Quarta halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh. A Mishná ensina que quem escreve duas letras num só esquecimento é culpado; enumera aquilo com que se escreve, a tinta, a tintura, o sikra, a goma e o vitríolo de cobre, e qualquer coisa que deixa marca; torna culpado quem escreve sobre duas paredes da casa ou sobre duas folhas de uma tabuinha, quando se leem uma com a outra, e quem escreve sobre a própria carne; e traz a discussão de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre quem risca a carne. A guemará ensina que quem escreve com tinta sobre folhas de verdura, ou com líquidos sobre a tábua, é isento até que escreva com o que permanece sobre o que permanece; traz a palavra de Rabi Elazar sobre uma letra escrita em Tveria e outra em Tzipori; discute as testemunhas que não sabem assinar, entre Rabi Shimon ben Lakish, Rabi Yochanan e Rabi Mana; recorda Ben Satda e as feitiçarias trazidas do Egito; e termina com o “escreverá” da Torá, que exclui gravar, gotejar e derramar, com a escrita secreta dos filhos do Oriente e com a tinta escrita sobre o sikra. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 104b.
Mishná: Quem escreve duas letras num só heelem (esquecimento) é culpado. Se escreveu com deyo (tinta), com sam (tintura), com sikra (corante vermelho), com komos (goma) e kalkantos (vitríolo de cobre), e com qualquer coisa que deixa marca, sobre duas paredes da casa e sobre duas folhas de um pinkas (tabuinha de escrever), e elas se leem uma com a outra, é culpado. Quem escreve sobre a sua própria carne é culpado. E quem risca sobre a sua carne, Rabi Eliezer o torna culpado de uma chatat (oferta de expiação), e Rabi Yehoshua o isenta.
Se escreveu com tinta sobre folhas de verduras, ou com líquidos e com sucos de frutas sobre a tábua, é isento, até que escreva com coisa que permanece sobre coisa que permanece.
Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Yassa em nome de Rabi Elazar: se escreveu uma letra em Tveria e uma letra em Tzipori, é culpado. Mas não ensinamos na Mishná: “se não se leem uma com a outra, é isento”? Disse Rabi Abba bar Mamal: trata-se de quem escreveu bisrará (em sequência).
Quanto às testemunhas que não sabem assinar, Rabi Shimon ben Lakish disse: alguém marca diante delas com tinta, e elas assinam com sikra; ou marca com sikra, e elas assinam com tinta. Disse-lhe Rabi Yochanan: porque estamos ocupados com as leis do Shabat, permitiremos uma eshet ish (mulher casada)? Mas alguém traz papel liso e o recorta diante delas, e elas assinam. E não é isso a escrita da mão do primeiro? Ele alarga diante delas o recorte.
Rabi Mana perguntou: e por que não dizemos: alguém marca diante delas com água, e elas assinam por cima? Se ele vier depois e contestar, a sua contestação é nula.
Quem recorta sobre o couro na forma de escrita é culpado; e quem marca sobre o couro como forma de escrita é isento. Disse-lhes Rabi Eliezer: e acaso Ben Satda não trouxe as suas feitiçarias do Egito senão desse modo? Disseram-lhe: por causa de um só tolo havemos de perder tantos homens sensatos?
“Katav” (escreveu): não o que grava. “Vechatav” (e escreverá): não o que goteja. “Katav”: não o que derrama. “Vechatav”: não o que grava. Há tanaim (mestres da Mishná) que ensinam: mesmo o que grava. Disse Rav Chisda: quem diz “não o que grava” fala de quando o lugar da escrita sobressai, como este denário; quem diz “mesmo o que grava” fala de algo como aquela tabuinha de escrever.
“Vechatav”: não o que goteja. Rabi Yudan beRabi Shalom e Rabi Matanyá: um disse: isso é quando não juntou os pontos; e o outro disse: é mesmo quando juntou os pontos.
“Vechatav”: não o que derrama. Disse Rabi Chiya bar Ba: esses filhos do Oriente são muito astutos. Quando um deles quer enviar uma palavra misterikon (secreta) ao seu companheiro, ele escreve com mei milin (água de galhas). E aquele que recebe as cartas derrama sobre elas tinta que não tem afatz (galha), e ela se prende ao lugar da escrita. Se alguém fez assim no Shabat, o que é a lei?
Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish dizem ambos: a isenção vale quando escreveu tinta sobre tinta e sikra sobre sikra; mas se escreveu tinta sobre sikra ou sikra sobre tinta, é culpado. Rabi Yitzchak bar Mesharshiá em nome dos rabinos de lá: é culpado de duas ofertas, por causa de quem apaga e por causa de quem escreve.
Esta é a quarta halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 12:4 da Mishná avulsa, que vai de “quem escreve duas letras num só esquecimento” até “e Rabi Yehoshua o isenta”. A Mishná seguinte, Shabbat 12:5, que começa com “se escreveu com líquidos, com sucos de frutas” e enumera os casos em que se é isento, é a da halachá 12:5, cujo primeiro segmento no Sefaria é essa mesma Mishná; o Bavli, ao contrário, junta as duas numa só Mishná, em Shabbat 104b. Há diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “vekalkantos” (וְקַלְקַנְתּוֹס), onde a Mishná avulsa escreve “uvekankantom”; “duas paredes da casa” (כוֹתְלֵי הַבַּיִת), onde a avulsa escreve “duas paredes de um canto” (כָתְלֵי זָוִיּוֹת); “duas folhas de um pinkas” (דַפֵּי פִּינַקְס), onde ela escreve “duas tábuas de um pinkas” (לוּחֵי פִנְקָס); e “e quem risca”, com vav, onde ela escreve só “quem risca”. Na Mishná avulsa do Sefaria, como aqui, é Rabi Yehoshua quem isenta; no Bavli, são “os sábios”. As demais diferenças são de grafia e de vocalização, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 03 é o quarto, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O segundo segmento foi dividido em dois pares de hebraico e português dentro da seção 01, o terceiro em três pares dentro da seção 02 e o quarto em quatro pares dentro da seção 03. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá: 4”, que tiramos, como nas outras halachot, e marca, no meio da seção 02, antes de “não trouxe feitiçarias do Egito”, o início da folha 70b da edição de Vilna; tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 104b, e a guemará sobre ela vai até 105a, onde começa a Mishná seguinte, de quem escreve duas letras em dois esquecimentos. Em 104b, é Rabi Ami, e não Rabi Elazar, quem diz que quem escreveu uma letra em Tveria e outra em Tzipori é culpado, porque “é escrita, só que lhe falta aproximação”; o Bavli faz a mesma objeção da Mishná das duas paredes que não se leem juntas, e responde que ali falta um ato de aproximação, e aqui não. Em 104b, também, Rabi Eliezer diz aos sábios que Ben Stada trouxe feitiçarias do Egito na incisão sobre a sua carne, e eles respondem: “era um tolo, e não se traz prova dos tolos”. A Tosefta Shabbat 11:8, na numeração Lieberman, ensina que quem escreve sobre folha de oliveira, de alfarrobeira ou de abóbora, ou sobre qualquer coisa que permanece, é culpado, e sobre folha de alface, de alho-poró, de cebola ou de verduras é isento, “até que escreva coisa que permanece sobre coisa que permanece”, como a primeira frase da seção 01; e a mesma Tosefta traz a frase do couro com os termos trocados: quem recorta sobre o couro é isento, e quem marca é culpado. A Tosefta Shabbat 11:15, na numeração Lieberman, traz a discussão de quem risca a carne, com o nome “ben Satra”, “não aprendeu senão desse modo”, e “por causa de um tolo tornaremos culpados todos os sensatos?”. A Mishná Guitin 2:3 ensina que o guet (documento de divórcio) se escreve com tudo, com tinta, sam, sikra, goma e vitríolo, e com qualquer coisa que permanece, e não com líquidos, nem com sucos de frutas, nem com nada que não permanece. O Yerushalmi Guitin 2:3, na numeração do Sefaria, segmentos 2 e 3, traz em paralelo as seções 03 e 02 desta halachá. Lá se lê “Reish Lakish”, em vez de “Rabi Shimon ben Lakish”; “porque eles não estão ocupados com as leis do Shabat”; “a sua contestação permanece”, em vez de “é nula”; “quem recorta sobre o couro na forma de escrita, é válido; quem marca, é inválido”, falando do guet, em vez de “culpado” e “isento”; não há a frase de Ben Satda; lê-se “Rabi Yudan bar Shalom” e “quando o lugar da escrita se destaca” (בְּפוֹלֵט), onde aqui está בְּבוֹלֵט; e, antes da palavra de Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish, lê-se “lá ensinamos: se escreveu sobre escrita, é isento”, frase que falta aqui e explica a palavra deles. Os versículos do guet são Devarim 24:1 e 24:3, que dizem ambos “e escreverá para ela um livro de corte” (וְכָתַב לָהּ סֵפֶר כְּרִיתֻת).
Observações de leitura. Palavras gregas, segundo Guggenheimer: “komos” é o grego “kommi”, a goma; “kalkantos” é o grego “chalkanthos”, o vitríolo de cobre; “pinkas” é o grego “pinax”, a tabuinha de escrever; “misterikon” é palavra de “mistério”, “secreto”. Para “sam”, Guggenheimer anota que, segundo Rashi, é o arsênico amarelo e, segundo Maimônides, qualquer tintura feita de raízes. Na seção 01, a primeira frase não vem como Mishná, mas como ensino à parte, próximo da Tosefta 11:8. A palavra de Rabi Abba bar Mamal, בִּסְרָרָה, é de leitura incerta: Guggenheimer anota que, como está, não tem sentido; que as citações medievais leem בסיד, “com cal”; e que Lieberman propõe ler בְסִדְרָה, “em sequência”, isto é, as duas letras escritas na mesma folha em duas cidades, como Rashi explica no Bavli; seguimos, na glosa, a proposta de Lieberman. Na seção 02, a questão é o guet assinado por testemunhas que não sabem escrever: Rabi Shimon ben Lakish quer que se trace o nome com uma tinta e elas o cubram com outra, o que, pela regra do Shabat da seção 03, conta como escrita; Rabi Yochanan responde que uma regra das leis do Shabat não basta para tornar livre uma mulher casada, e propõe o papel recortado, que se alarga para que não seja só a mão de quem recortou. O hebraico diz “a sua contestação é nula”; Guggenheimer põe “invalid” entre parênteses e anota que, segundo o texto de Guitin, seria “válida”; seguimos o hebraico. As duas frases do couro, adaptadas aqui ao Shabat, falam de quem recorta ou marca o couro na forma de letras. O nome está vocalizado “Ben Satda” (בֶּן סַטְדָא), e assim o escrevemos; o Bavli diz “ben Stada”, e a Tosefta, “ben Satra”. Na seção 03, o hebraico alterna “katav” e “vechatav” nas quatro exclusões, e assim as deixamos; Guggenheimer explica que, no sistema de Rabi Akiva, o vav a mais conta como menção a mais, e que a escrita é mencionada quatro vezes nos dois versículos: uma ensina que é preciso escrever, e as outras três excluem. Rav Chisda distingue a gravação em que a letra fica em relevo, como numa moeda, da que se faz numa tabuinha de cera. “Juntar os pontos” é ligar as gotas, para que formem um traço. “Mei milin” e “afatz”: Guggenheimer traduz “suco de galhas” e “tinta sem galha”; a carta, escrita com o suco, é invisível, e aparece quando se derrama sobre ela a tinta. A palavra de Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish, segundo Guggenheimer, não responde à pergunta sobre a escrita secreta, mas se refere à Mishná 12:5, que isenta quem escreve sobre escrita, como mostra o texto de Guitin. Os “rabinos de lá” são os sábios da Babilônia; Rabi Yitzchak bar Mesharshiá diz, em nome deles, que quem escreve tinta sobre sikra é culpado duas vezes, por apagar e por escrever.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer escreve “Rebbi Eliezer”, “Rebbi Joshua”, “Rebbi Jacob bar Aḥa”, “Rebbi Yasa”, “Rebbi Eleazar”, “Sepphoris”, “Rebbi Simeon ben Laqish”, “Rebbi Joḥanan”, “Rab Ḥisda”, “Rebbi Yudan ben Rebbi Shalom”, “Rebbi Mattaniah”, “Rebbi Ḥiyya bar Abba” e “Rebbi Isaac bar Mesharshia”; mantivemos “Rabi Eliezer”, “Rabi Yehoshua”, “Rabi Yaakov bar Achá”, “Rabi Yassa”, “Rabi Elazar”, “Tzipori”, “Rabi Shimon ben Lakish”, “Rabi Yochanan”, “Rav Chisda”, “Rabi Yudan beRabi Shalom”, “Rabi Matanyá”, “Rabi Chiya bar Ba” e “Rabi Yitzchak bar Mesharshiá”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site e conforme o hebraico. Na Mishná, ele escreve “two walls of a house or two leaves”; o hebraico diz “e sobre duas folhas”, e assim traduzimos. Na seção 02, ele põe entre parênteses “invalid”; traduzimos o hebraico sem parênteses. Na seção 03, ele traduz “katav” e “vechatav” todos como “he shall write” ou “and he shall write”; deixamos as palavras transliteradas, como estão no hebraico.