Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Bet · Halachá 6 (última do perek)
שַׁבָּת

As duas letras em dois esquecimentos, de manhã e à tarde

Perek Yud-Bet, HaBoneh, Halachá 6, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat — encerramento do capítulo

Sexta e última halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh. A Mishná ensina que quem escreve duas letras em dois esquecimentos, uma de manhã e outra à tarde, é culpado segundo Rabban Gamliel, e os sábios o isentam. A guemará objeta a Rabban Gamliel com o caso de quem colhe o equivalente a um figo seco de manhã e outro à tarde num só esquecimento: assim como os esquecimentos não dividem, também não deveriam juntar. Rabi Mana, sem atribuição, e Rabi Avun, em nome de Rabi Yochanan, explicam que, para Rabban Gamliel, não há conhecimento para meio trabalho, e, do mesmo modo, não há intenção para meia azeitona; e a guemará termina perguntando se se juntam meia azeitona comida com intenção e meia azeitona comida por erro. Com ela se encerra o Perek Yud-Bet, HaBoneh; o tratado continua no Perek Yud-Guimel, HaOreg. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 105a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַכּוֹתֵב שְׁתֵּי אוֹתִיּוֹת בִּשְׁנֵי הֶעְלֵימוֹת אֶחָד שַׁחֲרִית וְאֶחָד בֵּין הָעַרְבַּיִם רַבָּן גַּמְלִיאֵל מְחַיֵיב וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין:

Mishná: Quem escreve duas letras no Shabat em dois heelemot (esquecimentos), um de manhã e um à tarde, Rabban Gamliel o torna culpado, e os sábios o isentam.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01A objeção do figo seco e a razão de Rabban Gamliel
Yerushalmi · Shabbat 12:6
ו׳. וְקַשְׁיָא עַל דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל. אִילּוּ קָצַר כִּגְרוֹגֶרֶת בְּשַׁחֲרִית וְכִגְרוֹגֶרֶת בֵּין הָעַרְבַּיִם בָּהֶעֱלֵם אֶחָד שֶׁמָּא אֵינוֹ חַיָיב. כְּשֵׁם שֶׁאֵין הֶעֱלֵימוֹת חוֹלְקוֹת כָּךְ לֹא יְצָרְפוּ.

E é difícil para a opinião de Rabban Gamliel: se alguém colheu o equivalente a uma grogeret (figo seco) de manhã e o equivalente a uma grogeret à tarde, num só heelem, acaso não é culpado? Assim como os heelemot não dividem, assim não juntem.

רִבִּי מָנָא אָמַר לָהּ סְתָם. רִבִּי אָבוּן בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. טַעֲמֵיהּ דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל תַּמָּן. אֵין יְדִיעָה לַחֲצִי מְלָאכָה. וְדִכְוָותָה. אֵין זָדוֹן לַָחֲצִי זַיִת. אָכַל חֲצִי זַיִת בְּזָדוֹן וַחֲצִי זַיִת בִּשְׁגָגָה מְָהוּ שֶׁיִּצְטָרְפוּ.

Rabi Mana disse-a sem atribuição; Rabi Avun disse-a em nome de Rabi Yochanan: a razão de Rabban Gamliel lá é que não há yediá (conhecimento) para meio trabalho. E semelhante a isso: não há zadon (intenção) para meia azeitona. Se alguém comeu o equivalente a meia azeitona com intenção e meia azeitona por erro, qual é a regra: elas se juntam?

Nota

Esta é a sexta e última halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 12:6 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “quem escreve duas letras em dois esquecimentos” até “e os sábios o isentam”, e que é também a última Mishná do capítulo: a Mishná avulsa tem seis mishnayot no Perek Yud-Bet, e o Yerushalmi, seis halachot. Há uma diferença de leitura: o Yerushalmi diz “um de manhã e um à tarde” no masculino (אֶחָד שַׁחֲרִית וְאֶחָד), onde a Mishná avulsa diz “uma… e uma” no feminino (אַחַת שַׁחֲרִית וְאַחַת), referindo-se às letras, como também a Mishná do Bavli, em Shabbat 105a; seguimos o hebraico do Yerushalmi e traduzimos no masculino, que em português se refere aos esquecimentos, e a referência do masculino hebraico, às letras ou aos esquecimentos, fica incerta. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização: o Yerushalmi escreve הֶעְלֵימוֹת com yod, onde a avulsa escreve הֶעְלֵמוֹת, e מְחַיֵיב com dois yods, onde ela escreve מְחַיֵּב. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e o segundo é a guemará, que corresponde inteira à seção 01, dividida em dois pares de hebraico e português; nenhum segmento foi dividido entre seções. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá: 6”, que tiramos, como nas outras halachot. Não há neste trecho marcadores de folha nem sinais editoriais entre colchetes ou parênteses; em duas palavras, לַָחֲצִי e מְָהוּ, o Sefaria traz dois sinais de vocalização sobre a mesma letra, e conservamos o hebraico como está.

Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 105a, e a guemará sobre ela é breve: “em que discordam? Rabban Gamliel entende que não há conhecimento para meia medida, e os sábios entendem que há conhecimento para meia medida”; logo em seguida, na mesma folha, termina o capítulo HaBoneh. Em Keritot 16b, Rav Chisda traz uma baraita: quem escreve duas letras num só esquecimento é culpado; em dois esquecimentos, Rabban Gamliel o torna culpado, e os sábios o isentam; e Rabban Gamliel admite que, se escreveu uma letra num Shabat e outra letra em outro Shabat, é isento; e traz outra baraita, em que, nas duas letras escritas em dois Shabatot, Rabban Gamliel torna culpado e os sábios isentam. Em Keritot 17a, a guemará explica essa segunda baraita pela regra “não há conhecimento para meia medida”, cita a baraita em que Rabi Eliezer torna culpado quem escreve uma letra num Shabat e outra em outro, e traz, por Rava, a baraita de quem leva para fora meio figo seco e torna a levar meio figo seco: num só esquecimento, é culpado; em dois esquecimentos, é isento. Na Tosefta Shabbat, na numeração Lieberman, 11:17 ensina que Rabban Gamliel admite aos sábios que quem escreve uma letra num Shabat e outra em outro Shabat, uma no Shabat e outra no Yom Tov, ou uma no Shabat e outra no Yom Kipur, é isento, porque dois dias não se juntam para um só trabalho; e 9:10, que quem leva para fora meio figo seco e torna a levar meio figo seco num só esquecimento é culpado, e em dois esquecimentos é isento.

Observações de leitura. Na Mishná, os dois esquecimentos estão separados por um momento em que a pessoa soube que era Shabat: escreveu uma letra esquecida, lembrou-se, esqueceu-se de novo e escreveu a outra. Para Rabban Gamliel, as duas letras se juntam num só trabalho, e ele traz uma chatat; para os sábios, cada letra é meio trabalho e não obriga a nada. A objeção da guemará, segundo Guggenheimer, é esta: quem faz duas vezes um trabalho inteiro num só esquecimento só é culpado de uma chatat; se o esquecimento único não divide os atos, parece sem lógica que Rabban Gamliel junte atos feitos em esquecimentos diferentes. A pergunta “acaso não é culpado?” deixa implícita essa resposta, e “assim também não juntem” é a conclusão da objeção. A resposta é que, para Rabban Gamliel, “não há conhecimento para meio trabalho”: o momento em que a pessoa se lembrou não conta para separar, porque então ainda não tinha feito um trabalho inteiro, e assim os dois esquecimentos valem como um. O hebraico diz “a razão de Rabban Gamliel lá”; Guggenheimer entende “lá” como a nossa Mishná. Pelo mesmo raciocínio, não há intenção para meia azeitona, que é menos que a medida de comer; e a guemará pergunta, sem responder, se meia azeitona comida com intenção e meia comida por erro se juntam. Guggenheimer explica que não se responde porque, para os sábios, não se juntam, e a halachá não segue Rabban Gamliel; é explicação dele. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer traduz “e semelhante a isso, não há intenção para meio trabalho”; o hebraico diz “para meia azeitona” (לַחֲצִי זַיִת), e assim traduzimos. Ele traduz “bein haarbayim” por “evening”; traduzimos “à tarde”, como na nota da halachá 12:5. Ele escreve “Rebbi Mana”, “Rebbi Abun” e “Rebbi Joḥanan”; mantivemos “Rabi Mana”, “Rabi Avun” e “Rabi Yochanan”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site, nas quais a mesma fórmula, “Rabi Mana disse-a sem atribuição; Rabi Avun em nome de Rabi Yochanan”, aparece nas halachot 1:3 e 6:3. As glosas de heelem, “esquecimento”, de grogeret, “figo seco”, de zadon, “intenção”, e de chatat são as mesmas das halachot anteriores deste tratado; yediá, “conhecimento”, é o saber do pecado que separa um esquecimento do outro.

A Mishná seguinte, Shabbat 13:1, abre o Perek Yud-Guimel, HaOreg: “רִבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר הָאוֹרֵג שְׁלשָׁה חוּטִין…”, “Rabi Eliezer diz: quem tece três fios no começo, ou um sobre o tecido, é culpado; e os sábios dizem: tanto no começo quanto no fim, a sua medida é de dois fios”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 105a, na mesma folha em que termina o capítulo HaBoneh. A guemará dessa halachá volta ao assunto das letras escritas em tempos diferentes, com Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre quem escreve uma letra num dia de semana e outra no Shabat, ou uma neste Shabat e outra no Shabat seguinte.

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh (הַבּוֹנֶה).