabi Shimon ben Yotzadak”, “Rabi Hoshaya”, “Rabi Yona” e “Rabi Ila”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site; e “Rabi Yossi” tanto para רִבִּי יוֹסֵי, na seção 01, quanto para רִבִּי יוֹסֵה, nas seções 02 e 03.