Quinta halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh. A Mishná enumera os casos em que quem escreve no Shabat é isento: com líquidos, com sucos de frutas, com pó dos caminhos e com qualquer coisa que não permanece; com as costas da mão, com o pé, com a boca e com o cotovelo; uma letra junto à escrita e a escrita sobre escrita; quem pretendia escrever um chet e escreveu dois zayin; uma letra no chão e outra na viga, e letras que não se leem uma com a outra; e traz a discussão de Rabi Yehoshua ben Beteirá e dos sábios sobre quem escreve uma só letra como abreviação. A guemará traz o ensino de quem precisava escrever o Nome divino e pretendia escrever Yehudá, mas esqueceu o dalet, e a palavra de Rabi Yehudá, que passa a pena por cima; pergunta se a opinião de Rabi Yehudá não parece invertida, em duas versões, a segunda de Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu; define o que é escrita sobre escrita; e termina com a razão de Rabi Yehoshua ben Beteirá. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 104b.
Mishná: Se escreveu com líquidos, com sucos de frutas, com pó dos caminhos, com pó de escribas, e com qualquer coisa que não permanece, é isento. Se escreveu com as costas da mão, com o pé, com a boca e com o cotovelo; se escreveu uma letra junto à escrita já existente; se escreveu sobre escrita; se pretendia escrever chet (oitava letra) e escreveu dois zayin (sétima letra); uma letra no chão e uma na viga; sobre duas paredes da casa; sobre duas folhas de um pinkas (tabuinha de escrever), e elas não se leem uma com a outra, é isento. Se escreveu uma só letra como notarikon (abreviação), Rabi Yehoshua ben Beteirá o torna culpado, e os sábios o isentam.
Se alguém precisava escrever o Nome (divino), e pretendia escrever Yehudá, e esqueceu e não escreveu o dalet (quarta letra), eis que o Nome está no seu lugar: ele o apaga e o estabelece em santidade. Rabi Yehudá diz: passa o kulmos (pena de cálamo) sobre ele e o estabelece. Disseram-lhe: também isso não é do modo mais escolhido.
A opinião de Rabi Yudá parece invertida: lá ele diz que não é escrita, e aqui ele diz que é escrita. Segundo a opinião dele lhe responderam: segundo a tua opinião, pois dizes que é escrita, também isso não é do modo mais escolhido.
Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu não disse assim, mas disse: a opinião de Rabi Yehudá parece invertida. Lá ele diz que não é do modo mais escolhido; logo, a escrita é escrita. E aqui ele diz que escrita sobre escrita não é escrita. O que é escrita sobre escrita? Uma escrita acima da outra.
Qual é a razão de Rabi Yehoshua ben Beteirá na Mishná? De uma só letra tu aprendes várias letras.
Esta é a quinta halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 12:5 da Mishná avulsa, que vai de “se escreveu com líquidos, com sucos de frutas” até “e os sábios o isentam”. A Mishná seguinte, Shabbat 12:6, de quem escreve duas letras em dois esquecimentos, uma de manhã e outra à tarde, que Rabban Gamliel torna culpado e os sábios isentam, é a da halachá 12:6, cujo primeiro segmento no Sefaria é essa mesma Mishná. O Bavli, como se disse na halachá 12:4, junta as Mishnayot 12:4 e 12:5 numa só Mishná, em Shabbat 104b, e traz a 12:6 à parte, em 105a. Há diferenças de redação entre o Yerushalmi e a Mishná avulsa do Sefaria: o Yerushalmi escreve “com águas de líquidos” (בְּמֵי מַשְׁקִין), onde a avulsa escreve só “com líquidos” (בְּמַשְׁקִין), e assim traduzimos, pois a expressão quer dizer o mesmo; “pó de escribas”, sem artigo, onde ela escreve “pó dos escribas”; “escreveu sobre escrita” (כָּתַב עַל גַּבֵּי כְתָב), onde ela escreve “e escrita sobre escrita”; e “sobre duas paredes da casa”, sem “escreveu”, onde ela escreve “escreveu sobre duas paredes da casa”. O nome está grafado, na Mishná, בְּתֵירָא, e, na guemará, בְּתֵירָה; é o mesmo sábio. As demais diferenças são de grafia e de vocalização, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O segundo segmento foi dividido em três pares de hebraico e português dentro da seção 01. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá: 5”, que tiramos, como nas outras halachot, e marca, no meio da seção 01, antes de “segundo a opinião dele lhe responderam”, o início da folha 71a da edição de Vilna; tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 104b, e a guemará sobre ela vai até 105a, onde começa a Mishná seguinte. Em 104b, Rav Chisda diz que a regra da escrita sobre escrita não é conforme Rabi Yehudá, e traz a mesma baraita: quem precisava escrever o Nome, pretendia escrever “Yehudá”, errou e não pôs o dalet, passa sobre ele o kulmos e o santifica, palavras de Rabi Yehudá; e os sábios dizem que o Nome não fica do modo mais escolhido. A mesma baraita está no Bavli Guitin 20a, onde Rav Chisda a aplica ao guet escrito sem a intenção devida, sobre o qual se passa depois o kulmos com a intenção devida. Massechet Soferim 5:3, na numeração do Sefaria, traz o ensino na forma mais próxima da nossa: “apaga-o e escreve o Nome”, e Rabi Yehudá diz que se torna a passar o kulmos por cima e se santifica, e respondem-lhe que isso não é do modo mais escolhido. Ainda em 104b e no começo de 105a, o Bavli ensina que quem pretendia escrever uma letra e lhe saíram duas é culpado, e responde à objeção da Mishná do chet distinguindo entre o caso em que as letras precisam das suas coroas e o caso em que não precisam. Em 105a, sobre a letra como abreviação, Rabi Yochanan diz em nome de Rabi Yosei ben Zimra que a abreviação vem da Torá, do versículo “porque pai de uma multidão de nações te fiz” (Bereshit 17:5). Na Tosefta Shabbat, na numeração Lieberman, 11:7 ensina que quem escreve uma letra e com ela completa o nome, ou completa o livro, é culpado; 11:8, que é isento quem escreve sobre qualquer coisa que não permanece, até que escreva coisa que permanece sobre coisa que permanece; 11:12, que quem pretendia escrever uma letra e lhe saíram duas é culpado; e 11:13, que quem escreve no canto, por dentro, é culpado, e por fora, é isento.
Observações de leitura. Na Mishná, as costas da mão, o pé, a boca e o cotovelo são modos de escrever fora do costume; a letra junto à escrita forma com ela uma palavra, mas quem a escreveu só escreveu uma letra; e o chet, escrito como duas metades, ficou dois zayin, que é escrita feita sem a intenção. A letra no chão e a outra na viga, segundo Guggenheimer, são como as letras escritas em duas paredes que não se leem juntas. Na seção 01, o caso é o do escriba de um livro sagrado que devia escrever o Nome divino e pretendia escrever Yehudá, palavra cujas letras, sem o dalet, são as do Nome; esqueceu o dalet, e o Nome ficou escrito sem a intenção de santidade. Os sábios querem que ele o apague e o torne a escrever em santidade; Rabi Yehudá, que passe a pena sobre as letras, escrevendo sobre a escrita. O hebraico escreve primeiro “Rabi Yehudá” (יְהוּדָה), depois “Rabi Yudá” (יוּדָה) e depois de novo “Rabi Yehudá”; é o mesmo sábio, e seguimos a grafia de cada lugar. A guemará nota que a opinião de Rabi Yehudá parece contraditória entre o Shabat e o livro sagrado. Na primeira versão, segundo Guggenheimer, “lá” é a nossa Mishná, que, anônima, diz que a escrita sobre escrita não é escrita, e Rabi Yehudá não discorda dela; “aqui” é o livro, em que ele a trata como escrita; e os sábios lhe responderam segundo a opinião dele: mesmo para quem a tem por escrita, ela não é do modo mais escolhido. Na segunda versão, de Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu, “lá” é o livro, e “aqui” é o Shabat; e a guemará resolve que a escrita sobre escrita da Mishná é a de uma escrita acima da outra. Guggenheimer entende que, segundo essa resposta, Rabi Yehudá propõe escrever o Nome de novo, acima da palavra errada, entre as linhas; é leitura dele, e o hebraico diz só “uma acima da outra”. Na seção 02, a razão de Rabi Yehoshua ben Beteirá é que uma só letra pode ensinar várias letras, isto é, valer por uma palavra inteira.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer escreve “Rebbi Joshua ben Bathyra”, “Rebbi Jehudah”, “Rebbi Jacob bar Zavdi” e “Rebbi Abbahu”; mantivemos “Rabi Yehoshua ben Beteirá”, “Rabi Yehudá”, “Rabi Yudá”, “Rabi Yaakov bar Zavdi” e “Rabi Abahu”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site e conforme o hebraico. Na Mishná, ele escreve “fluid of drinks” e “two walls of a house or two leaves”; o hebraico não tem “ou” entre as duas, e assim traduzimos. Na seção 01, ele traduz as duas ocorrências da opinião invertida com o mesmo nome, “Rebbi Jehudah”; seguimos a grafia do hebraico em cada uma. Ele põe a primeira frase da seção entre aspas, como citação de uma baraita; o hebraico não a introduz com “foi ensinado”, e por isso não pusemos aspas.